4.3 PROCESSO DE CRIAÇÃO
4.3.1 Vinte dois de abril de 2009
No dia vinte dois de abril de 2009 na creche Monte Serrat, iniciei dizendo que havia trazido um livro de poemas e queria saber a opinião delas sobre aquele material e que o autor80 do livro se chamava Jacques Roubaud. Abri o livro e mostrei as imagens que ele continha - a primeira foi do Asno, e as crianças imediatamente disseram que era parecido com o burro do filme do Shrek. Perguntei a elas de que era feito aquele animal, disseram que era feito de nome. Num primeiro momento, não compreendi o que estavam dizendo, porém, continuei perguntando e elas responderam: tem o nome da Carla (C), do Mario (M), da Kenia (K), ficaram nomeando várias crianças. Foi naquele momento que compreendi que estavam referindo-se às letras. Riram muito em ver a girafa e a vaca, mas, quando mostrei o dinossauro, elas não o
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reconheceram de imediato, portanto, precisei virar a página, pois a imagem do dinossauro ocupou as duas páginas. Expliquei-lhes que esse animal era tão grande que precisou de duas páginas. Uma das crianças me disse que a gravura parecia com um dragão e outra me respondeu: parece com o dino da televisão (do seriado A Família Dinossauro) mas, logo em seguida, Mario diz em voz alta: isso é um dinossauro bem grande.
Mostrei a capa do livro com todos os animais e as crianças diziam, eles têm muitos nomes. Como elas já reconhecem o seu próprio nome e de alguns colegas, ficaram encantadas em ver aquelas letras. O encantamento foi tanto que não perceberam que o animal também era constituído de números. Apontei para os símbolos e perguntei o que era aquilo e me responderam: é o dois, tem muito dois ai. Manuela perguntou: o que é o dois? e Kenia responde imediatamente: é um número. Então, a professora pergunta novamente: de que são feitos os animais? e alguns dizem: de nome e de número. Explico ao grupo que o nome de todas as pessoas é feito de letras iguais aos animais de Jacques Roubaud.
As crianças pegaram o livro e folhearam e observaram bem de perto os animais, após vê-los, expliquei que, ao lado das figuras dos animais, estava o poema e que eu gostaria de lê-lo para elas e saber a opinião de cada criança. Iniciei lendo o poema do Asno:
O asno entre dois baldes de aveia Então eu vou ou eu volto
Se eu volto então não vou E se eu vou então não volto Mas se eu vou então vou E se volto então eu volto Talvez se eu for e voltar Voltar e for do mesmo modo Talvez tudo vá melhorar Antes eu ia, antigamente, E voltava depois, posteriormente; Hoje o medo de que, lá atrás Um dos baldes possa ser roubado Me deixa muito angustiado: Então não vou nem volto mais.
Elas se divertiram, por causa da sonoridade que as palavras provocavam no momento da leitura.
Perguntei às crianças:
o que está acontecendo aqui?
ele quer voltar-voltar, porque ele estava preocupado com o balde, alguém podia roubar. - responderam-me elas.
esse homem que escreveu é muito engraçado.- disse, ainda, Carla.
Podemos ainda acrescentar que as formas do poema e se volto então eu volto/Talvez se eu for e voltar/ ou ainda então não vou nem volto mais/ se movem como os animais. Essas rimas agradam tanto aos adultos como às crianças. O poeta e o tradutor brincam com os sons das palavras, numa espécie de jogo de palavras. A equivalência entre som e sentido aumenta o prazer provocado no decorrer da leitura.
Uma criança quis saber se o autor existia, onde morava e como falava. Expliquei que Jacques Roubaud falava francês e Inglês, era professor e que fazia poesia para crianças e adultos, morava na França na cidade de Paris, que ficava bem longe da creche, e que ele continuava escrevendo outras poesias. A criança disse ainda: É muito bonito o que ele diz, eu gostei.
Após olharem o livro e conversarmos, as crianças saíram do círculo em que estavam sentadas e foram para a outra sala, pegaram as mãos uma das outras e começaram de forma espontânea a repetir um trecho dançando:
Eu não sei se vou ou se volto, se eu voltar vou cuidar do meu balde.
Repetiam as frases criando mais um momento de experiência. Percebi que tudo soou como uma grande brincadeira, elas se envolviam a todo o momento, com o ritmo, o som, as letras e os animais. Sentiam a vibração das palavras que o poema proporcionou, a linguagem poética motivou as crianças a muitas reações fantásticas. Elas estavam ali abertas a aprender e afim de se divertirem. A linguagem feita para o prazer, a ideia de Benjamin, elas captaram com um único poema e repetiram porque querem sempre prazer.
Sabemos que para a criança ela [a repetição] é a alma do jogo; que nada a alegra mais do que “mais uma vez”. [...] E, de fato, toda e qualquer experiência mais profunda deseja insaciavelmente, até o final de todas as coisas, repetição e retorno, restabelecimento de uma situação primordial da qual nasceu o impulso primeiro. Para ela, porém, não basta duas vezes, mas sim sempre de novo, centenas e milhares de vezes. [...]. A essência do brincar não é um “fazer como se”, mas um “fazer sempre de novo” [...] (BENJAMIN, 2002, p.101).
As crianças interagiram, trocaram ideias, brincaram, cooperaram, expressaram seu conhecimento prévio acerca do mundo. Elas criaram um novo enredo, uma nova possibilidade de trabalho com o poema de Roubaud - a dança. Foi um momento de experimentação e de descoberta, contudo, foi a primeira vez que elas tiveram o contato com a leitura de um poema.
As páginas do livro são brancas, em contraposição ao texto em letras pretas. O texto poético aparece tanto quanto a ilustração, propõe uma interlocução maior entre texto-imagem. A ilustração é parte constituinte da obra literária destinada à criança e, da mesma forma que o texto, vincula uma leitura atuante.
Roubaud apresenta uma narrativa aventuresca, o jogo linguístico faz sua poesia revelar um acontecimento divertido. Em várias páginas de seu livro, as imagens ganham o mesmo destaque do texto. Seus textos revelam esta intimidade com a lógica numérica, dessa maneira surgem muitas brincadeiras e experimentações com a linguagem. Foi essa forma de apresentar o livro que chamou a atenção das crianças.
Curiosa para saber o que as crianças do outro morro iriam dizer sobre os poemas de Jacques Roubaud, fui com a mesma proposta e com os mesmos questionamentos à Creche Vó Inácia, em busca de perceber o que a poesia lhes provocaria. Percebi as várias possibilidades que elas apresentam e qual o significado do livro para cada criança.
Ana Lucia Goulart de Farias, em seu livro Territórios da infância (2009), apresenta o significado do livro para a criança, para ela o livro é algo para se pegar, sentir seu cheiro, ver as imagens, nomear, carregá-lo de um lado ao outro, olhar, viver cada página ou compartilhar.
É um objeto que funciona como uma porta por onde entram histórias e personagens, e que propõe imaginar cenas e cenários. O livro contém histórias que precisam ser lidas para ela, histórias grandes, encantadas, que dão vontade de ler, de se maravilhar, de conhecer o mundo arregalando os olhos e aprendendo a escutar e imaginar (FARIAS, 2009, p. 07).
Por meio dos livros, as crianças entram em contato com uma representação do mundo construída por meio das imagens e das palavras, que definem, conjuntamente, seus significados e valores.
Quando lemos para as crianças elas aprendem e imaginam coisas diversas. A criança deflagra diferentes enredos enriquecendo sua fantasia e linguagem.
Parafraseando Pierre Bourdieu, em sua obra A economia das trocas línguísticas (1998), há mudanças em um texto no momento em que se altera o mundo social em que ele está introduzido (1998, p. 22). Em outras palavras, ao entrar na esfera da educação infantil, um texto se altera e se transforma permitindo diferentes significados.
Ilustração 15 - Conhecendo os poemas de Jacques Roubaud
No contexto desta pesquisa, as crianças escutaram diferentes narrativas, aproximaram-se dos poemas e dialogaram com o texto. Os vários poemas trabalhados ganharam novos traços, foram reconstruídos com movimentos e expressões, revelando o processo social e o quadro das relações sociais em que estão inseridos esses sujeitos. Neste momento em que as crianças têm a oportunidade de conhecerem uma obra de um poeta, elas fazem muitas perguntas: - Quem é ele?; - Gosto dele porque usa letra e número; - Gostei do livro, porque tem muitos animais que eu gosto. As crianças vão questionando e dando sua opinião das razões que as levam a dialogar. Elas querem estar ali, sentadas comigo na roda, por um bom tempo, sem pressão ou alguma ameaça. Elas apenas querem estar ali.