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Identificando riscos

No documento Universidade do Estado do Rio de Janeiro (páginas 84-89)

Nas sociedades de estilo de vida consumista e feliz, os indivíduos são estimulados não só a investir na auto-realização e satisfação própria, mas também a se prevenir de prováveis infortúnios que ameacem seu bem-estar pessoal. Isso vem ocasionando nos últimos tempos uma ampla disseminação da ideia de risco nas sociedades ocidentais.

Em reflexão sobre o assunto, Vaz (1997) avalia que é possível considerar na atualidade o que chama de passagem da norma ao risco. Contrapondo as sociedades modernas, como foram descritas por Foucault, às contemporâneas, aquele autor explica que nas primeiras o dispositivo disciplinar de produção do anormal era marcado pela culpabilização do desejo. Assim, frente o temor da anormalidade, os homens modernos se interrogavam sobre a adequação de seus prazeres e desejos, ao mesmo tempo em que interiorizavam a vigilância constante, o olhar do outro sobre de si mesmos. Já as sociedades atuais, ou hedonistas, no dizer do estudioso, são caracterizadas por uma perspectiva de fragilização dos indivíduos, o que significa que tudo o que dá prazer a eles é apreendido, simultaneamente, sob o risco de adoecimento ou de morte prematura. Em tais sociedades, continua o autor, o enfoque não está tanto na qualificação do desejo, mas na avaliação da intensidade, ou imoderação, com que cada um se entrega às suas práticas, não considerando

prováveis riscos. Como sintetiza o autor, quanto às diferenças apontadas entre as sociedades modernas e as contemporâneas, “a disciplina fazia existir a anormalidade; a sociedade da fragilidade produz o risco [...]” (VAZ, 1997, p.7).

O risco, também segundo Vaz (2004), está vinculado à previsão de eventos futuros e à possibilidade de se precaver contra eles. Nenhuma novidade até aí, uma vez que, como lembra o próprio autor, facilmente se identifica na história da humanidade a busca do homem por prever o futuro. Na contemporaneidade, a expansão do conceito de risco se dá por meio do desenvolvimento de técnicas de inferência estatística que, partindo de uma população heterogênea, organiza e separa diversos subgrupos homogêneos. Com isso, é estipulado que,

“[...] nenhum indivíduo tem risco zero em relação a alguma coisa; há grupos com diferentes níveis de risco” (s/p), constata o autor. Mas, o risco não deve ser percebido como um atributo do indivíduo, e sim uma qualificação de aspectos relativos à sua história pessoal, hábitos e genes, por exemplo, que podem aumentar a probabilidade dele fazer sofrer ou causar dano a si ou a outrem. Como o risco pressupõe o conhecimento anterior a ele, se estabelece, assim, um cuidado cotidiano e interminável, uma obrigação moral do indivíduo em evitar um possível prejuízo futuro, observa o autor.

Com enfoque semelhante, Castel (1987, p.125) destaca a ideia de gestão dos riscos.

Analisando mudanças ocorridas desde meados do século XIX nas formas de intervenção da psiquiatria na França, o autor nota que as “novas estratégias médico-psicológicas e sociais” se voltam especialmente para medidas de caráter preventivo com o objetivo de rastrear possíveis riscos, os quais, segundo ele:

[...] não resulta[m] da presença de um perigo preciso, trazido por uma pessoa ou um grupo de indivíduos, mas da colocação em relação de dados gerais impessoais ou fatores (de risco) que tornam mais ou menos provável o aparecimento de comportamentos indesejáveis (CASTEL, 1987, p.125, grifo do autor).

Como forma de identificar ou de prever possíveis prejuízos aos indivíduos, expõe Castel (1987), será feita a associação de diferentes riscos que a princípio seriam independentes como, por exemplo, ter nascido de mãe pobre, ser estudante, menor de idade etc. A presença de qualquer um desses fatores, continua, será suficiente para remeter o indivíduo à condição de portador de risco. Nesse ponto, o autor distingue as políticas preventivas das técnicas disciplinares tradicionais, analisadas por Michel Foucault. Enquanto estas prevêem a presença de quem controla e de quem é controlado em um espaço sob constante vigilância, as primeiras contam menos com a presença imediata desses atores do

que com fatores e correlações estatísticas, dá a entender Castel (1987, p.126). Assim, esse autor constata que, as políticas preventivas “[...] desconstroem também o sujeito concreto da intervenção para recompô-lo, a partir de uma configuração de elementos heterogêneos”.

Outros autores ampliam ainda a discussão sobre a ideia de risco, associando-a a questões de alcance global. Nesse sentido, Ulrich Beck (2010), em estudo publicado na Alemanha em 1986, logo após o acidente com a usina nuclear de Chernobyl, aponta uma progressiva produção de riscos nas sociedades ocidentais em curso desde o século XIX.

Segundo o autor, na modernidade desenvolvida71 “a produção social de riqueza é acompanhada sistematicamente pela produção social de riscos” que se estende da instabilidade dos mercados às catástrofes da natureza (BECK, 2010, p.23, grifo do autor). Na visão desse estudioso, na sociedade (industrial) de risco, como denomina, os riscos não se limitam aos efeitos colaterais ou secundários dos processos de modernização, eles podem alcançar diversos países e setores da sociedade ao mesmo tempo. Como explica o autor,

Eles já não podem – como os riscos fabris e profissionais no século XIX e na primeira metade do século XX – ser limitados geograficamente ou em função de grupos específicos. Pelo contrário, contêm uma tendência globalizante que tanto se estende a produção e reprodução como atravessa fronteiras nacionais [...] (BECK, 2010, p.16, grifo do autor).

Na visão de Vaz et al. (2007), o conceito de risco vem sendo alimentado pela classe média, desde a década de 80, no que diz respeito, especialmente, à saúde. Promovido amplamente pela mídia, tal conceito aparece atrelado à noção de que as doenças podem, e devem, ser evitadas por meio de medidas preventivas como restrições a hábitos alimentares e ao fumo, por exemplo, que propiciarão uma espécie de poupança ou crédito de mais tempo para uma vida prazerosa no futuro.

A questão apontada por aqueles autores, sem dúvida, pode ser ilustrada com o anúncio feito em 2013 pela atriz norte-americana e militante de causas humanitárias, Angelina Jolie, de que havia se submetido a uma dupla mastectomia para evitar o câncer de mama. Neste caso, porém, o foco não foi tanto a restrição a certos hábitos, mas as novas tecnologias na identificação de riscos à saúde. Como anunciou a Revista Time, nos EUA, a drástica decisão

71 Beck (2010) entende que o uso do prefixo pós junto ao termo modernidade não é suficiente para explicar as intensas transformações vivenciadas especialmente no século XX, preferindo, assim, usar expressões como modernidade desenvolvida e modernidade tardia, por exemplo. Em outro estudo, publicado posteriormente, esse autor usa a expressão modernização reflexiva para se referir ao atual estágio de desenvolvimento das sociedades ocidentais: “este novo estágio, em que o progresso pode se transformar em autodestruição, em que um tipo de modernização destrói outro e o modifica, é o que eu chamo de etapa da modernização reflexiva”

(BECK, GIDDENS, LASH, 1997, p.12).

teve como “efeito” um grande destaque (leia-se, promoção comercial) dos testes genéticos na previsão de doenças futuras (G1, 2013). Casos como este, contudo, não são novidades na medicina, e também na mídia, conforme sugere o estudo de Vaz (1997).

Citando novamente Vaz et al. (2007), a concepção de causalidade da doença é a de que as escolhas e as ações humanas – sem menção às condições sociais – são as responsáveis pelo adoecimento que, por sua vez, poderá levar à morte. Esta, de evento necessário à existência humana, se torna contingente ou súbita, devendo ser afastada, assim como qualquer forma de sofrimento, por meio da adoção de um estilo de vida preocupado com a doença futura. Com isso, as fronteiras que anteriormente separavam saúde e doença são rompidas e o indivíduo incitado a um estado generalizado de quase-doença, que tem como contrapartida o “cuidado crônico de si” (VAZ et al., 2007, p.153).

Rose (2001) aponta, ainda, que o desenvolvimento da gestão biopolítica de riscos, como denomina, se deu sobre a reconfiguração da noção de saúde, a qual, segundo ele, não está limitada à prevenção de doenças ou da morte prematura. Por meio da otimização do corpo, hoje, com a promoção da saúde, se almeja um bem-estar geral – leia-se, juventude, beleza, sucesso, felicidade, sexualidade etc. Essa vontade alargada de saúde foi instrumentalizada pela mobilização da ansiedade, dos medos e inseguranças, utilizados em novas estratégias de publicidade, impulsionando, com isso, um amplo mercado consumidor de todo tipo de produtos. Nessa esteira, vale citar a divulgação de um exame para detectar risco de doenças, comercializado por uma das maiores redes de farmácias nos EUA. O exame promete detectar até 23 doenças, como mal de Alzheimer, Parkinson e câncer de mama, por exemplo. Os resultados podem ser acessados no site da empresa responsável pelo produto, que disponibiliza, ainda, um serviço de consulta via telefone (O GLOBO, 2010).

Como expõe, ainda, Aguiar (2004), a política neoliberal, marcada pela economia de mercado e pelo esvaziamento do papel social do Estado, tem levado à privatização de diversos setores, dentre eles, a saúde. Com isso, vem se passando da concepção de que o Estado deve assegurar a saúde do cidadão, para a de que este deve se responsabilizar por si mesmo e pelos riscos que venha correr. Nas palavras do autor,

o gerenciamento dos riscos serviu, na realidade, ao objetivo de privatizar a saúde distribuindo a responsabilidade de gerenciar os riscos através do corpo social enquanto criava ao mesmo tempo novas possibilidades de intervenção nas vidas privadas (AGUIAR, 2004, p.128).

Mas, para os indivíduos que não aderirem a essa concepção de prevenção de riscos à saúde, ou que não estiverem suficientemente convencidos disso, há ainda a imposição de medidas para protegê-los − a despeito de suas escolhas pessoais em correr tais riscos. Como exemplo, pode-se citar o hábito de fumar, o qual nos últimos tempos tem sido alvo de uma série de leis que restringem ou proíbem o fumo e o comércio de cigarros. Porém, como avalia o economista Rodrigo Constantino (2012) sobre o que chama de “cruzada antitabagista” na atualidade,

Não cabe ao governo nos proteger de nós mesmos. Viver é sempre uma aventura arriscada. Cada um deve ser livre para escolher como encarar esta jornada, assumindo a responsabilidade por seus atos. Parte da liberdade é o direito de escolher ir ao "inferno" à sua maneira (CONSTANTINO, 2012, s/p).

Entende-se, portanto, que a ideia de cuidado, ou sua ausência, aparece hoje combinada a de risco, a qual investe sobre os indivíduos como causa única, ou origem de seus infortúnios. Ao mesmo tempo, tem proeminência certa concepção de que a lei, por meio de medidas impositivas, vem proteger o indivíduo, supostamente fragilizado, de possíveis riscos à sua saúde, sem considerar, contudo, os limites em relação à vida privada de cada um.

Aliado a isso, vale sublinhar que a promoção do conceito de risco na atualidade parece contribuir ainda para certa modulação quanto à percepção do outro, o qual passa a ser visto, por vezes, como uma ameaça. Como lembra Birman (2010a), desde os anos 1980 com a crise do Estado-previdência que ocupava a posição de regulador e mediador do espaço social, se passou a delegar aos indivíduos a responsabilidade por seus próprios agenciamentos. O que, na visão do autor, vem contribuindo para a fragmentação do espaço social e à luta de todos contra todos pela sobrevivência. Também nessa linha, Ehrenberg (2010b, p.167) avalia que nas sociedades concorrenciais, como ele nomeia, a promoção da competição nas relações sociais, numa espécie de “emprezarização da vida”, tem conduzido a definição de um tipo de ator inteiramente individualizado. Este encontra em si suas próprias referências, ao mesmo tempo em que o outro “figura como padrão de medida, pólo de uma relação de concorrência, de confronto ou de competição [...]” (EHRENBERG, 2010b, p.167), à semelhança do que ocorre em provas esportivas, compara o autor. Tal forma de relação com o outro, como um adversário ou uma ameaça ao status alcançado, foi muito bem retratada pelo cinema em filmes como American Psycho (2000) e Le Couperet (2005), por exemplo.

Nesse cenário de riscos e insegurança quanto ao bem-estar de cada um, a ampla divulgação do assédio moral, do bullying e da síndrome da alienação parental/alienação

parental como formas de “violência” pode contribuir para a percepção do outro como uma provável ameaça, como alguém que pode causar sofrimento ou prejuízos aos demais. Dito de outro modo, ao mesmo tempo em que se dissemina a ideia de “violência” nas relações, a qual também toma parte na política de gerenciamento de riscos, os indivíduos são conduzidos a certa percepção quanto aos comportamentos, bem como estimulados a identificar tudo, ou todos, que possam causar constrangimentos à sua satisfação pessoal. Aliado a isso, a promoção em torno daqueles temas serve ainda como forma de naturalizar certa perspectiva vitimizante que ganha vulto atualmente.

No documento Universidade do Estado do Rio de Janeiro (páginas 84-89)