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VATIEL

No documento o DIREITO DAS GENTES (páginas 165-171)

DO AUTOR

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da juventude, o espírito e o coração do homem recebem com facilidade a semente do bem ou a do mal. A educação da juventude é um dos problemas mais importantes que precisam da atenção governamental.

Ela não deve ser deixada exclusivamente aos pais. O caminho seguro para formar bons cidadãos é estabelecer instituições próprias para a educação pública, provê-las de professores capazes, dirigi-las sabiamente e de maneira justa e correta, para que o povo delas se beneficie.

Como era admirável a educação dos romanos em seus tempos florescentes, e como era natural que então se formassem grandes homens!

Jovens se relacionavam com personalidades ilustres; freqüentavam suas casas, acompanhavam-nos aonde fossem e aproveitavam-se igualmente de suas instruções e exemplos: os esportes e as diversões deles eram exercícios próprios à formação de soldados. A mesma prática prevalecia em Esparta, e essa foi uma das mais sábias instituições do incomparável Licurgo. Este legislador filósofo foi aos mínimos pormenores em relação à educação da juventude, com a convicção de que disso dependiam a prosperidade e a glória da sua república.

§113: DAS CIÊNCIAS E DAS ARTES: Quem duvidará que o soberano, que a Nação inteira não deva incentivar as artes e as ciências? Sem falar de tantas invenções úteis que impressionam os olhos de toda a gente, as letras e as belas-artes elevam a mente e refinam as maneiras e, se o estudo nem sempre inspira o amor à virtude, é que infelizmente esse estudo encontra algumas vezes - talvez muito freqüentemente - um coração desesperadamente viciado. A Nação e seus dirigentes devem, pois, proteger sábios e grandes artistas, e estimular-lhes os talentos mediante honrarias e recompensas. Deixemos os partidários da barbárie declamar contra as ciências e as belas-artes; sem desdenhar de responder a seus vãos raciocínios, contentemo-nos em apelar para a experiência. Comparemos a Inglaterra, a França, a Holanda, diversas cidades da Suíçae da Alemanha, com tantos países mergulhados na ignorância e vejamos onde se encontram os mais retos homens e os melhores cidadãos. Seria erro grosseiro citar contra nós exemplo de Esparta e da Roma antiga. É

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verdade que nesses exemplos negligenciavam-se especulações por curiosidade, conhecimentos e artes por pura recreação; mas as ciências sólidas e práticas, o estudo da moralidade, da jurisprudência, da política e da guerra, eram então cultivadas, principalmente em Roma, com mais cuidado do que entre nós.

A utilidade das letras e das belas-artes e a necessidade de incentivá-las são hoje muito reconhecidas. Sem elas, o imortal Pedro, o Grande, não acreditava poder civilizar completamente a Rússia e torná-la florescente. Na Inglaterra, a ciência e os talentos conduzem às honras e às riquezas. Newton foi honrado, protegido e recompensado durante a sua vida, e depois de sua morte foi colocado no túmulo de reis. A França também merece a esse respeito louvores particulares;

ela deve à magnificência de seus reis muitos estabelecimentos não menos úteis que gloriosos. A Academia Real de Ciências difunde em todo lugar a luz e o desejo de saber. Luís XV forneceu-lhe os meios de buscar, sob o Equador e sob o Círculo Polar, a prova de uma importante verdade: sabemos agora a respeito dos cálculos de Newton o que antes apenas se acreditava pela fé. Feliz esse reino se a moda muito geral do século não o fizer negligenciar conhecimentos sólidos para se entregar àqueles de pura recreação, e se aqueles que temem a luz do conhecimento não sucederem sufocar o germe da ciência!

§114: DA LIBERDADE DE FILOSOFAR: Falo da liberdade de filosofar.

É a alma da república das letras. O que pode produzir um gênio encolhido pelo medo? Poderia o melhor homem esclarecer os seus cidadãos se ele se encontra sempre exposto a vilões, ignorantes e hipócritas, e se ele é obrigado a pôr-se continuamente em guarda para não ser acusado de divergir indiretamente de opiniões recebidas? Eu sei que a liberdade tem justos limites; que uma política sábia deve velar sobre a imprensa, e não permitir a publicação de trabalhos escandalosos que ataquem os costumes, o governo, ou a religião estabelecida pelas leis. Mas deve-se também tomar cuidado para não suprimir conhecimento do qual o Estado possa receber as mais preciosas vantagens. Poucas pessoas sabem

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manter um meio justo, e as funções de censor literário deveriam ser investidas somente em homens igualmente sábios e esclarecidos. Por que procurar num livro por idéias que não pareçam ser do desejo do autor nele publicar; e quando um escritor estiver ocupado e a falar apenas de ftlosofia, dever-se-iam escutar adversários maldosos que desejam colocá-lo em conflito com a religião? Longe de inquietar um filósofo acerca de suas opiniões, o magistrado deveria punir aqueles que o acusam publicamente de irreverência, quando o filósofo respeitou em suas publicações a religião do Estado. Os romanos parecem ter sido criados para dar exemplos ao mundo; este povo sábio mantinha com cuidado o culto e as cerimonias religiosas estabelecidas por lei, e deixava um campo aberto para a especulação dos ftlósofos. Cícero, senador, cônsul, áugure, ridicularizou a superstição; ele a ataca, pulveriza-a em seus escritos ftlosóficos; em fazendo tal, ele acredita estar beneficiando a si mesmo e aos concidadãos, mas observa "que destruir a superstição não significa arruinar a religião; pois, é próprio de um sábio respeitar as instituições, as cerimônias religiosas de seus ancestrais; e basta considerar a beleza do mundo e a ordem maravilhosa dos astros, para reconhecer a existência de um ser eterno e todo perfeito, merecedor da veneração do gênero humano". Em seus diálogos sobre a natureza dos deuses, Cícero introduziu o acadêmico Cotta, que era pontífice, o qual, ao atacar livremente as doutrinas dos estóicos, declara que ele estaria sempre pronto a defender a religião estabelecida, da qual a república tinha recebido grandes vantagens;

e que nem o sábio, nem o ignorante, poderia conduzi-lo a abandoná-la;

a esse propósito, ele diz a seu oponente: "Isto é o que eu penso, como pontífice e como Cotta. Mas vós, na qualidade de filósofo, me conduzis a vosso sentimento pela força de razões, pois um filósofo deve provar-me a religião que ele quer que eu abrace; a não ser que devamos seguir nossos ancestrais, mesmo na falta de provas".

Acrescentemos a experiência a esses exemplos e a essas autoridades.

Nunca um filósofo perturbou o Estado, ou a religião, com suas opiniões.

Elas não criariam nenhuma agitação entre o povo e nem escandalizariam os fracos, se a malignidade, ou o zelo imprudente, não se esforçassem em

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descobrir-lhes um pretenso veneno. Esse zelo perturba o Estado, põe a religião em perigo e contribui para opor as opiniões de um grande homem à doutrina e ao culto estabelecidos pelas leis.

§115: DEVE-SE INSPIRAR O AMOR À VIRTUDE E o HORROR AO VÍCIO:

Não é bastante instruir a Nação; para conduzi-la à felicidade, é ainda mais necessário inspirar-lhe o amor à virtude e o horror ao vício. Aqueles que têm aprofundado o conhecimento da moral estão convencidos de que a virtude é o verdadeiro e único caminho para se atingir a felicidade.

Os seus princípios não são, dessa forma, nada mais que a arte de viver com felicidade. E seria preciso ser muito ignorante na política para não perceber quanto uma Nação virtuosa será mais capaz que outra para formar um Estado feliz, tranqüilo, florescente, sólido, respeitável para seus vizinhos e temeroso para seus inimigos. O interesse do príncipe deve, pois, concorrer com seus deveres e os movimentos de sua consciência para induzi-lo a velar atentamente sobre tão importante matéria. Que ele empregue toda a sua autoridade para incrementar a virtude e reprimir o vício; que ele destine para esse fim os estabelecimentos públicos; e que para tanto ele dirija a sua conduta, o seu exemplo, a distribuição de favores, dos empregos, e das dignidades; que conduza sua atenção até a vida privada dos cidadãos; e que ele remova do Estado tudo o que conduza à corrupção dos costumes. Compete à política ensinar o príncipe, em pormenores, todos os meios de atingir este fim desejável e mostrar-lhe aqueles que ele deve preferir e aqueles que ele deve evitar por causa de perigos que os acompanham na execução, e dos abusos que nesses meios poderiam subsistir. Observemos apenas, em geral, que o vício pode ser reprimido por punições, mas que os meios suaves são os únicos capazes de levar os homens à prática da virtude; a virtude inspira e não comanda.

§116: A NAÇÃO CONHECERÁ A INTENÇÃO DAQUELES QUE A GOVERNAM:

É inquestionável que as virtudes dos cidadãos constituem as melhores disposições que um governo sábio e justo possa desejar. Eis, pois, uma indicação certa na qual a Nação reconhecerá as intenções daqueles

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que a governam. Se eles trabalham para tornar os nobres e o povo virtuosos, o objetivo deles é correto e sincero; tendes vós assegurado que eles visam unicamente ao objetivo principal do governo, a felicidade e glória da Nação. Mas se eles corrompem os costumes, se eles estimulam o desejo pelo luxo, pela frouxidão, pelos prazeres desmedidos, se eles induzem a nobreza a um fausto ruinoso, cuidado, oh, povo!

Preservai-vos desses corruptores! Eles procuram comprar escravos para dominá-los arbitrariamente.

Mesmo com algumas moderações próprias, o príncipe jamais recorrerá a tais métodos vergonhosos. Satisfeito com sua posição suprema e com o poder que as leis lhe conferem, ele se propõe reinar com glória e segurança; ele ama seu povo e deseja torná-lo feliz. Mas os seus ministros, de ordinário, não apreciam sofrer resistência ou a mínima oposição; se ele lhes dá a autoridade, eles se tomam mais orgulhosos e mais intratáveis que o seu senhor; eles não têm o mesmo amor ao povo que o príncipe tem: que a Nação seja corrompida, contanto que ela obedeça! Eles temem a coragem e a firmeza que são inspiradas na virtude; e sabem que aquele que distribui favores domina a vontade dos homens cujo coração está aberto à cobiça. Assim, uma alma miserável, que exerce a mais infame de todas as profissões, perverte as inclinações de uma jovem vítima de seu tráfico odioso; ela a incita ao luxo e à gulodice;

ela a induz à frouxidão e à vaidade para entregá-la mais seguramente a um rico sedutor. Esta indigna criatura é, algumas vezes, punida pela polícia enquanto o ministro, infinitamente mais culpável, continua nadando na opulência - é revestido de honras e autoridade. A posteridade fará justiça;

a posteridade detesta o corruptor de uma Nação respeitável.

§117: O ESTADO OU A PESSOA PÚBLICA DEVEM, EM PARTICULAR, APERFEIÇOAR o SEU ENTENDIMENTO E A SUA VONTADE: Se aqueles que governam se limitassem a cumprir a obrigação que a lei natural lhes impõe para consigo mesmos e, na qualidade de dirigentes do Estado, eles nunca poderiam cair na prática detestável a que nós já nos referimos.

Até aqui nós temos considerado a obrigação em que se encontra uma

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Nação em adquirir conhecimentos e virtudes ou de aperfeiçoar o seu entendimento e a sua vontade; mas nós temos considerado essa obrigação relativamente aos indivíduos que compõem a Nação. A obrigação incide também, e de maneira especial e apropriada, sobre os dirigentes do Estado. Uma Nação, ao em comum, ou como um organismo, é uma pessoa jurídica §2°), que tem entendimento e vontades próprios e que não é menos obrigada que cada indivíduo a obedecer às leis naturais (Livro I, §SO) e a desenvolver suas faculdades (Livro I,

§21). Esta pessoa jurídica reside naqueles que são investidos da autoridade pública e que representam toda a Nação. Seja o conselho comum da Nação ou um corpo aristocrático, ou um monarca, esse dirigente é representante da Nação, este soberano, qualquer que possa ser, está pois indispensavelmente obrigado a obter todos os conheci-mentos e todas as informações necessários para bem governar, e a formar-se na prática de todas as virtudes convenientes a um soberano.

E como esta obrigação é imposta tendo em vista o bem público, ele deve usar seus conhecimentos e suas virtudes para o bem comum do Estado, para o fim da sociedade civil.

§118: E DIRECIONAR PARA O BEM DA SOCIEDADE OS CONHECIMENTOS E AS VIRTUDES DOS CIDADÀOS: Ele deve também direcionar, tanto quanto possível, a esse fim principal, todas as faculdades, os conhecimentos e as virtudes dos cidadãos, de modo que eles não sejam úteis somente para os indivíduos que os possuem, mas também para o Estado. Este é um dos maiores segredos da arte de reinar. Se as boas qualidades dos súditos passam ao largo da esfera estreita das virtudes dos particulares e se tornam as virtudes dos cidadãos, o Estado tornar-se-á poderoso e próspero. Esta disposição feliz conduziu a república romana ao mais alto nível de poder e de glória.

§119: AMOR À PÀTRIA: O grande segredo de direcionar as virtudes dos indivíduos para o bem-estar do Estado é inspirar os cidadãos de um amor ardente pela pátria. Ocorre então, naturalmente, que cada

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