• Nenhum resultado encontrado

A construção do objeto de análise

No documento Universidade do Estado do Rio de Janeiro (páginas 178-200)

Diante da ideia de poder como governo, e do que identifica como multiplicação das artes de governar – arte pedagógica, arte política, arte econômica –, Foucault (1995c, p. 3) elabora a ideia de crítica como forma de resistência. Na conferência intitulada O que é uma crítica? realizada na Société Française de Philosophie, em maio de 1978, ele associa à questão “como governar” uma outra que seria complementar a ela, “como não governar”, ou ainda “como não governar desse modo”. Segundo o autor, a atitude crítica deve questionar as razões pelas quais se governa – o que não consiste em emitir julgamentos. Em outros termos, deve expor e criticar a racionalidade política e seus efeitos. Porém, como ressalta Oksala (2011), Foucault não oferece essas razões. Em realidade, como afirma,

ele procurou diagnosticar nosso presente, nossa racionalidade política, as formas de subjetividade normalizada e o tipo de uso do poder que as produzia. Com isso, abriu um espaço politizado que não prescreve programas políticos explícitos, mas torna possível contestar necessidades reconhecidas. [...] sugeriu em vários contextos que a resistência concreta tinha de ser conduzida por pessoas envolvidas, ao passo que seu pensamento podia no máximo oferecer ferramentas para a instituição dessas resistências locais (OKSALA, 2011, p.110-111).

Seguindo os ensinamentos de Machado (2006), o uso da perspectiva teórico- metodológica de Foucault, nesta tese, não parte do entendimento de que seria um caminho definitivo ou método universal, mas, como dito anteriormente, uma caixa de ferramentas utilizada na análise do conjunto de enunciados que compõem as propostas legislativas federais sobre o assédio moral, o bullying e a síndrome da alienação parental/alienação parental. Entende-se que isso permite conhecer os jogos de verdade e as estratégias de poder presentes nessas propostas que, em última instância, visam a normalizar e conduzir condutas de acordo com determinados mecanismos de coerção.

Importa informar que, atualmente, existem diversas leis de âmbito municipal e estadual no país voltadas especificamente ao assédio moral e ao bullying, como informam diversas matérias sobre estes (ESTADÃO, 2001; FOLHA DE SÃO PAULO, 2010; G1, 2011). Contudo, no presente estudo optou-se por abordar os Projetos de Leis federais que abordam aqueles temas e a alienação parental, uma vez que apresentam os argumentos que justificariam a criação de leis que atingem todo o território nacional.

Cabe lembrar que a pesquisa documental consiste em um método de investigação no qual se empreende a organização e o tratamento dos dados colhidos nos documentos selecionados. É também parte desse procedimento metodológico a reconstituição do contexto sócio-histórico no qual esses documentos foram produzidos. Na presente pesquisa, essa reconstituição se deu a partir da identificação, nas propostas legislativas escolhidas, do conjunto de enunciados que encontram lugar no contexto social brasileiro, o qual serve como cenário para o desenvolvimento de ideias e práticas acerca de um suposto incremento da

“violência” nas relações.

O primeiro passo da pesquisa foi sistematizar a metodologia para a coleta e organização dos documentos legislativos de forma que se pudesse dar conta da diversidade do material a ser analisado. Com essa preocupação, foi realizada busca junto ao Portal da Câmara Federal dos Deputados,84 na Internet, onde foram feitas consultas às proposições legislativas.

Na página inicial da Câmara encontrou-se uma pasta de acesso chamada Atividade Legislativa, na qual havia diversos assuntos, dentre os quais os Projetos de Leis e Outras Proposições. Ao selecionar este item, entrou-se em outra página que oferecia três formas de acesso ao sistema: 1-pesquisa pelo número da proposição; 2- pesquisa por assunto; 3- pesquisa completa. Para o presente estudo foi escolhido o item 2, no qual foram inseridas para busca as expressões assédio moral, bullying e alienação parental. Em sequência, obteve-se o rol dos PLs em que constava tais expressões. Selecionando o número de cada um deles pôde- se, ainda, visualizar o histórico de suas movimentações pelas diferentes comissões da Câmara Federal dos Deputados e os pareceres expedidos por elas, dentre outros aspectos. De modo a ilustrar a lista dos Projetos de Leis encontrados, segue quadro 1.

84 Disponível em <http://www2.camara.gov.br>. Acesso em 12 out. 2011.

Quadro demonstrativo 1 − Projetos de Leis encaminhados até o ano 2011 que mencionam o assédio moral, bullying e alienação parental.

Ano Assédio moral Bullying Alienação

parental 2001 PL5887, PL4960, PL4742,

PL4591, PL597185 _

2003 PL2593, PL2369, PL1610,

PL6 _

2004 PL4326

2006 PL6542

2007 PL33, PL1060

2008 PL4053

2009 PL4593, PL6625, PL6653, PL5369, PL6481 PL5197

2010 PL675786, PL7146, PL7202 PL6725, PL6935

2011 PL2210

PL283, PL350, PL908, PL1011, PL1015, PL1226, PL1494, PL1573, PL1633, PL1691, PL1765, PL1785, PL1841, PL2048, PL2091, PL2129, PL2383,

PL2663, PL3015, PL3036

total 20 24 2

No que tange ao assédio moral, que tem os primeiros Projetos de Leis encaminhados à Câmara no ano 2001, notou-se que alguns como o PL4742/2001, por exemplo, propõem alteração do Código Penal brasileiro – Decreto-Lei nº2848, de 07 dezembro de 1940 – com a inclusão de novo artigo que prevê a punição para atos tipificados como assédio moral.

Posteriormente, foram oferecidas novas propostas legislativas voltadas para as relações de trabalho e até mesmo para as relações entre torcedores, conforme o PL2210/2011 que propõe alteração do Estatuto do Torcedor (Lei nº 10.671, de 15 de maio de 2003). Este PL não tem como foco o assédio moral, porém faz menção a ele quando se refere a “exigências absurdas de performance ou de bom comportamento” dos jogadores de futebol (s/p). Assim, optou-se pela sua inclusão na listagem inicial dos PLs selecionados, uma vez que ilustra a diversidade sobre o emprego do termo assédio moral no país.

Quanto à alienação parental, foram identificados apenas dois Projetos de Leis. O primeiro, o PL4053/2008, propunha inicialmente tornar crime a conduta nomeada como alienação parental. Porém, como já foi dito, em agosto de 2010 foi sancionada a Lei nº12318 que, embora não tipifique a dita conduta como crime, elenca uma série de sanções que podem ser aplicadas pelo julgador. O segundo, o PL5197/2009, foi encaminhado à Câmara com a proposta de destituir o poder familiar de pais que empreendessem a dita alienação parental.

85 O PL5971/2001 não aparece na lista dos PLs sobre assédio moral, disponibilizada pelo site da Câmara de Deputados, porém é mencionado na árvore de apensos do PL4742/2001. Por esse motivo foi incluído no quadro 1.

86 O PL6757/2010, que surgiu a partir do PL do Senado n.79, de 2009, igualmente não aparece na lista dos PLs sobre assédio moral no site da Câmara, porém é mencionado em árvore de pensos de vários PLs.

Tendo em vista a vigência da nova lei, já citada, foi declarada prejudicidade em relação aos artigos do referido PL, o qual foi encaminhado para arquivamento.

As proposições legislativas sobre o bullying despertaram atenção devido à sua quantidade, somente no ano 2011 foram encaminhados 20 novos Projetos de Leis à Câmara que tinham o assunto como foco. Além de diversos PLs que propunham a tipificação penal do dito bullying, com indicação de alteração do Código Penal brasileiro como o PL1011/2011, por exemplo, havia também aqueles que sugeriam medidas de combate no âmbito dos esportes (PL2129/2011) e de prevenção nas escolas da rede pública e privada de todo o país (PL1785/2011). No quadro 2, a seguir, é apresentada a organização dos PLs selecionados segundo a lei que se destinam.

Quadro demonstrativo 2 − Distribuição dos Projetos de Leis por lei de destino

Leis modificadas/novas Número de proposições

Código Penal 8

Consolidação das leis do trabalho 3 Código Civil

Estatuto do Torcedor Lei de Diretrizes e Bases Lei dos Servidores Públicos Lei Pele

Lei da Previdência Social Nova lei

Total de proposições

1 1 4 3 1 1 24 46

Como se pode observar, no quadro 2, a maioria desses PLs se refere à criação de leis, seguida de propostas de alteração do Código Penal. Sem dúvida, esses aspectos são levados em conta na análise e discussão do material selecionado.

Entre os PLs listados no quadro 1, verificou-se que alguns haviam sido arquivados, outros aguardavam parecer de alguma Comissão da Câmara, e vários estavam apensados aos que seguiam em tramitação na Câmara Federal dos Deputados. Ao acessar no site da Câmara cada um desses PLs, encontrava-se o link Árvore de apensados e outros documentos da matéria que ilustrava a posição do PL pesquisado em relação aos demais apensos.

No presente estudo, foram selecionados para análise os PLs que possuíam o maior número de apensos, regra que não se aplicou ao tema alienação parental, visto que o PL4053/2008, que versa sobre o assunto, não possui anexos. No quadro 3, ilustram-se as proposições legislativas escolhidas para análise.

Quadro demonstrativo 3 − Projetos de Leis selecionados.

Ano Tema

nº do Projeto

de Lei

Autor/partido Caput

2001 Assédio

moral 4742 Marcos de Jesus (PLPE)

Introduz art. 146-A no Código Penal Brasileiro – Decreto - Lei n° 2.848, de 7 de dezembro de 1940 - dispondo sobre o crime de assédio moral no trabalho.

2008 Alienação

parental 4053 Regis de Oliveira

(PSC-SP) Dispõe sobre a alienação parental 2009 Bullying 5369

Vieira da Cunha

(PDT-RS) Institui o Programa de combate ao “Bullying”

2010 Assédio

moral 6757

Senado Federal – Inácio Arruda

(PCdoB-CE)

Altera dispositivos da Consolidação das Leis do Trabalho (CLT), aprovada pelo Decreto-Lei nº 5.452, de 1º de maio de 1943, para dispor sobre coação moral.

2011 Bullying

1785

Senado Federal - Gim Argello

(PTB-DF)

Acrescenta inciso IX ao art. 12 da Lei nº 9.394, de 20 de dezembro de 1996 (Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional), para incluir entre as incumbências dos estabelecimentos de ensino a promoção de ambiente escolar seguro e a adoção de estratégias de prevenção e combate ao bullying.

1011 Fábio Faria (PMN-RN)

Define o crime de Intimidação escolar no Código Penal Brasileiro e dá outras providências

Os PLs destacados acima possuem pareceres emitidos pelas diversas comissões da Câmara Federal dos Deputados. No site da Câmara se teve acesso a esses pareceres por meio do link Histórico de pareceres, substitutivos e votos. A seguir, no quadro 4, estão organizados os PLs selecionados para análise, juntamente com os apensos e pareceres que os acompanham.

Quadro demonstrativo 4 − PLs e pareceres selecionados.

Tema nº/ano do Projeto de Lei Apensos Origem do parecer Relator/partido Assédio

moral

4742/2001 4960/2001

5887/2001 5971/200187

Comissão de

Constituição e Justiça de Redação (CCJCR)

Dep. Aldir Cabral (PFL-RJ)

Alienação parental

4053/2008

Comissão de

Constituição e Justiça da Câmara (CCJC)

Maria do Rosário (PT-RS)

Comissão de

Seguridade Social e Família (CSSF)

Dr. Pinotti (1) (DEM- SP); Acélio Casagrande (2)

(PMDB-SC)

Bullying 5369/2009 6725/2010

6481/2009

Comissão de

Educação e Cultura (CEC)

Maria do Rosário (PT-RS)

Comissão de

Finanças e Tributação (CFT)

João Dado (PDT-SP)

Comissão de

Segurança Pública e Combate ao Crime Organizado

(CSPCCO)

Antonio Carlos Biscaia (PT-RJ)

Assédio moral

6757/2010

2369/2003 6625/2009 4593/2009 2593/2003 7146/2010

Comissão de

Trabalho, de

Administração e Serviço Público (CTASP)

Dep. Vicentinho (PT- SP)

Bullying

1785/2011

7457/2010 283/2011 908/2011 1226/2011 1633/2011 1765/2011 350/2011 1841/2011 2048/2011 3036/2011 2108/2011

Comissão de

Segurança Pública e Combate ao Crime Organizado

(CSPCCO)

William Dib (PSDB- SP)

Comissão de

Educação e Cultura (CEC)

Jean Wyllys

1011/2011 1494/2011

1573/2011

Comissão de

Segurança Pública e Combate ao Crime Organizado

(CSPCCO)

Carlos Alberto (PMN- RJ)

Nessa primeira visada sobre as proposições legislativas encontradas, pôde-se notar que, a despeito de se referirem à matéria de âmbito penal, civil ou trabalhista, por exemplo, coexistiam enunciados sobre os danos provocados às vítimas, a necessidade de punição dos agressores, as medidas de prevenção, dentre outros aspectos. Com base nesse exame preliminar, se orientou o presente estudo para uma análise de cunho qualitativo dos PLs e

87 Embora os PLs 4960/2001, 5887/2001, 5971/2001 constem como apensos do PL 4742/2001, o parecer do relator faz menção unicamente ao primeiro.

pareceres listados no quadro 4. Conforme diversos autores (MARTINS; BICUDO, 1989;

MINAYO; SANCHES, 1993; PAULILO, 1999), a abordagem qualitativa não tem a pretensão de representatividade quanto ao aspecto distributivo do objeto pesquisado; se houver generalização, a partir da análise realizada, ela deve ser compreendida como parte de um universo de possibilidades.

5 O QUE DIZEM OS PLs E PARECERES DA CÂMARA FEDERAL DOS DEPUTADOS

A superestimação da subjetividade e a multiplicação de mecanismos de segurança pelo corpo social, como se sinalizou em capítulos anteriores, vêm favorecendo certa produção discursiva em torno da noção de “violência” a qual parece alcançar diferentes domínios da vida na atualidade. No cenário nacional, nota-se que isso tem estimulado demandas por mais punição e controle, as quais têm convergido especialmente para propostas de leis que, na maioria das vezes, visam a definir condutas que estariam ligadas à “violência” e a criar medidas de repressão a elas.

Assim, com o objetivo de avistar o que é dito em justificativas para a criação de leis federais que dispõem sobre questões associadas à noção de “violência”, no presente capítulo, é feita a análise de Projetos de Leis que abordam o assédio moral, o bullying e a alienação parental, juntamente com os pareceres emitidos pelas comissões da Câmara Federal dos Deputados sobre aqueles (ver quadro 4 no capítulo anterior).

Com base no referencial teórico-metodológico de Foucault, abordado no capítulo anterior, não se intenta listar aqui tudo o que é dito nos documentos pesquisados, mas sim descrever e ordenar diferentes enunciados que chamam atenção, especialmente, devido ao fato de estarem presentes na maioria daqueles documentos. Percebe-se que, embora sem uma interligação entre si a priori, estes enunciados surgem por vezes diretamente associados nos textos examinados.

A seguir, sem pretender desvelar, ou interpretar os sentidos ocultos do que é dito, mas apresentar o discurso em sua exterioridade, realizando um recorte provisório das relações que estabelece com suas condições de existência, como ensina Foucault (1972; 1995a), passa-se a descrever pequenas séries de enunciados que aparecem intimamente ligados nos documentos pesquisados. Assim, é na tessitura de enunciados sobre assédio moral, bullying e alienação parental que se vislumbra certa unidade discursiva.

5.1 “Violência” e danos psicológicos

Nos PLs e pareceres federais examinados nesta tese são comuns enunciados que reportam o assédio moral, o bullying e a alienação parental à ideia de “violência, bem como outros que destacam os prejuízos causados aos indivíduos vitimados. A regra parece ser: se há

“violência”, há danos psicológicos. A esses enunciados, cabe ressaltar, são também atrelados outros sobre a identificação de comportamentos, a multiplicação daqueles conjecturados fenômenos, o respaldo de pesquisas e publicações, por exemplo. Todos esses enunciados juntos sustentariam a necessidade de definição legal do assédio moral, do bullying e da alienação parental no país. Para ilustrar, destacam-se inicialmente enunciados sobre

“violência” e outros que os acompanham nos documentos revisados:

Ocorre, muitas vezes, na prática, que até a saúde do trabalhador é destruída pela violência cometida por alguns empregadores ou chefes, inclusive no serviço público (PL4742/2001, p.24176).

São numerosos os indicadores que, de tão estarrecedores, tem provocado uma crescente preocupação de governos na tomada de decisões visando a implementação de políticas públicas efetivas para acabar com essas formas de violência, a começar por programas nas escolas, local de predominância das práticas do “bullying”

(PL5369/2009, p.4).

Quanto à alienação parental, o PL 4053/2008 reproduz fragmento de um texto em que a autora, uma jurista, se remete à nomeada síndrome da alienação parental como algo ligado à

“violência” nas interações:

Certamente todos que se dedicam ao estudo dos conflitos familiares e da violência no âmbito das relações interpessoais já se depararam com um fenômeno que não é novo, mas que vem sendo identificado por mais de um nome. Uns chamam de

"síndrome de alienação parental"; outros, de "implantação de falsas memórias"

(DIAS, 2006 apud PL4053/2008, p.5).

Algumas vezes, os documentos analisados chamam atenção para a necessidade de definição legal, ou ainda, de tipificação penal de determinada forma de “violência” que não seria tão evidente como nos casos de agressão corporal, por exemplo. O trecho a seguir sobre o assédio moral ilustra a questão:

Não cogitamos da violência corporal ostensiva, já devidamente contemplada na lei penal. Referimo-nos à violência consubstanciada no comportamento abusivo que atinge o psicológico e emocional do cidadão (PL4742/2001, p.24176).

Há também indicações de que haveria um desconhecimento acerca da “violência”, a qual ocorreria por vezes de forma velada:

[conforme PL2048/2011] Há uma tendência de as escolas não admitirem a ocorrência do bullying entre seus alunos; ou desconhecem o problema ou se negam a enfrentá-lo. Esse tipo de agressão geralmente ocorre em áreas onde a presença ou supervisão de pessoas adultas é mínima ou inexistente (PRL2-CSPCCO- PL1785/2011, s/p).

Vale lembrar que nos estudos nacionais revisados no primeiro capítulo desta tese, o assédio moral (REZENDE, 2004; SANTOS, 2005), o bullying (ALCANTARA, 2008;

NASCIMENTO, 2009) e a alienação parental (WANDALSEN, 2009) também são referidos como formas de “violência”, as quais muitas vezes não seriam percebidas por conta de sua invisibilidade (COSTA, 2011; FRANCISCO; LIBÓRIO, 2009; HELOANI, 2005).

Em que pesem exortações quanto à criação de um estatuto legal que defina o assédio moral, o bullying ou a alienação parental como condutas ligadas à “violência”, nota-se que as proposições federais não partem de uma definição precisa sobre este conceito. Os argumentos sobre a instituição de tal estatuto se remetem algumas vezes a conceitos metafísicos, ou a aspectos subjetivos, que não podem ser apreendidos sem algum esforço do pensamento.

Como, por exemplo, num PL é dito que,

O bullying é uma forma de agressão que afeta a alma das pessoas. Pode provocar, nas vítimas, um sentimento de isolamento (PL1011/2011, s/p).

A proposta de lei citada acima, embora não precise como “a alma das pessoas” seria afetada por tal “violência”, assinala que pretende, ainda, favorecer a autoestima dos indivíduos vitimados:

A iniciativa pretende ainda potencializar as eventuais diferenças, canalizando-as para aspectos positivos que resultem na melhoria da autoestima das pessoas (PL1011/2011, s/p).

Provavelmente, a referida proposição não levou em conta reflexões como a que foi lançada pelos legisladores que, no início dos anos 2000, se debruçaram sobre um dos primeiros PLs relativo ao nomeado assédio moral. Na análise da matéria, eles ressaltavam a necessidade de cuidado quanto ao uso de expressões pouco precisas sobre o tema, conforme trecho em destaque:

A técnica legislativa necessita de aperfeiçoamento, pois a norma penal deve ser precisa, clara, não deixando margem a diversas interpretações. Em sua redação o projeto contém expressões de interpretação duvidosa como "desqualificar a segurança", "autoestima" que poderiam ser substituídas para melhor compreensão do texto (PRL1-CCJR-PL4742/2001, p.02376).

Nas proposições legislativas em apreço, assim como nos estudos nacionais revisados no primeiro capítulo, verifica-se que, de modo semelhante, asserções diversas e pouco precisas envolvendo o assédio moral, o bullying e a alienação parental podem ser alocadas sob o conceito guarda-chuva de “violência”. Tal conceito, em expansão (RIFIOTIS, 2008), parece se tornar atualmente um denominador comum no modo como vêm sendo percebidos enfrentamentos e dificuldades nas relações interpessoais em diferentes contextos, a despeito dos fatores de ordem social, cultural, local que os envolvem.

Assim, entende-se que, ao invés de os argumentos citados anteriormente sobre invisibilidade e não reconhecimento de supostas formas de “violência” suscitarem reflexões e debates sobre o assunto, eles são utilizados nos documentos em apreço para a afirmação do assédio moral, do bullying e da alienação parental. O fragmento abaixo sobre a nomeada alienação parental exemplifica a questão:

Evidente vantagem da existência de definição legal de alienação parental é o fato de, em casos mais simples, permitir ao juiz, de plano, identificá-la ou, ao menos, reconhecer a existência de seus indícios, de forma a viabilizar rápida intervenção jurisdicional (PRL1-CCJC-PL4053/2008, p.4).

Um estatuto legal definindo determinada conduta seria também uma forma de ensinar os indivíduos a perceberem certas ações como constrangimentos, sofrimentos e “violência”

nos contextos do trabalho, da escola e da família, por exemplo. Nesse sentido, nota-se que frequentemente nos documentos analisados as definições de uma tal conduta são acompanhadas da listagem de comportamentos que seriam exemplos de agressões, conforme trechos em destaque:

Cite-se, como exemplo [do assédio moral], marcar tarefas impossíveis ou assinalar tarefas elementares para a pessoa que desempenha satisfatoriamente papel mais complexo; ignorar o empregado, só se dirigindo a ele através de terceiros;

sobrecarregá-lo com tarefas que são repetidamente desprezadas; mudar o local físico, sala, mesa de trabalho para outro de precárias instalações, como depósito, garagens, etc (PL4742/2001, p.24177).

Criar um estigma ou um rótulo sobre as pessoas é como pré conceituá-las, ou seja, praticar o bullying. Além de ser uma agressão moral, é uma atitude de humilhação que pode deixar seqüelas emocionais à vítima. Outros exemplos são os comentários pejorativos sobre peso, altura, cor da pele, tipo de cabelo, gosto musical, entre outros (PL1011/2011, s/p).

A proposição ora apresentada além de introduzir definição legal da alienação parental no ordenamento jurídico, estabelece rol exemplificativo de condutas que dificultam o efetivo convívio entre criança ou adolescente e genitor, de forma a não apenas viabilizar o reconhecimento jurídico da conduta da alienação parental, mas preservar o direito à convivência familiar garantido no artigo 227 da nossa Carta Maior (PRL1-CCJC-PL4053/2008, p.4).

Além disso, verifica-se que comportamentos reproduzidos e incorporados pela sociedade ao longo do tempo também são referidos nas proposições legais como condutas ligadas à “violência.” Por exemplo, o nomeado trote, ou seja, a recepção que alunos veteranos costumam fazer aos iniciantes, especialmente em universidades, também foi atrelado ao bullying. Nesse sentido, vale citar o PL 2108/2011 que “dispõe sobre a proibição de trotes violentos e/ou vexatórios aplicados em alunos iniciantes das instituições escolares de nível médio e superior” (s/p). Este PL foi apensado ao PL1785/2011 que versa sobre bullying (PRL2-CSPCCO-PL1785/2011, s/p).

Porém, contrapondo-se à associação direta entre trote e bullying, o seguinte parecer ressalta que,

Ora, o trote não é repetitivo e não acontece contra uma vítima específica. [...] o trote [é considerado] como bullying somente quando este incita a prática de tal violência, ou seja, quando o trote incita violência que se perpetuará ao longo do tempo contra um estudante específico (PRL1-CEC-PL1785/2011, p.6).

Apesar de fazer tal distinção, o parecer citado acima endossa a concepção de que o trote é uma forma de “violência” e que, portanto, carece previsão legal:

O trote é, muitas vezes, uma prática violenta que reforça ainda mais as práticas de opressão impostas pela sociedade, como a homofobia, o racismo e o machismo. No entanto, tal assunto deve ser tratado separadamente desta lei, justamente para evitar a banalização do conceito de bullying (PRL1-CEC-PL1785/2011, p.6).

Assim, para evitar o que chama de “banalização” e “desconhecimento” acerca do bullying, o parecer citado anteriormente orienta sobre a identificação deste último, destacando

“três elementos indispensáveis,” os quais seriam descritos na “literatura acadêmica-científica”

sobre o assunto (PRL1-CEC-1785/2011, p.5):

(1) Primeiramente, a prática da violência deve ser intencional; em outras palavras, o agressor tem a intenção direta e imediata de causar dano a outrem.

(2) Em segundo lugar, o bullying é a prática de violência repetida, ou seja, para ser bullying, a violência deve ocorrer sempre do mesmo agressor contra a mesma vítima e deve ocorrer frequentemente.

(3) Em terceiro lugar, a prática do bullying ocorre (a) sem motivação evidente, o agressor não tem motivos relevantes para causar dor ao outro e a vítima não

No documento Universidade do Estado do Rio de Janeiro (páginas 178-200)