24 XXVII SIMPÓSIO NACIONAL DE HISTÓRIA CONHECIMENTO HISTÓRICO E DIÁLOGO SOCIAL Natal, Rio Grande do Norte, 22-26 julho, 2013.
1.2.1. VOZ DO NARRADOR E VELOCIDADE DA NARRATIVA
Constituído por quarenta e dois capítulos, dispostos em dezessete partes e ocupando duzentos e cinquenta e sete páginas, o livro em discussão é marcado pela abrangência de temas, tratados de forma subjetiva, sem linearidade, sem obedecer a uma linha evolutiva e cronológica. Os capítulos e as partes são apresentados tendo como lógica apenas a individualidade de seu autor, que não traz introdução, prefácio, notas nem referências bibliográficas ou documentais apesar de citá-las no início de cada capítulo como uma estratégia de desenvolvimento de determinado tema. De certa forma, o título reflete a dispersão interna na escrita: o autor apresenta ideias e palavras que julgou importante serem lançadas diante do contexto espiritual e cultural no qual se encontra a Humanidade. Aliás, a voz narrativa, tecida explicitamente em primeira pessoa, tem como foco de preocupação a humanidade, de modo que mesmo informações referidas à história local do seu Ceará ou de um país ou cidade pouco conhecida são percebidos como grandes acontecimentos humanitários, portanto, dignos de nota. Partindo de acontecimentos locais enquanto para demonstrar realidades mais genéricas e dentro de grande quantidade de temas, a narrativa torna-se densa e pesada, jogando muitas informações para o leitor. Embora cada capítulo tenha sua leveza própria e sua coerência interna, considerando o conjunto dos capítulos, a densidade prevalece sobre a leveza.
O autor assume um tom pessimista em relação ao mundo contemporâneo, pois supõe que a humanidade está regredindo intelectual e culturalmente, nesse sentido, a sua escrita assume também a missão de salvação dessa mesma humanidade. Assim, assumindo um ponto de vista ocidental, Barroso começa o livro fazendo alusão a dois grandes
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32 acontecimentos: no seu momento contemporâneo, a humanidade se apegava a dois modernismos (no plural), isto é, o desejo pela violência e pela busca da feiura, o que seria representado pela incidência das guerras, e a falta de liberdade para com as crianças, o que seria representado pelo papel desempenhado pela política norte-americana e pela riqueza econômica de sua população49; outro acontecimento é a “morte das lendas”.50 Podemos entender que Barroso concebe a morte das lendas como uma luta iniciada pelos cientistas contra os escritores de ficção e que a ficção é importante por ser um bem da humanidade, uma herança do passado e foco privilegiado da sensibilidade humana enquanto expressão dos seus sentimentos. A ciência, qual boca enorme, ofusca e até apaga a ficção. Barroso lamenta essa situação, e defende a união entre ciência e lendas, entre realidade e ficção, porque a ficção ajuda a esclarecer a vida humana, razão pela qual ele emprega a metáfora da luz para designá- la. Assim, ele advoga pelo ficcional, por uma escrita baseada mais num esforço imaginativo do que na racionalidade. E, de certa forma, essa intenção é incorporada integralmente ao livro, tendo em vista a sua diversidade e mistura de temas.
Exemplo também desse pessimismo é a fixação que ele passa a ter na guerra, contrapondo-se a ela, porque no contexto da Grande Guerra (1914-1918)51 os conflitos bélicos já se faziam sentir de forma muito degradante para as sociedades ocidentalizadas. 52. Sentindo essas condições, ele passava a conceber a sua missão de escrita do livro nesses termos:
Sem o amor do passado e a lição dos feitos antigos, não pode haver nacionalidade. Amar a história é amar a terra. Uma não passa de corolário da outra. Até hoje, quase não temos esforços nesse sentido. 53
Sendo assim, podemos entender que o esforço de reunir diversos temas no livro em discussão com a motivação em escrevê-lo se inseria no esforço do autor de desenvolver a
49 JOÃO DO NORTE (Gustavo Barroso). Op. cit. p. 16-24. 50 JOÃO DO NORTE (Gustavo Barroso). Op. cit. p. 5-14.
51 Sobre o impacto da Grande Guerra na mudança de pensamento dos homens e como clivagem histórica, ver: FERRO, Marc. A Grande Guerra. São Paulo: Companhia das Letras, 2000; e HOBSBAWM, Eric. A era da guerra total. In:______. Era dos Extremos: o breve século XX: 1914-1991. São Paulo: Companhia das Letras, 1995. p. 29-60.
52
JOÃO DO NORTE (Gustavo Barroso). Op. cit. p. 69-80; 137-158; 227-245. 53 JOÃO DO NORTE (Gustavo Barroso). Op. cit. p. 37.
33 nacionalidade brasileira. Os temas por mais amplos e distantes que pareçam, como o Oriente54, por exemplo, são concebidos como depósitos da nacionalidade brasileira, nisso ficando evidenciado o veio romântico do livro.
A velocidade da narrativa é mediada pelos comentários a acontecimentos oriundos de leituras de livros, de jornais ou da observação empírica de Barroso. A ordem de escrita é articulada, contando com parágrafos curtos e cujo início do texto começa com a referência à fonte documental para apresentar uma interpretação ou com a conclusão do autor sobre o conteúdo da fonte e em seguida a crítica à fonte, fonte esta que geralmente está escrita em língua francesa geralmente ou inglesa, em menor dimensão, porque o autor acreditava que a intelectualidade brasileira era decadente em relação à intelectualidade francesa. 55 Com isso, a leitura torna-se mais dinâmica e rápida, inclusive, porque cada capítulo tem em média três páginas. Nesse aspecto, devemos notar a importância que o autor concede à precisão no tempo e no espaço à explanação dos acontecimentos, de modo que inexiste aqui a presença de uma perspectiva mitológica implicada no seu romantismo. Considerando de forma positiva o saber histórico, o romantismo está mais caracterizado em antimodernismo e na defesa de tradições históricas populares, entendidas no caso enquanto culto às vitórias e às memórias dos militares enquanto uma condição geral, de todas as nações, para o afloramento do nacionalismo, como também o culto de objetos arquitetônicos históricos a exemplo das grandes cidades europeias, nesse sentido, é que ele propõe a criação de um museu militar e a criação dos Dragões da Independência. 56
Assim, ele chega a fazer a analogia entre o Caso Panther, quando no início do século XX, portanto, no mesmo momento em que ele escrevia, um navio alemão afunda um navio brasileiro na costa do Rio de Janeiro, e as lendas dos navios fantasmas noruegueses da Antiguidade, querendo com isso mostrar que a nação brasileira encontra-se acuada e submissa na política externa devido ao abandono ou ao desconhecimento das suas tradições. 57
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JOÃO DO NORTE (Gustavo Barroso). Op. cit. p. 178-200. 55 Cf. JOÃO DO NORTE (Gustavo Barroso). Op. cit. p. 172. 56 JOÃO DO NORTE (Gustavo Barroso). Op. cit. p. 25-48.
57 JOÃO DO NORTE (Gustavo Barroso). Op. cit. p. 237-238. Essa preocupação do autor assinala, assim, a preocupação com o imperialismo, no caso especificamente com o imperialismo, que vai ser uma pedra fundamental para o fascismo da década de 1930. Devemos observar ainda que, no Caso Panther, nenhum navio foi derrubado. Sobre o Caso Panther, ver: PEIXOTO, Renato Amado. “Depois aconteça o que acontecer”: por uma rediscussão do Caso Panther e da política externa de Rio Branco. Revista Brasileira de Política Internacional. N. 54, v. 1, p. 44-66, 2011.
34 1.2.2. ESCALAS ESPACIAIS E OS PERSONAGENS
O discurso narrativo de Barroso (1917) destaca diversas referências geográficas internacionais e locais, do passado e do presente, concebendo-as enquanto episódios do perene conflito entre Ocidente e Oriente e enquanto depósitos da nacionalidade brasileira a partir de um olhar idealista (e não materialista). Esse quadro faz com que o jogo de escalas espaciais não seja hierarquizado e que exista uma alternância entre o internacional e o local, com predominância do internacional ao longo dos capítulos, e que a escala do nacional seja produzida por meio da interação entre essas duas outras escalas. Desse modo, os personagens principais da narrativa são países, cidades, lendas e tradições, sendo raras as menções à ação de pessoas senão àquelas autoras de matérias de jornais e de capítulos de livros, cujas informações foram coletadas para a escrita do livro ora em discussão.
Na parte “Da minha terra”, o primeiro capítulo é dedicado à de cidade de Icó, localizada no sertão do seu “feliz Ceará”. Baseado em uma matéria do jornal local “O Relâmpago”, de 6 de abril de 1890, e considerando a monarquia uma instituição “corrupta e ominosa”, o caso local é apresentado como um exemplo do que ocorrera em todos os Estados brasileiros quando da proclamação da República. A cidade de Icó, outrora “centro econômico do Ceará”, resiste à proclamação republicana e entra em guerra em defesa de seus interesses econômicos e em resistência ao regime republicano. 58 Na parte “Itália contra a Turquia”, por seu turno, a guerra entre esses dois países é percebida como uma guerra entre Ocidente e Oriente, com a Itália representando Roma e a Turquia representando Bizâncio e os povos bárbaros. Na perspectiva do autor, trata-se de uma vingança, porque “a história nos diz que foi sempre o oriente suntuoso, que, exorbitando de seus limites, veio sobre o ocidente a espavorir as tímidas populações”59
, de modo que as nações são vistas como o acúmulo de forças históricas perenes, com posicionamentos e comportamentos constantes e que perpassam, pois, os recortes históricos entre Antiguidade e Idade Contemporânea. Repercutindo uma formação de cunho europeu e predominante no Brasil até pelo menos a década de 1950, as escalas espaciais aparecem em Barroso de forma indissociável de orientações temporais; é o espaço que introduz uma perspectiva temporal. 60
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JOÃO DO NORTE (Gustavo Barroso). Op. cit. p. 103-106. 59 JOÃO DO NORTE (Gustavo Barroso). Op. cit. p. 71.
60 Nesse sentido, o texto de Barroso se insere na tradição moderna de conceber História e espaço como categorias indissociáveis nos estudos culturais. Ver: KOSELLECK, Reinhart. Raum und Geschichte. In:______. Zeitschichten: Studien zur Historik. Frankfurt am Main: Suhrkamp Verlag, 2000.p. 78-96. Sabemos que no
35 Nessa linha de espaço-tempo e da dicotomia entre Ocidente e Oriente, aparecem também como personagens o islamismo, a guerra dos países balcânicos, o típico japonês e o Filho do Céu na China. Sempre dispondo as sociedades orientais a partir do discurso da guerra e vinculando-as à barbárie, o autor retrata a China a partir de um acontecimento cristão, notadamente a atuação do “Filho do Céu” e a crença de que a China tornar-se-ia uma república após a sua queda. 61 Em relação ao Japão, considerado atrasado e conservador nas artes pelo autor, aparece como personagem o “japonês de verdade”, o senhor Nagoshi, que denunciara a censura do governo e a falta de liberdade de pensamento em matéria de produção literária. 62 O islamismo, por sua vez, age a partir do domínio de três cidades: Meca, Constantinopla e Cairo, de modo que para derrota-lo seria necessária a tomada dessas três cidades. 63
No tocante diretamente à sociedade brasileira, podemos identificar enquanto personagens cujas ações são retratadas na narrativa barrosiana: os índios e os negros, os pássaros, os insetos, o maracatu, os brinquedos de carnaval e a mancenilha. A lenda da mancenilha enquanto personagem consiste em dizer da árvore assassina, cuja ação consistiu em ter influenciado e servido de inspiração para grandes poetas, mas que estava a desaparecer em nome do progresso.64 O maracatu surge como a grande festa nordestina, é o “carnaval do Nordeste”, enquanto os brinquedos de carnaval, tais como as serpentinas e as bisnagas, atuam como produtores de uma “educação carnavalesca” para os populares. 65
Além desses personagens, dois especialmente parecem fascinar o autor. No caso dos negros e índios, o autor faz o elogio da miscigenação, querendo demonstrar por meio da descrição de alvarás do século XVIII emitidos pela Coroa Portuguesa que esse é uma das bases sobre a qual se ergueu a nacionalidade brasileira, trazendo ainda um exemplo de lei para tentar mostrar que no Brasil os cursos de História e de Geografia permaneceram unificados até pelo menos 1940 e que essa unificação foi um dos pilares para a invenção da nação brasileira e do posicionamento nas relações exteriores, ver: PEIXOTO, Renato Amado. A Flecha e o Alvo: as origens, as transformações e a função do curso de História da Cartografia lecionado por Jaime Cortesão no Ministério das Relações Exteriores. Antíteses, v. 7, n. 13, p. 184- 209, jan./jun. 2014.
61 JOÃO DO NORTE (Gustavo Barroso). Op. cit. p. 192-195. 62 JOÃO DO NORTE (Gustavo Barroso). Op. cit. p. 185-189. 63 JOÃO DO NORTE (Gustavo Barroso). Op. cit. p. 137-139. 64 JOÃO DO NORTE (Gustavo Barroso). Op. cit. p. 7-10. 65
36 período de escrita do livro a Alemanha estava tomando a iniciativa de fomentar a miscigenação, o que para ele valeria por si só como exemplo histórico. 66 Baseando-se em Michelet, o autor faz uma ode aos pássaros, cuja função propícia foi fermentar a mente humana, pois foi graças aos pássaros que os homem passaram a sentir o desejo de voar e com tal desejo produziram tecnologias com vistas ao desejo de voar. 67
Nesse sentido, podemos perceber que a construção dos personagens considera duas referências distintas. Inicialmente, personagens como pássaros, brinquedos, festas e lendas traduzem especificamente a sua preocupação romântica e folclorista, porque essas manifestações são trabalhadas com vistas a uma explanação acerca da nacionalidade brasileira, acerca do povo brasileiro. O autor mesmo atua, nesse ponto, como um coletor de objetos folclóricos, só que ao invés do contato direto com os populares permanece um conhecimento livresco, baseado em matérias de jornais e capítulos de livros estrangeiros. O conhecimento só não é livresco quando o autor refere-se diretamente ao Ceará, terra que aparentemente conhece bem e por meio da qual tece uma explanação específica, baseada em sua sensibilidade e presença na região, no contato com a flora e a fauna, com traços bastante pessoais. Além desse veio folclórico-romântico, existe uma preocupação com outros personagens distintos da forma e da escolha dos românticos: trata-se da sua preocupação com as guerras, um verdadeiro apego aos personagens.
Acreditamos que enquanto um homem com experiência entre o século XIX e o XIX, vivendo nesse limiar, Barroso aprendeu que as guerras desempenham uma força importante na construção de sociedades, nas relações econômicas e políticas, alterando mapas e propiciando uma série de relações de saber e de poder. No momento em que escreve esse livro, estava a se desenrolar também a Grande Guerra, que funcionou como um ponto de clivagem na compreensão e na formulação de combates bélicos, porque era um tipo de guerra até então desconhecida pela humanidade, porque teve um número elevadíssimo de mortes (superior até ao da Segunda Guerra, entre 1939-45), devastando a Europa enquanto consequência primeira do imperialismo. A Grande Guerra, em nossa opinião, impressionou sobremaneira Barroso, até porque ele claramente tinha uma sensibilidade maior para os assuntos da política externa e para os assuntos internacionais e estrangeiros do que propriamente para os nacionais, tendo em vista que a própria dinâmica das escalas espaciais
66 JOÃO DO NORTE (Gustavo Barroso). Op. cit. p. 51-55. 67
37 presentes em sua narrativa não permitia uma fronteira precisa entre elas. Isso porque a guerra ocupa uma centralidade na narrativa de Barroso juntamente com o predomínio da escala internacional.