Quando os filhos e netos de Mãe Dialunda ganharam autonomia, alguns deixaram a casa para seguir caminhos próprios. Dialunda procurou ajudar na construção das novas moradas de alguns deles. Ela tinha duas filhas e uma neta morando na ilha de Itaparica, para quem deu terreno (exceto a primogênita, que recebeu o terreno da tia Juçara, que a criou). Dois dos fi- lhos homens e uma neta moram nas próprias casas em Amaralina e também receberam apoio de Dialunda na concretização desses projetos. Dialunda dividiu a própria casa em duas para dar o andar de cima ao filho caçula, seu predileto, quando se uniu a Dalva, mantendo-os próximos.
Mãe Dialunda mostrava orgulho da descendência e sempre influenciou o destinos dos seus. Afirmou ter incentivado todos a estudar, mas se en- tristecia de que apenas três membros da família tivessem aproveitado a
oportunidade oferecida e que terminaram ou estavam cursando o Ensino Médio, com intenção de investir em curso universitário. Eram eles, o filho João, que abandonou o curso universitário de contabilidade e trabalhava na Petrobras; o neto João Carlos, (que declarou que, quando era criança, Mãe Dialunda relutou em deixá-lo estudar nas escolas do bairro e só permitia seu estudo em banca, dentro de casa, com as primas24) e sua neta Célia que
retomou recentemente os estudos para concluí-los e tentar alguma especia- lização, pretendendo ser professora primária. Célia deixou o estudo quando se uniu e teve três filhos. Voltou a estudar depois, pela noite, para concluir o Ensino Médio com o apoio do marido e da vizinha, que cuidavam dos filhos já mais crescidos e autônomos. Outra das expectativas satisfeitas por Mãe Dialunda foi ter conseguido criar netos e bisnetos, imprimindo e reescre- vendo, nesta nova geração, sua visão de mundo, talvez corrigida e melho- rada em relação à que logrou produzir com os próprios filhos. Ela mesma e a neta pequena falaram desta relação:
Vó? Eu adoro ela! Pra mim é a melhor avó do mundo. Pra mim é. Ela faz um bocado de coisa aqui pra gente. Pra não deixar a gente assim com fome, ela vai trabalhar. Pra cuidar da gente, não deixar a gen- te com fome, assim jogado na rua; ela não deixa a gente ficar muito
na rua por causa desses meninos lá de cima, muito brigão...[referia–se às brigas de gangs] ai ela deixa a gente dentro de casa. (Lila, 30/01/00).
Mas vó, já viu como é! A mãe [Dalva] diz que eu sou xereta com os ne- tos! Que eu fico paparicando os netos! Mas quem gosta, né? Ela educa, eu deseduco. Eu não achei quem deseducasse os meus [filhos], que eu não fui criada com vó, né. Mas... uma educa, a outra deseduca. Esse é
o papel da vó. Lila é boazinha. É menina meiga. Adoro minha neta. Lucia é coisa gostosinha, fofinha de vó, que vó adora. Gilberto é pintão, mas é coisa gostosinha. Meus neto são coisa gostosa da mi- nha vida. A minha vida é meus netos! Hoje em dia, vivo pra eles. Minha alegria são meus netos. (D. Dialunda, 22/02/99).
Sua entrega ao mundo religioso do Candomblé, e seu ofício como baiana de acarajé eram outros dos legados que desejou deixar em família, no sen- tido do espírito de família integrador descrito por Bourdieu (1997). Alguns
24 Talvez para ocultar ou protege-lo da sua tendência homossexual que indicam ter aparecido bem
dos filhos, como Bela e João, tinham envolvimento mais direto com o Candomblé; a neta Branca e, sem sombra de dúvidas, a nora Dalva. Mas o maior desejo de Mãe Dialunda era ter uma herdeira de sangue no mundo do Candomblé e na venda do acarajé. Ela depositou essa expectativa inicial- mente na neta Célia, a predileta das mulheres, como houvera profetizado o pai de santo.
A fabricação de acarajés tem importância central no sistema simbólico afro -brasileiro; situa-se no encontro do religioso com o social.25 Fazer acarajé, no
sentido da aquisição de ingredientes, do modo de aquisição destes, da prepa- ração e comercialização, é passo obrigatório nos ritos de passagem das casas de santo. A vendedora ou o vendedor de acarajé investe provisoriamente num es- paço, na rua, a fim de cumprir sua obrigação, que consiste na comercialização do produto. O trabalho do acarajé exige investimento coletivo nas redes de parentesco espiritual e social; constrói lugares de referência e pertencimento para os novos iniciados. Alguns dos filhos de santo, após a iniciação, podem decidir continuar o trabalho do acarajé em horas livres; outros continuarão através de pessoas intermediárias constituindo uma fonte relativamente certa de reforço da economia familiar. Assim, nas representações locais e mesmo regionais, o acarajé é, certamente, um dos produtos nacionais mais relacio- nados à identidade negra e às religiões afro-brasileiras. Além da circunscrição na esfera religiosa, o acarajé constitui uma verdadeira economia familiar para negros mais pobres. Como se observa na casa de Mãe Dialunda, o acarajé e ou- tros quitutes eram produzidos com a colaboração dos membros da sua casa. O espaço público do ponto de venda de Mãe Dialunda no Abrigo de Amaralina ou o que ele significou nesta Casa entrou como um bem importante na consti- tuição de sua herança. Herança que a neta Célia oscilava em desejar assumir e não estava convencida de desejar seguir, mas que, ao mesmo tempo, se sentia fortemente ameaçada e usurpada pela posição que lentamente a nora de mãe Dialunda, Dalva, a quem Célia tratava com rivalidade, foi ganhando no grupo
25 O acarajé – pão de comer feito de bolinhos de feijão fradinho frito no azeite-de-dendê – antiga-
mente era feito pelas filhas de Iansã nos terreiros de Candomblé, colocados em vasilhames de barro ou madeira e servidos em palhas de bananeiras. O dinheiro arrecadado era destinado ao cumprimento de obrigações de santo. Hoje é comum ser comercializado para a sobrevivência. No dialeto Yorubá, acarajé significa pão de comer e é o alimento de Iansã, Santa Bárbara, e é um dos alimentos oferecidos aos orixás nos rituais de Candomblé. Mas o nome original “akará olelé” ado- tou o nome “acarajé” pela forma como as baianas o ofereciam pelas ruas gritando akara –jé que em iorubá significa: coma akará ( Jornal A Tarde, 25/11/2003).
familiar. Célia aprendeu tudo do ofício, era excelente cozinheira e chegou a pensar em colocar um tabuleiro de acarajé com apoio de Mãe Dialunda:
D: Célia está aqui [na casa de Dialunda] volta e meia. Ela penteia meu
cabelo. Ajuda nas coisas da casa. Antigamente era ela que fazia tudo. Ela aprendeu tudo e vendeu só dois dias lá embaixo [no Abrigo].
MG: E como é essa história que a senhora quer que ela passe a vender
acarajé aqui em cima, na rua do lado?
D: Agora é que eu quero botar um tabuleiro pequeno ali e mandar pintar, para ela vender acarajé pequeno de 50 centavos, para ela fi- car com dinheiro na mão, né? Mais independente e não só na mão do marido. Eu não gosto ela ficar só na mão do marido, não. (Mãe Dialunda, 22/02/99).
Mas a neta Célia, que respeitava e reconhecia o medo que o mundo do Candomblé lhe produzia, desistiu inicialmente desse empreendimento e pre- feriu investir em terminar o Ensino Médio para tentar entrar na universidade e tentar fazer algum concurso para ser professora do estado. Ela distribuía seu currículo nos supermercados, qualquer lugar em que pudesse trabalhar para incrementar o orçamento do casal e prosseguir com o projeto de ampliar a casa de sua nova família nuclear. Ela era estimulada para isso pelo seu com- panheiro (homem trabalhador e de respeito) que se esforçava por pagar-lhe um cursinho. Eles compartilhavam vários gostos e projetos: a paixão pelo futebol, a construção da casa própria e também o da compra de um computador. Ele cuidava dos filhos quando ela saia para estudar à noite e a apoiava no movi- mento de busca de autonomia e superação pelo estudo (o que não é um tipo de comportamento masculino padrão entre muitos dos homens observados neste contexto social, muitos dos quais se sentiriam ameaçados e ciumentos pelos movimentos de superação e autonomia de suas companheiras). Célia era uma bela e dedicada mulher ao marido, por quem mostrava estar apai- xonada; a confiança entre eles parecia ser mútua. Quanto ao Candomblé, ela afirmou que nunca se identificou nem fez parte da religião apesar de ter sido criada e crescido nesse mundo desde pequena, morando temporadas em ter- reiros, conhecendo bem e presenciando distintos rituais e até utilizando, no seu discurso, parte da simbologia desta matriz cultural. Ela contou:
MG: Onde é que fica o terreiro de Juçara - a irmã de Mãe Dialunda, que
mora na ilha de Itaparica? E você gosta ou pratica o Candomblé?
C: É na casa dela mesmo, tem um terreiro lá. Ela tem filhos de santo, isso
tudo. Tem um... eles já quiseram me levar para me envolver nesse ne-
goço todo aí, mas eu não quis, nem quero. MG: Porque não?
C: Porque eu não concordo, eu não acho uma coisa boa para mim, porque uma coisa é a gente olhar e estar do lado de fora. Outra coi- sa é a gente estar lá dentro. Porque eu convivo aí com Vó, eu sempre fui
criada por Vó. E quando Vó foi fazer a obrigação, essa lá na casa onde foi raspar, né, eu sempre estava com ela porque não tinha quem ficasse comigo. Porque Branca morou uns tempos com mãe. E eu nunca morei com mãe, sempre estive com Vó. Ai eu tinha que ir. Ela ficou uma vez uns três meses trancada, a gente sem ver a cara de Vó e quando ela saiu, com aquela cabeça raspada. Eu ficava assim olhando. E essa mania que tem de matar bicho, matar pombo...
MG: Você não gosta?
C: Eu fico com pena, matar bode... eu não gosto! Tem tipo de santo que
bate o rosto no chão, sangra, é uma coisa violenta. Eu não tenho nada
contra, mas para falar a verdade, não acho certo ou errado, nem deixo de acreditar, mas fico neutra. Não gosto de crente, coisa de de-
mônios, até dá medo! Gosto de Igreja católica. Acredito em Deus e
pronto. Uma vez disseram a minha mãe, que também é de santo, de
cabeça raspada e tudo, que tinha uma filha que ia seguir... E que essa era eu. Quando eu soube, fiquei a noite toda chorando.
(Célia, 26/01/99).
A negação de Célia em participar do mundo religioso da avó, tomando um caminho bem diferente, e apesar de ser das suas prediletas e desejo de uma herdeira é o que certamente criou as condições para que, passo a passo, Dalva, passasse a emergir como possível sucessora do legado desta mãe de santo. A relação entre Dalva e Dialunda parecia ser também de iniciação re- ligiosa, e a de uma potencial nova filha de santo.