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Berta Waldman e Benjamin Moser

No documento DA IRA À ESPERANÇA: (páginas 38-42)

1.1 O estado da questão

1.1.2 Deus na obra de Clarice Lispector

1.1.2.4 Berta Waldman e Benjamin Moser

que o pensamento judaico se desenvolve nesse movimento permanente de busca que é realizado pela palavra, e em meio à palavra, como um exercício interpretativo da única imagem de Deus possível para o povo judaico: a que emerge da Bíblia. Tal exercício “é a leitura e a interpretação que constroem a ponte de aproximação com um Deus que é letra e nome impronunciável (YHWH)”113.

Para além dessa primeira marca, que se alinha com toda a tradição judaica de interpretar e reinterpretar os textos bíblicos, Waldman passa a considerar pontos específicos em que a Bíblia é trazida aos textos de Clarice Lispector. Quanto a isso, deixa claro que toda a Bíblia é tomada pela escritora, e não apenas o Antigo Testamento, e com isso quer dizer que também escritos cristãos são encontrados na sua obra114. Seguindo então a um pequeno inventário de trechos que evocam os textos bíblicos, Waldman propõe a questão que é crucial para o meu próprio trabalho:

A pergunta que fica é: será que a inflexão bíblica (que soa, às vezes, em falsete) presente no estilo de Lispector é uma armadilha, “maneira necessariamente sonsa de se apresentar uma visão profana, dessacralizada” da realidade, como quer Américo Pessanha? Ou será que se poderia pensar que, não obstante o desacordo constitutivo do modo de ser da autora que adelgaça a norma, opõe-se à escrita legitimada por uma tradição, ainda assim mantém-se um vínculo, um laço, que faz eco a essa tradição?115

Se a tal questionamento respondermos pela hipótese da dessacralização, o que ecoaria a noção de paródia que vimos com Olga de Sá, todo o trabalho aqui construído se veria invalidado. Esta tese reflete uma tomada de posição frente à questão colocada por Waldman e corrobora a hipótese de que a obra de Clarice Lispector revela uma vinculação à tradição judaico-cristã.

Em seguida a esse questionamento, Waldman passa a apresentar algumas passagens em que o tema da lei é tocado, indicando apostar também na hipótese de que a obra clariciana ecoa a tradição judaica. Na análise da crônica “Mineirinho”116, se estende sobre o modo como a narração aborda o mandamento Não matarás, lei que lá aparece como a primeira e mais fundamental, e a noção de justiça117. Ao final define a crônica como um “comentário da lei bíblica”118, o que se alinha a toda uma linhagem judaica de comentário à Bíblia.

Ao final, reafirma que o judaísmo não pode ser visto como a única presença na obra clariciana, também aberta, a seu tempo e lugar, à cultura popular brasileira moderna, embebida

113 WALDMAN, Por linhas tortas: o judaísmo em Clarice Lispector, p. 3.

114 WALDMAN, Por linhas tortas: o judaísmo em Clarice Lispector, p. 4.

115 WALDMAN, Por linhas tortas: o judaísmo em Clarice Lispector, p. 5.

116 Análise que também será aqui realizada. Ver seção 2.1.2.1 à frente.

117 WALDMAN, Por linhas tortas: o judaísmo em Clarice Lispector, p. 6-8.

118 WALDMAN, Por linhas tortas: o judaísmo em Clarice Lispector, p. 8.

de cristianismo e sincretismos119. Em que pesem, todavia, os desvios e transgressões impetrados pela escrita clariciana, assim como as distinções que não permitem que leiamos a obra clariciana como texto abertamente judaico, a autora aponta as estruturas judaicas que nela se revelam e que nos permitem tomá-la na esteira da linhagem judaica de comentaristas dos textos bíblicos, especialmente no que tange à lei120.

De “Uma cadeira e duas maçãs: presença judaica no texto clariciano”, publicado no já citado Cadernos de Literatura Brasileira e que repete várias ideias já aqui tratadas, vale a pena aludir à referência de Berta Waldman ao nome de Macabéa, a protagonista de A hora da estrela.

Trata-se, segundo a autora, de referência explícita aos Livros dos Macabeus, considerados apócrifos pelo judaísmo, e cujo principal tema é a resistência de um povo que, como Macabéa, sofre opressão por parte dos que têm a posse do poder121. Macabéa, como os macabeus, resiste frente à opressão. Por outro lado, Macabéa é aquela que nem mesmo sabe da origem de seu nome, o que a aprisiona no lugar da alienação; fora do poder, deslocada em relação aos signos da linguagem, segue sem pertencer a nada122.

Em relação ao que podemos dizer sobre as relações entre a escrita de Clarice Lispector e o judaísmo, Waldman acrescenta que “A hora da estrela poderia ser considerado um midrash que, na segunda metade do século XX, põe em pé um cenário do passado, fazendo caminhar com novo alento os protagonistas de uma história que é vivida agora no Brasil”123. Midrash é toda peça literária que compõe a tradição midráshica de comentários bíblicos124, e assim vemos que a autora mais uma vez localiza a obra de Clarice Lispector nessa tradição, de modo a podermos também considerá-la, talvez, como teológica, na medida em que contém em si o comentário bíblico.

Passemos a Benjamin Moser125, o biógrafo estadunidense atraído pela escritora brasileira, de cuja obra diz que “é talvez a maior autobiografia espiritual do século XX”, na qual tem o leitor a visão de uma “alma virada pelo avesso”, como nos escritos de Santa Tereza

119 WALDMAN, Por linhas tortas: o judaísmo em Clarice Lispector, p. 8-9.

120 WALDMAN, Por linhas tortas: o judaísmo em Clarice Lispector, p. 9.

121 Cadernos de Literatura Brasileira, p. 255.

122 Cadernos de Literatura Brasileira, p. 255-256.

123 Cadernos de Literatura Brasileira, p. 257.

124 Cadernos de Literatura Brasileira, p. 257.

125 A biografia escrita por Benjamin Moser foi lançada em 2009 e tem sido sucesso de vendas. Todavia, em meios acadêmicos, seu trabalho tem recebido críticas, tanto pelo modo preconceituoso com que se refere ao Brasil quanto por imprecisões de caráter acadêmico. Um bom exemplo dessas críticas pode-se ler no seguinte artigo:

JERONIMO, Thiago Cavalcante. Benjamin Moser: quando a luz dos holofotes interessa mais que a ética acadêmica. Língua, linguística e literatura, v. 14, n. 1, João Pessoa, 2018, p. 8-20. Disponível em https://periodicos.ufpb.br/index.php/dclv/article/view/42212/21697, acesso em 18/2/2021.

d’Ávila ou São João da Cruz126. Por essa primeira observação já percebemos o lugar em que o autor localiza a obra clariciana, lugar da mística e da autorrevelação. E, mais precisamente, lugar da mística judaica:

[Clarice Lispector] narrou sua busca em termos que, como os de Kafka, apontavam necessariamente para o mundo que ela deixara para trás, descrevendo a alma de uma mística judaica que sabe que Deus está morto, mas que, no tipo de paradoxo que perpassa toda a sua obra, está determinada a encontrá-Lo mesmo assim127.

A escritora judia, peregrina em um mundo sem Deus, busca por Ele e, no processo, escreve uma obra reveladora dessa busca – esta pode ser uma síntese grosseira da leitura de Moser.

Logo ao início de sua biografia, o autor trata da questão do nascimento de Clarice Lispector e do modo como ela parece se esquivar ou desejar transformar o seu real nascimento, que se deu em meio à emigração da família, que partia da Ucrânia em guerra após a revolução de 1917 na Rússia. Nesse sentido, Moser enfatiza a problemática do pertencimento e cita romance da irmã da autora, Elisa Lispector, que “faz repetidamente a pergunta: Fun vonen is a yid?”, que, “literalmente, significa ‘De onde vem um judeu?’, e é o modo educado com que um falante de iídiche procura saber sobre a origem de outro”128. Moser, assim, localiza na questão judaica a problemática do nascimento da autora e sua busca constante pela origem. Em que pese a veracidade das dificuldades pessoais, familiares e étnicas dessa problemática, aqui tratarei dessa questão em seu alcance radical que é o do problema teológico das origens129.

Na impossibilidade de comentar aqui todo o traçado da biografia de Moser, que, ao mesmo tempo em que conta a história de Clarice Lispector, tece comentários sobre sua obra e seu pensamento subjacente, copio aqui um parágrafo que nos permite perceber melhor a filiação judaica que o autor enfatiza no pensamento da escritora:

Mas em 1941 aquele Deus [o Deus dos judeus] estava morto. A Torá e o Talmud já não eram consoladoras árvores da vida, e o imenso edifício da cabala, as complexidades de sua metafísica, refinada e elaborada por séculos de gênios místicos, estavam em ruínas. Só os fatos do exílio e da perseguição, e a sede de redenção que eles engendravam, seguiam inalterados. Talvez tenha parecido um beco sem saída, o mesmo beco sem saída que Kafka confrontou. Mas a conjunção podia apresentar um desafio a uma pessoa com extraordinária vocação espiritual e poder linguístico para expressá-la. Afinal de contas, o anseio pela redenção, nascido da dura perseguição, tinha moldado a mentalidade judaica durante séculos. Quando Clarice Lispector começou a enunciar suas próprias especulações sobre o divino, ela estava ecoando os escritos de gerações anteriores que buscaram o eterno em meio à crise e ao exílio.130

126 MOSER, Benjamin. Clarice, uma biografia. Trad. José G. Couto. São Paulo: Cosac Naify, 2009. p. 16.

127 MOSER, Clarice, p. 16-17.

128 MOSER, Clarice, p. 22.

129 Ver capítulo terceiro à frente.

130 MOSER, Clarice, p. 167.

A especulação clariciana sobre Deus, estaria, pois, alicerçada pelo solo dos escritos místicos judaicos. E também, como o autor acrescenta à frente, pela filosofia do também judeu Spinoza 131. De Spinoza, como aponta Moser, Clarice Lispector parece ter herdado o possível panteísmo que muitos veem em sua obra, questão de extrema relevância teológica e à qual voltaremos algumas vezes, ainda que sem tocar diretamente na possível influência espinosista.

Moser aponta ainda o lugar que Deus começa a ocupar na obra clariciana, segundo ele a partir de A maçã no escuro, um lugar às vezes chamado de nada, e que guarda em si o mistério inalcançável, o que se ajusta à tradição judaica em que “nada pode ser mudado sem entrar em contato com a região do ser absoluto que os místicos chamam de Nada”132. O Deus incessantemente buscado pela escrita de Clarice Lispector nunca deixará de ter o seu aspecto oculto, como o do Deus que não pode ter o seu nome pronunciado. Ao se colocar a pergunta sobre se a inclusão da temática judaica em seus escritos era intencional por parte da autora, Moser tende a entender que sim e que a ela nunca faltou conhecimento e leitura de literatura mística judaica, ainda que não de forma sistemática nem tampouco supervalorizada por ela, que sempre desconfiou da erudição133.

Em seu posicionamento claro pela afirmação de que o Deus que emerge na obra clariciana é o Deus judaico, Moser, ao tratar do romance Uma aprendizagem ou o livro dos prazeres, se refere a um trecho em que a narradora menciona o Cristo, para chamá-lo de “o mais famoso dos deuses humanizados” e dizer que este Deus não seria aceito pela personagem Lóri, que se via diante de um Deus “vasto e impessoal”134. A posição que tentarei construir ao longo desta tese será contraditória com essas afirmações. Por ora, podemos antecipar que a visão de Jesus Cristo como a de um Deus humanizado é simplória e que a própria obra clariciana nos fornece uma percepção muito sofisticada a respeito do evento Cristo135.

No documento DA IRA À ESPERANÇA: (páginas 38-42)