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A autoconfrontação como um método indireto

4.2 Abordagem desenvolvimental e dialógica de análise da atividade

4.2.2 A autoconfrontação como um método indireto

(HENRY; BOURNEL-BOSSON, 2008). Bournel-Bosson (2006) explica: o desenvolvimento das significações se elabora na linguagem interior, já que na linguagem exterior domina uma significação, ao menos temporariamente, estabilizada, inteligível para os outros. Seria então na linguagem interior que se confrontariam o sentido latente das palavras e as significações das palavras ditas ao outro. Mas seriam justamente as significações da linguagem exteriorizada que perturbariam o sentido estável da linguagem interior, quando as diferenças entre sentidos e significações se produzem, possivelmente formando um novo ponto de vista.

Neste sentido, Clot (2010) indica que para Bakhtin não só o diálogo é possível quando os interlocutores não compartilham as mesmas significações, mas essa é a própria condição de seu desenvolvimento. Todavia, qualquer discórdia ou dissonância entre as vozes (que supõem cada uma um diálogo interior) dos sujeitos em interação não seriam necessariamente identificáveis nas palavras dos enunciados, mas em vestígios fugitivos do mesmo, ao que Faïta (2005) denomina “movimentos dialógicos”, os quais se expressam por meio de contradições, flutuações das posições estabelecidas, mudanças de entonação, silêncios e eventos ocorridos no diálogo que alteram o sentido do que foi simplesmente dito pelo interlocutor.

atividade seja feita sem repetição da atividade, porque “transformando cada realização em recurso para uma nova realização, é que o real da atividade se manifesta em seus desenvolvimentos” (CLOT, 2010, p. 206, grifos do autor). Mas para tal é preciso que se forneçam meios.

Um meio é fornecido por métodos que adotam o princípio de autoconfrontação127. Em uma de suas formas (FAÏTA, 2007), consiste em um encontro entre a atividade de trabalho de um agente e ele mesmo, com o propósito de deflagração de um novo contexto no qual o sujeito se torna um observador exterior de sua própria atividade. Este novo contexto é construído por meio da troca verbal dos sujeitos tanto com o objeto de seu trabalho, quanto com seus interlocutores, que estão presentes ou não.

O objetivo nesta sessão é dar ênfase nesta abordagem metodológica do princípio de autoconfrontação para, em seguida, enfatizar um dispositivo técnico em o mesmo se opera, denominado “instrução ao sósia”, os quais inspiraram a construção dos procedimentos da pesquisa.

4.2.2.1 Uma clínica da atividade

Por uma via aberta por Oddone, Re e Briante (1981), quando apontam que a atividade individual encontra seus recursos em uma história coletiva, Clot (1999) indica que o gênero profissional de um meio conserva uma função psicológica para cada trabalhador, fornecendo- lhe condições para agir. Para Clot e Faïta (2000), não haveria uma polarização entre a prescrição e a atividade como dois lados opostos, mas entre a organização do trabalho e o próprio sujeito um trabalho de reorganização da tarefa pelos coletivos profissionais, ao que, tomando emprestado de Bakhtin o conceito de gênero do discurso, denominam gênero profissional. Por este ponto de vista, as formas prescritivas são consideradas tanto restrições como recursos para os trabalhadores. Isto porque entendem os gêneros de atividades como avaliações comuns (compartilhadas e ao mesmo tempo subentendidas) que organizam a atividade pessoal, pois que adquirem, nas situações incidentais, uma significação. Recursos porque, apesar de não depender da prescrição oficial, traduz e revitaliza a atividade e, se necessário, a contorna. São decisivos para a mobilização psicológica na situação de trabalho,

127 Segundo Faïta (2007) há uma variedade possível e potencial de por em obra a autoconfrontação.

visto que organizam as atribuições e as obrigações ao definir as atividades independentemente das características subjetivas dos indivíduos que as executam em tal momento particular.

Todavia, na visão dos autores este trabalho de organização dos próprios coletivos está longe de ser estimulado como devia em função das exigências das tarefas e do tempo.

Segundo o autor, a vitalidade deste tipo de gênero depende da função criadora dos estilos individuais da ação, isto é, de um modo singular do sujeito tomar a memória coletiva do gênero, ajustando-a às exigências da situação de trabalho. Tal processo psicológico permitiria ao sujeito ajustar o gênero, mantendo-o vivo, desenvolvendo-o, visto que este só assume sua forma acabada nos traços particulares que definem cada situação de trabalho vivida (OSÓRIO, BARROS & LOUZADA, 2011). Serviriam, portanto, para fortalecer o gênero e quanto mais forte for este, maior a capacidade de estilização da pessoa ou do coletivo de aceitar provocações, de trabalhar de novos modos, de correr riscos.

4.2.2.2 A autoconfrontação em Clínica da Atividade

Enquanto “método” (ou técnica, com base no princípio de autoconfrontação) utilizado pela corrente da Clínica da Atividade, a autoconfrontação consiste em submeter ao exame de um trabalhador a imagem (normalmente em vídeo) de seu próprio trabalho, em forma de sequências, solicitando-lhe expressar em palavras (comentário128) sua própria atividade (FAÏTA, 2010)129. Neste tipo de experimentação, a partir dos comentários que destina ao observador, o sujeito projeta sobre sua atividade passada um olhar que o transforma em interlocutor atual daquilo que ele fez no momento da ação (FAÏTA, 2007). Segundo Clot (CLOT & LEPLAT, 2005), o propósito é organizar as migrações do vivido na atividade do sujeito, não para que ele se conheça melhor, mas para que possa experimentar o que é capaz.

De uma posição externa ao olhar seu trabalho, e face às escolhas ou dilemas que redescobre em sua atividade, aquilo que estava como operação incorporada e resposta automática torna- se questão para o sujeito.

128 O comentário é a expressão em palavras pelo trabalhador de sua própria atividade.

129 O autor chama atenção para a questão ética do método, advertindo que a autoconfrontação só poderá ser realizada depois de uma séria negociação com os sujeitos, assegurando que os mesmos compreenderam as implicações de se submeter ao exercício.

Para Faïta (2010), o método tem a vantagem de induzir uma rápida progressão no ponto de vista do ator em questão sobre a construção do seu discurso, diante de sua atividade.

Em suas palavras:

O esquema, nessas circunstâncias, é quase sistemático. Confrontado ao espetáculo de seu trabalho, o ator passa por graus na apreciação de sua própria atividade. Os componentes de sua ação o conduzem a dar inicialmente uma imagem de como ele vê a si mesmo. Depois abandona essa imagem para entrar no estágio de colocar em palavras aquilo que caracteriza a especificidade de sua ação, o que se atrela, em última instância, a outras constantes que são as do coletivo no qual ele se reconhece (FAÏTA, 2010, p. 183).

O comentário dos traços do trabalho acessados por vídeo se faz através de interpretação e de questões já levantadas pela auto-observação. Desta forma, explica Clot (CLOT; LEPLAT, 2005), o vivido, revivido em uma situação transformada, muda de lugar na atividade do sujeito. Isto é, de objeto se torna meio. Assim, apesar de não se negar a importância dos conteúdos do trabalho, “este método não é um processo de coleta de dados e menos ainda um meio de fazer dizer o que as pessoas não têm como entender” (FAÏTA, 2007, p.26), mas um dispositivo que visa à instauração de um conjunto de redes dialógicas, de atividades linguajeiras sobre a atividade de trabalho, de forma a iniciar uma reconstrução do sujeito à sua ação passada, abrindo os possíveis à sua atividade futura.

Os autores de referência da abordagem denominada Clínica da Atividade costumam referir-se a este encaminhamento do que chamam “método de autoconfrontação” como uma

“autoconfrontação simples” para distinguir de outro, normalmente realizado a posteriori, ao qual denominam “autoconfrontação cruzada” (FERNANDEZ; CLOT, 2007; CLOT, 2007, 2010a), onde o olhar questionador do(s) par(es) de trabalho é incluído como forma de contribuir para a retomada do movimento dialógico no sentido da criatividade, visto que pode reacender ou revelar ressonâncias, correlações e contradições na atividade do sujeito de análise de sua atividade de trabalho.