O percurso das análises históricas foucaultianas, contudo, sofreu alguns deslocamentos e inflexões (QUEIROZ, 1999). Conforme síntese de Machado (1979), os estudos arqueológicos se voltavam para o modo como se constituíram os saberes da psiquiatria, da medicina moderna e das ciências humanas, privilegiando as inter-relações discursivas e sua articulação com as instituições. Já nas análises que se seguem em Vigiar e Punir (2007) e Vontade de Saber (1988) − primeiro livro da História da Sexualidade −, nomeadas como genealogia do poder, Foucault se volta para o porquê dos saberes, buscando
“explicar sua existência e suas transformações situando-o como peça de relações de poder ou incluindo-o em um dispositivo político” (FOUCAULT, 1979). Ou, como sintetiza Machado (2006, p.167) em outro lugar, “a genealogia é uma análise das condições políticas de possibilidade dos discursos.”
Foucault (1995a, p.34) estava interessado nas conexões entre as relações de poder e a constituição do conhecimento científico, suas análises das conexões entre poder e saber se voltaram explicitamente para as “ciências do homem”, as quais têm o próprio sujeito como objeto de conhecimento. Considerando que as crenças socialmente construídas configuram em certa medida as práticas científicas, o autor observa que no caso das ciências do homem tal influência pode ser ainda mais preocupante. A adoção de crenças básicas, ou universais antropológicos, como verdades absolutas que alcançam toda a humanidade impele a criação de normas segundo as quais os comportamentos serão medidos e julgados. Ele insiste, portanto, que a genealogia deve evitar o uso de universais antropológicos, submetendo-os ao questionamento de sua constituição histórica (OKSALA, 2011).
Essa mudança de perspectiva, da arqueologia para a genealogia, não deve ser vista como uma mera passagem ou superação da segunda em relação à primeira, mas, mais uma vez, como deslocamento, como transformação das análises (QUEIROZ, 1999). De acordo com Candiotto (2006, p.70, grifo do autor), a partir dos anos 70, com a articulação da arqueologia do saber com a genealogia, as verdades universalmente atribuíveis ao sujeito em termos do conhecimento científico são apreendidas por Foucault como “efeitos de verdade produzidos por mecanismos estratégicos de poder presentes nas práticas sociais”. Além disso, continua Candiotto (2006), os discursos são investidos de verdades porque possuem uma funcionalidade específica, produzir efeitos de poder que justificam a determinação de regras e o controle de condutas.
Sem a preocupação de criar uma nova “unidade teórica”, as análises do poder, empreendidas por Foucault (1999a, p.10), deixam claro que ele se opõe à definição básica do poder como opressão, dominação, castigos, ou seja, uma concepção negativa que identifica poder à repressão e à violência82 por parte do Estado. O autor acrescenta uma concepção positiva do poder, pois entende que este produz realidades, objetos, domínios de verdade (FOUCAULT, 1979). Essa eficácia produtiva tem como alvo os corpos, os quais, por meio de tecnologia específica, as disciplinas, são transformados no interior das prisões, fábricas e escolas, por exemplo, em força de trabalho necessária à manutenção das sociedades capitalistas industriais (FOUCAULT, 2007). Como explica o filósofo francês,
O indivíduo é sem dúvida o átomo fictício de uma representação "ideológica" da sociedade; mas é também uma realidade fabricada por essa tecnologia específica de poder que se chama a "disciplina". Temos que deixar de descrever sempre os efeitos de poder em termos negativos: ele "exclui", "reprime", "recalca", "censura",
"abstrai", "mascara", "esconde". Na verdade o poder produz; ele produz realidade;
produz campos de objetos e rituais da verdade. O indivíduo e o conhecimento que dele se pode ter se originam nessa produção (FOUCAULT, 2007, p. 161).
Caracterizado por Foucault como micropoder, esse poder se volta sobre os corpos dos indivíduos, por meio de procedimentos técnicos que realizam o seu controle detalhado (gestos, comportamentos, hábitos), e se situa ao nível do corpo social, e não acima dele. Em sua análise, o autor busca dar conta do nível molecular de exercício do poder, sem partir do centro para periferia, ou do Estado para as suas extremidades, pois contesta a ideia de que este seria o órgão único de poder. Assim, ele parte de técnicas específicas de poder, em um momento histórico definido, que estão associadas à produção de determinados saberes sobre o criminoso, a sexualidade, a loucura, relacionando-as com um nível mais geral de poder constituído pelo aparelho de Estado (FOUCAULT, 1979; MACHADO, 2006).
Nesse sentido, vale mencionar o memorial sobre o jovem Pierre Rivière que no começo do século XIX foi responsável pelo assassínio de sua mãe e irmãos. Nesse estudo, Foucault (1977b) analisa, por meio de documentos, o conjunto das relações de poder e os discursos que se situavam entre a psiquiatria e a justiça penal. Em seu procedimento, o filósofo elucida as regras que compõem os jogos de poder que se articulam no discurso e por meio dele, bem como as estratégias pelas quais faz funcionar certa racionalidade, conforme se extrai do trecho a seguir:
82 O termo violência é reproduzido sem aspas de modo a preservar a forma como é mencionado por Michel Foucault.
Documentos como os do caso Rivière [...] permitem decifrar as relações de poder, de dominação e de luta dentro das quais os discursos se estabelecem e funcionam;
permitem pois uma análise do discurso (e até dos discursos científicos) que seja ao mesmo tempo política e relacionada como acontecimento, logo, estratégica. Pode-se enfim captar aí o poder de perturbação próprio de um discurso como o de Rivière e o conjunto de táticas pelas quais se tenta recobri-lo, inseri-lo e classificá-lo como discurso de um louco ou de um criminoso (FOUCAULT, 1977b, p.XIII).
Em seu estudo sobre o dispositivo83 de sexualidade, Foucault (1988, p.102) aprofunda e avança em suas proposições sobre o poder, concebendo-o como “uma multiplicidade de correlações de força imanentes ao domínio onde se exercem e constitutivas de sua organização”. Segundo o filósofo, o poder não está localizado em um lugar específico, não é algo que se adquire, ou diz respeito a uma relação determinada; ele é onipresente, se exerce e é produzido a cada instante em todas as relações móveis e desiguais. As relações de poder são intencionais, têm objetivos, obedecem à racionalidade do poder em nível local onde se exercem. O caráter relacional do poder implica que as lutas contra ele não podem ser travadas de fora, pois nada está isento do poder. Onde há poder há resistências; elas não estão em posição de exterioridade a ele, em realidade, inscrevem-se no campo estratégico das relações de poder distribuídas de modo irregular.
Em síntese, se apresenta alguns postulados segundo os quais o poder era pensado e que foram contrapostos por alternativas construídas por Foucault (DELEUZE, 2005).
Postulado da propriedade: a ideia do poder como posse é confrontada pela noção do poder como estratégia, como forças sobre forças. Postulado de localização: o poder localizado no Estado, contestado com a visão do poder como difusão. Postulado da subordinação: o poder seria subordinado aos modos de produção, é confrontada com a característica de imanência poder. Postulado da essência ou atributo: o poder teria uma essência que qualificaria uns como dominantes e outros como dominados, é substituído pela ideia de que o poder não tem essência, ele é relação de forças. Postulado de modalidade: o poder agiria ora por violência, ou repressão, ora enganando, iludindo, é confrontado com a positividade do poder, o qual opera na produção de realidade, de verdades antes de reprimir ou de mascarar. Postulado de legalidade: o poder do Estado é expresso pelas leis, é substituída pela concepção de acaso das lutas.
Mais além, Foucault (1995b, p.242) se refere à certa especificidade das relações de poder. De acordo com o autor, “só há poder exercido por ‘uns’ sobre os ‘outros’; o poder só
83 De acordo com Foucault (1979, p.244), o termo dispositivo refere-se a “um conjunto decididamente
heterogêneo, o qual abrange discursos, instituições, planejamentos arquiteturais, decisões regulamentares, leis, medidas administrativas, enunciados científicos, proposições filosóficas, morais, filantrópicas. Em suma, o dito e o não dito [...]. O dispositivo é a rede que se pode estabelecer entre estes elementos”.
existe em ato”. O que não quer dizer que o poder seja da ordem do consentimento, uma renúncia à liberdade, ou uma relação de violência sobre os corpos ou as coisas. Em realidade, o consentimento e a violência podem ser, segundo o autor, instrumentos ou efeitos de poder.
Assim, para o filósofo, existem dois elementos indissociáveis às relações de poder: o outro é reconhecido e mantido como “sujeito de ação” (FOUCAULT, 1995b, p.243); diante da relação de poder se abre um campo de ações, reações e invenções possíveis, ou seja, os sujeitos individuais ou coletivos em liberdade. A especificidade das relações de poder diz respeito ainda ao ato de conduzir os outros de acordo com certos mecanismos de coerção e em um campo de possibilidades. Ou, como diz Foucault (1995b, p.244), “o exercício do poder consiste em ‘conduzir condutas’ e em ordenar a probabilidade.”
Para Foucault (1988) era fundamental se perguntar sobre as relações de forças que tornaram os discursos sobre sexo possíveis e, inversamente, como esses discursos serviram de suporte a essas relações. É, pois, nos discursos que, segundo ele, se articulam poder e saber.
Como afirma, “é preciso admitir esse jogo instável em que o discurso pode ser, ao mesmo tempo, instrumento e efeito de poder, e também obstáculo [...]” (FOUCAULT, 1988, p.111).
Assim, para o filósofo, a questão não é a teoria, a moral, ou a ideologia que os discursos representam, mas interrogar sobre sua “produtividade tática” (os efeitos de poder e saber) e sua “integração estratégica” (o que torna necessária sua utilização em dado momento) (FOUCAULT, 1988, p.113).
Ainda em suas análises sobre o dispositivo de sexualidade, Foucault (1988) introduz o conceito de biopoder, também discutido na aula de 17 de março do de 1976 no curso do Collège de France (FOUCAULT, 1999a), para se referir à transformação dos mecanismos de poder a partir da época clássica no ocidente. De acordo com o filósofo, se antes o poder de morte do soberano se fundamentava em seu direito de defesa – fazer morrer ou deixar viver –, no século XIX, esse poder se apresenta de forma positiva sobre a vida, ou, como um poder que gere a vida, que se exerce ao nível da espécie, da raça e dos fenômenos de população.
Porém, o poder soberano não foi com isso, substituído, mas modificado, perpassado por uma forma de poder que investe sobre a vida (e seu desenrolar), ou que faz viver e deixa morrer, o biopoder. O autor observa que esse poder não se desenvolveu a despeito das tecnologias de disciplina, em curso a partir do século XVII, dedicadas ao adestramento dos corpos e a extorsão eficaz de suas forças para a produção econômica. Conforme o filósofo, por volta da metade do século XVIII, em articulação com tais estratégias políticas de sujeição dos corpos, as tecnologias do poder se voltaram para os fenômenos de população, os processos biológicos, nascimentos, número de mortes, longevidade, saúde pública e habitação que, com
intervenções diretas de controle sobre a vida, culminaram no que Foucault (1999a p.289) chamou de “biopolítica da espécie humana.” Assim, segundo ele, o biopoder se desenvolveu e se organizou mediante um jogo duplo entre as tecnologias de disciplina e as tecnologias de regulação da população.
Ainda quanto à biopolítica, Foucault (1999a) sublinha o surgimento de um novo elemento, a população como problema político. Aliado a isso, a natureza dos fenômenos que são considerados é de âmbito coletivo, e ocorre de forma aleatória. Isso vai envolver a implantação de mecanismos de previsão e de estimativas estatísticas com vistas a tratar não dos indivíduos, mas das prováveis causas desses fenômenos. Posteriormente, na aula de 25 de janeiro de 1978, do curso Segurança, Território, População, estes e outros procedimentos serão nomeados pelo autor como mecanismos de segurança (FOUCAULT, 2008a).
Em suas análises históricas subsequentes, Foucault (1979) volta a atenção para o estudo do governo e da governamentalidade. Ele mostra como a arte de governar, no século XVI, fundamentada na soberania e, ao mesmo tempo, apoiada no modelo concreto de família, assume no Estado moderno a forma de governo da população. O desenvolvimento da estatística, ou “ciência do Estado” como chama o autor (FOUCAULT, 1979, p.285), aponta características e fenômenos próprios da população como, por exemplo, epidemias e mortalidade que seriam irredutíveis à família. Porém, embora a arte de governar não fosse mais pensada a partir desta, como elemento no interior da população, era um instrumento fundamental de governo – o controle dos comportamentos sexuais, natalidade, consumo etc.
O surgimento da população como um problema, ou objeto da técnica de governo, é indissociável da constituição de um saber sobre todos os processos referentes a ela, conhecido como “economia política” (FOUCAULT, 1979, p.290), responsável pelas intervenções no campo da economia e da população.
Nessa nova forma de governo, as disciplinas têm lugar assegurado. Segundo Foucault (1979, p.291), elas serão ainda mais importantes, uma vez que “gerir a população não quer dizer simplesmente gerir a massa coletiva [...], significa geri-la em profundidade, minuciosamente, no detalhe”. Fonseca (2002), se debruçando sobre essa questão, observa ainda que o biopoder não se constitui como uma forma de poder independente do poder disciplinar, em realidade, está integrado a ele. O biopoder, especifica, ainda, “[...] se concretizaria pelo investimento sobre a vida e seus fenômenos, mecanismo que teria no
‘corpo vivo’ e na ‘vida enquanto processo’ seus dois vetores principais” (FOUCAULT, 1979, p.200). Assim, para Foucault (1979, p.291), mais uma vez, não se trata de uma substituição entre modelos de sociedade, a de soberania para a de tipo disciplinar e desta para uma
sociedade de governo. Estas são vistas, em realidade, na forma de um triângulo “que tem na população seu alvo principal e nos dispositivos de segurança seus mecanismos essenciais”.
Quanto aos indivíduos, segundo Foucault (1988), eles seriam alvos de mecanismos complementares que os instituíam como objetos de saber e poder, o que leva Machado (2006) a traçar a seguinte distinção,
se as ciências do homem têm como condição de possibilidade política as disciplinas, as ‘regulações da população’ e ‘os dispositivos de segurança’ estão na origem de ciências sociais como a estatística, a demografia, a economia, a geografia etc (MACHADO, 2006, p.178).
A governamentalidade designa o desenvolvimento de uma política moderna, ou de uma racionalidade da arte de governar capaz de conhecer e aumentar a potência do Estado.
Com aquela expressão, Foucault (1979, p. 291) queria dizer três coisas:
1-o conjunto constituído pelas instituições, procedimentos, análises e reflexões, cálculos e táticas que permitem exercer esta forma bastante específica e complexa de poder, que tem por alvo a população, por forma principal de saber a economia e por instrumentos técnicos essenciais os dispositivos de segurança. 2- a tendência que em todo o Ocidente conduziu incessantemente, durante muito tempo, à preeminência deste tipo de poder, que se pode chamar de governo, sobre todos os outros – soberania, disciplina, etc – e levou ao desenvolvimento de uma série de aparelhos específicos de governo e de um conjunto de saberes. 3- o resultado do processo através do qual o Estado de justiça da Idade Média, que se tornou nos séculos XV e XVI Estado administrativo, foi pouco a pouco governamentalizado.
Mais uma vez, a análise da governamentalidade não substitui a compreensão anterior de Foucault sobre o poder. Para ele, as formas de governo são múltiplas, não se reduzem a certas instituições políticas ou a uma racionalidade política. Assim, se suas análises do poder disciplinar se restringiam a contextos institucionais específicos, a ideia de poder de governo amplia a compreensão de poder para o domínio do Estado (MACHADO, 2006; OKSALA, 2011).
Em que pesem as pesquisas dedicadas ao longo de sua vida ao fenômeno do poder, Foucault (1995b) adverte que seu objetivo foi analisar os modos de objetivação pelos quais os seres humanos se tornam sujeitos. Segundo ele, o Estado moderno ocidental integrou uma nova forma do poder pastoral – poder de origem religiosa − que se desenvolveu tanto de modo globalizado e quantitativo, no que tange à população, quanto analítico, no que concerne ao indivíduo. Em outros termos, nessa perspectiva, o Estado moderno é a um só tempo individualizante e totalizador.
Diante da ideia de poder como governo, e do que identifica como multiplicação das artes de governar – arte pedagógica, arte política, arte econômica –, Foucault (1995c, p. 3) elabora a ideia de crítica como forma de resistência. Na conferência intitulada O que é uma crítica? realizada na Société Française de Philosophie, em maio de 1978, ele associa à questão “como governar” uma outra que seria complementar a ela, “como não governar”, ou ainda “como não governar desse modo”. Segundo o autor, a atitude crítica deve questionar as razões pelas quais se governa – o que não consiste em emitir julgamentos. Em outros termos, deve expor e criticar a racionalidade política e seus efeitos. Porém, como ressalta Oksala (2011), Foucault não oferece essas razões. Em realidade, como afirma,
ele procurou diagnosticar nosso presente, nossa racionalidade política, as formas de subjetividade normalizada e o tipo de uso do poder que as produzia. Com isso, abriu um espaço politizado que não prescreve programas políticos explícitos, mas torna possível contestar necessidades reconhecidas. [...] sugeriu em vários contextos que a resistência concreta tinha de ser conduzida por pessoas envolvidas, ao passo que seu pensamento podia no máximo oferecer ferramentas para a instituição dessas resistências locais (OKSALA, 2011, p.110-111).
Seguindo os ensinamentos de Machado (2006), o uso da perspectiva teórico- metodológica de Foucault, nesta tese, não parte do entendimento de que seria um caminho definitivo ou método universal, mas, como dito anteriormente, uma caixa de ferramentas utilizada na análise do conjunto de enunciados que compõem as propostas legislativas federais sobre o assédio moral, o bullying e a síndrome da alienação parental/alienação parental. Entende-se que isso permite conhecer os jogos de verdade e as estratégias de poder presentes nessas propostas que, em última instância, visam a normalizar e conduzir condutas de acordo com determinados mecanismos de coerção.