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Da vida dos alunos na universidade para as aulas de PLA para fins acadêmicos e das

Segmento 5 conversa de Carlos na aula do dia 28 de junho de 2017

5 AS AULAS DA DISCIPLINA DE PORTUGUÊS PARA ESTRANGEIROS PARA

6.2 PROPOSTAS DE TRABALHO COM O TEXTO ACADÊMICO QUE OPORTUNIZAM

6.2.1 Da vida dos alunos na universidade para as aulas de PLA para fins acadêmicos e das

Para Dilli (2012, p.154), um curso de leitura e escrita acadêmica precisa estabelecer um trabalho pedagógico multidisciplinar, que

[...] busque pontos de contato entre os conteúdos curriculares dos cursos de graduação, no que concerne às práticas de leitura e escrita por meio das quais são construídos e os gêneros do discurso nos quais se dão a produção desses conteúdos curriculares, não só dos conhecimentos científicos em si, mas do uso pedagógico desses conhecimentos na academia.

Isso significa considerar os “aspectos de uso da linguagem e letramentos das disciplinas específicas dos cursos” (DILLI, 2012, p.94) nos quais os alunos estão

matriculados na universidade como um ponto fundamental a ser trabalho nas aulas de leitura e escrita acadêmica como forma de ampliar a compreensão dos alunos acerca do mundo que se mostra a eles no espaço acadêmico.

Nas aulas de Português para Estrangeiros para fins acadêmicos observadas por mim, e também em conversas que tive com os alunos dessa disciplina, muitas das produções trazidas para as aulas pelos alunos estavam relacionadas às combinações feitas em outras disciplinas as quais os alunos também cursavam, e indicavam a existência de acordos envolvendo leituras obrigatórias e expectativas de entregas a serem feitas a partir dessas leituras de textos indicadas em cada disciplina. Embora esses apontamentos tenham sido mencionados pelos alunos em algumas aulas da disciplina de Português para Estrangeiros para fins acadêmicos, não houve um direcionamento do professor para um olhar exploratório e de percepção para a organização de práticas para lidar com as leituras, tornando-as foco de análise e debate.

Nesse sentido, a exploração de textos como Programa de Atividades52 de disciplinas de cursos de graduação/pós-graduação, elaborados pelo professor responsável por ministrá-la e, geralmente, apresentado aos alunos nas aulas iniciais do semestre, pode ser um texto chave a ser abordado em aulas de PLA para fins acadêmicos. Ao estabelecer um percurso de trabalho com o texto que convide os alunos a olhar para o Programa de Atividades, o professor possibilita espaços de diálogo com vistas a analisar que textos serão lidos, que produções são esperadas a partir dessas leituras e que percepções os alunos têm sobre como se darão os modos de se trabalhar tanto com as leituras como com as produções mencionadas nesse documento.

O olhar para esses textos pode tornar mais visível para os alunos o reconhecimento de práticas e expectativas valorizadas nesses contextos das disciplinas acadêmicas em que estão matriculados. A partir desses olhares exploratórios, o professor também pode provocar outras conversas centradas no quanto as demandas e os modos de se lidar com textos presentes nas disciplinas que cursam já são práticas conhecidas pelos alunos e ou o quanto se fazem novas a eles. Os programas de atividades analisados podem também ser discutidos novamente ao longo do semestre, em conversas guiadas nas quais o professor os convida a revisitá-los para acompanhar que outras percepções e sentimentos os alunos tiveram ou estão vivenciando sobre o trabalho com as leituras e produções solicitadas a eles nessas outras disciplinas, e para que compartilhem outras percepções que tiveram sobre os acordos estabelecidos nas

52 Acredito que a forma como esse documento é nomeado varie de instituição para instituição. Me refiro aqui ao

programa que geralmente é compartilhado pelo professor nas primeiras semanas de aula do semestre, contendo objetivos da disciplina, competências a serem desenvolvidas, cronograma de atividades por aula, leituras obrigatórias esperadas, produções orais e escritas esperadas e informações sobre avaliação.

disciplinas, sobre as formas de agir esperadas e valoradas (ou não valoradas), sobre dificuldades que encontram no cumprimento desses acordos, das tarefas com as quais precisam lidar e das entregas que precisam fazer, e de que ordem parecem ser tais dificuldades, etc.

Nesse sentido, os textos selecionados para as aulas de PLA para fins acadêmicos devem estar em relação de proximidade com as rotinas e demandas dos alunos na universidade, para que, a partir do percurso estabelecido pelo professor para lidar com esses textos nas aulas de PLA para fins acadêmicos, sejam oportunizados “pontos de contato” (DILLI, 2013) a partir da compreensão de como os professores dessas outras disciplinas, e de áreas variadas, organizam suas práticas de aula.

Esses diálogos também podem contemplar os apontamentos trazidos por Fischer (2010), discutidos neste trabalho, mais especificamente no Capítulo 2, relacionados à amplitude dos aspectos envolvidos na caracterização de práticas de letramento que acontecem em contextos acadêmicos específicos e de conflitos de entendimentos que podem surgir, entre professores e alunos. Portanto, realizar análises de textos como os de programa de atividades, a partir de um percurso de exploração desses textos acadêmicos que, de forma guiada, convide os alunos a verificar aspectos como: a) textos variados demandados em seus contidianos acadêmicos; b) expectativas de leitura e/ou produções a respeito desses textos; c) práticas de avaliação e critérios estabelecidos para tais produções; d) modos de se lidar com eles nas aulas e o quanto esses modos e expectativas são tornadas explícitas aos alunos e/ou como são compreendidas pelos alunos, pode dar forma a reflexões até então não oportunizadas a eles, ajudando-os a melhor compreender fazeres acadêmicos locais e a tomar suas próprias decisões sobre como querem produzir seus textos, orais e escritos, dentro desses espaços.

Ainda como exemplo para explorar outros textos que não apenas os tradicionais resenha, resumo, artigo científico em aulas de PLA para fins acadêmicos, considero o caso de uma das alunas matriculadas na disciplina de Português para Estrangeiros para fins acadêmicos. Em seu convênio com a universidade, a aluna realizaria seus estudos de doutorado de forma integral no Brasil e tinha como regimento os mesmos pré-requisitos exigidos a alunos brasileiros em estudos de doutorando na instituição. Embora esses requisitos variem de acordo com as áreas, esse fator impõe ao aluno dar conta de informações relevantes e definidoras em seu percurso de estudos.

Para exemplificar essa discussão, apresento, a seguir, um documento orientador com os critérios de renovação de bolsas integrais e parciais a alunos realizando seus estudos de pós-graduação em uma determinada área de estudos da PUCRS.

Figura 19 – Renovação de bolsas

Fonte: Programa de Pós-Graduação em Letras da PUCRS

A compreensão das informações apresentadas nesse documento institucional envolve muitas dimensões e para que o aluno consiga compreender quais são os acordos postos aí, precisará: a) se localizar no texto (como mestrando ou doutorando, com bolsa parcial ou integral); b) verificar que há, como pré-requisito, o cumprimento mínimo dos itens listados; c) compreender muitas das práticas esperadas para esse contexto (participar de defesas na área, apresentar trabalhos científicos fora da instituição e também participar de eventos de organização interna da instituição, participar como ouvinte de eventos e atividades acadêmicas variadas, participar de projetos de pesquisa, publicar em revistas científicas, qualificar e defender seus trabalhos de pesquisa dentro de um determinado prazo); d) compreender que a comprovação de todos esses itens mínimos deve ser feita através de um relatório, entregue semestralmente ao programa de pós-graduação.

Em se tratando de alunos que estejam ingressando nos programas de pós-graduação, vindos de contextos distintos, podem ser muitas as dimensão não conhecidas. Para alunos que têm o português como língua adicional, para dar conta da leitura de um documento

institicional como esse, poderia envolver ainda muitas das questões relacioandas a língua adicional mencionadas na seção 6.1.

Acredito que textos como esse exemplificado na figura 19 também possam compor os repertórios de textos acadêmicos de um curso de PLA para fins acadêmicos. Ao lidar com esse e com outros documentos institucionais com os quais alunos de graduação e pós- graduação precisam lidar, o professor pode oportunizar espaços de diálogos sobre o que é esperado dos alunos em seus percursos enquanto graduandos e pós-graduandos, sobre a percepção de práticas de leitura e escrita envolvidas nesse percurso, não apenas no intuito de auxiliá-los na compreensão do que é esperado, mas também nas possibilidades de questionarem certas demandas e de reagir a elas. Para isso, terão também que compreender que há caminhos para fazê-lo e que, certamente, terão que verificar que caminhos são esses e onde se encontram disponíveis: escrever e-mails a serem enviados a secretaria de pós- graduação de seu curso com o intuito de solicitar esclarecimentos sobre determinados critérios e procedimentos; preencher formulários; escrever declarações e atestados (que podem estar disponibilizados em plataformas virtuais da instituição) para solicitar reaproveitamento de créditos, para negociar prazos etc.

No caso do contexto de ensino de PLA para fins acadêmicos, ao definir que o trabalho de sala de aula precisa estar intrinsicamente relacionado às demandas exatas que os alunos trazem, acredito que esses textos institucionais também possam se estabelecer como novas possibilidades de atividades para as aulas, por dar vez a um outro tópico relevante: o que se espera de um aluno de mestrado/doutorado que esteja realizando seus estudos em uma dada instituição?. A partir desse questionamento, muitas outras questões podem ser trabalhas: quais são as demandas que lhes são solicitadas?; quais são os gêneros de mais importância que precisam produzir?; precisam publicar?; quais são as publicações consideradas?; são nacionais e/ou internacionais?; exite um número mínimo de créditos que precisam ser cumpridos?; poderão cumpri-los apenas na instituição convênio ou também podem fazê-los em outros locais?; há requisitos obrigatórios relacionados a um número mínimo de eventos de que precisam participar?; há informações sobre esses eventos e de que natureza são?; precisam, obrigatoriamente, participar de eventos internos promovidos na universidade em que realizam o intercâmbio?

A compreensão de textos institucionais com esse, que trazem apontamentos bem específicos quanto a critérios e fazerem considerados essenciais, torna-se crucial para o aluno e para a sua organização ao longo dos estudos realizados, pois, ao não cumprir os pontos estabelecidos, o aluno pode ter a continuidade de seus estudos prejudicada. Certamente, tornar

tais textos institucionais objetos de análise e discussão nas aulas de PLA para fins acadêmicos é uma forma de dar vez a entendimentos, dúvidas e questionamentos envolvidos no quanto compreendem o que é preciso ser feito e em reflexões sobre a natureza dessas dúvidas trazidas por eles (Envolvem modos de fazer até então não conhecidos? Envolvem conflitos culturais sobre o que venha a ser esses modos de fazer? Envolvem questões de não compreensão da informação relacionadas ao português como LA? etc.).

Nos contextos observados por mim na disciplina de Português para Estrangeiros para fins acadêmicos, o resumo se fazia presente como um gênero pré-determinado a ser trabalhado nas aulas, embora também tenha sido apontado por alguns alunos como uma demanda de produção solicitada por professores das outras disciplinas cursadas pelos estudantes. Na seção a seguir, proponho uma discussão sobre o trabalho com o resumo, buscando refletir sobre percursos possíveis para abordar esse gênero com os alunos, considerando suas especificidades de forma situada, e considerando que, ao ler ou produzir resumos, os alunos precisarão lidar também com muitos outros gêneros relacionados.