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4.1 - A origem da Rede Mercocidades

No documento Sem t.tulo-2 (páginas 106-110)

Antes de apresentar a origem da Rede Mercocidades, é conveniente defini- -la. Como diz o site oficial: “Mercocidades é a rede que reúne os alcaides, os intendentes e os prefeitos dos grandes centros urbanos que participam do Mercosul e cuja tarefa é buscar um fortalecimento das administrações locais como contrapartida lógica e natural da globalização” (Mercocidades, 1999).

A questão da origem da Rede Mercocidades é oportuna para explicar as motivações das pessoas que estiveram à frente do processo na metade da década de 90, justamente para se ter uma abordagem mais ampla do fenômeno.

Nos seis depoimentos realizados ao longo de oito meses do ano 2000, a pergunta-chave foi: como se deu a constituição da Rede Mercocidades? Em praticamente todas as entrevistas, foi citado um nome: José Eduardo Utzig.

Desse modo, a Senhora Belela Herrera, da Intendência do Uruguai, declarou em Porto Alegre, em abril de 1999, no I Encontro de Responsáveis de Cooperação Internacional da Rede Mercocidades em Porto Alegre: “José

Eduardo Utzig teve a idéia da criação desta Rede, e a ele devemos agradecer por estarmos unidos nesta mesma mesa” (Encontro..., 1999).

Alonso (Entrevista A.6 do Apêndice) lembra que a idéia não veio do nada, mas de um movimento de articulação entre Porto Alegre e o Uruguai, que havia desde a época do Prefeito Olívio Dutra:

“Lá, em Montevidéu, (...) havia se estabelecido um governo de esquerda, e o Prefeito era o Tabaré Vasquez, e o daqui era o Olívio Dutra. Então, desde aqueles primeiros tempos, desde o governo de Olívio Dutra, havia uma articulação com o Governo de Montevidéu, que se traduzia em discussões, em seminários, em trocas de experiências de políticas locais, políticas públicas, etc. (....). O governo do Tarso deu continuidade a isso, ampliando e aprofundando mais essa experiência. Só que aí já se imaginava fazer algo mais amplo.

Então, nesse momento, é que se teve a idéia (eu tenho a impressão de que a idéia foi do próprio Prefeito Tarso) de fazer uma articulação com todas as cidades do Mercosul”.

Mais adiante, ele relata como foi essa articulação:

“Uma experiência de que eu participei diretamente, e que foi por acaso, posso contar rapidamente, foi a articulação que se fez com o Governo de Rosário, na Argentina, que é uma cidade quase do tamanho de Porto Alegre. (...) Com um profissional, que era assessor do Cabalhero, se começou a estabelecer uma relação. Ele entrou em contato comigo, e nós começamos a conversar. Primeiro, numa base de amizade, e aí a gente engendrou algumas articulações. Eu transmiti essa idéia para o Prefeito, e ele gostou da idéia, dentro daquela idéia maior de ampliar um leque de articulações... E, então, nós organizamos um estreitamento e um primeiro trabalho em conjunto com a Prefeitura de Rosário”.

Mas ele confidencia que não foi muito fácil essa articulação:

“Muitas idas e vindas, (...) muito contato telefônico, conversa, discussão... Como é que nós vamos fazer?... Nós organizamos aqui uma visita do Governo de Rosário. Estava com data marcada e tudo, e eles tiveram que suspender por problemas que tinham lá. Estavam próximas as eleições, e eles não puderam vir... Então, deixamos aquele plano preparado. Passaram as eleições, e entramos novamente em contato. Mais de 12 meses durou isso aí. Até que conseguimos, eu não me lembro das datas, mas organizamos um primeiro encontro.

O fato concreto foi uma visita do Governo de Rosário a Porto Alegre, no qual o Prefeito veio com boa parte do seu secretariado. Secretarias que tinham alguma coisa em comum com as nossas secretarias”.

Depois desse encontro, Alonso (Entrevista A.6 do Apêndice) considera que já estava ficando bem madura a idéia da Rede Mercocidades, e o Governo resolveu passar a administração desse processo para a Secretaria de Captação de Recursos:

“(...) então, eu fui encarregado... Era eu que tratava essa parte de assuntos do Mercosul e fui encarregado de realizar uma reunião de prefeitos de capitais do Mercosul. Então, capitais do Mercosul... Bom, vamos pegar 21 capitais do Brasil, mas, no início, vamos convocar só da parte sul daqui, com Assunção, Montevidéu e Buenos Aires... Mas havia outras cidades que já estavam ficando metrópoles, que nós já tínhamos articulação, como Rosário... Então, no fim, resolvemos ampliar isso aí. (...) O Governo chegou à conclusão de que tinha que fazer alguma coisa mais pesada. Precisava ter alguma estrutura para trabalhar isso aqui, e se resolveu passar para a Secretaria de Captação de Recursos, que não era de Relações Internacionais, me parece, era só de Captação de Recursos. E se passou para lá... É aí que entra o Utzig, e ele já tinha uma estrutura mínima... Segundo estou lembrado, ele, para poder vincular esse pessoal, foi lá. Fez uma visita a cada coisa dessas. Armou, foi e tal, para expor minimamente essa idéia, e formou um fórum... Acho que, de início, nem se pensava em chamar de Mercocidades, mas um fórum para discutir problemas das metrópoles: econômicos, sociais, políticas públicas... Porque as metrópoles estavam de fora do eixo das negociações que se processavam entre os Governos Centrais”.

A idéia também era usar a Rede Mercocidades para criticar o processo do Mercosul. Ferrer (Entrevista A.5 do Apêndice) entende que objetivo da criação da Rede foi ocupar um espaço político para debater a integração, trazendo um elemento crítico ao próprio processo de integração:

“(...) existia a necessidade... ou, a necessidade não, mas um espaço de debate crítico sobre o processo de integração e que não era ocupado por nenhum agente político. Ou, se era ocupado por um agente político, por exemplo, os partidos de oposição ou grandes sindicatos, eram ocupados sem um discurso que fosse também um discurso positivo. Existia um discurso negativo, de determinadas lideranças sindicais e de determinados partidos, sobre o processo de integração.

E o fato da gente pensar uma experiência de integração, que a gente chamava de integração pela base, integração que envolvesse comunidades e não apenas governos, isso era possível com o desenvolvimento dessa experiência, era possível fazer uma crítica prática ao processo de integração do jeito que nós achávamos que

não deveria ocorrer, ou seja, submetido aos interesses dos grandes monopólios, na verdade, constituindo um instrumento de consertação de políticas que necessariamente não teriam a ver com interesses de comunidades que estavam envolvidas com a integração. Então, eu acho que isso foi fundante de uma idéia de que nós temos que ocupar esse espaço político para debater a integração. Há uma possibilidade grande de que isso seja feito através de uma ação do município, porque essa ação do município é uma ação que, além de trazer vantagem para a política governamental, política da cidade, ela também introduz um elemento crítico ao próprio processo de integração. Eu acho que isso foi uma base política da iniciativa, uma base política importante, não necessariamente a única. Eu, pelo menos, valorizo bastante isso”.

Também Utzig (Entrevista A.3 do Apêndice) comentou sobre essa mesma idéia de constituição da Rede:

"(...) nós identificávamos que o processo de constituição do Mercosul era um processo institucional entre países que tinha um corte exclusivamente econômico. Nesse ponto de vista econômico, as grandes empresas, sobretudo as multinacionais, lideravam a integração do ponto de vista de criar uma situação melhor de mercado, e identificávamos que essa integração era, sobretudo, uma integração por cima. Não tinha nenhuma... (...) A pauta estava totalmente fora. E nós achávamos que a entrada das cidades poderia criar uma polaridade distinta de integração. Iria ter o poder local inserido nesse processo defendendo uma agenda social, política e econômica inclusive, mas do ponto de vista dos interesses das empresas médias, além dos interesses dos trabalhadores, e criar uma polarização forte, estabelecendo uma nova agenda para o Mercosul, para integração, que reforçasse também o papel das cidades nesse processo".

Ainda nesse debate sobre o processo do Mercosul, a Assessoria de Relações Exteriores da Prefeitura de Florianópolis (Helou, 1998) sugere uma revisão do Tratado de Assunção, que criou o Mercosul, por ter deixado de contemplar três importantes matérias. Em primeiro lugar, não houve nenhuma cláusula com referência à participação das coletividades locais no processo decisório do Mercosul. Em segundo lugar, como seria o financiamento da implementação das políticas de integração física e de equilíbrio econômico e social no espaço Mercosul? E, por último, não havia sido previsto como se daria a criação de uma moeda única.

Mas uma surpresa importante para a análise da Rede Mercocidades foi revelada pela entrevista de Ferrer (Entrevista A.5 do Apêndice), que argumentou

que a articulação internacional de Porto Alegre com outras cidades poderia ter um bom impacto em termos de projeção interna política. Ele próprio citou vários políticos que alcançaram êxito internamente como conseqüência direta das ações internacionais implementadas por suas respectivas cidades. Essa questão dos interesses das pessoas que estavam à frente do processo de formação da Rede Mercocidades será melhor desenvolvida mais adiante, no subitem 4.6.2.

No documento Sem t.tulo-2 (páginas 106-110)