3.1 O mar
3.1.9 O autor que cria: Macabéa e Ângela
Antes de encerrar esta exposição dos movimentos da criação na obra clariciana, veremos como essa ideia se desdobra na apresentação da problemática da própria criação literária nos dois últimos romances de Clarice Lispector, A hora da estrela e Um sopro de vida.
A hora da estrela é narrado em primeira pessoa por um autor ficcional, Rodrigo S. M., criado pela verdadeira149 autora para estabelecer alguma distância entre ela e a história a ser contada; mais ainda, foi criado um narrador homem porque uma mulher poderia “lacrimejar piegas”150 frente a essa história. Entretanto, o recurso da criação de um narrador, que é também personagem, não resolve o problema enfrentado na abordagem da história que se quer contar.
Em todo o primeiro quarto da obra o narrador se esforça por se aproximar do que pretende contar. O que vai ser narrado e, principalmente, Macabéa, a protagonista do que se irá narrar, vão sendo paulatinamente apresentados como algo de extrema delicadeza com o qual se deve ter o mais concentrado cuidado. Rodrigo S. M. rodeia a história demoradamente, como vemos neste trecho:
Escrevo neste instante com algum prévio pudor por vos estar invadindo com tal narrativa tão exterior e explícita. De onde no entanto até sangue arfante de tão vivo de vida poderá quem sabe escorrer e logo se coagular em cubos de geléia trêmula. Será essa história um dia o meu coágulo? Que sei eu. Se há veracidade nela – é claro que a história é verdadeira embora inventada – que cada um a reconheça em si mesmo porque todos nós somos um e quem não tem pobreza de dinheiro tem pobreza de espírito ou saudade por lhe faltar coisa mais preciosa que ouro – existe a quem falte o delicado essencial.151
148 LISPECTOR, Uma aprendizagem ou o livro dos prazeres, p. 155.
149 Em LISPECTOR, A hora da estrela, p. 9, lemos a “Dedicatória do autor (Na verdade Clarice Lispector)”.
150 LISPECTOR, A hora da estrela, p. 14.
151 LISPECTOR, A hora da estrela, p. 12.
O pudor faz com que ele se demore. Teme invadir o leitor com história tão “exterior e explícita”. E, no entanto, convoca o leitor a reconhecer em si o que vai contar. Por esse trecho já sabemos que algo será dito sobre a pobreza, e o narrador nos adverte: todos temos pobreza.
A história que se irá contar não deve ser apreendida como a história de um outro, é nossa, de cada um a se reconhecer nela, na história que é “verdadeira embora inventada”. Verdade e invenção não se diferenciam. O ato criativo cria – inventa – o que é verdadeiro. Rodrigo, “na verdade Clarice Lispector”, inventa a personagem Macabéa, que revela a cada um de nós um lance de verdade, um ponto em que podemos/devemos nos reconhecer, como um pedaço de espelho com o qual poderíamos meditar no deserto152.
Poderíamos aqui nos estender sobre os muitos desdobramentos que o texto traz a respeito do ato mesmo de escrever, mas voltarei o foco para nosso tema da criação no âmbito teológico. O narrador Rodrigo S. M. cria para fazer existir essa história que ainda não existia153, impelido por “esse vosso Deus que nos mandou inventar”154, e se vê – ou supõe que assim Macabéa o veria – como o Criador: “Devo dizer que essa moça não tem consciência de mim, se tivesse teria para quem rezar e seria a salvação”155. Rodrigo, o criador de Macabéa, seria aquele a quem ela poderia rezar se dele tivesse consciência, e assim se salvaria. Fica aí implicada, portanto, a ideia de que a salvação é possível àquele que toma consciência de seu Criador e assim se vê diante dele como quem tem a quem rezar. Macabéa, entretanto, não faz esse movimento. Algumas linhas à frente, o narrador nos diz:
Quando dormia quase que sonhava que a tia lhe batia na cabeça. Ou sonhava estranhamente em sexo, ela que de aparência era assexuada. Quando acordava se sentia culpada sem saber por quê, talvez porque o que é bom devia ser proibido.
Culpada e contente. Por via das dúvidas se sentia de propósito culpada e rezava mecanicamente três ave-marias, amém, amém, amém. Rezava mas sem Deus, ela não sabia quem era Ele e portanto Ele não existia.156
A experiência de religiosidade que Macabéa tem evoca a culpa aprendida com a tia, estereótipo da pessoa beata157. Macabéa não conhece Deus e, portanto, Ele não existe. Não tem consciência de seu criador e assim não pode a Ele se dirigir. Macabéa, no vazio de sua existência, está só e não se sabe criatura. Seguindo a lógica clariciana, não se perguntou sobre si mesma, não se fez mistério e não reconhece o mistério fora de si, mas, por isso mesmo, se confunde com o restante dos seres e aí parece estar em Deus.
152 Ver a crônica “Os espelhos”, em LISPECTOR, Para não esquecer, p. 7-8.
153 LISPECTOR, A hora da estrela, p. 11.
154 LISPECTOR, A hora da estrela, p. 17.
155 LISPECTOR, A hora da estrela, p. 33.
156 LISPECTOR, A hora da estrela, p. 34.
157 LISPECTOR, A hora da estrela, p. 28.
Viu ainda dois olhos enormes, redondos, saltados e interrogativos – tinha olhar de quem tem uma asa ferida – distúrbio talvez da tiróide, olhos que perguntavam. A quem interrogava ela? a Deus? Ela não pensava em Deus, Deus não pensava nela. Deus é de quem conseguir pegá-lo. Na distração aparece Deus. Não fazia perguntas.
Adivinhava que não há respostas. Era lá tola de perguntar? E de receber um “não” na cara? Talvez a pergunta vazia fosse apenas para que um dia alguém não viesse a dizer que ela nem ao menos havia perguntado. Por falta de quem lhe respondesse ela mesma parecia se ter respondido: é assim porque é assim. Existe no mundo outra resposta?
Se alguém sabe de uma melhor, que se apresente e a diga, estou há anos esperando.158
A afirmação de que “Deus é de quem conseguir pegá-lo” parece nos recolocar na alçada da crítica por sua carga de ironia que denuncia os movimentos das igrejas que falam para os escolhidos que conseguem a elas chegar e ser capazes de “pegar” Deus. Macabéa claramente está fora desse círculo, ela, nordestina pobre perdida na cidade do Rio de Janeiro, uma “cidade toda feita contra ela”159. A Macabéa nada foi reservado nesta sociedade que é a nossa. A Macabéa, que não sabe fazer a pergunta sobre si e, quando tenta, é apenas para que não a acusem de não a ter feito, resta, porém, a possibilidade de estar diante de Deus na distração, pois é aí que Ele aparece. A pretensão de “pegar” Deus resulta, portanto, inócua, pois Ele nos aparece na distração. E nisso não há distinção entre Macabéa e todos os outros: ao humano Deus aparece na distração ou, como já vimos, pelas vias do selvagem ou do não entendimento.
Outros trechos vêm confirmar essa hipótese de que Macabéa, não por seu próprio movimento, recebe a visita de Deus.
A maior parte do tempo tinha sem o saber o vazio que enche a alma dos santos. Ela era santa? Ao que parece. Não sabia que meditava pois não sabia o que queria dizer a palavra. Mas parece-me que sua vida era uma longa meditação sobre o nada. Só que precisava dos outros para crer em si mesma, senão se perderia nos sucessivos e redondos vácuos que havia nela. Meditava enquanto batia à máquina e por isso errava ainda mais.160
O narrador diz de Macabéa como santa por seu estado permanente de vazio, como que em longa meditação. Macabéa, perdida de si, é espaço permanentemente vazio a ser ocupado pela presença divina. Ou ainda: “Enfim o que fosse acontecer, aconteceria. E por enquanto nada acontecia, os dois não sabiam inventar acontecimentos. Sentavam-se no que é de graça: banco de praça pública. E ali acomodados, nada os distinguia do resto do nada. Para a grande glória de Deus”161. Nessa cena, Macabéa e Olímpico, uma “espécie de namorado”162 que ela teve, são como todas as outras coisas do mundo, que são nada. Não há neles a pretensa diferença humana marcada pela capacidade de fazer a pergunta sobre si mesmos – podemos dizer: pela
158 LISPECTOR, A hora da estrela, p. 26-27.
159 LISPECTOR, A hora da estrela, p. 15.
160 LISPECTOR, A hora da estrela, p. 38.
161 LISPECTOR, A hora da estrela, p. 47.
162 LISPECTOR, A hora da estrela, p. 43.
subjetividade. E, nisso, a despeito da perda humana aí implicada, não se diferenciam do restante do mundo, glória de Deus – a Criação?
Essa presença, que até aqui foi descrita como algo que passa ao largo da consciência de Macabéa, em outros momentos lhe é perceptível, ainda que não nomeada:
Um dia teve um êxtase. Foi diante de uma árvore tão grande que no tronco ela nunca poderia abraçá-la. Mas apesar do êxtase ela não morava com Deus. Rezava indiferentemente. Sim. Mas o misterioso Deus dos outros lhe dava às vezes um estado de graça. Feliz, feliz, feliz. Ela de alma quase voando. E também vira o disco-voador.
Tentara contar a Glória mas não tivera jeito, não sabia falar e mesmo contar o quê? O ar? Não se conta tudo porque o tudo é um oco nada. Às vezes a graça a pegava em pleno escritório. Então ela ia ao banheiro para ficar sozinha. De pé e sorrindo até passar (parece-me que esse Deus era muito misericordioso com ela: dava-lhe o que lhe tirava). Em pé pensando em nada, os olhos moles.163
O Deus é “dos outros” porque com Ele Macabéa não tem nenhuma relação. Percebe a presença sem poder nomeá-la. O narrador faz a nomeação, deixando claro que esse Deus não é dela porque ela assim não O percebe. No mundo da consciência de Macabéa, não há Deus. Mas em sua vida há a presença, descrita aqui como estado de graça, ideia a que voltaremos mais à frente164. O que Macabéa sente é uma alegria súbita e sem razão de ser. E o narrador conclui: o Deus parecia dar-lhe o que lhe tirava. Se a Macabéa tudo tinha sido retirado, lhe era dada ainda a graça de perceber a presença do Deus, mesmo sem nomeá-la. E diante disso nos cabe perguntar sobre qual é a função de tudo o que se pode ter, se afinal a graça nos vem em meio ao nada. Ou, inversamente, de que serve a graça para Macabéa, se sua vida permanece miserável e vazia. A ironia clariciana não nos permite sossegar diante de Macabéa, que, ela própria desassossegada, “depois pediu perdão ao Ser abstrato que dava e tirava. Sentiu-se perdoada. O Ser a perdoava de tudo”165. Perdoada e capaz de perceber em si a graça da presença divina, mas ainda miserável e perdida em uma cidade feita contra ela.
O narrador/criador Rodrigo S. M., por sua vez criatura de Clarice Lispector, cria Macabéa e com ela expõe a condição humana em meio ao mundo que a repele e diante do Deus que é mistério.
Também em Um sopro de vida, escrito que Clarice Lispector deixou inacabado e que veio a ser organizado por Olga Borelli e publicado postumamente166, há a relação de criação entre o narrador, chamado de Autor, e Ângela Pralini, a personagem criada por ele e que também narra em primeira pessoa. O texto é, portanto, uma narrativa em primeira pessoa alternada entre Autor e Ângela e se debruça sobre ampla temática reflexiva que alcança a quase
163 LISPECTOR, A hora da estrela, p. 63.
164 Ver seção 5.1.3.
165 LISPECTOR, A hora da estrela, p. 66.
166 Ver a “Nota prévia”, de Marlene Gomes Mendes: LISPECTOR, Clarice. Um sopro de vida, p. 6.
totalidade do que fora antes trazido à luz na obra clariciana. No início do livro, o Autor, depois de longa reflexão sobre si mesmo, sua capacidade de pensar e escrever e a relação disso tudo com Deus e o espírito, nos apresenta Ângela:
O resultado disso tudo é que vou ter que criar um personagem – mais ou menos como fazem os novelistas, e através da criação dele para conhecer. Porque eu sozinho não consigo: a solidão, a mesma que existe em cada um, me faz inventar. E haverá outro modo de salvar-se? senão o de criar as próprias realidades? Tenho força para isso como todo o mundo – é ou não é verdade que nós terminamos por criar uma frágil e doida realidade que é a civilização? essa civilização apenas guiada pelo sonho. Cada invenção minha soa-me como uma prece leiga ‒ tal é a intensidade de sentir, escrevo para aprender. Escolhi a mim e ao meu personagem ‒ Ângela Pralini ‒ para que talvez através de nós eu possa entender essa falta de definição da vida. Vida não tem adjetivo.
É uma mistura em cadinho estranho mas que me dá em última análise, em respirar. E às vezes arfar. E às vezes mal poder respirar. É. Mas às vezes há também o profundo hausto de ar que até atinge o fino frio do espírito, preso ao corpo por enquanto.167
A criação surge, pois, para o ser humano como o seu instrumento de salvação, aquilo que lhe permite um movimento em meio à perplexidade das tentativas de conhecimento. O personagem será criado como um caminho, um meio para conhecer e para ultrapassar a solidão que nos constitui. O que criamos vira realidade no mundo e, em certo sentido, nos acompanha, nos faz companhia. Nosso impulso de criação leva à construção de toda a civilização, todo o mundo construído pelo ser humano é resultado de seu impulso criativo e de seu sonho. E, então, do sonho o texto passa para a prece: “cada invenção minha soa-me como uma prece leiga”. A prece é leiga por não se circunscrever ao campo estrito do religioso, mas é ainda prece. Prece é algo que se dirige a um outro, de modo que o texto nos sugere que todo o mundo criado pelo ser humano é um modo de se dirigir a um outro, e o uso da palavra prece evoca a ideia de que esse outro seja Deus. Como se tudo o que fazemos, fizéssemos para Deus. De todo modo, recuando de volta à letra da passagem lida, parece claro que é esse pelo menos o movimento do Autor. Ângela, a personagem a ser criada, o acompanhará no empenho de “entender essa falta de definição da vida”. E para o ser humano, a quem só resta respirar, arfar e às vezes atingir com o ar o sopro do espírito, criar pode ser um movimento que aproxima do Criador, até porque, como vimos com Rodrigo S. M., esse Deus nos manda inventar. Mimetizando o ato criador, nos movimentamos, ainda que no escuro, na procura permanente pelo entendimento.
167 LISPECTOR, Um sopro de vida, p. 19.