III. Tratamento do corpus: análise de dados, conclusões parcelares
3. Verbos ‘poder’ e ‘dever’: variação do valor modal
3.2. Verbo ‘poder’ – presente do indicativo
3.2.2. Verbo ‘poder’ – polaridade positiva
Nem sempre, no entanto, a interpretação do valor modal da utilização destes verbos é clara e, dada a especificidade do discurso jurídico, a transposição de pistas de interpretação retiradas do discurso corrente nem sempre ajuda a obter uma solução definitiva.
Vejamos alguns exemplos paradigmáticos:
(43) «A nulidade é invocável, a todo o tempo, por qualquer interessado e pode ser declarada, também a todo o tempo, por qualquer órgão administrativo ou por qualquer tribunal.»
(44) «(…) em certos casos muito contados a prisão ou a pena privativa da liberdade pode não ser uma sanção propriamente penal mas sim uma sanção de caráter disciplinar (…)»
91 (46) «(…) o prejuízo respetivo pode fundamentar a suspensão de eficácia.»
Na frase (43), o verbo ‘poder’ parece surgir com um valor associado de permissão (deôntico), valor que podemos deduzir das caraterísticas associadas ao comportamento do complemento da passiva – que parece constituir o limite exterior da atribuição de competências associado ao enunciado – mas que podemos deduzir também a partir da tipologia textual em questão, que conhecemos à partida. Esta frase, nesta realidade tipológica- textual, poderia ser lida, alternativamente, de uma destas formas:
(43’) A nulidade (…) apenas pode ser declarada (…) por um órgão administrativo ou por um tribunal.
(43’’) Qualquer órgão administrativo ou qualquer tribunal possuem legitimidade/ estão autorizados a declarar a nulidade.
Sem a contextualização jurídica que decorre do tipo de texto em que está integrada, no entanto, a frase aceitaria mais facilmente outras leituras, designadamente:
(43’’’) É possível [em abstrato] que qualquer órgão administrativo ou qualquer tribunal declare [se quiser] a nulidade.
Destas considerações podemos concluir, portanto, que a mera leitura do exemplo (43) permite uma alternativa de valores modais associados ao verbo ‘poder’: o valor epistémico61
, representado pela leitura conforme a (43’’’) em que se verifica uma interpretação probabilística ou eventual, e o valor deôntico, associado à permissão de declaração de nulidade, ou até associado à obrigação de declaração da nulidade, sendo a eventualidade (‘pode’) associada, não ao ato de declaração da nulidade, mas à escolha de entre os agentes competentes (qualquer órgão da administração pública ou qualquer tribunal).
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Poderíamos considerar também a modalidade interna ao participante. Acontece que, sendo o tribunal (e a administração pública) uma entidade difusa, coletiva, de difícil determinação, seria também difícil, senão mesmo impossível, identificar o sujeito da vontade ou da capacidade interna que assiste a este tipo de modalidade. Acresce ainda, que, na linguagem jurídica, a aceitação deste tipo de “discricionaridade subjetiva” de um órgão público seria contrário às próprias funções do direito.
92 O valor de permissão é muito raro62 em situações em que a modalidade se exprime pela estrutura positiva [(Vpres. indic. ‘poder’ + Vinf ‘ser’) + Vpart passado], havendo, nestes casos e nos textos comuns, uma prevalência do valor associado de possibilidade/ eventualidade (logo, epistémico)63.
No exemplo (44), por outro lado, há uma interpretação probabilística suportada pelo uso do operador de negação em lugar anterior ao verbo principal, facto que nos conduz a um valor modal epistémico.
Um rápido teste a este exemplo – aliás com um comportamento semelhante ao do exemplo (46) – mostra-nos que a estrutura modal pode ser substituída por uma locução com o mesmo valor de possibilidade, sem retirar sentido à frase (44’), (46’). O mesmo não acontece com o exemplo (45) em que a proibição deôntica se torna evidente com a operação de ‘não’ sobre o verbo modal, o que impede qualquer outra interpretação de modalidade.
(44’) «É possível que, em certos casos muito contados, a prisão ou a pena privativa da liberdade não seja uma sanção propriamente penal mas sim uma sanção de caráter disciplinar (…)»
(46’) «É possível que o prejuízo respetivo possa fundamentar a suspensão de eficácia.»
É também curioso verificar que, quando existem elementos condicionadores da ação expressa pelo predicado verbal, o modal deixa de aceitar uma interpretação epistémica e passa a admitir apenas um valor deôntico associado:
(47) «A pena pode ser especialmente atenuada, aplicando-se a pena de escalão inferior quando existam circunstâncias anteriores ou posteriores (…)»
62 Cf. CETEMPublico. Observámos 4879 ocorrências, de entre as quais selecionámos as mais representativas desta estrutura positiva, sendo esta conclusão subsequente à análise de casos referentes aos seguintes modelos:
a) par=ext44-soc-91a-2: O motorista acompanhava frequentes vezes John Junior e a sua morte pode ser considerada como um aviso da velha guarda.
b) par=ext1153-des-94b-1: Estádio da Luz pode ser interditado.
c) par=ext2381-opi-96a-1: A mais óbvia, e para alguns a mais pertinente, diz que hoje tudo pode ser transformado em espectáculo.
d) par=ext199252-nd-95b-2: P. -- Acredita que pode ser recuperado para a batalha autárquica de 1997, ainda que, depois de tudo isto, vá ser mais difícil ser presidente da Câmara do Porto?
(sublinhado nosso). 63
A passiva eventiva possui uma marca deôntica prevalente, enquanto a passiva com o verbo ‘estar’ é tendencialmente epistémica.
93 Veja-se que, para a primeira parte do exemplo (47), são duas as interpretações possíveis: a) a atenuação da pena pode, eventualmente, ocorrer – não há compromisso com o resultado, aceitando-se um valor epistémico de possibilidade; b) a atenuação da pena pode ocorrer – valor de permissão: porque está autorizada pela lei quando haja circunstâncias que o justifiquem. No entanto, a oração gerundiva acaba por permitir à frase uma leitura deôntica mais próxima da interpretação proposta em b). Esta perceção parece tornar-se definitiva por ação da oração temporal: o enunciado pressupõe uma permissão (deôntica, forte) – e não apenas uma possibilidade – de redução de pena quando existam «circustâncias anteriores ou posteriores (…)».
Aliás, considerando as caraterísticas de base da ordem jurídica e os seus princípios fundamentais – entre os quais se encontram os princípios da segurança jurídica e da confiança, que protegem legítimas expectativas dos cidadãos, já que «O homem necessita de segurança para conduzir, planificar e conformar autónoma e responsavelmente a sua vida» (Canotilho, 2003: 257) – podemos até dizer que o exemplo (47) obriga à atenuação especial da pena sempre que haja «circunstâncias anteriores ou posteriores (…)». Por outras palavras: a obrigação é a norma, a eventualidade é a exceção. As caraterísticas do conceito de poder- dever que deriva da própria ordem jurídica, perite-nos defender a presença de uma obrigação de aplicação de uma pena menor sempre que se identifiquem as circunstâncias descritas, interpretação que tornaria definitiva a presença de um valor deôntico impositivo, replicável, por força dos princípios jurídicos gerais, em todas as situações afins. Se incluirmos uma dimensão pragmática na análise deste exemplo, considerando que a linguagem jurídica tem como função, por um lado, operacionalizar a justificação da dosimetria penal associando-a às necessidades de prevenção especial64 e, por outro lado, sustentar a exaustão de recursos na defesa das partes em conflito, justifica-se a afirmação inicial de defesa da modalidade deôntica neste caso, podendo-se defender que a única interpretação aceitável em contexto será esta:
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Cf. Acórdão de 22-09-2004, Proc. n.º 1636/04-3.ª, in ASTJ, n.º 83 : “a pena, no mínimo, deve corresponder às exigências e necessidades de prevenção geral, de modo a que a sociedade continue a acreditar na validade da norma punitiva; no máximo, não deve exceder a medida da culpa, sob pena de degradar a condição e dignidade humana do agente; e, em concreto, situando-se entre aquele mínimo e este máximo, deve ser individualizada no
quantum necessário e suficiente para assegurar a reintegração do agente na sociedade, com respeito pelo mínimo
94 (47’) «Sempre que existam circunstâncias anteriores ou posteriores [que o
justifiquem], a pena é [sempre] especialmente atenuada, aplicando-se a pena de escalão inferior.»