DO AUTOR
26 VAITEL
o
DIREITO DAS GENTES 27da sociedade, à forma de governo, à maneira pela qual a autoridade pública deve ser exercida; essas leis, em uma palavra, cujo concurso forma a constituição do Estado, são as leis fundamentais.
As civis são aquelas que regulam os direitos e a conduta dos cidadãos entre si.
Toda Nação, que não deseja faltar-se a si própria, deve tomar todos os cuidados para estabelecer essas leis, e sobretudo as leis fundamentais.
Ao estabelecê-las, digo, com sabedoria, de maneira conveniente ao natural dos povos e a todas as circunstâncias nas quais eles se encontram, a Nação deve determiná-las e enunciá-las com precisão e clareza, para que elas permaneçam estáveis, não possam ser eludidas e não engendrem, se possível, nenhuma dissensão; para que, de um lado, aquele ou aqueles a quem o exercício do poder soberano seja confiado, e os cidadãos, de outro, conheçam igualmente seus direitos e seus deveres. Não cabe aqui considerar de forma pormenorizada quais devam ser esta constituição ou estas leis; essa discussão pertence ao direito público e à política. Ademais, as leis e a constituição de diferentes Estados devem, necessariamente, variar de acordo com as características dos povos e de acordo com outras circunstâncias.É preciso manter-se nas generalidades do direito das gentes. Nele consideram-se os deveres de uma Nação para consigo mesma principalmente para determinar a conduta que ela deve ter nessa sociedade ampla que a natureza estabeleceu entre todos os povos. Esses deveres lhe dão certos direitos que servem para regulamentar e estabelecer o que ela pode exigir das demais Nações e, reciprocamente, o que as outras podem dela esperar.
§30: DA MANUTENÇÃO DA CONSTITUIÇÃO E DA OBEDIÊNCIA ÀS LEIS: A constituição do Estado e as suas leis são o fundamento da tranqüilidade pública, o mais firme suporte da autoridade política e a garantia da liberdade dos cidadãos. Essa constituição, no entanto, seria um mero fantasma e as melhores leis seriam leis inúteis se não forem religiosamente observadas. A Nação deve, pois, velar sem descanso para que as leis
28 VATIEL
sejam igualmente respeitadas, tanto pelos que governam quanto pelos que são governados. Atacar a constituição do Estado, violar as suas leis, eis um crime capital contra a sociedade; e se aqueles que forem disso culpados, forem pessoas revestidas de autoridade, eles acrescentam a este crime um abuso pérfido do poder que lhes foi confiado. A Nação deve constantemente reprimi-los com todo o vigor e a vigilância que a importância do assunto demanda. É raro ver ataque frontal às leis e à constituição de um Estado; é contra ataques velados e graduais que uma Nação deve ficar particularmente em guarda. As revoluções repentinas impressionam a imaginação dos homens: escreve-se a história, sublinham
se os eventos; negligenciam-se, no entanto, as mudanças que ocorrem imperceptivelmente por uma longa seqüência de ações graduais escassamente notadas. Seria um grande serviço prestado às Nações mostrar, pela história, quantos Estados mudaram completamente de natureza e perderam a sua primeira constituição. Despertar-se-ia a atenção dos povos e estes, conscientes da excelência do início, não menos essencial em política que em moral, obsta, não fechariam mais os olhos para inovações, por vezes pouco relevantes em si mesmas, mas que servem de etapas para se chegar a empreendimentos mais substantivos e mais perniciosos.
§31:DIREITOS DA N ÀSUA ESEU GOVERNO:
Desde que as seqüências de uma boa ou má constituição são de tal importância, e desde que a Nação está estritamente obrigada a buscar, tanto quanto for possível, a melhor e a mais conveniente constituição, essa Nação tem o direito a todos os meios necessários para cumprir esse dever (§18). Assim está claro que a Nação tem pleno direito de definir a sua constituição, de mantê-la, de aperfeiçoá-la e de regular como entender tudo o que concerne ao governo, sem que ninguém possa, com justiça, impedi-la. O governo não é estabelecido senão para a Nação, tendo em vista a preservação e a felicidade desta.
§32: ELA PODE REFORMAR o GOVERNO: Se ocorrer, pois, que uma Nação fique descontente com a administração pública, ela pode corrigi-la
o
DIREITO DAS GENTES 29assim como reformar o governo. Mas observem que eu digo "a Nação", pois estou longe de querer autorizar alguns agitadores ou revolucionários a perturbarem os que governam, provocando murmúrios e sedições.
É apenas o corpo da Nação que tem o direito de reprimir os que abusam do próprio poder. Quando a Nação silencia e obedece, considera-se ter ela aprovado a conduta dos governantes ou, ao menos, tê-la considerado suportável, e não cabe a um pequeno número de cidadãos pôr o Estado em perigo, sob o pretexto de reformá-lo.
§33:E MUDAR A CONSTITUIçAO: Em virtude dos mesmos princípios, é inquestionável que a Nação, em desacordo com a sua própria constituição, tenha o direito de mudá-la. Não há dificuldades, quando uma Nação deseja unanimemente mudá-la. Pergunta-se, o que se deve observar em caso de dissensão? Na condução ordinária do Estado, a opinião da maioria deve subsistir inquestionavelmente em toda a Nação; de outra forma, seria impossível à sociedade tomar qualquer resolução. Parece pois que, pela mesma razão, uma Nação pode mudar a constituição do Estado, por maioria de votos; e todas as vezes que não houver nessa mudança nada que possa ser tido como contrário ao próprio ato de associação civil, à intenção daqueles que se uniram, todos serão obrigados a aceitar a decisão da maioria. Mas outro caso é apresentado quando há a questão de deixar uma forma de governo à qual parece que os cidadãos quiseram se submeter ao constituírem a sociedade civil. Se a maioria de um povo livre, a exemplo dos judeus no tempo de Samuel, se aborrecia com a sua liberdade e desejava submeter-se ao império de um monarca, os cidadãos mais ciosos dessa prerrogativa tão preciosa para aqueles que a usufruíam, obrigados a ceder à maioria, não seriam compelidos a se submeter ao novo governo: eles poderiam deixar uma sociedade que parecia dissolver-se e reproduzi-la sob outra forma; e eles teriam o direito de se retirar alhures, de vender as suas terras e levar consigo todos os seus bens.
§34: Do PODER LEGISLATIVO E SE ESTE PODER PODE MUDAR A CONSTITUIÇAo: Outra questão ainda importante está aqui presente.
30 VATIEL
Pertence, essencialmente, à sociedade a capacidade de fazer leis sobre a maneira com que pretenda ser governada e sobre a conduta dos cidadãos:
este poder se chama O exercício dessa capacidade pode ser confiado pela Nação ao príncipe, a uma assembléia ou a ambos conjun
tamente, os quais estarão desde logo no direito de fazer novas leis e abrogar as antigas. Indaga-se se o poder deles alcança as leis fundamentais, se eles podem mudar a constituição do Estado. Os princípios que indicamos nos conduzem certamente a decidir que a autoridade desses legisladores não vai tão e que as leis fundamentais devem ser sagradas para eles, a não ser que eles estejam expressamente autorizados pela Nação para mudá-las. A constituição do Estado deve ser estável, e desde que a Nação a estabeleceu em primeiro lugar e que, em seguida, confiou o
a certas pessoas, as leis fundamentais são retiradas da competência delas.
Nota-se que a sociedade apenas desejou prover que o Estado fosse sempre munido de leis convenientes às conjunturas ao dar aos legisladores, para este efeito, o poder de abrogar leis civis antigas e leis políticas não fundamentais, e de fazer novas leis; mas nada nos permite pensar que a sociedade tenha desejado submeter a sua constituição à vontade deles.
Numa palavra, é da constituição que esses legisladores recebem o seu poder; como então, eles poderiam mudá-la sem destruir o fundamento da sua própria autoridade? Pelas leis fundamentais da Inglaterra, as duas câmaras do parlamento, de acordo com o rei, exercem o poder legislativo.
Se essas câmaras decidissem pela sua própria supressão e investissem o rei de poder pleno e absoluto, certamente a Nação não o E quem ousaria dizer que ela não teriao direito de a isso se opor? Masse o Parlamento deliberasse fazer mudança tão considerável e toda a Nação volunta
riamente se mantivesse em silêncio, poder-se-ia presumir que a Nação tivesse aprovado o ato de seus representantes.
§35: A NAÇAo DEVE CONDUZIR-SE SEMPRE COM RESERVA: De resto, ao tratar aqui de mudanças na constituição, estamos falando somente do direito; o que é circunstancial pertence à política. Contentemo-nos em observar que em geral, sendo as grandes mudanças no Estado operações
o
DIREITO DAS GENTES 31delicadas e perigosas, e que a freqüência de mudanças é por si mesma danosa, um povo deve ser muito circunspecto nessa matéria e não se deixar levar por novidades, exceto por motivo mais urgente ou por necessidade. O espírito instável dos atenienses operou sempre contra a prosperidade da República e foi, enfim, fatal a uma liberdade de que eram tão ciosos sem saber dela usufruir.
§36: A NAÇAo ÉJUIZ DE TODAS AS CONTESTAÇÜES SOBRE o GOVERNO:
Deduzamos ainda do que acima dissemos (§31), que se houver no Estado contestações sobre as leis fundamentais, sobre a administração pública, sobre os direitos eventuais de diferentes potências, cabe unicamente à Nação decidir a respeito e tomar decisão em conformidade com a sua constituição política.
§37: NENHUMA POTÊNCIA ESTRANGEIRA TEM o DIREITO DE INGERÊNCIA:
Enfim, todas essas cousas não interessam senão à Nação. Nenhum poder estrangeiro tem o direito de nelas se envolver, nem deve nelas intervir a não ser por seus bons ofícios, salvo se para tanto for solicitado ou razões especiais o demandem. Se uma Nação interfere nos assuntos domésticos de outra, se pretende constranger-lhe as deliberações, ela está a cometer-lhe ato sem sustentação jurídica.
CAPÍTULO IV
Do soberano, de suas obrigações e de seus direitos
§38:Do SOBERANO: Não se pretende apresentar aqui, sem dúvida, uma longa dedução dos direitos da soberania e das funções do príncipe.
É preciso buscá-los nos tratados de direito público. A nossa intenção neste capítulo é apenas mostrar, por uma inferência dos grandes princípios do direito das gentes, o que o soberano é e dar uma idéia geral de suas obrigações e de seus direitos.
32 VATIEL
Foi dito que, na sociedade civil, a soberania é a autoridade pública que comanda, que determina e que dirige o que cada membro deve fazer para atingir a finalidade dessa sociedade. Esta autoridade pertence originária e essencialmente ao próprio corpo da sociedade, ao qual cada membro está submetido e pelo qual cedeu os direitos recebidos da natureza, de conduzir-se em todas as cousas segundo seu entendimento e sua própria vontade e de fazer justiça por si mesmo. Mas o corpo da sociedade não retém sempre para si essa autoridade soberana; ele freqüentemente toma a decisão de confiá-la a um senado ou a uma única pessoa. Este senado ou esta pessoa então torna-se o soberano.
§39: O SOBERANO NÃO É ESTABELECIDO A NÃO SER PARA O BEM-ESTAR E VANTAGEM DA SOCIEDADE: É evidente que os homens somente formam uma sociedade política e se submetem às suas leis para o seu próprio bem-estar e segurança: a autoridade soberana é estabelecida para o bem comum de todos os cidadãos; e seria absurdo pensar que ela pudesse mudar de natureza ao passar para as mãos de um senado ou de um monarca. A lisonja não pode discordar, sem se tornar igualmente ridícula e odiosa, o soberano é, portanto, estabelecido unicamente para a segurança e bem-estar da sociedade.
Um bom príncipe, um sábio condutor da sociedade, deve ser bem consciente dessa grande verdade: a de que o poder soberano não lhe é confiado senão para o bem-estar do Estado e para a felicidade de todo o povo; que não lhe é permitido cuidar de si mesmo na administração dos negócios; que não pode procurar a sua própria satisfação ou vantagem particular, mas que ele deve dirigir todos os seus propósitos e todos os seus procedimentos para o maior bem do Estado e dos povos que lhe são submetidos. Como é agradável ver um rei da Inglaterra prestar contas a seu Parlamento de seus principais atos, assegurar a esse corpo representativo da Nação que ele não tem outro fim em vista a não ser a honra do Estado e a felicidade de seu povo, e agradecer afetuosamente a todos aqueles que colaboram consigo para esses fins tão salutares!
Certamente, um monarca que mantém essa linguagem e que prova
o
DIRElTO DAS GENTES 33sinceridade mediante a sua conduta, é o único grande aos olhos do sábio. Mas a lisonja criminosa fez esquecer esses preceitos desde há muito tempo na maioria dos reinos. Um grupo de cortesãos servis pode facilmente persuadir um monarca orgulhoso de que a Nação existe para ele e não ele para a Nação. Ele, em breve, contempla o reino como um patrimônio que lhe pertence, e o povo como um rebanho do qual deve subtrair as riquezas e do qual pode dispor para levar adiante seus desígnios e para satisfazer suas paixões. É de onde se originam essas guerras funestas feitas pela ambição, inquietude, ódio ou orgulho. É de onde se originam esses impostos opressivos, dissipados em luxo destruidor ou entregues a amantes e a favoritos.
Enfim, é essa a razão porque lugares importantes são dados em troca de favores e o mérito para o Estado descuidado, e tudo o que não interessar diretamente ao príncipe é deixado para ministros e seus subalternos.
Quem reconheceria neste governo infeliz uma autoridade estabelecida para o bem público? Um grande príncipe estará prevenido mesmo contra as suas virtudes. Não afirmemos, como alguns escritores, que as virtudes dos indivíduos não são as virtudes dos reis: máxima de políticos superficiais ou pouco exatos em suas expressões. A bondade, a amizade e o reconhecimento são ainda virtudes para o trono; e praza aos céus que elas nele sempre estivessem! Mas um rei sábio não se entrega sem discernimento a suas impressões. Ele as acaricia, ele as cultiva em sua vida privada: desde que age em nome do Estado, ele não escuta senão a justiça e uma política sadia. E por que? Porque ele sabe que o governo não lhe foi confiado senão para o bem da sociedade, e que ele não deve ser auto-suficiente no uso que faça de seu poder. Ele modera a bondade com a sabedoria; ele dá à amizade os favores domésticos e privados; ele distribui encargos e empregos de acordo com o mérito, as recompensas públicas aos serviços prestados ao Estado; numa palavra, ele usa o poder público somente tendo em vista o bem público. Está tudo resumido nessa bela frase de Luís XII: "Um rei da França nunca se vinga das de um duque de Orléans"