3 A EPISTEMOLOGIA DA GINGA
Levanta a saia lá vem a maré...
Verso de um corrido tradicional da capoeira de domínio público
A ginga desenha o movimento do corpo angoleiro. Na roda de capoeira, ela sintetiza os aprendizados da prática, rompe barreiras, sentidos e ressignifica movimentos. A ginga aciona uma nova episteme na construção do conhecimento dos saberes corporificados. Proposta a partir do movimento de mulheres na Capoeira Angola, a ginga feminista têm transformado a estrutura da própria Capoeira Angola.
O corpo, ao longo da história, sempre esteve situado num campo de disputa, em várias áreas do conhecimento. Entendendo os embates e os conflitos em torno do corpo na cultura ocidental e nas ações comunicativas da América Latina, a construção da ginga como uma epistemologia se materializa a partir da articulação cruzada do corpo angoleiro. Redesenhando a construção social do corpo na cultura ocidental, o capítulo três faz um debate em torno dos desdobramentos conceituais da ginga feminista. Na trama complexa das relações de poder, a própria gramática da capoeira se mostra controversa e inserida na complexa trama das relações de poder: ora vulnerável às reproduções de opressão, ora potente para uma comunicação transformadora.
Na Idade Média, o cristianismo disseminou a ideia de sofrimento como redenção, o corpo da dor, do pecado, da repressão, do controle, da disciplina para alcançar a salvação, ideal que atravessou a modernidade e perdura até a contemporaneidade (CORBIN, 2011). Mulheres sábias que se negaram à submissão religiosa foram acusadas de praticar “bruxarias” e queimadas vivas em praças públicas. A violência do patriarcado, que já era realidade em diversas civilizações na Antiguidade, se acentuou fortemente na Idade Média com o monopólio do conhecimento da igreja cristã. A “naturalização” da dominação masculina sobre as mulheres já era realidade nos escritos Aristotélicos, que acreditavam numa superioridade intelectual dos homens. Ele afirmava que a mulher era propriedade do homem e o seu papel na sociedade se resumia à reprodução, além da obrigação de servi-los em casa (BAR ON, 1994).
A separação entre corpo e espírito, semeada na cultura ocidental pelas ideias racionalistas que atravessaram épocas, ganharam diferentes formas em cada momento histórico.
O entendimento do corpo como “morada da alma” vai perdendo espaço no pensamento ocidental a partir da crítica ao dualismo, a uma visão compartimentada do ser humano. As reflexões oriundas das Artes Cênicas, da Antropologia e da Sociologia reorientaram os estudos sobre o corpo na Contemporaneidade.
Nos estudos sobre dança, arte e mídia, Denise Siqueira (2006) retoma a perspectiva crítica ocidental, trazendo a reflexão sobre a imbricação sociológica entre corpo e sujeito, dando o sentido ativo aos gestos e movimentos. Entre as inúmeras abordagens dadas ao corpo ao longo da história, de maneira dividida e categorizada – biológicas, tecnológicas, culturais, sociais, filosóficas –, a autora propõe uma perspectiva transdisciplinar e não fragmentada que dê conta da totalidade das dimensões que ele evoca.
Depois de amargar da compreensão racionalista em Sócrates e Platão, na Antiguidade;
em Descartes, na Idade Moderna, o “estatuto inferior ao do espírito ou ao das ideias”
(SIQUEIRA, 2006, p. 97), o corpo se desloca, na contemporaneidade, em direção à desierarquisação das instâncias sociológicas, biológicas e cognitivas. Ouso dizer que, em algumas circunstâncias, as construções socioculturais se estabeleceram de maneira mais fortes e entranhadas na vida social, regidas por um entendimento de corpo ativo, sujeito e produtor de conhecimento.
Desde os esforços de Max Weber e Émile Durkheim, a sociologia ocidental se estruturou, no início do século XX, como área do conhecimento consolidada na Modernidade.
A partir de parâmetros eurocêntricos, a Antropologia Social e Cultural encontrou um terreno fértil para se desenvolver e se espalhar pelo mundo, com os métodos etnográficos em ascensão, as expedições financiadas por instituições europeias e as novas perspectivas
socioantropológicas difundidas por intelectuais como Bronislaw Malinowsky, Claude Lévi- Strauss e Marcel Mauss. Sim, novas perspectivas quando atribuímos às transformações no pensamento geolocalizado e da época, a partir do entendimento da ciência e da filosofia ocidental. Afinal, foi a partir da Marcel Mauss que a Sociologia passou a entender o corpo que
“vive, experimenta, representa e sente o mundo do modo como sua cultura permite”
(SIQUEIRA; SIQUEIRA, 2006, p. 97).
Se tomamos uma perspectiva afro-ameríndia, estes mesmos autores foram criticados por suas visões eurocêntricas e coloniais. Termos como “povos primitivos”, carregados de sentido colonizador e civilizatório, eram comuns nas descrições etnográficas dos intelectuais citados, nomenclatura questionada por inúmeros autores contemporâneos (MARTÍN-BARBERO, 2009, p. 263).
Contudo, foi no rastro da consolidação das “novas perspectivas” eurocêntricas sobre o corpo que, mesmo com a divisão categórica de saberes das ciências ocidentais, um vasto campo de produção do conhecimento se abriu mundo afora. Diálogos e trocas com correntes de pensamento que partiam de outros lugares geográficos, responsáveis pela produção da crítica epistemológica da construção dos discursos, encontraram espaço para promover o intercâmbio necessário evocado pelo corpo – os Estudos Culturais, com as pesquisas de Stuart Hall; os Estudos Subalternos (Orientalismo), com Edward Said, Homi Bhabha, Gayatri Spivak; os Estudos Pós-coloniais e Afro-diaspóricos, com Franz Fanon, Paul Gilroy, Kabengele Munanga;
os Estudos Decoloniais latino-americanos, com Walter Mignolo, Silvia Cusicanqui e Catherine Walsh. Representantes destas correntes trouxeram olhares e perspectivas que possibilitaram entender o corpo sob outros parâmetros sociais, além da compreensão desterritorializada do corpo adaptado aos meios de produção industrial, como uma máquina produtiva a serviço do capital. Eles trouxeram, também, o recorte identitário, de gênero e raça, atravessado pela cultura local e referenciada na formação de cada povo, além de outros marcadores de pertencimento que constituem os sujeitos.
No início do século XX, o etnólogo Marcel Mauss trouxe suas contribuições contundentes em relação às técnicas do corpo desenvolvidas em diversas sociedades e em diferentes épocas. Ele debruçou-se sobre o corpo nos rituais religiosos, na construção dos gestos e dos movimentos mais representativos dos indivíduos na vida social, como comer, dançar, andar, parir, reproduzir, entre outros. Ao atribuir à técnica um “ato tradicional eficaz”53 (MAUSS, 2003, p. 407), Mauss delega à condição do ser humano a capacidade de transmitir
53 O autor utiliza a palavra tradicional para designar aquilo que foi repassado culturalmente por meio de práticas educativas.
conhecimento por meio da transmissão oral e de suas técnicas corporais, exclusivas dos detentores de cultura.
Se entendemos o corpo como uma construção social do sujeito ativo, produtor de sentido, reconhecemos que a discussão sociológica está imbricada na comunicação do corpo, aportando na Comunicação como área do conhecimento. Quando aplicado tal entendimento à capoeira, prática afro-brasileira, evocam-se correntes de pensamento que discutiram o corpo como a própria percepção de mundo, sob outras bases epistemológicas. Construções de conhecimento que se complementam e não se anulam. Encontram-se nas práticas corporais, nos gestos, nos movimentos cosmovisões distintas que se materializam na cultura de cada comunidade. E a capoeira, que carrega todo o legado afro-diaspórico – seja o escravagista ou o criativo cultural –, convoca esse cruzamento de saberes inscritos no corpo, da cosmovisão africana negra à indígena catequizada e ocidentalizada no processo violento da colonização.
O corpo foi alvo (e ainda é) de reflexões de várias áreas do conhecimento. Não à toa, Mauss, em 1934, já questionava sobre “a espessura da engrenagem psicológica” (MAUSS, 2003, p. 420) dos movimentos do corpo, deixando explícito sua crença na potência sociológica da formação dos gestos e das técnicas ao afirmar que o aparelho biológico e fisiológico não determinava adaptações, dizendo que elas “geralmente [eram] são comandadas pela educação, e no mínimo pelas circunstâncias da vida em comum, do convívio” (p. 421).
Nesse sentido, o entendimento do corpo na Comunicação perpassa a ideia de mídia de si, produtor de conhecimento a partir do movimento. Os corpos, construídos socialmente em suas diferentes instâncias, enfrentam um imaginário coletivo dominante para se constituir em suas identidades múltiplas. O corpo configura-se como pivô, estrutura integrante da comunicação do sujeito.