2. Edith Stein 32
2.2 Visão de pessoa em Edith Stein 37
A visão de pessoa em Edith Stein é apresentada neste item tendo como base a obra A
estrutura da pessoa humana e um curso ministrado pela professora Angela Ales Bello na Universidade de São Paulo de Ribeirão Preto em 2009, cujo tema era a referida obra.
A estrutura da pessoa humana17 é fruto de um curso que Edith Stein deu no Instituto de Pedagogia de Münster, onde lecionava Filosofia da Educação. Diferentemente da Pedagogia, cujo objeto de estudo são os processos educativos, a Filosofia da Educação pergunta-se sobre a definição de educação. O que quer dizer educação? Esta era a pergunta de base de seu curso e, para abordá-la, a autora afirma a necessidade de partir de um processo de reflexão anterior e perguntar-se sobre quem é educado, ou seja, a quem a educação se destina.
Segundo a autora, toda ação educativa é acompanhada por uma visão de mundo e de ser humano, ou seja, por uma metafísica. Stein acha necessário explicitar esta visão para não perder de vista o todo. Para tanto, ela propõe um colóquio entre as disciplinas Psicologia e Pedagogia e a Filosofia. Para Ales Bello, esta é uma grande contribuição da autora já que, segundo seu ponto de vista, a importância desta fundamentação metafísica é deixada de lado por aquelas disciplinas. Ales Bello pensa que as disciplinas estão fechadas em seu próprio ângulo e que acabam sendo reduzidas a técnicas práticas e imediatistas. Ela afirma que a parte técnica é necessária mas precisa estar contextualizada na visão de ser humano.
17 A obra Der Aufbau der menschlichen Person foi traduzida para o italiano como Estrutura da Pessoa Humana, embora o título original não usasse o termo “estrutura” e sim “constituição”. A palavra Aufbaun significa uma construção que tem muitas partes e que deve ser analisada, daí a ideia de constituição. Apesar da tradução utilizar o termo estrutura por motivos didáticos, preferimos utilizar no presente trabalho o termo “constituição”, por achar que ele é mais fiel ao sentido da investigação fenomenológica. O termo “estrutura” passa uma ideia de algo rígido e acabado, o que não condiz com a posição de Edith Stein em relação à sua visão de pessoa. A pessoa é sempre estudada a partir da sua experiência, não há um quadro estrutural rígido sobre ela, mas uma descrição vivencial, que nos passa uma ideia de dinamismo, de movimento. Além disso, concordando com Husserl, Stein deixa claro que não tem a pretensão de esgotar a compreensão da pessoa, mas afirma a sua inesgotabilidade. Segundo Ales Bello, Husserl, ao falar sobre a interioridade do ser humano, cita Heráclito, que afirma que qualquer caminho que se percorra jamais chegará a encontrar os confins da alma, de tão profundo que é seu fundo. Para o autor, qualquer fundo que se alcançe reenviará sempre a outros fundos, qualquer horizonte que se descortine reenviará a outros horizontes. Segundo Ales Bello, é por isso que a análise da pessoa não pode ser feita de uma vez por todas. Somos forçados a recomeçar do início, na tentativa quase sempre falida de dar uma estrutura definitiva. Trata-se de contatos, que ora de um lado, ora de outro, aproximam-se do fenômeno da interioridade do ser humano, evidenciando aspectos válidos, identificando estruturas, mas nunca esgotando o conhecimento. Delinear um mapa completo desse território acidentado não seria possível (ALES BELLO, 2007).
Para responder à questão de como o ser humano é constituído, Stein utiliza-se do método fenomenológico husserliano. Através da redução transcendental coloca-se diante do ser humano como um fenômeno que se manifesta a ela. Aproxima-se deste fenômeno não apenas através do contato com outros seres humanos, mas principalmente a partir de um mergulho em si mesma. Ela afirma:
Se queremos saber o que é ser humano, devemos nos colocar de modo o mais vivo possível na situação onde fazemos a experiência do seu ser, ou seja, daquilo que experimentamos em nós mesmos e o que experimentamos no encontro com os outros. (STEIN, 2000, p. 66)18 Faz um trabalho de escavação interior que lhe permite compreender a essência do ser humano, ou seja, sua constituição interna. A partir desta análise descobre que temos muitas experiências e começa a observar como estas experiências são vividas por nós. Chama a experiência vivida de vivência. Percebe que há diferentes tipos de vivências e utiliza-se de exemplos de experiências concretas para descrevê-las, pois toda a sua análise parte da experiência.
A título ilustrativo, serviremo-nos de um exemplo trazido pela professora Ales Bello durante o curso. Estou passeando na rua e vejo um vestido na vitrine de uma loja. Ao ver o vestido, posso gostar ou não dele, ou seja, ele pode me causar atração ou repulsa. Caso eu goste do vestido, avalio se tenho condições de comprá-lo. Após esta avaliação, decido se o compro ou não.
Na experiência relatada acima, podemos identificar os tipos de vivências descritos por Stein. Em primeiro lugar percebo o vestido. Para perceber uma coisa, precisamos do corpo. Esta é, portanto, uma vivência corporal. Após perceber o vestido, sinto-me atraída ou não por ele. Esta é uma função da psique e, portanto, uma vivência psíquica. Em seguida me pergunto se posso comprar aquele vestido. Realizo com este ato uma avaliação intelectual. E, por fim, tomo a decisão de comprá-lo ou não, realizando um ato da vontade. Tanto a avaliação intelectual como a tomada de decisão (vontade) são funções de uma dimensão que Stein chama de espiritual. São, portanto, vivências espirituais.
O exemplo citado nos mostra, portanto, vivências de diferentes níveis: corporais, psíquicas, intelectuais e volitivas. Ou, se preferirmos, corporais, psíquicas e espirituais. Segundo Stein, cada um destes tipos de vivência corresponde a uma dimensão constitutiva do ser humano. Assim, na visão da autora, o ser humano é constituído de corpo, psique e espírito.19 O corpo é responsável pelas vivências corpóreas como a percepção, o registro de sensações e os instintos em geral; à psique correspondem as vivências psíquicas como reações de atração ou repulsa, emoções e sentimentos; e ao espírito, as vivências espirituais ligadas ao intelecto e à vontade tais como decisões, reflexões, avaliações e tomadas de posição consciente.
Apesar desta diferenciação em relação às dimensões, Stein afirma que há uma unidade profunda entre elas. Ao analisar o aspecto corporal do ser humano, por exemplo, percebe que o corpo não é simplesmente matéria, mas sim um organismo vivo, que se move, sente etc. É impossível separar o corpo deste seu movimento. Corpo e psique andam juntos e a esta unidade a autora denomina corpo vivente.20 Já a unidade psique e espírito a autora chama de alma.
Tanto o corpo vivente (corpo e psique) quanto o espírito possuem uma força que os impulsiona a viver. Edith Stein chama-as respectivamente de força vital sensível e força
vital espiritual. Estas forças se influenciam mutuamente e nos ajudam a compreender a unidade entre as dimensões. A nossa disposição ou cansaço para realizar alguma ação depende da força vital sensível. Já a força vital espiritual diz respeito à motivação que temos para realizar uma ação. Ela pode influenciar a força vital sensível quando, por exemplo, estou cansado mas tenho algo que considero muito importante e então encontro a força para realizar.
19 A palavra “espírito” é tradução do alemão Geist, e significa tudo aquilo que é especificamente humano.
Ao analisar as diferentes dimensões, Stein afirma que o ser humano é um microcosmos, ou seja, ele contém em si todos os elementos presentes na natureza: elementos do reino vegetal, elementos do reino animal e elementos especificamente humanos. Não aprofundaremos este tema no presente trabalho, mas ele pode ser encontrado na obra Estrutura da Pessoa Humana.
20 Esta expressão é uma tradução de Leib (do alemão). O significado de Leib deriva do fato de que o
corpo próprio enquanto tal é um corpo vivente, um corpo ligado a um princípio vital (STEIN, 1998, p.126). A noção de organismo em relação ao corpo está ligada à ideia de que sua forma externa é formada desde dentro. A forma interior é qualitativamente determinada, ou seja, é uma espécie. Isto vale para todos os seres vivos (vegetal, animal) e não apenas para o ser humano. Como exemplo, Stein cita o embrião, que tem uma potencialidade interna que vai para fora. Esta afirmação vai contra a mentalidade positivista que dizia que todo o universo é uma máquina. Não. O universo é um organismo que tem diferenças qualitativas. Há elementos distintivos.
A unidade entre as dimensões constitutivas do ser humano pode ser percebida também através do exemplo do vestido acima citado. Ele nos mostra como a experiência humana é marcada por todas estas dimensões, que acontecem concomitantemente e exercem influência umas sobre as outras. Retomando o exemplo, em primeiro lugar, podemos imaginar que eu me sinta atraída pelo vestido, avalie que possuo o dinheiro para comprar e decido comprá-lo. Neste caso, a dimensão psíquica e espiritual estão em sintonia. Mas poderia acontecer, também, que eu gostasse tanto do vestido que, mesmo avaliando que não teria dinheiro suficiente, resolvo fazer uma dívida e comprá-lo. Neste caso, o psíquico teve uma atração tão forte que o intelecto e a vontade seguiram a psique.21 Podemos imaginar também uma outra situação onde eu goste do vestido mas, ao avaliar que não possuo o dinheiro suficiente, decido não comprá-lo. Neste caso, a psique ficou subordinada à dimensão espiritual.
Através das vivências espirituais, ou seja, da capacidade de refletir, avaliar, decidir, o ser humano pode colocar em prática a sua liberdade e responsabilidade. Quem realiza essas vivências é a pessoa espiritual, que Edith Stein chama de eu. O eu não está em um lugar físico, ele pode circular por toda parte, conferindo unidade ao ser humano. Podemos, por exemplo, sentir frio nos pés. Esta é uma experiência. Mas, além de sentir, esta sensação pode se tornar objeto de minha reflexão. Posso, com minha mente, percorrer meus pés, passar por cada dedo e constatar as minhas sensações. Neste caso, o eu encontrar-se-á nos pés. Portanto, sua localização é determinada de acordo com a vivência, com seu objeto de reflexão. O eu é a consciência, que contém todas as vivências encadeadas em uma unidade que Stein chama de fluxo de vivências.
Na tentativa de clarear melhor essas noções, podemos pensar da seguinte maneira: através da reflexão – que é uma vivência espiritual – as nossas experiências cotidianas se tornam vivências. Por exemplo, quando conversamos com alguém ou quando escrevemos um bilhete, na maioria das vezes realizamos essas experiências sem nos
21 Segundo afirmação da professora Ales Bello durante o curso (), isto não quer dizer que os elementos
psíquicos sejam negativos. A maioria deles são neutros. O instinto não é bom ou mal. O é em função de uma avaliação global de caráter intelectual e volitivo. O problema é se tomo uma decisão pela atração e depois isto me causa um dano. Não respeito a mim mesmo e me coloco em uma situação de dificuldade. Há também casos patológicos, como no caso de uma depressão grave, em que a vontade não chega a ter uma autonomia. Neste caso, a liberdade e a responsabilidade estão comprometidas.
darmos conta do que estamos fazendo, ou seja, não pensamos: agora estou conversando com tal pessoa, ou agora estou escrevendo um bilhete. Mas, a partir do momento em que reflito sobre estas experiências, então tomo consciência de tê-las vivido ou de as estar vivendo, capto o seu sentido e elas se tornam uma experiência vivida e, portanto, uma vivência. Assim, uma experiência se torna vivência quando refletimos sobre ela, quando tomamos consciência dela. Por isso, o eu – ou a consciência – é o local das vivências. É nele que encontramos o fluxo de vivências; uma unidade indivisível onde as vivências se unem umas às outras através da motivação. Quando estamos diante de uma coisa física, por exemplo, e vemos apenas uma parte desta coisa, consideramos verdadeiro o fato de que existem outras partes. Esta suposição pode nos motivar a realizar um movimento livre de ir verificá-la com a nossa própria percepção. Um outro exemplo de união entre vivências através da motivação é quando colhemos um valor e este valor motiva o nosso querer e o nosso agir (STEIN, 1999b, p. 13). Vemos, portanto, que a motivação une as vivências de forma que uma vivência só é possível em virtude da vivência anterior a ela.
... de fato não se trata de uma simples união como aquela de fases que se sucedem contemporaneamente ou uma seguida da outra..., nem de uma relação associativa de vivências; trata-se de uma vivência que provém de outra, de uma vivência que se cumpre sobre a base de outra, pelo querer da outra. (STEIN, 1999b, p. 73)22
Stein diferencia a motivação de uma modalidade diferente de conexão que é a
causalidade. Enquanto a primeira é compreendida como uma modalidade própria da vida espiritual e, portanto, relacionada às vivências intencionais do eu, a segunda diz respeito à vida sensível que comporta as naturezas física e psíquica. Esta distinção é importante porque nos permite compreender o modo como as forças vital sensível e vital espiritual de uma pessoa podem oscilar de acordo com as situações, e como uma passagem de forças é possível de um indivíduo a outro, ou ainda – como veremos mais adiante – de uma comunidade a outra. Na natureza física, por exemplo, a força se manifesta através dos acontecimentos. Na psique, a força é colhida através do modo de
viver as vivências que Stein chama de estados vitais.23 Os estados vitais são estados psíquicos dos indivíduos que dão uma coloração e uma intensidade específica ao viver.
Assim, retomando a constituição básica do ser humano na forma como esta se desvelou para Stein a partir da análise fenomenológica da experiência humana, temos que a pessoa possui vivências de diferentes tipos e que cada um destes tipos revela uma dimensão do ser humano. Este é, segundo a autora, uma unidade constituída pelas dimensões corpórea, psíquica e espiritual. À unidade corpo e psique, a autora denomina
corpo vivente. Já a unidade psique e espírito é compreendida como alma. Além disso, as vivências espirituais são realizadas pelo eu, consciência que contém todas as vivências, que circula por todas as dimensões e lhes confere unidade. É através do eu que temos acesso às vivências. É ele quem nos diz que há diferentes dimensões. Poderíamos ilustrar esta descrição da seguinte maneira:
Corpo Corpo Vivente
Alma Psique – força vital EU = Consciência Espírito (Intelecto e Vontade) Fluxo vivências
Esta constituição nos fala daquilo que é comum entre todas as pessoas. Entretanto, Stein afirma que é impossível compreender o ser humano se não colhermos a sua singularidade. Quando encontramo-nos com uma pessoa, não nos encontramos com suas características universais. Encontramo-nos com alguém que possui um nome, alguém único, com uma identidade pessoal. Segundo a autora, esta identidade encontra- se no mais profundo da pessoa, no centro da alma, em um núcleo que ela denomina
alma da alma.24 Neste núcleo encontramos um tipo de marca distintiva, uma identificação ontológica que nos permite dizer que há uma identidade inconfundível, ou seja, que faz com que uma pessoa se torne aquela pessoa.
23 Stein diferencia os estados vitais dos sentimentos vitais. A consciência de um estado vital, o seu ser
vivido – vivência – é um sentimento vital. O estado vital é, portanto, aquilo que se vive, e o sentimento vital é a consciência desta experiência, ou seja, a vivência (STEIN, 1999b, p. 56).
24 A palavra utilizada pela autora para designar este lugar é Kern, que significa centro, ponto de encontro
O núcleo nos acompanha desde o nascimento e contém as indicações das potencialidades que cada um pode desenvolver. Entretanto, este desenvolvimento não é automático. Podemos viver ou não de acordo com o núcleo, ou seja, podemos viver respeitando a nossa identidade própria, ou podemos viver, por exemplo, seguindo modelos externos a nós e alienando-nos daquilo que nos é mais próprio e pessoal. A compreensão desta dinâmica é muito importante para a ideia de formação desenvolvida por Edith Stein. Aprofundaremos este tema mais adiante, no item sobre formação. Apresentamos no momento apenas as contribuições necessárias para a compreensão da visão de comunidade da autora, a qual abordamos a seguir.