Para traçar-se compreensivamente uma consecução lógica dos conceitos, sem a precipitação de em um salto conceitual sem coerência teórica, é que se torna necessário abordar acepções como as de trabalho concreto e de trabalho abstrato que permeiam a obra O capital. Entretanto, para se compreender as concepções acima mencionadas, tem-se, primeiramente, que se analisar outros dois conceitos, quais sejam, os de valor de uso e valor de troca.
Cabe mencionar que a mercadoria, segundo Marx, é a célula pela qual se estruturará a sociedade capitalista. A mercadoria possui duas formas de valor: valor de uso e valor de troca. O valor de uso está relacionado com a qualidade útil dos objetos. “A utilidade de uma coisa faz
dela um valor de uso” (MARX, 2013, p. 157). Assim, a “mercadoria é algo físico, formado por matéria atômica capaz de satisfazer as necessidades humanas, seja como fim para o consumo ou meio para produzir algo” (SILVA, 2013, p. 76). Cada período da história possui diferentes maneiras de atribuir valores de uso para seus objetos, dado que cada capítulo da história humana descobre maneiras diferentes de utilizar objetos específicos. Por exemplo, os metais em determinado período da história tiveram como sua forma principal de uso a confecção de armas que seriam usadas majoritariamente em conflitos tribais e para a defesa de um modo geral. Atualmente, soma-se àquela primeira utilidade, outras, como o uso de metais na grande indústria, para produção de carros, eletrodomésticos e tecnologia de ponta.
Descobrir esses diversos aspectos e, portanto, as múltiplas formas de uso das coisas é um ato histórico. Assim como também é um ato histórico encontrar as medidas sociais para a quantidade das coisas úteis. A diversidade das medidas e das mercadorias resulta, em parte, da natureza diversa dos objetos a serem medidos e, em parte, da convenção (MARX, 2013, p. 157-158).
É dessa forma que a mercadoria42 é o ponto de partida de análise de O capital. A riqueza
das sociedades nas quais reina, segundo Marx, o modo de produção capitalista, é entendida como uma enorme coleção de mercadorias, na qual a mercadoria individual é sua forma elementar (MARX, 2013, p. 157).
Segundo Macherey (1979, p. 191), o valor de uso pode ser inteiramente conhecido independentemente do modo de produção em que ele venha, de fato, efetivar-se, já que se trata de uma determinação material. No contexto dos valores de uso, as coisas valem por si mesmas, em sua individualidade, perante a diversidade de uso de vários outros objetos.
A quantidade de tempo adotada para a produção de um objeto enquanto valor de uso é indiferente. O objeto como valor de uso corporifica o trabalho humano nele, tornando, dessa forma, indiferente a medição do tempo, já que os atributos da mercadoria devem necessariamente refletir a qualidade ou a falta de qualidade do objeto do trabalho humano. Assim, para determinar as qualidades de uma mercadoria ou para se analisar o seu valor de uso é indiferente usar medidas que tomem por base a quantidade, como a quantidade de tempo. O que é preponderante para o valor de uso que constitui uma mercadoria é que, primeiramente, o trabalho nela objetivado seja de qualidade, de nada adianta adquirir um produto que não funciona, e que, em segundo lugar, esse valor de uso seja consumido ou utilizado. Para um exame dos valores de uso ainda deve-se levar em conta também quantidades definidas deles,
42 É importante notar que Marx, ao eleger como ponto de partida a mercadoria, ignora a natureza da necessidade
que faz com que os indivíduos efetivamente consumam mercadorias, se elas provém do estômago ou da imaginação (MARX, 2013, p. 157). “Seu único interesse é o simples fato de que as pessoas compram mercadorias, e esse é um ato fundador do modo como as pessoas vivem” (HARVEY, 2013, p. 26).
como 10 quilos de ferro, 50 quilos de algodão, 20 litros de leite, etc. Por fim, pode-se qualificar o valor de uso como o veículo material ou sustentáculo material de uma outra forma de valor, o valor de troca.43 Na sociedade capitalista, o valor de uso é uma forma para dois conteúdos, o
valor de uso é a forma da mercadoria e da riqueza e, ao mesmo tempo, do valor de troca, (MACHEREY, 1979, p. 191). Passemos a definição desse último.
A utilidade de uma coisa faz dela um valor de uso. Mas essa utilidade não flutua no ar. Condicionada pelas propriedades do corpo da mercadoria [Warenkörper], ela não existe sem esse corpo. Por isso, o próprio corpo da mercadoria, como ferro, trigo, diamante etc., é um valor de uso ou um bem. Esse seu caráter não depende do fato de a apropriação de suas qualidades úteis custar muito ou pouco trabalho aos homens. Na consideração do valor de uso será sempre pressuposta sua determinidade [Bestimmtheit] quantitativa, como uma dúzia de relógios, 1 braça de linho, 1 tonelada de ferro etc. Os valores de uso das mercadorias fornecem o material para uma disciplina específica, a merceologia. O valor de uso se efetiva apenas no uso ou no consumo. Os valores de uso formam o conteúdo material da riqueza, qualquer que seja a forma social desta. Na forma de sociedade que iremos analisar, eles constituem, ao mesmo tempo, os suportes materiais [stofflische Träger] do valor de troca (MARX, 2013, p. 158).
Ao contrário do valor de uso que, como sustentáculo da riqueza, com seu caráter material, é uma categoria empírica, o valor de troca ou também conhecido apenas como valor – “o segundo acabará por chamar-se apenas valor” (MACHEREY, 1979, p. 190)44– não se dá
imediatamente. “O valor de troca não se dá imediatamente nos seus próprios contornos, como parecem fazê-lo essas realidades empíricas puras que são a riqueza e a coisa” (MACHEREY, 1979, p. 192). Os valores de troca de uma mercadoria podem ser entendidos, inicialmente, como “as diversas formas de intercâmbio entre ‘valores-de-uso’ distintos” (SILVA, 2013, p. 77) ou, nas palavras de Marx, (2013, p. 158) “a proporção na qual valores de uso de um tipo são trocados por valores de uso de outro tipo”. Do mesmo modo que o valor de uso não se efetiva sozinho, ele necessita ser consumido, o valor de troca para existir também precisa se efetivar. O valor de troca necessita, como o próprio nome já diz,45 ser permutado – “o valor surge na
forma da troca de mercadorias” (MACHEREY, 1979, p. 192) – por uma quantidade de outro produto que mesmo que em quantidade diferente, como 6 quilos de x e 20 quilos de y, por outro
43 Dizer, todavia, que algo serve de veículo material ou sustentáculo material, em outras palavras, de suporte, não
é o mesmo que afirmar que aquilo que serve de suporte é a própria coisa (HARVEY, 2013, p. 27).
44 Há uma certa discordância na literatura, Harvey (2013, p. 32) classifica como distintos valor de uso, valor de
troca e valor. O primeiro como qualidades e quantidades de materiais heterogêneos, o segundo como algo quantitativo e homogêneo e o último como algo imaterial, relacional e “tempo de trabalho socialmente necessário”. “Ele [Marx] reconheceu, porém, que os valores de uso são incrivelmente diversos, os valores de troca são acidentais e relativos e o valor tem (ou parece ter) uma ‘objetividade fantasmagórica’, que está sujeita a perpétuas revoluções impostas por mudanças tecnológicas e reviravoltas nas relações sociais e naturais” (HARVEY, 2013, p. 34).
45 O valor de uso não é uma característica imanente à mercadoria, ela precisa, além de ser consumida, de qualidade técnica para funcionar e tambémdo uso que se faz do produto, historicamente falando.
lado, seja equivalente, pois afinal, 6 quilos de x = 20 quilos de y.46 O que se indaga, por
conseguinte, é: qual a medida comum que faz com que dois objetos com usos distintos sejam permutáveis entre si? Em princípio, todas as coisas são intercambiáveis por todas as demais. “Há algo que faz com que todas as mercadorias sejam comensuráveis na troca” (HARVEY, 2013, p. 27). Desse fato, deriva-se que todas as mercadorias expressam uma igualdade. Tal medida comum não deve ser buscada nas propriedades úteis do objeto; não se pode dissecar uma mercadoria e encontrar nela um elemento que a torne intercambiável, “esse algo em comum não pode ser uma propriedade geométrica, física, química ou qualquer outra propriedade material das mercadorias” (MARX, 2013, p. 160). O que a torna intercambiável é algo que somente pode ser descoberto quando a mercadoria está sendo trocada. Quando uma mercadoria troca de mãos ela expressa algo que não diz respeito somente àquela mercadoria em particular, mas sim algo que diz respeito a todas as mercadorias em geral. Esse algo em comum é que é responsável por torná-las comensuráveis entre si. Esse algo em comum é que todas as mercadorias são produtos do trabalho humano (HARVEY, 2013, p. 27). Dessa forma, as propriedades úteis que refletiriam o valor de uso de determinado objeto e que corporificariam as diferentes formas de trabalho concreto são mascaradas por uma única espécie de trabalho, o trabalho humano abstrato:
Esse algo em comum não pode ser uma propriedade geométrica, física, química ou qualquer outra propriedade natural das mercadorias. Suas propriedades físicas importam apenas na medida em que conferem utilidade às mercadorias, isto é, fazem delas valores de uso. Por outro lado, parece claro que a abstração de seus valores de uso é o que caracteriza a relação de troca das mercadorias (MARX, 2013, p. 160).
Ou ainda:
Como valores de uso, as mercadorias são, antes de tudo, de diferente qualidade; como valores de troca, elas podem ser apenas de quantidade diferentes, sem conter, portanto, nenhum átomo de valor de uso.
Prescindindo do valor de uso dos corpos das mercadorias, resta nelas uma única propriedade: a de serem produtos do trabalho. Mas mesmo o produto do trabalho já se transformou em nossas mãos. Se abstrairmos seu valor de uso, abstraímos também os componentes e formas corpóreas que fazem dele um valor de uso. O produto não é mais uma mesa, uma casa, um fio ou qualquer outra coisa útil. Todas as suas qualidades sensíveis foram apagadas. E também já não é mais o produto do carpinteiro, do pedreiro, do fiandeiro ou de qualquer outro trabalho produtivo determinado. Com o caráter útil dos produtos do trabalho desaparece o caráter útil dos trabalhos neles representados e, portanto, também as diferentes formas concretas desses trabalhos que não mais se distinguem um dos outros, sendo todos reduzidos a trabalho humano igual, a trabalho humano abstrato (MARX, 2013, p. 160-161).
46Bem como para aparecer a mercadoria precisa dos contornos de coisa, para o valor de troca ou valor aparecer
necessita-se de uma relação de troca e, para trocar-se, é necessário a existência, nessa negociação, de no mínimo duas mercadorias diferentes (MACHEREY, 1979, p. 192).
Uma distinção imprescindível entre valor de uso e valor de troca, portanto, é que o valor de uso varia em termos de qualidade e o valor de troca varia em termos de quantidade.47 Na troca de mercadorias como o que prevalece é o trabalho abstrato, o valor de uso é, então, negligenciado, ou melhor, ele é totalmente suprimido na troca – “sem conter, portanto, nenhum átomo de valor de uso” (MARX, 2013, p. 160). Para aparecer o valor é necessário que o valor de uso desapareça (MACHEREY, 1979, p. 193).48 É impossível que as duas formas de valor se manifestem conjuntamente ou que sejam consideradas ao mesmo tempo, o que prevalece é somente o trabalho médio dispendido pela capacidade média do trabalhador. Outra distinção importante entre as duas formas do valor é que “a coisa”, substancia do valor de uso, “dá a mercadoria contornos nítidos, na qual não se manifesta indecisão alguma” (MACHEREY, 1979, p. 192), já em uma relação de troca, “o valor de troca parece algo acidental e puramente relativo” (MARX, 2013, p. 158), de modo que “um valor de troca intrínseco, imanente à mercadoria (valeur intrinsèque); portanto, aparece como uma contradictio in adjecto [contradição nos próprios termos]” (MARX, 2013, p. 158). Em resumo, a mercadoria ou a coisa não tem nada de indeciso, já o valor sempre parecerá algo arbitrário.49
Da dualidade modal da mercadoria, do valor de uso e do valor de troca, deriva a dualidade modal do trabalho: o trabalho concreto e o trabalho abstrato. Como aponta Marx a respeito do duplo caráter do trabalho, “esse ponto é o centro em torno do qual gira o
47 É interessante notar que, nesse ponto, muito embora se utilize como fundamento argumentativo os dizeres de
Macherey, vale ressaltar uma ligeira divergência entre o pensamento desse filósofo e o apresentado. Para ele, “a coisa não é um fator puramente qualitativo: ela é suscetível de tratamento quantitativo (MACHEREY, 1979, p. 191). Para o filósofo, o ponto de vista quantitativo mediria a qualidade das coisas úteis. No entanto, percebe-se que mesmo o aspecto quantitativo, que serve para medir a qualidade da mercadoria, está em função da qualidade da mercadoria ou dos aspectos diversos do uso que se faz historicamente de algo. Ou ainda como esclarece Harvey (2013, p. 26), o valor de uso tem como escopo a substância e a utilidade de quilos de farinha, de pares de meias, de metros de tecido, de quilowatts de eletricidade. No entanto, mesmo as medidas quantitativas com as quais se mede esses produtos, ainda assim, são um ato histórico e vivem em função do aspecto essencialmente qualitativo.
Não se trata de uma decomposição em elementos, mas de uma análise em duplo plano. O plano do valor de uso e o plano do valor de troca. O plano da interioridade, a mercadoria em si mesma, em seus contornos, e o plano da exterioridade, da mercadoria em seu âmbito de troca. São duas maneiras diferentes de tratar um conceito, que não chega a ser, por isso, uma contradição, a não ser uma contradição formal, mas exatamente por isso, uma contradição aparente. A mercadoria, portanto, não deve ser entendida como uma unidade abstrata. A mercadoria é, no mínimo, duas mercadorias, duas coisas ou uma coisa de dupla face (MACHEREY, 1979, p. 194-195).
49 Uma coisa pode ser valor de uso sem ser valor, mas algo não pode ser valor sem ser valor de uso, ou seja, algo
pode ser útil e fruto do trabalho humano sem ser mercadoria. Um indivíduo adepto da boa alimentação pode aderir ao grupo de alimentos orgânicos e iniciar sua própria plantação de tomates em casa. Os tomates produzidos, todavia, não têm como meta o mercado, isto é, não têm como objetivo virar mercadoria, eles serão utilizados para consumo próprio. Para se produzir uma mercadoria é necessário mais do que um objeto dotado de utilidade, isto é, mais do que um valor de uso. É necessário que o valor de uso seja produzido para outrem. Para se fazer circular no mercado o objeto produzido, ele também não pode ser um objeto inútil, ele deve satisfazer a necessidade (real ou imaginária) de alguém. “Se ela é inútil, também o é o trabalho nela contido, não conta como trabalho e não cria, por isso, nenhum valor” (MARX, 2013, p. 164-165), “se a mercadoria não satisfaz uma carência, um desejo ou uma necessidade humana, ela não tem nenhum valor! Em suma, você tem de poder vendê-la para alguém em algum lugar” (HARVEY, 2013, p. 32).
entendimento da economia política, ele deve ser examinado mais de perto” (MARX, 2013, p. 165). Para que se torne permutável, para que surja a substância comum dos distintos usos dos objetos é preciso se utilizar de uma abstração: o trabalho do alfaiate e do tecelão, exemplos utilizados na obra de Marx, apesar de qualitativamente diferentes, ainda assim são exemplos de dispêndio de braços, músculos, força e inteligência humana, são, ambos, trabalho humano. O trabalho humano deixa de ser visto em sua singularidade e passa a padecer do vício de generalidade consequência dessa abstração: um trabalho complexo, não passa de uma quantidade maior de um trabalho simples, “o trabalho mais complexo vale apenas como trabalho simples potenciado, ou antes, multiplicado, de modo que uma quantidade menor de trabalho complexo é igual a uma quantidade maior de trabalho simples” (MARX, 2013, p. 169).
Abstraindo-se da determinidade da atividade produtiva, portanto, do caráter útil do trabalho, resta o fato de que ela é dispêndio de força humana de trabalho. Alfaiataria e tecelagem, apesar de serem atividades produtivas qualitativamente distintas, são ambas dispêndio produtivo de cérebro, músculos, nervos, mãos etc. humanos e, nesse sentido, ambas são trabalho humano. Elas não são mais do que duas formas diferentes de se despender força humana de trabalho (MARX, 2013, p. 168).
O trabalho abstrato é essa medida universalizante que permite a comparação entre formas de trabalho distintas, tornando-as diferentes apenas em termos de sua quantidade (mais trabalho ou menos trabalho), e não de sua qualidade útil. O dinheiro, regra geral, é a forma equivalente geral que permite essa permutabilidade. “O trabalho não é mais visto como fator imanente da determinação do valor. Este foi posto em um plano ideal afastado de sua contingência causal, tornou-se uma espécie de auto-imanência transcendente à lógica do trabalho” (SILVA, 2013, p. 89). Trabalho humano torna-se “mercadolizável” e assim, também, torna-se o próprio homem que vende sua força de trabalho.
O trabalho concreto é o antípoda do trabalho abstrato, que, por definição, pode ser entendido como o trabalho específico que resultará na produção, também específica, de determinada mercadoria. O trabalho do alfaiate é diferente do trabalho do padeiro, cada um leva consigo suas especificidades. Trata-se, portanto, de um trabalho concreto-útil produtor de valores de uso específicos. Em relação ao tempo, o trabalho concreto é o trabalho efetivamente despendido na execução de uma tarefa, em suas horas, minutos e segundos (HARVEY, 2013, p. 28). É a mensuração histórica utilizada para contabilizar algo, como já observado: 10 quilos de ferro, 50 quilos de algodão, 20 litros de leite, etc.; porém, no caso, essa medida diz respeito ao tempo efetivamente gasto pelo trabalhador individual. O mercado optou por utilizar a medida de tempo gasta com o trabalho em geral ou com o trabalho abstrato, e não o trabalho concreto, justamente pela capacidade de generalização do trabalho abstrato. Se a base para essa análise fosse o trabalho concreto, uma mercadoria seria tão mais valiosa quanto mais tempo se gastasse
em sua produção, independentemente de esse maior tempo gasto ser resultado ou do demasiado zelo e aprimoramento ou da inabilidade do produtor. “Ora, por que eu pagaria determinado preço por um artigo que alguém levou um bom tempo para produzir, se eu pudesse pagar a metade a alguém que o produziu na metade do tempo?” (HARVEY, 2013, p. 28). O trabalho abstrato permite essa padronização do tempo, excluindo os excessos possíveis nos casos particulares. Dessa forma, pode-se concluir que o valor de uso está intimamente ligado ao trabalho concreto, bem como o valor de troca ao trabalho abstrato. O trabalho concreto é trabalho efetivamente executado ou, segundo Harvey (2013, p 36), os valores de uso são produzidos por trabalho concreto-útil, há, portanto, diferentes formas de trabalho concreto, mas somente uma forma de trabalho abstrato. O trabalho abstrato é “uma forma de trabalho abstraída de suas características concretas” (SILVA, 2013, p. 78).50 Vale a pena ressaltar também que
não há uma divisão material entre trabalho concreto e trabalho abstrato, “não é como se o trabalho abstrato ocorresse em uma parte da fábrica e o trabalho concreto em outra” (HARVEY, 2013, p. 38). A dualidade reside no interior do processo de troca, na troca dos valores de uso.
O trabalho abstraído de suas características concretas ou o mero dispêndio de forças, músculos e cérebro do trabalhador ou, ainda, o trabalho abstrato, é que representa a substância comum que possibilita a permuta entre mercadorias diversas. No trabalho abstrato, o que conta é o tempo médio dispendido na execução de uma tarefa ou na produção de alguma mercadoria por um trabalhador de capacidades também medianas, por um trabalhador médio. Baseado nisso, o trabalho humano é homogeneizado e excluídos os extremos no que diz respeito aos indivíduos selecionados para execução de alguma tarefa, assim como é excluído o trabalho excepcional de trabalhadores superprodutivos, são também excluídas contingências como inabilidade do trabalhador ou mesmo preguiça. O tempo médio de produção de uma mercadoria
é o tempo de trabalho socialmente necessário para a produção de qualquer valor de uso “sob a
vigência de condições produtivas socialmente normais e com o nível médio de habilidade e ritmo de trabalho” (SILVA, 2013, p. 79). Porém, “somos imediatamente forçados a perguntar: o que é socialmente necessário? Como isso é estabelecido e por quem?” (HARVEY, 2013, p. 30). Marx não elaborou uma categorização definitiva dos fatores que determinam ou interferem na determinação do valor, até mesmo porque isso seria impossível dado que a sociedade e
50 Por mais que as especificidades dos trabalhos concretos sejam, na troca, abstraídas, é somente com a
heterogeneidade das formas de trabalhos concretos, tais como, alfaiataria, agricultura, tecelagem, que a troca efetivamente se torna possível. Afinal, não parece lógico, alguém desejar trocar determinado quantidade de produto por uma quantidade outra do mesmo produto (HARVEY, 2013, p. 36). Ou, nas palavras de Marx (2013,