Capítulo 2 Políticas de Atração de Investimentos: O Brasil
2.1 Dados recentes
2.1.1 Valores e natureza dos IEDs
Não é de hoje que o Brasil recebe montantes consideráveis de investimentos estrangeiros. Desde que o país se entende como nação independente, essas entradas ocorreram constantemente, seja para o financiamento de obras de infra-estrutura (o que ocorria com freqüência no período do Império), como estradas de ferro, iluminação pública, etc., seja em investimentos de plantas produtivas, como é o caso de empresas (Citibank, Loyd’s, Nestlé, Pirelli, etc.) que atuam no país há muito tempo.
O país recebeu, na primeira metade do século passado, IEDs preferencialmente no setor de serviços, como financias, transportes, comércio e eletricidade (UNCTAD, 2005e). Na segunda metade, esses IEDs passam a se concentrar no setor manufatureiro82. Esse cenário contribuiu para que o país se tornasse um dos principais receptores de IEDs no mundo, e a primeira opção de investimentos entre os países considerados de Terceiro Mundo. Assim é fácil perceber, como diz a Unctad (2005e), que os IEDs tiveram, principalmente a partir da década de 1950, um papel significante na economia brasileira, pois a sua política de substituição de importações - política essa que marcou quase que ininterruptamente a história econômica do país durante a segunda metade do século passado – mantinha o “grande e dinâmico mercado doméstico” (UNCTAD, 2005e, p.5) protegido de competição estrangeira o que tornava o país um grande receptor de investimentos das empresas transnacionais.
No período que vai do fim da Segunda Guerra Mundial até inícios da década de oitenta, o Brasil era o mercado mais atrativo de IEDs em se tratando dos países em desenvolvimento, conforme indica a Unctad (2005e), sendo que nas vésperas da crise da dívida na América Latina, o
82 A UNCTAD (2005e) indica ainda que a partir da segunda metade do século XX, o Estado
passa a prover serviços-chave como o energético e o de telecomunicações, promovendo por outro lado uma extensiva política de substituição das importações, o que trouxe uma grande participação das ETNs no setor manufatureiro, principalmente em áreas com base tecnológica e de capital.
país possuía o maior estoque mundial de IED entre as nações do Terceiro Mundo e encontrava-se em sétimo lugar, dentre todas as nações mundiais. Considerando que essa medida indica o grau de internacionalização da economia de um país, pode-se dizer que o Brasil era um dos países mais internacionalizados do mundo, em inícios da década de 1980. Além disso, é de suma importância mencionar que os IEDs ocorridos nessa época “gloriosa”, como se pode observar face ao clima político da época (estratégia de substituição das importações), se concentravam quase que exclusivamente no setor industrial (CEPAL, 2004)83.
Porém, a década de oitenta, trouxe consigo a crise da dívida Mexicana, em 1982. Esse fato, atingindo os países da América Latina, trouxe suas conseqüências já no ano seguinte, o que perdurou até o ano de 1993, véspera do início de uma nova etapa de desenvolvimento econômico do país, com a criação do Plano Real, em 1994. No período em questão (1983-1993), o total de FDI recepcionado no período não correspondia nem ao recepcionado durante um ano, no período anterior (1972-1982).
Ainda assim, é interessante notar que as grandes ETNs que aqui investiram, em sua quase totalidade, permaneceram no país, mesmo durante esse período em que a inflação ultrapassava, não raramente, as três casas decimais. Isso ocorreu muito em face do grande mercado nacional, e da posição de liderança que essas empresas sustentavam no mercado nacional.
83 Observa-se uma mudança mundial nas preferências das ETNs ao investir, que passaram a se
Gráfico 2.1 (Em bilhões de dólares)
BRASIL: CORRENTES DE IEDS, 1980-2004
Privatização da Telebrás Início das Privatizações Emendas à Constituição Regime Automotor Plano Real Início do Mercosul Crise da dívida externa Desvalorização do real Operação Interbrew- AmBev Fonte: CEPAL (2005, p.86)
Porém, a partir de 1994, quando foi implementado um novo modelo econômico para o país, conhecido como Plano Real, a cargo do novo Presidente da República e anterior Ministro da Economia, Fernando Henrique Cardoso, essa realidade passa a ser alterada. Muitas são as justificativas para essa mudança, que se centram, pelo lado da ortodoxia econômica, em um mercado mais previsível, com taxas inflacionárias sobre controle e a presença de um mercado mais livre e, pelo lado da crítica econômica, esse sucesso se deve em grande parte ao alinhamento da economia brasileira aos preceitos econômicos aspergidos mundialmente pelas grandes economias, através do Consenso de Washington.
Cepal (2005) indica que o ressurgimento do Brasil como grande receptor de IEDs ocorreu com base em vários fatores, sendo eles:
melhoria da estabilidade econômica; as emendas constitucionais de 1995 que abriram caminho para as privatizações; a criação do Mercosul; e o estabelecimento de um regime automotor.
Mas o fato é que no período 1994-1998 o país apresentou um sempre crescente índice de recepção de IEDs, chegando ao ano de 2000, logo após uma queda no ano anterior face à desvalorização do real, ao patamar de US$ 32.8 bilhões. Porém, esse aumento sem precedentes ocorre, dentre muitos outros fatores, face ao início das privatizações de grandes empresas estatais atuantes no setor de serviços84, como o de fornecimento de energia elétrica e de serviços de telefonia. Assim, verifica-se que o chamado “
boom
” dos IEDs no país muito se deve às privatizações85 e, como conseqüência dessa realidade, na medida que essas deixam de ocorrer, os IEDs tendem a diminuir consideravelmente.Observa-se dentro desse novo período (1994-2004) de internacionalização da economia brasileira, uma mudança nas destinações de IED. Se, de 1994 a 2000, cerca de 80% dos IEDs se destinavam ao setor de serviços, principalmente nas áreas de telecomunicações, eletricidade e gás, intermediação financeira e comércio, já, no período seguinte, de 2000 a 2004, verifica-se uma queda de investimentos nesse mesmo setor e um aumento no setor manufatureiro, que vinha sendo relegado a um patamar muito inferior.
Os IEDs no setor industrial passaram a representar cerca de 40% do total apresentado no período (2000-2004), mudança essa que se deveu, em grande parte, às quedas no número de privatizações e à mudança de política econômica que, influenciada pela desvalorização do
84 As privatizações ocorreram em dois períodos distintos, sendo que de 1990 a 1994 centraram-
se em empresas industriais, dentro dos ramos aeronáutico, de mineração, petroquímico, etc. Já, no segundo período, que vai de 1995 a 2002, as privatizações se concentraram em empresas do setor de serviços, sendo que nessa etapa, os investidores estrangeiros se fizeram valer de uma participação de 53% do total (UNCTAD, 2005e; CEPAL, 2005)
85 O montante total obtido com as privatizações ocorridas no período de 1991 a 2002 foi de
real em 1999 – e pelas exigências do Fundo Monetário Internacional - passou a se centrar no aumento e promoção das exportações86. Ainda dentro desse escopo, o setor primário passa, pela primeira vez, a representar parte importante do percentual de IED, chegando à marca de 7% a 10% no segundo período de análise (CEPAL, 2005).