Capítulo 5 Escutando sobre voz: com a vez os professores
Capítulo 6 A voz precisa ter sua vez
É certo que, quando estamos na posição de ouvintes, damos preferência a certas habilidades comunicativas demonstradas pelo nosso interlocutor. Dependendo do conteúdo de sua mensagem, da forma como utiliza as palavras, as pausas, às entonações, na medida em que põe vida naquilo que quer dizer, atrai (ou não) seus ouvintes.
A voz é essencial para envolver afetivamente aquele que a ouve. Você já percebeu isso? Quando a socialização dos saberes, é científica e emocional (Pietrocola, 2001) o aprendizado tem a chance de tornar-se significativo para o aluno, que mais facilmente se apropriará de novos conhecimentos. Você coloca emoção e coração naquilo que ensina? Permite-se o direito de aprender a todo e qualquer momento? Propõe aulas menos expositivas, mais participativas, dialogadas? Gera algum tipo de prazer em aprender ao seu aluno? Pense nisso...
É pelas interações, sejam elas sociais ou essencialmente pedagógicas, que o conhecimento vai sendo “transmitido” e ao mesmo tempo construído, e nesse sentido mais significativamente pela presença da afetividade, da motivação, do prazer em ensinar/aprender que contagia. A voz é parte desse contexto por si só, como um instrumento “inato” que socialmente aprendemos a utilizar a nosso favor, para expressar nossos pensamentos, aprendizados e sentimentos. Como instrumento de trabalho, quando reconhecido como tal pode oferecer mais contribuições.
Também pela voz eu posso, cativar, convencer, chamar e/ou prender a atenção, motivar as pessoas, aos alunos, outros professores. Na perspectiva da Educação Científica e Tecnológica, essas características e funções trazidas pela voz do professor, sobretudo, contribuem substancialmente para a formação de alunos-futuros professores -cidadãos, mais críticos, reflexivos e comprometidos com as questões sociais, ambientais, sócio-histórico-culturais e educacionais.
É inevitável que a escola acompanhe o desenvolvimento de sua sociedade, não somente hoje, mas olhando para o ontem, com direcionamento para o futuro, tentando
trazer à tona, discussões sobre muitos aspectos, entre eles também a comunicação oral, pela voz. Parar para conversar sobre o assunto, ouvindo o que o professor tem a dizer, e com essa pesquisa confirmou-se que ele tem muito a dizer, amplia também a percepção dele, com relação ao fato de que a voz é um instrumento relevante para sua prática.
Essa dissertação pode ser o início de um despertar para a consciência e tomada de atitude. É necessário evitar o uso automático da voz, buscando conhecê-la, compreendendo seu funcionamento, para quem sabe assim, aprimorá-la no sentido de favorecer as situações de ensino-aprendizagem.
É imprescindível referir que possivelmente, o material coletado nas escutas, contenha mais conteúdos a serem explorados e discutidos, além daqueles que minhas análises puderam captar nos depoimentos. Além disso, para cada leitor, tanto as minhas inferências quanto aqueles excertos não comentados, ficam sujeitos às suas próprias interpretações.
Independente disso considero que as análises obtidas poderão auxiliar na percepção da intencionalidade de construção de conhecimento por parte do professor, pelos ajustes vocais, refletindo-se também no aluno.
Dialogar sobre a voz possibilitou, no presente trabalho, refletir sobre o papel da produção vocal no contexto do ensino, permitindo situações de auto-avaliação para o professor seja essa, sobre ele próprio, sobre seus colegas de profissão ou mesmo sobre os futuros professores que se encontram sob sua responsabilidade, no período de formação.
Outro aspecto importante, verificado neste estudo, diz respeito às funções que a voz pode assumir nos espaços sociais/pedagógicos. Mesmo embasados por conhecimentos de senso comum e/ou pela própria experiência, os professores em seus depoimentos, ainda que com certa dificuldade, confirmam a presença dessas funções pela voz na sala de aula.
Discutir essas funções pode proporcionar uma visão mais ampla do que esse instrumento de trabalho/de comunicação interpessoal/de interação-social tem a oferecer à medida que é assim visto, especialmente na perspectiva educacional.
A voz, através dos recursos e ajustes disponíveis, deslocando-se do “natural” para o “construído”, pode então auxiliar certas transformações na prática docente, em especial para aqueles que pouco dominam esse recurso didático (no sentido de instrumento de trabalho/ensino).
Além disso, a voz ou os ajustes vocais, pode favorecer o processo ensino- aprendizagem, minimizando algumas dificuldades entre a relação professor-aluno, uma vez que, no momento atual da educação, o aluno quer sentir-se desafiado, motivado e descobridor, e não simples depositário de informações sem sentido.
Inicialmente havia a preocupação de que falar sobre a voz cabia à educação, e não à Educação Científica e Tecnológica, o que não é uma verdade. Em vários trechos deste trabalho e até mesmo nos depoimentos dos professores participantes, estão postos argumentos nesse sentido.
Também havia incertezas pairando sobre a questão de que falar sobre a voz, era um assunto mais pertinente para tratar com a Pedagogia e com a Psicologia. Quero ressaltar que este trabalho é sobre professores, sejam eles da Educação Infantil ou da graduação ou mesmo da pós-graduação. Para este estudo, direcionou-se o foco para aqueles ligados às Licenciaturas de Física, Biologia, Química e Matemática. Como profissionais da voz, dentro de um prisma de coletividade, se pode constatar que todos precisam ser ouvidos e esclarecidos sobre aspectos relativos à produção vocal.
Lembrando aqui, que se queremos mudanças na educação, devemos assumir mudanças na formação dos futuros professores, que serão por sua vez co-responsáveis na formação de novos profissionais em geral, participantes diretos na vida em sociedade.
Não gostaria de deixar a impressão de que a voz é “salvadora” ou “milagrosa” para resolver problemas que perduram ao longo dos anos nas discussões educacionais. Quero apenas enfatizar que a voz pode ser um novo ponto de partida para enriquecer e valorizar tanto os debates pedagógicos, como os aspectos do processo ensino-aprendizagem.
Entre os professores participantes foi unânime considerar inimaginável dar uma aula sem a voz. Também se constatou que todos possuem conhecimentos prévios e de senso comum, exemplos próximos, experiências pessoais e restrição nas informações sobre toda a potencialidade da voz nas questões de ensino-aprendizagem. Ainda
ponderaram em relação à voz como um instrumento de ensino, e ofereceram contribuições significativas quanto às aproximações entre voz-professor-conhecimento e para a compreensão da voz através das interações (pedagógicas).
Mais adiante é importante procurar pesquisar e avaliar, na prática, se as conexões sugeridas são reais na atuação prática da sala de aula. Isso seria possível ao se observar e filmar a utilização dos parâmetros vocais durante as aulas de professores previamente entrevistados, tanto pelo uso vocal quanto pela adoção efetiva de posturas construtivistas.
Assim, muitos depoimentos “idealistas”, “perfeitos” e aparentemente “verdadeiros” poderiam ou não, serem confirmados.
Outra questão futura seria ouvir depoimentos de alunos desses professores, para saber a impressão auditiva desses sobre seus docentes, para confrontar com as impressões pessoais do próprio professor, ou para identificar se há, de fato, interferência de seu padrão vocal na aprendizagem. Ou ainda, registrar e avaliar as interações pedagógicas propriamente ditas, durante situações escolares.
Avançar nas pesquisas e continuar evidenciando a importância da voz no processo ensino-aprendizagem, levar o professor a parar e pensar sobre mais esse instrumento didático-tecnológico a serviço da educação são brechas de comunicabilidade (Dragone, 2000) que foram abertas a partir dessa dissertação, aproximando a Educação (Científica e Tecnológica ou simplesmente Educação) e a Fonoaudiologia, que devem ser acessadas e divulgadas para tornarem-se ações reais, concretas, pois, sem dúvida está posto o desafio: “A VOZ PRECISA TER SUA VEZ!”