O devedor responde patrimonialmente com seus bens presentes ou futuros pela obrigação, ou seja, tanto com os bens existentes ao tempo em que foi constituída a dívida como aqueles que venha a adquirir, ficando vinculados a responsabilidade assumida. Destaca, ainda, que a responsabilidade patrimonial não se prende ao momento da constituição da obrigação mas sim os bens presentes ao tempo da execução.196 Assim dita o artigo 591 do Código de Processo Civil:
Art. 591. O devedor responde, para o cumprimento de suas obrigações, com todos os seus bens presentes e futuros, salvo as restrições estabelecidas em lei.197
De acordo com Wambier198, a responsabilidade patrimonial é a sujeição à atuação da sanção, é a situação na qual o devedor não pode impedir
194 WAMBIER, Luiz Rodrigues. ALMEIDA, Flávio Renato Correia de. TALAMINI, Eduardo. Curso Avançado de Processo Civil: processo de execução. p.225.
195 LENZI, Carlos Alberto Silveira. O Novo Processo de Execução no CPC – Lei n. 11.232/05 e 11.382/06. p. 170.
196 THEODORO JÚNIOR, Humberto. Curso de Direito Processual Civil: Processo de execução e cumprimento da sentença, processo cautelar e tutela de urgência. p. 191.
197 BRASIL. Lei 5.869, de 11 de janeiro de 1973. Institui o Código de Processo Civil. Disponível em: <http://www.planalto.gov.br/ccivil/leis/L5869.htm>. Acesso em: 20 fev. 2008.
198 WAMBIER, Luiz Rodrigues. ALMEIDA, Flávio Renato Correia de. TALAMINI, Eduardo. Curso Avançado de Processo Civil: processo de execução. p.121.
que a sanção seja realizada como uma agressão direta ao seu patrimônio, traduzindo-se assim na destinação dos bens do devedor para satisfazer a pretensão do credor.
Conforme Ovídio Baptista:199
O objeto da execução, portanto, não é a pessoa do devedor, e sim os seus bens, compreendido este conceito em seu sentido mais amplo, como qualquer valor jurídico capaz de ser transferido para do patrimônio do obrigado para o patrimônio do credor, para a satisfação do direito de crédito.
Destaca Humberto Theodoro200 que a execução é responsabilidade executiva do sujeito passivo e desta forma não pode atingir a bens que pertençam a terceiro. Desta forma, a lei exclui alguns bens da execução, “qualificando-os de impenhoráveis por motivos de ordem moral, religiosa, sentimental, pública etc.”
Deve-se registrar que os bens que não podem ser atingidos pela penhora estão contidos como exceções no Código de Processo Civil, e em seus artigos 648 e 649. A propósito, o artigo 648 dispõe: “Não estão sujeitos à execução os bens que a lei considera impenhoráveis ou inalienáveis”201. Por outro lado o artigo 649 lista quais os bens que por força de lei são absolutamente impenhoráveis.
Apreciando o tema, expõe Ovídio Baptista202 que esta é
“uma das mais importantes restrições ao princípio da responsabilidade universal de todos os bens do obrigado, que deveriam, segundo aquele princípio, ficar sujeitos à execução para satisfação do credor”.
199 SILVA, Ovídio A. Baptista da. Curso de Processo Civil: execução obrigacional, execução real, ações mandamentais. p.70.
200 THEODORO JÚNIOR, Humberto. Curso de Direito Processual Civil: Processo de execução e cumprimento da sentença, processo cautelar e tutela de urgência. p. 188.
201 BRASIL. Lei 5.869, de 11 de janeiro de 1973. Institui o Código de Processo Civil. Disponível em: <http://www.planalto.gov.br/ccivil/leis/L5869.htm>. Acesso em: 20 fev. 2008.
202 SILVA, Ovídio A. Baptista da. Curso de Processo Civil: execução obrigacional, execução real, ações mandamentais. p.71.
Neste sentido, dispõe o artigo 592 do Código de Processo Civil203:
Art. 592. Ficam sujeitos à execução os bens:
I - do sucessor a título singular, tratando-se de execução fundada em direito real ou obrigação reipersecutória;
II - do sócio, nos termos da lei;
III - do devedor, quando em poder de terceiros;
IV- do cônjuge, nos casos em que os seus bens próprios, reservados ou de sua meação respondem pela dívida;
V - alienados ou gravados com ônus real em fraude de execução.
(grifo nosso)
Assim, destacando os preceitos contidos no artigo 592, II, da Lei Adjetiva Civil, colhe-se dos ensinamentos de Wambier204 que esse dispositivo será aplicado aos sócios normalmente solidários, nas sociedades irregulares ou de fato e aos sócios com responsabilidade subsidiária. “Além disso, mesmo nas sociedades em que a responsabilidade do sócio seja limitada, poderá este responder por dívidas sociais, quando o juiz aplicar a “desconsideração da pessoa jurídica”. Corroborando tal assertiva, dispõe ainda o artigo 596, caput e parágrafo único, do Código de Processo Civil:
Art. 596. Os bens particulares dos sócios não respondem pelas dívidas da sociedade senão nos casos previstos em lei; o sócio, demandado pelo pagamento da dívida, tem direito a exigir que sejam primeiro excutidos os bens da sociedade.
§ 1o Cumpre ao sócio, que alegar o benefício deste artigo, nomear bens da sociedade, sitos na mesma comarca, livres e desembargados, quantos bastem para pagar o débito.205
Tendo em vista o artigo supracitado, necessário destacar que no direito atual a pessoa jurídica é, em muitos casos, autônoma e distinta dos sócios que a compõe, tendo direitos, deveres e patrimônio próprio. Entretanto, a
203 BRASIL. Lei 5.869, de 11 de janeiro de 1973. Institui o Código de Processo Civil. Disponível em: <http://www.planalto.gov.br/ccivil/leis/L5869.htm>. Acesso em: 20 fev. 2008.
204 WAMBIER, Luiz Rodrigues. ALMEIDA, Flávio Renato Correia de. TALAMINI, Eduardo. Curso Avançado de Processo Civil: processo de execução. p.127.
205 BRASIL. Lei 5.869, de 11 de janeiro de 1973. Institui o Código de Processo Civil. Disponível em: <http://www.planalto.gov.br/ccivil/leis/L5869.htm>. Acesso em: 20 fev. 2008.
doutrina, e a legislação atual, tem adotado princípios jurídicos para evitar esta distinção entre empresa e sócios principalmente no tocante a distinção patrimonial, de modo a responsabilizá-la perante aqueles que de alguma forma vier a prejudicar, e este meio de invadir a esfera patrimonial dos sócios é conhecido como desconsideração da personalidade jurídica,206 que poderá ser suscitada quando da inexistência de bens da sociedade a serem penhorados no processo de execução.
Completa Tomazette207 ao dizer que a princípio a sociedade empresária responde por suas obrigações com o patrimônio próprio da sociedade, dada sua autonomia patrimonial, entretanto, quando da insuficiência de seu patrimônio, os sócios podem ser chamados a responder com seu patrimônio particular.
Portanto, se durante o curso processual, constatar-se que houve desajuste na sua condução provocada pela pessoa natural que se utilizou da pessoa jurídica para obter vantagem, o juiz também poderá desconsiderar a personalidade jurídica.208 Diante do exposto, passa-se a estudar a teoria da desconsideração da personalidade jurídica, sendo este um importante meio para adentrar a esfera patrimonial dos sócios da sociedade empresária que figura no pólo passivo de uma demanda de execução civil.
206 SILVA, Ovídio A. Baptista da. Curso de Processo Civil: execução obrigacional, execução real, ações mandamentais. p.74.
207 TOMAZETTE, Marlon. Direito Societário. p. 120.
208 SILVA, Alexandre Couto. Aplicação da Desconsideração da Personalidade Jurídica no Direito Brasileiro. p.125.