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parental como formas de “violência” pode contribuir para a percepção do outro como uma provável ameaça, como alguém que pode causar sofrimento ou prejuízos aos demais. Dito de outro modo, ao mesmo tempo em que se dissemina a ideia de “violência” nas relações, a qual também toma parte na política de gerenciamento de riscos, os indivíduos são conduzidos a certa percepção quanto aos comportamentos, bem como estimulados a identificar tudo, ou todos, que possam causar constrangimentos à sua satisfação pessoal. Aliado a isso, a promoção em torno daqueles temas serve ainda como forma de naturalizar certa perspectiva vitimizante que ganha vulto atualmente.

avalia o autor, as perturbações mentais vêm permeando toda a vida social, oscilando entre o desconforto e a doença, entre o mau comportamento e o desvio.

Essa forma como os padecimentos vêm sendo apreendidos envolve ainda certa concepção quanto às responsabilidades sobre eles. Como explica Vaz (2010), nas culturas são selecionados determinados sofrimentos, ao mesmo tempo em que é feita a distribuição de responsabilidades sobre sua existência entre ações individuais e coletivas. Na atualidade, continua o pesquisador, isso implicará em uma forma singular de lidar com o sofrimento, a divisão da população em dois segmentos. De um deles fazem parte os indivíduos atentos, preocupados com medidas preventivas para a própria segurança e saúde, que serão identificados como vítimas; e de outro, os que, por seus comportamentos e/ou características, oferecem riscos aos demais, ou seja, os agressores ou monstros, representados pelas categorias de pedófilos, traficantes, terroristas etc. Essa distinção, prossegue o autor, alcança tanto os indivíduos considerados normais, como aqueles vistos como doentes mentais. Como sintetiza,

No caso dos agressores será mantido o nexo entre doença mental, crime e imoralidade, assim como sua relativa raridade [...]. Haverá também o caso de doentes que oscilam entre serem agressores e vítimas: são os compulsivos, que, por serem incapazes de dominar a relação com o que lhes dá prazer, não consideram o risco para si e para os outros [...]. Por fim, haverá a situação dos doentes mentais que só são vítimas, estatuto criado pelos conceitos de estresse pós-traumático, autoestima e sofrimento (VAZ, 2010, p.151).

Ainda na apreciação de Vaz (2010), embora nas culturas ocidentais contemporâneas as formas de renúncia tenham cedido lugar frente aos discursos de liberação do prazer e de satisfação imediata, amplamente recomendados nas peças publicitárias, a impulsividade é vista como patológica, uma vez que o indivíduo não considera a possibilidade de causar danos. Em outros termos, ao mesmo tempo em que a cultura autoriza e estimula a busca ilimitada pelo prazer, ou felicidade individual, “[...] proporá haver doença mental – e orgânica – onde quer que a busca do prazer ameace a possibilidade de uma vida longa e saudável, para si e para os outros” (VAZ, 2010, p.153).

Em suas análises sobre as sociedades de consumo, Bauman (2009) também observa a constituição de certa imagem da vítima. Nessas sociedades, em que imperam os princípios de satisfação e de felicidade fácil, não se espera que os indivíduos sofram, ou sintam qualquer dor, a menos que esta seja administrada pelas autoridades competentes como forma de punição aos maus comportamentos. Assim, nas palavras do autor,

sofrer algo diferente da penalidade adequada por um crime ou contravenção é percebido como evitável e injustificado. Quando isso ocorre, alguém tem de ser culpado, e deve haver um réu ligado à culpa. Todo caso de sofrimento é potencialmente, até que se prove o contrário, um caso de vitimização – e qualquer pessoa que sofra é (ao menos potencialmente) uma vítima (BAUMAN, 2009, p.67).

Para Bauman (2009, p.67), a generalização da vitimização, ao mesmo tempo em que prolonga e intensifica a dor experimentada, afasta o sofredor dos motivos reais de seu sofrimento (apontado como efeito das más intenções de outra pessoa, e não como algo produzido pelo arranjo social que o torna onipresente e inevitável), mantendo assim a ordem social a salvo de críticas. A vitimização, como tudo em uma sociedade de consumo, assinala o autor citado, tem um preço afixado. A eleição de um suposto culpado pelo sofrimento propicia a busca pela compensação financeira, a qual é obtida por meio da ajuda dos especialistas jurídicos. Também nessa vertente, Brito (2012, p. 568) reflete que, no atual cenário das sociedades de consumo, “[...] os sujeitos vão sendo formados com a compreensão de que, se existe anseio de qualquer ordem, esse é legítimo e deve encontrar rápida satisfação”. Assim, o estímulo à satisfação imediata de vontades individuais tem contribuído para a multiplicação de demandas judiciais, bem como outras por novas leis, com as mais diversas reivindicações na busca incessante pela felicidade em todos os contextos da vida, avalia a autora.

Além de possíveis benefícios materiais, o veredicto positivo de um tribunal oferecerá também a confirmação da vitimização, ainda que as causas objetivas do sofrimento permaneçam, muitas vezes, inalteradas com esse procedimento (BAUMAN, 2009). De modo semelhante, Eliacheff e Larivière (2007) apontam que hoje todo o investimento público e a promoção em torno da imagem da vítima, especialmente, pelos meios de comunicação de massa, acabam por dificultar o dever de reparação a ela, pois toda a publicidade que acompanha esta ação é incompatível com a recuperação de sua privacidade.

Eliacheff e Larivière (2007) lembram que foi somente após a segunda guerra mundial, com as mortes e imagens do holocausto que o conceito de vítima adquiriu notoriedade, levando ao desenvolvimento dos direitos do homem, com natureza e intensidade diferentes de antes. Em anos recentes, os autores observam o papel especialmente do movimento de mulheres e de homossexuais na expansão do status de vítima, uma vez que as reivindicações e a afirmação de direitos têm por base tal condição.

Fassin e Rechtman (2007) e Vaz (2010) apontam que a generalização da condição de vítima surgiu a partir da segunda metade do século XX, associada inicialmente a experiências como guerras, catástrofes naturais, estupro, tortura e outros episódios trágicos.

Posteriormente, tal condição passou a ser reconhecida como consequência de situações ordinárias da vida comum como, por exemplo, sofrer a perda de um amigo ou parente, ver um acidente etc. Com isso, uma gama de acontecimentos adquiriu a conotação de evento traumático, ou seja, se tornou normal a resposta patológica frente às situações vistas como anormais. O resultado disso, estimam os autores citados, foi a ampla disseminação da imagem da vítima, a qual teve incremento especialmente com a inclusão do conceito de estresse pós- traumático no DSM-III, e sua posterior ampliação no DSM-IV, que tornou patológicos eventos que necessariamente fazem parte da vida de todo indivíduo. Ademais, conforme Vaz (2010), a associação estabelecida entre sofrimento e doença mental, bem como sua ampla difusão, conferiu um novo sentido ao padecimento subjetivo. Nas palavras do autor,

A disseminação desse conceito de doença mental no senso comum significa o aprendizado de um novo modo de dar sentido aos sofrimentos, modo este que talvez amplie a sensação de desamparo: os indivíduos saberão agora que podem “sofrer por ter sofrido” e que pode ser preciso consultar um especialista e tomar medicamentos para viver (VAZ, 2010, p.158).

Como exemplo da disseminação da condição de vítima na atualidade, Fassin e Rechtman (2007) mencionam a destruição das torres gêmeas nos EUA, em 11 de setembro de 2001, que teve entre suas vítimas não só as pessoas que foram diretamente atingidas na tragédia, mas também as que se sentiam altamente vulneráveis a partir do ocorrido. Como consequência disso, os autores citam o aumento considerável de diagnósticos de estresse-pós- traumático e depressão, bem como do uso de psicotrópicos.

Além disso, Fassin e Rechtman (2007) ressaltam que, as práticas psicológicas naquele momento se voltavam fundamentalmente para a ocorrência de um suposto trauma nas pessoas atingidas pela tragédia, o que posteriormente, segundo eles, fomentou a criação de unidades de urgência médico-psicológico dirigidas unicamente às situações de desastres. Como refletem ainda os autores, o papel dos profissionais dos saberes psi em situações identificadas como tragédias tem sido efetivamente o de emitir um certificado contendo os sintomas da angústia, a situação do indivíduo sofredor e o diagnóstico de trauma segundo o DSM. São esses profissionais que, em última análise, irão consagrá-lo como vítima, garantindo, assim, os benefícios econômicos do seu estado certificado.

No Brasil, essa perspectiva que amplia a noção de vítima, ao mesmo tempo em que aproxima sofrimento e doença, vem alcançando também ações do poder público no que tange ao atendimento dos cidadãos vitimados. Nesse sentido, vale citar como exemplo eventos ocorridos no Estado do Rio de Janeiro: as chuvas que atingiram a Região Serrana no verão de

2011 (ÚLTIMO SEGUNDO, 2011); a morte de várias crianças em uma escola pública no bairro de Realengo (EXTRA, 2011), e a incursão policial e militar ao Complexo de Favelas do Morro do Alemão (O GLOBO, 2010). Nessas situações, foi marcante a preocupação das autoridades em disponibilizar, especialmente, atendimento psicológico e grupos de apoio às vítimas. Vale mencionar também que a mobilização de profissionais psicólogos em torno de eventos como estes, motivou a criação em 2012 da Associação Brasileira de Psicologia nas Emergências e Desastres72 (ABRAPEDE), que tem, dentre outros objetivos, disponibilizar atendimento psicológico emergencial às vítimas de desastres.

Não é exagero afirmar que, muitas vezes, a preocupação em oferecer atendimento psicológico em episódios como aqueles citados visa menos à possibilidade de agir sobre as causas objetivas do sofrimento como, por exemplo, a precariedade das condições de moradia, a incipiência ou inexistência de determinadas políticas públicas, do que a trabalhar as relações pessoais ou fazer uma terapêutica consoladora. Como lembra Castel (1987, p.161), a passagem do enfoque social para o psicológico não deve ser percebida como algo espontâneo ou desinteressado, mas, sobretudo, como expressão de um sistema político-econômico em que as condições objetivas de transformação da realidade social “são colocadas fora do alcance das pessoas, que não têm outro recurso senão trabalhar o espaço de seu próprio potencial e de suas relações”.

Diante do que foi exposto, entende-se que a vitimização, alinhada à promoção da ideia de “violência” nas relações, se integra a certo regime discursivo que parece se desenvolver nesse momento, e tem na referência ao dado psicológico um elemento decisivo.

Nesse cenário em que o sofrimento e as relações pessoais passaram a ser avaliados a partir de determinado enquadramento sobre o senso de bem-estar e a felicidade individual, destaca-se especialmente a importância adquirida pela psiquiatria, responsável não só pela definição, identificação e tratamento de toda espécie de transtorno psíquico, mas também pela regulação de comportamentos antes vistos como normais.

72 Disponível em <http://www.abrapede.org.br/abrapede/>. Acesso em 01 junho 2013.

No documento Universidade do Estado do Rio de Janeiro (páginas 89-94)