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4.7 - O custo da política internacional do RS

No documento Sem t.tulo-2 (páginas 162-166)

A preocupação deste item é atender a uma recomendação apresentada por Capelo (2000) de que fosse medido o custo que representa para uma cidade o fato de estar inserida em uma rede, no caso a Rede Mercocidades.

Para isso, foi pensado um levantamento completo: as ligações telefônicas da Secretaria Extraordinária de Captação de Recursos e Cooperação Internacional;

as viagens internacionais realizadas pelos executivos da Rede; os salários dos funcionários; assim como a própria infra-estrutura de apoio da Secar (tais como impressora e papel). Como esse levantamento é muito difícil de ser operacionalizado, por ser muito custoso em termos de tempo, a idéia foi deixada de lado.

Entretanto, para não se descuidar das recomendações de Capello (2000), pensou-se em fazer um levantamento da Função Relações Exteriores35 tanto do Estado do Rio Grande do Sul como do Município de Porto Alegre. Agindo- -se assim, certamente, a medida do custo da cidade integrada em uma rede

34 Mais especificamente, em 4 de maio de 2000, foi aprovada pelo Congresso Nacional a Lei Complementar nº 101, que é a Lei de Responsabilidade Fiscal. Ela estabelece uma série de normas para as finanças públicas, voltadas para a responsabilidade fiscal dos três níveis de governo (União, estados e municípios).

35 Essa função corresponde ao nível máximo de agregação da ação governamental no contexto internacional, visando à cooperação técnica internacional, à difusão da imagem do Brasil no Exterior e à defesa dos interesses brasileiros junto aos governos estrangeiros.

será superestimada, pois levará em consideração os gastos não somente com a Rede Mercocidades, mas com a totalidade das relações exteriores (tanto do Rio Grande do Sul como de Porto Alegre). Mesmo assim, é oportuno ser estimado esse custo, para se ter uma noção da dimensão dessa despesa pública para o contribuinte gaúcho.

Primeiramente, para se definir o gasto estadual, recorreu-se às fontes tradicionais como a Mensagem do Governador à Assembléia Legislativa e o Balanço Geral do Estado. Notou-se que a SEAI foi criada pelo Decreto nº 32.515, de 15 de março de 1987, e que funcionou como um departamento, uma espécie de assessoria (Assessoria Governamental de Assuntos Internacionais (Agaia)), dentro do gabinete do Governador, até 1995.36 Em 1994, entretanto, a Seai passou a existir efetivamente com status de secretaria, com rubrica própria, estruturada em três departamentos,37 tendo existido somente até 1999.

No que diz respeito aos gastos do Município, estes se constituem, especificamente, das despesas da Secar, que, segundo o Relatório de Atividades da Prefeitura de Porto Alegre (1994, p. 169), iniciou suas atividades no ano de 1994, em decorrência “(...) da necessidade de dar à Cidade de Porto Alegre relações econômicas, políticas e culturais com outras cidades, especialmente no âmbito do Cone Sul”.

Então, os gastos estadual e municipal constituem-se:

a) da despesa da Agaia (até 1995);

36 Medeiros (1997, p. 264) salienta que a tentativa pioneira do Estado do Rio Grande do Sul de criar uma secretaria não chegou a um bom termo. Pela avaliação do seu idealizador e primeiro titular (Ricardo Antônio Silva Seitenfus), ela esteve fadada, desde os seus primórdios, a mere- cer, no mínimo, a má vontade da União, posto que o Itamaraty não somente temia, como também não sabia como agir em relação ao novo organismo estadual, exceto através da indife- rença.

37 Segundo o mesmo documento, no ano de 1993, essa secretaria dispunha de três departa- mentos: o Departamento de Negócios Internacionais, o Departamento de Cooperação Inter- nacional e o Departamento de Integração Latino-Americana. O primeiro estava relacionado com atividades empresariais, como, por exemplo, divulgação e promoção de eventos em- presariais e participação em feiras, sempre em conjunto com entidades empresariais, tais como a FIERGS e a Federasul, e com bancos de desenvolvimento, como o BRDE. O Depar- tamento de Cooperação Internacional tinha atividades relacionadas com projetos binacionais, treinamento de servidores públicos no Exterior e organização de seminários de cooperação técnica em conjunto com o Ministério de Relações Exteriores. Já o Departamento de Integração Latino-Americana cuidava especificamente das questões do Mercosul, tendo sido criado, inclusive, um canal direto entre o Governo e a sociedade, chamado Disque-Mercosul, que atendia, diariamente, em média, a 20 consultas. Nesse departamento, foi criada a Coordenadoria do Mercosul, em junho de 1993, destinada a centralizar as atividades das demais secretarias de Estado e suas vinculações nas ações referentes ao Mercosul.

b) da despesa da SEAI (de 1994 até 1998); e c) da despesa da Secar (desde 1994).

O Gráfico 4.3 apresenta a dimensão dos gastos nessas duas esferas:

Estado e Município. Pode-se notar que os gastos de assessoramento vão decrescendo de 1993 a 1995, de R$ 2,5 milhões para R$ 197 mil. Os gastos da SEAI começaram, em 1994, em torno de R$ 227 mil, aumentaram para R$ 780 mil em 1995, mas, logo depois, decrescem nos três anos consecutivos, chegando a R$ 108 mil em 1998. Já os gastos do Município são mais constantes e, relativamente ao Estado, mais volumosos: mantêm-se em torno de R$ 550 mil.

000 500 000 1 000 000 1 500 000 2 000 000 2 500 000 3 000 000

1993 1994 1995 1996 1997 1998 1999 2000

AGAIA SECAR SEDAI

(R$)

Legenda:

FONTE: BALANÇO DA PREFEITURA DE PORTO ALEGRE. Porto Alegre: Secretaria da Fazenda do Município, 1993-200.

FO : BALANÇO GERAL DO ESTADO. Porto Alegre: Secretaria da Fazenda, 1995-2000.

0

Evolução dos gastos da Agaia, da Secar e dos gastos da f unção Relações Exteriores da SEAI em Porto Alegre e no RS — 1993-00

Gráf ico 4.3

Agaia Secar SEAI

FONTE: BALANÇO DA PREFEITURA DE PORTO ALEGRE. Porto Alegre: Secretaria da Fazenda do Município, 1993-2000.

BALANÇ0 GERAL DO ESTADO. Porto Alegre: Secretaria da Fazenda, 1995-2000.

Gráfico 4.3

Evolução dos gastos da Agaia, da Secar e dos gastos da função Relações Exteriores da SEAI em Porto Alegre e no RS — 1993-00

Essa dimensão dos gastos estadual e de Porto Alegre é bem significativa e já foi abordada apropriadamente pela literatura. Medeiros (1997, p. 263) salienta que estados e determinados municípios brasileiros têm agenda internacional própria em expansão e estão recorrendo, cada vez mais, ao Itamaraty, para tratar de assuntos internacionais de suas respectivas administrações. Por esse motivo, até foi criada a Assessoria de Relações Federativas no Itamaraty, em junho de 1997. Entretanto, como ficou demonstrado nas posições de Medeiros e do primeiro titular da SEAI e também nos próprios dispositivos da Constituição Federal, provavelmente sempre deve ter ocorrido indiferença e até obstáculos para quaisquer iniciativas em âmbito internacional das cidades.

Obviamente, é dentro desse ambiente que o projeto da Rede Mercocidades está inserido, apoiado tanto pelo Presidente de Honra do PT, num artigo do jornal Zero Hora,38 como pelos seus idealizadores Tarso Genro e Utzig.

Especificamente, Genro (1994, p. 1-3) sustentou que os governos municipais das grandes cidades e os governos estaduais estavam diante da possibilidade de um novo tipo de política externa, através de formas modernas de comunicação comutativa, que permitem ligação de ações econômicas locais com outras cidades ou províncias do mundo, não só a partir de intercâmbios que transferem tecnologia e novas formas de organização do trabalho, mas também mediante relações diretas de setores sindicais e empresariais locais com seus colegas de outros centros do mundo, vínculos que, até bem pouco tempo, eram longínquos e meramente formais.

Então, com base nessas constatações, pode-se entender que o gasto realizado no período estudado foi considerável.39 Medeiros avalia que, apesar da vontade de estados brasileiros e províncias argentinas de participarem ativamente da vida internacional, é indispensável que se estabeleça, pelo menos, um diálogo sistemático entre os governos federais e os governos das unidades e das subunidades federadas, permitindo que estas possam influir na condução da política externa. E, nesse momento, o papel do Ministério das Relações

38 O Presidente de Honra do PT, Luiz Inácio Lula da Silva, é bem claro quanto a esse ponto:

ele induz as cidades a pensarem o global. Num artigo para Zero Hora, argumenta: “(...) outro aspecto importante é o da abertura para o Exterior. Os novos governantes [eleitos em 1999] devem se abrir para o mundo, favorecendo o irmanamento com outras cidades, participando de foros internacionais multilaterais e desenvolvendo formas de intercâmbio”

(Silva, 2000, p. 19).

39 Na realidade, o custo de R$ 550 mil ao ano está superestimado e não representa, em hipótese alguma, o custo da Cidade por pertencer à Rede Mercocidades. Representa o gasto com a Função Relações Exteriores implementada pela Secar. Só para se ter uma idéia, esse gasto (de R$ 45 mil ao mês) poderia perfeitamente cobrir várias viagens (ida e volta) a alguns países da América Latina.

Exteriores torna-se crucial para esse processo, pois o mesmo só terá êxito se a Chancelaria for capaz de agir como agência de coordenação, reconhecendo a existência de interesses regionais que devem ser considerados e projetados no plano internacional. O autor sugere uma diplomacia federativa, constituída de representantes de unidades componentes da Federação em missões diplomáticas e delegações a conferências internacionais.

4.8 - A desconstrução do projeto da Rede

No documento Sem t.tulo-2 (páginas 162-166)