Capítulo III Síntese
3.2. A Verdade como conhecimento
O culminar de um determinado percurso é o efeito produzido em função de uma determinada causa. O efeito é, neste sentido, uma realidade derivada uma vez que depende
335 «Avicena apresenta-nos portanto, uma noção ontológica da verdade, aplicada a um mundo de
carácter aristotélico, onde o inteligível é concebido como imanente às coisas». «Avicenne nous presente donc une notion ontologique de la vérité, appliquée à un monde de caractere aristotélicien, où l’intelligible est con- çu comme imanente aux choses». (cf. V. WIELE, Le probléme de la vérité ontologique dans la philosophie de
saint Thomas, 532).
336 Cf. V. WIELE, Le probléme de la vérité ontologique dans la philosophie de saint Thomas, 537-
da causa que lhe confere existência, porém esse efeito não deixa de ter uma realidade pró- pria se bem que sempre em relação com a realidade que lhe permite existir. No tratamento da questão da verdade no De veritate, São Tomás considera que derivado da noção de ver- dade se produz no intelecto um determinado efeito a que se dá o nome de conhecimento. Em seguida, procuramos reflectir sobre o que é o conhecimento, que tipos de conhecimento existem e a sua relação com a noção de verdade formal.
São Tomás aludindo à terceira definição de verdade afirma: «contudo o conheci- mento é um certo efeito da verdade»337. Nesta terceira definição, São Tomás socorre-se dos
contributos de Santo Hilário de Poitiers e de Santo Agostinho, o conhecimento surge como um efeito da noção de verdade que se dá no intelecto. Visando entender melhor o que é este efeito da verdade questionamos, o que é o conhecimento para São Tomás?
O conhecimento para São Tomás é a apreensão da essência de uma coisa338.
Seguindo esta definição, notamos dois elementos fulcrais, primeiro, a apreensão como for- ma de algo que se detém, como que do qual se tem propriedade; segundo, a noção de essência, como elemento do qual se tem posse e que por meio dessa posse se pode dizer que detemos um conhecimento sobre determinada coisa.
A essência permite dizer aquilo pelo qual uma coisa é e pelo qual se distingue de qualquer outra coisa, é o que permite a inteligibilidade de uma dada realidade. Será a essência a permitir exprimir uma dada definição ácerca da coisa. O intelecto não apreende a essência, a não ser através daquilo que podemos designar por abstração, ou seja, na medida em que despoja a coisa do seu caracter individual para encontrar o que lhe permite ser o que é e não ser o que não é. Neste sentido, as essências fazem parte da realidade existente, não existem num mundo só de essências, mas existem no intelecto que as pensa339.
A apreensão ocorre quando o intelecto realiza uma abstração em que depreende, a partir da realidade sensivel captada pelos sentidos, aquilo que é inteligível na coisa, a reali- dade universal que dá origem ao conceito340.
A concepção de São Tomás torna-se desta forma um pouco mais esclarecedora, uma vez que a verdade produz uma forma de conhecimento que se pode designar por verdadei- ro. Falta-nos agora investigar a respeito sobre a forma pela qual se expressa este conheci- mento.
337 «Sed cognitio est quidam veritatis effectus». (cf. De veritate, q. 1, a. 1, r).
338 Cf. M. J. NICOLAS, Ciência, in Vocabulário da Suma Teológica, Suma Teológica (S. Paulo: Edi-
ções Loyola 2003) Volume 1, 76.
339 Cf. M. J. NICOLAS, Essência, in Vocabulário da Suma Teológica, Suma Teológica, 81. 340 Cf. M. J. NICOLAS, Abstração, in Vocabulário da Suma Teológica, Suma Teológica, 71.
A definição de Santo Hilário341 e a primeira definição de Santo Agostinho342, esta-
belecem a forma pela qual o conhecimento da verdade não é apenas a apropriação da essência de uma coisa, mas a discursividade dessa mesma essência de uma coisa. O conhe- cimento é o dizer, ou utilizando as expressões de Santo Hilário e de Santo Agostinho, é o declarar, manifestar, o mostrar. O conhecimento é acompanhado de uma discursividade que oferece a razão pelo qual uma coisa é, que expressa uma conceptualização da realidade. Sendo declarativo do que uma realidade é, dá razão da existência e das causas que são sub- jacentes à coisa. Neste sentido, conhecer é explicar através da essência e da natureza das coisas343. O conhecimento é assim relacionado com o discurso e não apenas com uma com-
preensão de alguma forma vaga a respeito do objecto, mas sugere uma forma declarativa a respeito do que é e do que não é.
Na medida em que compreendemos este efeito da verdade como conhecimento e deste último, como apreensão de uma essência, a qual declara e manifesta o que é e o que não é, eis-nos chegados à compreensão dos tipos de conhecimento existentes.
O conhecimento humano para São Tomás está dividido em dois tipos: o sensitivo e o intelectivo. O conhecimento sensitivo é um acto de um orgão corpóreo que permite conhecer as coisas na sua individualidade344. O conhecimento intelectivo é o que permite
conhecer a essência das coisas. São Tomás considera duas espécies de conhecimento inte- lectivo, o conhecimento prático que diz respeito ao uso do intelecto agente e tem em vista a acção; e o conhecimento teórico que diz respeito ao uso do intelecto passivo e tem em vista a verdade em absoluto. Significa isto que São Tomás sustenta a existência de dois intelec- tos, um agente e um passivo? Não, o autor do De veritate, sustenta a existência de apenas um intelecto, no qual existem duas potências, as quais se actualizam tendo em vista dois fins distintos. O mesmo intelecto actualiza-se tendo em vista dois fins, o que significa que podemos falar de duas funções da mesma faculdade345.
341 «O verdadeiro é declarativo e manifestativo do ser». «Quod verum est declarativum et manifesta-
tivum esse». (cf. De Trinitate, V, 3).
342 «A verdade é aquilo pelo qual se mostra o que é». «Veritas est qua ostenditur id quod est». De
vera religione, c 36.
343 Cf. M. J. NICOLAS, Ciência, in Vocabulário da Suma Teológica, Suma Teológica, 76.
344 O conhecimento sensitivo divide-se em dois grupos. Primeiro, o conhecimento que deriva dos
sentidos externos, visão, audição, tacto, odor, paladar. Segundo, o conhecimento que deriva dos sentidos internos, memória, imaginação. (Cf. B. MONDIN, Conoscenza, in Dizionario Enciclopedico del Pensiero di
San Tommaso D’Aquino, 130. M. J. NICOLAS, Intelecto, in Vocabulário da Suma Teológica, Suma Teológi- ca, 85).
345 Cf. B. MONDIN, Conoscenza, in Dizionario Enciclopedico del Pensiero di San Tommaso
As duas potências do intelecto são actualizadas quando se faz uso das mesmas em função dos fins em causa, a acção num caso, a verdade noutro. Porém, é possível que ambas as potencialidades possam permanecer apenas como possibilidades e nunca actuali- zadas346. As potências do intelecto visam um dado fim e são actualizadas quando postas em
acto visando o fim em causa, os condicionantes existentes em relação à actualização destas potencialidades são inúmeras, como veremos em seguida ao tratarmos da verdade formal.
Tendo em conta que temos vindo a desenvolver a verdade como conhecimento exprimindo um determinado efeito no intelecto, torna-se relevante não perder de vista, que a acção precedente, da recepção do objecto à impressão abstraída pelo intelecto agente, aos juízos realizados pelo intelecto passivo, são fundantes e fundamentais para o efeito que temos vindo a estudar, o conhecimento.
Neste sentido, o conhecimento como um efeito da verdade, implica a precedente verdade formal de adequação do intelecto à coisa, assim como todos os passos que a consti- tuem até chegarmos à verdade que produz um determinado efeito. Por conseguinte, em seguida exporemos a verdade no seu sentido formal, no diversos elementos que a consti- tuem.