seriam do sócio, ou o inverso, não havendo distinção entre os patrimônios destes, neste caso existindo a confusão patrimonial.
Esclarece Tomazette282 que no Código Civil Brasileiro a confusão patrimonial não é suficiente para ocasionar a desconsideração, é um meio importante de comprovar o abuso da personalidade jurídica e a fraude.
3.5 A APLICAÇÃO DA TEORIA DA DESCONSIDERAÇÃO DA
ao juiz atingir a personalidade dos sócios para coibir os abusos, ou condenar pela fraude por meio de seu mau uso.285
Como anteriormente visto a personificação das sociedades possui um grande valor no ordenamento jurídico. Entretanto, por vezes em conflito com outros valores, principalmente quando da satisfação dos credores, a tomada de solução observará a prevalência do valor mais importante, e normalmente prevalece a personificação.286
Enfatiza Fazzio Júnior287 que “a efetivação da responsabilidade pessoal dos sócios só se processará em caráter subsidiário, ou seja, uma vez executado o patrimônio social.”
Corroborando o exposto, colaciona-se julgados atuais do Tribunal de Justiça Catarinense:
AGRAVO DE INSTRUMENTO - EXECUÇÃO - ARRESTO DE BENS - PREJUÍZO A TERCEIROS - HIPÓTESE CARACTERIZADA - DESCONSIDERAÇÃO DA PERSONALIDADE JURÍDICA - APLICABILIDADE.
COMPROVAÇÃO DA PROPRIEDADE - CERTIDÃO EXARADA PELO OFICIAL DE JUSTIÇA - FÉ PÚBLICA - PRESUNÇÃO DE VERACIDADE. FRAUDE À EXECUÇÃO - CARÁTER EXCEPCIONAL - RESPONSABILIDADE ILIMITADA DOS SÓCIOS - ADMISSIBILIDADE. "Para a aplicação da teoria da desconsideração da personalidade jurídica, faz-se insofismável a comprovação de que os sócios tenham agido, alternativamente, com abuso de direito, desvio de poder, fraude à lei, violação aos estatutos ou ao contrato social, ou em palmar prejuízo a terceiros" (Agravo de instrumento n.
01.021960-3, de Araranguá). Os atos praticados pelo Oficial de Justiça são dotados de fé pública e, em princípio, devem ser reputados válidos. Desta feita, há a presunção de veracidade, de cunho juris tantum, incumbindo ao interessado o ônus de demonstrar a sua inadequação. Em se tratando de
285 SILVA, Alexandre Couto. Aplicação da Desconsideração da Personalidade Jurídica no Direito Brasileiro. p.35.
286 TOMAZETTE, Marlon. Direito Societário. p. 69.
287 FAZZIO JÚNIOR, Waldo. Manual de Direito Comercial. p.168.
responsabilidade limitada dos sócios, é sabido que esta contempla algumas exceções, vez que, em hipóteses de caráter excepcional, dentre as quais se inclui a fraude à execução, aqueles responderão subsidiária, mas ilimitadamente, pelas obrigações sociais. RECURSO PROVIDO. (grifo nosso)288
AGRAVO DE INSTRUMENTO - EXECUÇÃO DE TÍTULO JUDICIAL CONSTITUÍDO EM AÇÃO MONITÓRIA - DESCONSIDERAÇÃO DA PERSONALIDADE JURÍDICA, A FIM DE PENHORAR BENS PARTICULARES DOS SÓCIOS - AUSÊNCIA DE PROVA INEQUÍVOCA DA CONDUTA DOLOSA E CONTRÁRIA À LEI E AO ESTATUTO SOCIAL - DESPROVIMENTO. A desconsideração da personalidade jurídica é medida excepcional que deve ser observada, apenas, quando, mediante prova cabal, ficar demonstrada a atuação dolosa e fraudulenta dos sócios, contrária à lei e ao estatuto social, a fim de prejudicar eventuais credores da sociedade; caso contrário, não responde o patrimônio do sócio por dívidas contraídas pela pessoa jurídica. (Grifo nosso)289
Freitas290 alerta que não é qualquer prejuízo ao credor por falta de provisão para adimplemento por parte da sociedade empresária que possibilitará sua desconsideração. Deverá ser comprovado que o prejuízo decorre de intenção fraudulenta ou abusiva da sociedade, posto que não há possibilidade de se voltar ao patrimônio particular dos sócios sem a prova da prática lesiva, posto que, se não comprovado o juiz poderá agir contra legem, ferindo o disposto no artigo 5º da Lei de Introdução ao Código Civil que determina que “na aplicação da lei, o juiz atenderá aos fins sociais a que ela se dirige e às exigências do bem comum”.
288 BRASIL. Tribunal de Justiça de Santa Catarina. Agravo de Instrumento n. 2002.014151-3.
Relator Desembargador Fernando Carioni. Data da Decisão 31.10.2002. Disponível em
<http://www.tj.sc.gov.br> Acesso em: 22 abr. 2008.
289 BRASIL. Tribunal de Justiça de Santa Catarina. Agravo de Instrumento n. 2006.023535-7.
Relator Desembargador Alcides dos Santos Aguiar. Data da Decisão 29.03.20072. Disponível em
<http://www.tj.sc.gov.br> Acesso em: 22 abr. 2008.
290 FREITAS, Elizabeth Cristina Campos Martins de. Desconsideração da Personalidade Jurídica: análise à luz do código de defesa do consumidor e do novo código civil. p. 62 e 128.
Por derradeiro Fábio Ulhoa291 destaca que a aplicação da teoria da desconsideração não está adstrita a previsão legal. Assim, mesmo nas hipóteses não previstas nos dispositivos citados no corpo do trabalho, o juiz estará autorizado a ignorar a autonomia patrimonial sempre que a pessoa jurídica for utilizada para fins fraudulentos, respeitando o instituto da pessoa jurídica, reconhecendo sua importância, admitindo a superação desta nos casos de mau uso da pessoa jurídica.
Por fim, ressalta Freitas292 que a decisão que desconsidera a personalidade jurídica, o ato constitutivo da sociedade empresária é considerado ineficaz, sem tornar-se inválido, mas tão somente em relação aquela atividade que ensejou sua aplicação, restando preservada em relação aos demais negócios jurídicos não maculados pela prática desvirtuada da sociedade.
291 COELHO, Fábio Ulhoa. Curso de Direito Comercial. p.54.
292 FREITAS, Elizabeth Cristina Campos Martins de. Desconsideração da Personalidade Jurídica: análise à luz do código de defesa do consumidor e do novo código civil. p. 110.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
A desconsideração da personalidade jurídica busca garantir que a atividade negocial realizada pela sociedade empresária seja feita de forma adequada a não prejudicar aquele que com ela contrata.
Devidamente personalizada, a sociedade empresária de responsabilidade limitada, adquire garantias, notadamente quanto ao seu patrimônio que não se confunde com o patrimônio pessoal do sócio, ou seja, a pessoa jurídica possui patrimônio próprio que responderá pelo seu passivo, acaso necessite.
Destarte, a sociedade empresária ao constituir-se legalmente, respeitando todos os requisitos exigidos por lei adquire personalidade jurídica e, consequentemente, adquire direitos e obrigações.
As sociedades de responsabilidade limitada, além das garantias recebidas pelas pessoas jurídicas, adquirem uma responsabilidade patrimonial limitada aos bens da sociedade e, ainda, proporcionalmente às ações que cada sócio possui na sociedade.
Ocorre que, em uma demanda processual, mais especificamente em um processo de execução em que a sociedade empresária encontre-se no pólo passivo da demanda, ou seja, sendo a parte executada, poderá o Juiz, a pedido da parte credora, invadir a esfera patrimonial dos sócios da sociedade executada, posto que, não é permitido a sociedade empresária acobertar atos ilícitos através das garantias que a lei lhe confere. É necessário haver um equilíbrio, para não ocorrer insegurança nas relações comerciais.
Entretanto, para que ocorra a desconsideração não basta o simples pedido feito pelo credor neste sentido. É indispensável, a comprovação de que a sociedade empresária agiu de forma dolosa, ou seja, desviou-se da finalidade para o qual foi criada, agiu com abuso de poder, fraude ou confusão patrimonial.
É imprescindível que seja comprovada que a sociedade empresária, protegida pelo manto da personificação, utilizou-se de algum destes pressupostos para lesar o terceiro de boa-fé que com ela contratou.
Para tanto, a legislação pátria elegeu artigos que possibilitam ao judiciário a aplicação da teoria da desconsideração da personalidade jurídica, para afastar a diferenciação patrimonial dos bens do sócio e dos bens da empresa, para que, após liquidados os bens da sociedade empresária, os bens de seus sócios passem a responder pelas dívidas contraídas.
Verifica-se, portanto, que o artigo 28 do Código de Defesa do Consumidor e o artigo 50 do Código Civil possuem a previsão legal para que, comprovada a atitude lesiva da sociedade empresária, sua garantia adquirida pela personificação seja desfeita, mas isto não acarreta a extinção da empresa, mas sim a invasão do patrimônio particular do sócio para responder pelo passivo da pessoa jurídica.
Desta feita, é visível que o Legislativo não criou formas de violar as garantias adquiridas pelas pessoas jurídicas, mas sim, garantir aos contratantes a certeza no cumprimento das avenças.
Impende destacar que a desconsideração da personalidade jurídica é um instituto que deve ser utilizado com muita cautela de forma a não prejudicar a sociedade empresária. Caso não sejam demonstrados os requisitos necessários ao deferimento da desconsideração, a mesma não deve ser aplicada, posto que o fato de que os bens da sociedade não sejam suficientes para adimplir suas dívidas não demonstra que a pessoa jurídica tenha sido utilizada de forma irregular e, desta forma, não há que se falar em desconsideração.
Portanto, entende-se que a desconsideração da personalidade jurídica é um instrumento processual a ser utilizado quando a sociedade empresária, devidamente constituída, seja utilizada para fins diversos daqueles estabelecidos em seu ato constitutivo, lesando seus credores. Assim, desconsiderando a personalidade invade-se a esfera patrimonial dos sócios para
que os bens particulares respondam pela dívida adquirida pela sociedade. É uma forma de segurança jurídica para as relações processuais que não pode ser confundida com mera deliberação do judiciário.
Por derradeiro, destaca-se que o presente trabalho teve por escopo abordar a desconsideração da personalidade jurídica da sociedade empresária no processo de execução cível, sem que com isso seja esgotado o assunto, visto a abrangência dos assuntos relacionados a este trabalho.
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