Pode-se dizer que, em contato quase permanente (mesmo que virtual, fisicamente à distância) com os espaços onde se dá a produção e agora, em função do reenquadramento do posto na hierarquia, em relação estreita também com a gerência e a direção, os SE têm se posicionado cada vez mais no centro das relações e da realização do trabalho. E nesta posição tendem a experimentar ainda mais fortemente as contradições organizacionais. Isto porque suas atividades se desenrolam cada vez mais, conforme contribuição de Zarifian (1998), no centro da injunção entre um sistema de controle gerencial, que tende a operar sobre unidades monetárias, e um sistema de pilotagem das performances físicas, sujeito a variabilidades.
Chama-se atenção de que, mais do que a outros trabalhadores, que são cobrados (mas mais indiretamente) pelas decisões de conciliação de diversas dimensões (muitas vezes incompatíveis) nas situações concretas de trabalho, aos SE é imputada a responsabilidade final pelas consequências de decisões110. Esta imputação é feita desconsiderando-se que os sistemas de gerenciamento só podem efetivar-se a contento na medida em que viabilizem a gestão do trabalho, a qual é sempre social e coletiva, no exercício concreto das atividades.
Todavia, isto não significa dizer que – mesmo que numa dimensão que só pode ser analisada à lupa – eles não tomem parte nas escolhas, na gestão real do trabalho.
Se considerarmos que no trabalho em alguma medida (mesmo que no infinitesimal) e forma todos fazem gestão, não se pode furtar de considerar que em suas atividades de trabalho os SE fazem uso de si (do corpo-si) e são atravessados por debates de normas, nos quais circula um mundo de valores. Desta forma, no lugar de considera-los submetidos à ideologia de um modo de gerenciamento totalmente predeterminado pelos dirigentes da empresa e pelos profissionais de prescrição do gerenciamento, pretendeu-se investigar em que medida as
110 Exemplos: responder por marcas de vandalismo no banheiro dos operadores; e justificar na segunda-feira pela manhã os motivos de incidentes no final de semana, período fora da jornada de trabalho dos mesmos.
atividades de trabalho dos SE contribuem na definição do que se poderia denominar gerenciamento efetivamente realizado, um gerenciamento atravessado pelas práticas de gestão dos protagonistas do trabalho, enfim um gerenciamento gestionário, de tipo ergológico, conforme caracterizado no capítulo 2.
3.3.1 Objetivos da pesquisa de campo
Propõe-se, assim, colocar em análise, do ponto de vista da atividade, o trabalho dos SE nesta fábrica, com vistas a melhor compreender como eles gerenciam neste contexto de mudanças organizacionais. Em que medida o fazem incorporando(-se) em sua prática a gestão das situações de trabalho efetuada pelos protagonistas das atividades sob sua responsabilidade. Sinteticamente, pretende-se:
Analisar em que medida o debate de normas e as possíveis renormatizações nas atividades de profissionais de supervisão apontam para uma reserva de alternativas de transformação do trabalho, introduzindo valores outros que os exclusivamente mercantis.
Discutir a relação entre as reservas de alternativas nas atividades de supervisão do trabalho e o suposto de um modo de gerenciar que se denominou gerenciamento ergológico.
Questões norteadoras da análise:
Como estes profissionais têm realizado a gestão da interface (circulação de informações, estabelecimento de canais de parceria, preservação da hierarquia) entre as orientações estratégicas oriundas da direção da empresa (políticas, diretrizes e objetivos) e a “organização real do trabalho” (DEJOURS & JAYET, 1994), frente às variabilidades, imprevistos, contradições presentes nas situações de trabalho?
Que normas entram em confronto (debate) na gestão efetiva do trabalho?
Que valores são convocados, como entram neste debate?
Que escolhas têm sido possíveis; como a possibilidade normativa dos SE tem se efetuado; que renormatizações têm sido operadas no curso de suas atividades; há retrabalho de valores em suas atividades?
3.3.2 Compreender o trabalho: um desafio metodológico
A questão que se propõe discutir nesta tese está baseada no pressuposto básico da Ergologia de que toda atividade, local e espaço de dramáticas do uso do corpo si (e não apenas de fiel reprodução de um protocolo), se desenvolve e se manifesta em um meio de normas, atravessado por um mundo de valores, que fazem com que o trabalhar seja uma atividade constante de avaliação e escolhas. Isto implica a adoção de métodos de pesquisa que permitam analisar o trabalho que permitam dar conta do desafio que representa o acesso e a compreensão dos valores que aí circulam.
A pretensão de avaliar a priori os valores que estão em jogo nas renormatizações é denominada por Schwartz (2004b) como uma postura de exterritorialidade111, advertindo que se trata de algo não só questionável como também impossível, o que torna a produção de conhecimentos dependente da construção de lugares em que uma relação triangular entre atividades, saberes e valores seja viável.
Assim, o trabalho visto como um conjunto de atividades humanas, sempre singulares e historicamente datadas e situadas, é impossível de ser compreendido e analisado do exterior.
Aquilo que nenhuma disciplina pode fazer sozinha, do ponto de vista da atividade, só pode ser feito incluindo seu principal protagonista: aquele que processa o trabalho. “Para compreender o trabalho, os saberes disciplinares são necessários, mas é com aqueles que trabalham que se validará conjuntamente o que podemos dizer da situação que eles vivem” (SCHWARTZ &
DURRIVE, 2010, p. 36). Tornou-se, portanto, imprescindível a criação de condições para que o diálogo sobre a atividade de trabalho acontecesse, em alguma medida e forma, em parceria, encaminhando uma coinvestigação.
111 Pressuposição de que as bifurcações e escolhas conceituais poderiam realizar-se em total neutralidade, baseadas em quadros analíticos externamente determinados, ignorando a complexidade das situações singulares de trabalho (SCHWARTZ, 2004).
4 REFERENCIAL TEÓRICO-METODOLÓGICO
Estudar o trabalho não pode prescindir de considerar a sua complexidade, o que impede a adoção de um ponto de vista único e normativo, tanto menos seu domínio por uma única disciplina de conhecimento. Por se tratar de um conceito, sinalizando um objeto abstrato, que inclui uma variedade de práticas e se desdobra em inúmeras experiências singulares, a interdisciplinaridade (quiçá a transdiciplinaridade) é uma condição e um desafio na construção de pontos de convergência, “o que implica a construção de um processo de interlocução e troca entre as diferentes disciplinas que o integram” (ARAÚJO, 2011, p. 333).
Para tal, conforme a démarche da Ergologia (SCHWARTZ; DURRIVE, 2010), buscou-se no conceito transversal de atividade um ponto de vista que possibilita o cruzamento entre as diversas ciências que estudam o trabalho. Todavia, a opção por este “ponto de vista”, mais do que respostas para um encaminhamento teórico-metodológico, coloca um desafio, haja vista a necessidade de dar precisão ao conceito de atividade, assim como luz ao que ele revela como fertilidade.
A concepção que orienta a tese não tem como pressuposto a existência de uma verdade previamente existente na realidade, a ser “coletada” através do metódico levantamento do véu que encobriria os fatos científicos. Tampouco se entende que a realidade seja a consciência que os indivíduos têm da realidade, revelada por comportamentos observados ou relatados via questionários e/ou entrevistas.
Limoeiro (1971), entre outros, chama atenção para o caráter transitório, histórico do conhecimento científico e, portanto, para o caráter não absoluto do método, como algo predeterminado ao objeto de pesquisa. Ou seja, o método tem que ser pertinente ao objeto de conhecimento conceitual que funda uma problemática. A autora questiona uma epistemologia cartesiana, onde o método se identifica como técnica, isto é, um conjunto de regras que por si só garantiriam a obtenção dos resultados esperados, no plano do conhecimento. O rigor necessário ao trabalho científico, segundo Limoeiro, passa pela discussão de validade do seu emprego, considerando a especificidade do problema em análise. O método seria, então, uma parte integrante de um corpo teórico integrado que, no confronto com o mundo, permite melhor configurar os problemas, dar indicações, mostrar lacunas e encaminhar hipóteses, exigindo do pesquisador um esforço de reflexão sobre as suposições que subjazem sua escolha.
No delineamento metodológico desta pesquisa de tese buscou-se evitar uma orientação epistemológica positivista (malgrado sua posição hegemônica internacional no campo da Psicologia Social do Trabalho & Organizacional) calcada na visão do conhecimento como o resultado da manipulação de dados (já dados, a serem coletados por técnicas já validadas, como testes e questionários) pelo método, assim como numa ilusão de neutralidade e de objetividade absoluta frente a um real que se suporia transparente e pronto a ser desvendado (retirada a venda da ignorância que esconderia os dados e fatos). Ao contrário de se pretender isolar o objeto de estudo da situação concreta, do contexto e das dimensões históricas, sociais e subjetivas que afetam as pessoas nos meios e processos de trabalho, buscou-se identificar instrumentos (conceituais, metodológicos e técnicos) que permitissem gerar conhecimento científico a partir da análise das situações singulares.
Neste capítulo pretendeu-se reunir argumentos que justifiquem a opção por uma abordagem desenvolvimental (no sentido de Vigotski) e dialógica (no sentido de Bakhtin) de análise do trabalho, por meio do que na tradição de Vigotski (1998; 1999/1927) tem sido denominado métodos indiretos112, considerando o objeto do conhecimento, não em seu produto, mas em seu processo de mudança. Não apenas pela pertinência desta abordagem àqueles propósitos, como também pelo lugar de destaque que permite dar ao papel ativo dos protagonistas do trabalho em análise no processo de investigação (e não como informantes em entrevistas ou questionários) e à conjugação sinérgica do objetivo de compreensão com o de transformação positiva das situações de trabalho, o que implica no estabelecimento de uma interação do pesquisador com o objeto em análise.