DO AUTOR
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o
DIREITO DAS GENTES 23Nação capaz de atingir o fim da sociedade civil:constituiria um absurdo unir-se em sociedade e não trabalhar para o fim em relação ao qual a união foi feita.
Nesse caso, todo o organismo da Nação e cada cidadão em particular estão vinculados a uma dupla obrigação: uma, procedente imediatamente da natureza e outra resultante de acordos recíprocos já estabelecidos. A natureza obriga cada homem a trabalhar em busca de sua própria perfeição e, fazendo assim, ele já trabalha para o bem
estar da sociedade civil, que não poderia prosperar se não fosse composta de bons cidadãos. Mas este homem, que encontra numa sociedade bem ordenada os mais poderosos apoios para cumprir a tarefa que a natureza lhe impõe para consigo mesmo de tornar-se melhor e por conseguinte mais feliz, sem dúvida é obrigado a fazer tudo o que estiver ao seu alcance para tornar esta sociedade perfeita.
Os cidadãos que formam uma sociedade política se comprometem, reciprocamente, a procurar o bem comum e obter, tanto quanto for possível, vantagem para cada membro. Uma vez que a perfeição da sociedade consiste em assegurar igualmente a felicidade de todos e de cada um de seus membros, trabalhar para essa perfeição é o grande propósito dos compromissos e dos deveres de um cidadão. É sobretudo a tarefa de todo o organismo, em todas as deliberações comuns, em tudo o que esse organismo faz enquanto tal.
§22: EVITAR TUDO O QUE FOR CONTRÁRIO À SUA PERFEIÇAo: Uma Nação deve, pois, também prevenir e evitar cuidadosamente tudo o que possa prejudicar a sua perfeição e a do seu Estado, ou retardar o progresso de uma e de outro.
§23: Dos DIREITOS QUE ESSAS OBRIGAÇÕES LHE CONFEREM:
Concluamos ainda, como fizemos acima no tocante à conservação do Estado (§18), que uma Nação tem direito a todas as cousas sem as quais ela não pode aperfeiçoar a si própria e ao seu Estado, nem prevenir e afastar tudo o que for contrário a essa dupla perfeição.
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§24: EXEMPLOS: Nesse sentido, os ingleses nos fornecem exemplo digno de atenção. Essa ilustre Nação tem se distinguido, brilhan-temente, por sua devoção a tudo o que possa tomar o Estado mais florescente. A sua constituição toma cada cidadão habilitado a contribuir para o esse grande fim e difunde em toda parte este espírito de verdadeiro patriotismo, o qual é zelosamente mantido para o bem público. Simples cidadãos podem formar empresas consideráveis para a glória e bem da Nação. E, enquanto um mau príncipe lá teria as mãos atadas, um rei sábio e moderado nela encontra os mais poderosos apoios para o êxito de seus gloriosos projetos. Os poderosos e os representantes do povo formam um elo de confiança entre o monarca e a Nação e, concorrendo com ele em tudo o que concerne ao bem público, aliviam-no em parte do ônus do governo, fortalecendo-lhe o poder, ao mesmo tempo que lhe rendem uma obediência tanto mais perfeita, quanto mais voluntária.
Todo bom cidadão conclui que o poder do Estado é verdadeiramente o bem de todos e não apenas de um só. Constituição feliz! Uma constituição que não foi obtida imediatamente e que custou, é verdade, rios de sangue, mas que não foi comprada demasiado cara. Possa o luxo, essa peste fatal às virtudes viris e patrióticas, esse medianeiro de corrupção tão funesto para a liberdade, nunca destruir um monumento honorável para a humanidade, monumento capaz de ensinar aos reis quanto é glorioso governar um povo livre!
Há uma outra Nação, ilustre por seu valor e por suas vitórias. Uma nobreza valente e numerosa, vastos e fortes domínios poderiam tomá-la respeitável em toda a Europa, estando em seu poder tomar-se próspera em pouco tempo. Mas a sua constituição a tal se opõe; e sua ligação com essa constituição é tal que não se ousa esperar venha ela a introduzir-lhe emendas convenientes. Em vão um rei magnânimo, cujas virtudes o põem acima da ambição e da injustiça, conceberá os mais salutares planos para o bem do povo; em vão ele os fará para a maior parte da Nação usufruir uma vida mais sadia; um único obstinado deputado, ou vendido ao estrangeiro, será capaz de paralisar tudo e destruir as medidas mais sábias e mais necessárias. Excessivamente ciosa de sua liberdade, essa Nação
o
DIREITO DAS GENTES 25tomou precauções que, sem dúvida, põem o rei sem condições de nada promover contra a liberdade pública. Mas não se percebeu que essas medidas ultrapassam o objetivo, que elas amarram as mãos do mais justo e mais sábio dos príncipes e lhe subtraem os meios de assegurar essa mesma liberdade mesmo contra os procedimentos das potências estrangeiras e de tomar a Nação próspera e feliz? Não está claro que a Nação se tomou, ela mesma, incapaz de agir, e que o seu conselho está à mercê do capricho ou da traição de um único membro?
§25: UMA NAÇÃO DEVE CONHECER-SE A SI PRÓPRIA: Observemos, enfim, para concluir este capítulo, que uma Nação deve conhecer-se a si própria. Sem esse conhecimento, ela não pode trabalhar satisfato
riamente para a sua perfeição.
É mister que ela tenha uma idéia correta de suas condições, para tomar as medidas que lhe sejam convenientes; que conheça os progressos por ela já alcançados e os que lhe restam a fazer, o que ela tem de bom, o que ela possui ainda de defeituoso, para conservar um e corrigir outro. Sem esse conhecimento, uma Nação é governada a esmo; ela toma as medidas freqüentemente mais errôneas; ela acredita agir com muita sabedoria ao imitar a conduta dos povos reputados hábeis, e não percebe que tal regulamento, tal prática, salutares para uma Nação, são muitas vezes perniciosas para uma outra. Cada cousa deve ser conduzida de acordo com sua natureza; os povos não podem ser bem governados se não forem regidos de acordo com seu caráter;
e para isso é necessário conhecer esse caráter.
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Da constituição do Estado e dos deveres e direitos da Nação a esse respeito
§26: DA AUTORIDADE PÚBLICA: Não pudemos evitar no primeiro capítulo antecipar algo sobre a matéria deste.