• Nenhum resultado encontrado

A barata

No documento DA IRA À ESPERANÇA: (páginas 195-200)

4 Capítulo quarto ‒ Movimentos da revelação

asseverar essa hipótese, pois a entrada na água da banheira, como se entrasse no mar, leva Joana a percepções que tocam o insondável. Algo a toma e ela não compreende, algo indefinível. Ela diz “água”, mas imediatamente percebe que não, não é isso, e então diz “tudo”. A água é mais do que água, é tudo. E a palavra tudo, se aparece a Joana como incompreensível, é também apaziguadora, e as coisas se passam de modo grave, como que num ritual, o que evoca mais uma vez algo da esfera do religioso. O banho é agora um ritual em que Joana se defronta com o mistério que a tudo abarca.

Logo depois, levanta-se, aquece-se com um roupão e vai para o quarto em que as outras moças já dormem3. Deitada na cama, segue no fluxo de percepções e indagações que a invadiu:

Descobri em cima da chuva um milagre ‒ pensava Joana ‒ um milagre partido em estrelas grossas, sérias e brilhantes, como um aviso parado: como um farol. O que tentam dizer? Nelas pressinto o segredo, esse brilho é o mistério impassível que ouço fluir dentro de mim, chorar em notas largas, desesperadas e românticas. Meu Deus, pelo menos comunicai-me com elas, fazei realidade meu desejo de beijá-las. De sentir nos lábios a sua luz, senti-la fulgurar dentro do corpo, deixando-o faiscante e transparente, fresco e úmido como os minutos que antecedem a madrugada. Por que surgem em mim essas sedes estranhas? (...) Estrelas, estrelas, rezo. A palavra estala entre meus dentes em estilhaços frágeis. Porque não vem a chuva dentro de mim, eu quero ser estrela. Purificai-me um pouco e terei a massa desses seres que se guardam atrás da chuva. Nesse momento minha inspiração dói em todo o meu corpo. Mais um instante e ela precisará ser mais do que uma inspiração. E em vez dessa felicidade asfixiante, como um excesso de ar, sentirei nítida a impotência de ter mais do que uma inspiração, de ultrapassá-la, de possuir a própria coisa – e ser realmente uma estrela.

Aonde leva a loucura, a loucura. No entanto é a verdade.4

Acima da chuva – chuva que, como o mar, evoca o Deus que é mistério ‒ Joana descobre o milagre, e o milagre seria a possibilidade de ver, de trespassar o mistério. O milagre são as estrelas, e as estrelas são como um farol, têm algo a dizer, um aviso a dar – uma revelação?

Joana pressente nelas o segredo; não mais o segredo como o inalcançável do mar, mas o segredo revelado, o aviso. O brilho das estrelas remete ao mistério que Joana vê dentro de si. E ela quer tocar as estrelas, tem sede delas e pede a Deus que possa tocá-las. A possibilidade de ser iluminada pelo aviso que portam as estrelas surge então como alcançável através de Deus, e a Ele Joana reza pedindo para ter a sede aplacada. Porque a chuva não lhe corre por dentro – a chuva, como o mar, é o mistério em si mesmo, de modo que ter a chuva por dentro seria ser como Deus ‒ deseja ser como a estrela, portadora da luz que revela o mistério. Ao pedir, sente no corpo a tensão do que poderia lhe ocorrer: ter o pedido atendido e de repente ser mais do que é, ser a própria estrela, se abrir tão completamente à luz das estrelas que se tornaria uma delas. Podemos dizer: ser tão totalmente invadida pela luz da revelação que se tornaria, ela própria, fonte dessa luz. E pensa também que, se isso acontecer, passará da “inspiração” à

3 LISPECTOR, Perto do coração selvagem, p. 66.

4 LISPECTOR, Perto do coração selvagem, p. 66-67.

“própria coisa”5. No final da passagem citada, se refere ao que experimenta como loucura, mas logo acrescenta: “no entanto é a verdade”. Portanto, a verdade trazida pela luz das estrelas que estão acima da chuva pode se confundir com a loucura aos olhos humanos.

Mais à frente, no desenrolar da experiência, Joana retorna à consciência de ser um corpo:

Estou me enganando, preciso voltar. Não sinto loucura no desejo de morder estrelas, mas ainda existe a terra. E porque a primeira verdade está na terra e no corpo. Se o brilho das estrelas dói em mim, se é possível essa comunicação distante, é que alguma coisa quase semelhante a uma estrela tremula dentro de mim. Eis-me de volta ao corpo. Voltar ao meu corpo. Quando me surpreendo ao fundo do espelho assusto-me.

Mal posso acreditar que tenho limites, que sou recortada e definida. Sinto-me espalhada no ar, pensando dentro das criaturas, vivendo nas coisas além de mim mesma. Quando me surpreendo ao espelho não me assusto porque me ache feia ou bonita. É que me descubro de outra qualidade. Depois de não me ver há muito quase esqueço que sou humana, esqueço meu passado e sou com a mesma libertação de fim e de consciência quanto uma coisa apenas viva.6

Se tornar uma estrela seria deixar de ser o que é, um ser humano feito de carne a viver sobre a terra. Para Joana ainda não é possível integrar a estrela em sua carne, que veremos à frente ser o movimento mesmo da revelação pela encarnação7, que nos permite perceber que na terra mesmo habita a primeira verdade, ou seja, no ser mesmo que somos, nos limites que nos são dados, é possível a aproximação da verdade. Se a luz das estrelas faz doer seu corpo, Joana conclui que é porque deve haver nela própria algo de “quase semelhante” a elas. E isso residiria no corpo, em seu corpo próprio ao qual retorna e que é o que vê no espelho ao se olhar.

Vendo-se, surpreende-se com seus limites, retoma a consciência de ser um corpo humano limitado, pois, ao ficar muito tempo sem se ver, quase se esquece disso. Esquecendo-se, percebe-se liberta, um ser como todos os outros. Mais uma vez temos aqui a ideia de que o ser humano se diferencia por sua capacidade reflexiva, mas não deixa de ser também o ser indiferenciado, que é mundo como qualquer outra coisa viva. Uma coisa viva que experimenta em seu corpo aquilo sobre o que depois poderá refletir, e a reflexão não se separa desse corpo que experimenta. Ao contrário, é no corpo mesmo que se dá.

Essa passagem nos mostra a possibilidade apontada de alcançarmos, em nosso ser mesmo, algum tipo de revelação, de percepção da verdade que habita o mundo para além da chuva que é o mistério que não se revela. As estrelas são portadoras do segredo e se comunicam de algum modo com algo que possuímos em nós mesmos, em nossa carne.

5 A essa ideia voltaremos na seção 4.1.4 quando considerarmos o livro Água viva.

6 LISPECTOR, Perto do coração selvagem, p. 68.

7 Seções 4.1.5 e 4.2.2 à frente.

4.1.2 G.H. e a barata

E é precisamente a revelação pela carne que se dará em A paixão segundo G.H., romance de enredo mínimo e de abissal reflexão de cunho antropológico, filosófico e teológico.

Todo o livro se passa em dois dias. G.H., personagem central de quem conhecemos só as iniciais, numa manhã, relata, em discurso em primeira pessoa dirigido a alguém, o que se passou com ela no dia anterior. Como a empregada doméstica tinha se despedido, G.H. decide fazer uma limpeza no apartamento, a começar pelo quarto da empregada. No quarto, vê uma barata, tenta matá-la esmagando-a com a porta do guarda-roupa, mas ela não morre, fica semiviva presa pela porta, e do seu corpo começa a sair uma massa branca. Diante disso, G.H. vive uma intensa aventura que podemos chamar de espiritual. Uma aventura que pode ser vivida por qualquer um de nós, uma possibilidade antropo-teológica.

Buscarei alguns trechos que nos ajudarão a perceber o caráter de revelação do oculto ‒ da verdade oculta ‒ que a experiência de G.H. carrega. Logo ao início, ainda tratando de introduzir o que irá narrar, G.H. nos diz:

Talvez o que me tenha acontecido seja uma compreensão ‒ e que, para eu ser verdadeira, tenho que continuar a não estar à altura dela, tenho que continuar a não entendê-la. Toda compreensão súbita se parece muito com uma aguda incompreensão.

Não. Toda compreensão súbita é finalmente a revelação de uma aguda incompreensão. Todo momento de achar é um perder-se a si próprio. Talvez me tenha acontecido uma compreensão tão total quanto uma ignorância, e dela eu venha a sair intocada e inocente como antes. Qualquer entender meu nunca estará à altura dessa compreensão, pois viver é somente a altura a que posso chegar ‒ meu único nível é viver. Só que agora, agora sei de um segredo. Que já estou esquecendo, ah sinto que já estou esquecendo...8

Vemos aqui a ressonância das ideias já trabalhadas acerca do não entendimento. A compreensão acaba por se entender como “a revelação de uma aguda incompreensão”. O máximo a que chegamos com o entendimento é a percepção de uma incompreensão aguda.

Trata-se de, em intensa experiência compreensiva, chegar a um ponto de descoberta do incompreensível. A compreensão teria sido “tão total” que emergiu na consciência de uma incompreensão também total. Por isso, dessa experiência G.H. sai inocente como antes, apenas sabendo que tocou num segredo do qual já está se esquecendo. Fará o registro do que viveu, e assim a memória quase a se perder será conservada e nos servirá – ao leitor ‒ de guia.

Um pouco à frente, ainda na fase introdutória do relato, G.H. aproxima explicitamente o que viveu de um convite do Deus:

Ir para o sono se parece tanto com o modo como agora tenho de ir para a minha liberdade. Entregar-me ao que não entendo será pôr-me à beira do nada. Será ir apenas indo, e como uma cega perdida num campo. Essa coisa sobrenatural que é viver. O viver que eu havia domesticado para torná-lo familiar. Essa coisa corajosa que será

8 LISPECTOR, A paixão segundo G.H., p. 16.

entregar-me, e que é como dar a mão à mão mal-assombrada do Deus, e entrar por essa coisa sem forma que é um paraíso. Um paraíso que não quero!9

A entrega ao desconhecido é evocada pelo simples ato de ir para o sono e nos recoloca na trilha da entrega ao Deus que é mistério, entrega que é também a entrada na própria liberdade.

A vida aparece como sobrenatural, o que G.H. não suporta e por isso domestica a vida. Nos compreendendo aí, percebemos o ato humano de trazer para o pequeno âmbito do conhecido/controlado aquilo que não o é, para assim se apaziguar. Com a vida domesticada, nós, os “sonsos essenciais”10, vivemos em meio ao sobrenatural sem nos darmos conta dele.

Mas o Deus nos acompanha e parece estar com a mão à nossa disposição, cabe a nós pegá-la.

Porém, é uma mão mal-assombrada, mão que nos causa pavor. Dando a mão a Deus e O acompanhando, entramos na “coisa sem forma que é um paraíso” e que G.H. não deseja. A liberdade aparece aqui numa abordagem paradoxal11: é dando a mão ao Deus, deixando-nos, portanto, guiar por Ele que acedemos à nossa liberdade. Com medo e recusa, G.H. se vê à beira do limite em que acederá ao desconhecido que é o nada, mas é também a liberdade e é também dar a mão ao Deus.

No desconhecido, o que G.H. viveu diz respeito a uma desorganização completa de tudo o que ela era antes. O que se revela a G.H. a coloca em uma perspectiva inteiramente nova. Já vemos o anúncio do que está por vir nesta passagem:

Vi, sim. Vi, e me assustei com a verdade bruta de um mundo cujo maior horror é que ele é tão vivo que, para admitir que estou tão viva quanto ele ‒ e minha pior descoberta é que estou tão viva quanto ele ‒ terei que alçar minha consciência de vida exterior a um ponto de crime contra a minha vida pessoal.

Para a minha anterior moralidade profunda ‒ minha moralidade era o desejo de entender e, como eu não entendia, eu arrumava as coisas, foi só ontem e agora que descobri que sempre fora profundamente moral: eu só admitia a finalidade ‒ para a minha profunda moralidade anterior, eu ter descoberto que estou tão cruamente viva quanto essa crua luz que ontem aprendi, para aquela minha moralidade, a glória dura de estar viva é o horror. Eu antes vivia de um mundo humanizado, mas o puramente vivo derrubou a moralidade que eu tinha?

É que um mundo todo vivo tem a força de um Inferno.12

Já sabemos, portanto, que a experiência a ser relatada é reveladora de que G.H. – e com ela todos nós ‒ vive em um mundo vivo em que é tão viva quanto ele. Com essa percepção, G.H. perde tudo o que havia construído antes, de modo que se vê como criminosa em relação a si mesma. O mundo humano, inclusive com sua moralidade, arde em horror diante dessa revelação. O mundo é todo vivo, e nessa realidade não nos diferenciamos, e nisso reside o horror: o pânico humano de perder os seus limites, os limites da sua identidade; a isso

9 LISPECTOR, A paixão segundo G.H., p. 18.

10 Ver seção 2.1.2.1, sobre a crônica “Mineirinho”.

11 Noção que já vimos ao tratar da problemática da ordem no capítulo anterior. Ver seções 3.1.5 e 3.2.4 acima.

12 LISPECTOR, A paixão segundo G.H., p. 22.

No documento DA IRA À ESPERANÇA: (páginas 195-200)