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A construção da mulher capoeirista

No documento Universidade do Estado do Rio de Janeiro (páginas 60-63)

1.2 Mestra Elma - Areia fina sacode a poeira, vem ver Janaína, rainha do mar

1.2.6 A construção da mulher capoeirista

Os desafios de ser mulher e apontar como uma liderança apareceram cedo, logo nos primeiros anos. Era praticamente a única no grupo quando entrou e foi por causa dela que outras

19 O Laborarte - Laboratório de Expressões Artísticas surgiu em 1972 como um grupo dedicado a

experimentações artísticas de diversas ordens – teatro, danças, capoeira, circo etc. –, com forte ênfase na cultura popular maranhense, como tambor de crioula, cacuriá, o boi. Situado no Centro Histórico de São Luís, o Laborarte contribui de forma contundente para a formação artística de São Luís e para a cena cultural da cidade.

20 A ladainha está transcrita nas páginas 147-148 desta tese.

mulheres procuraram aprender a capoeira. Quando tinha seis anos de prática, começou a dar aulas junto ao Mestre e enfrentou as dificuldades do reconhecimento.

O Mestre não sabia lidar muito bem com isso de ensinar pra mulher. Rapidamente, eu me envolvi com todo o grupo do Laborarte, com a organização do grupo. E lá não era apenas a Capoeira Angola. Daí o Mestre começou a perceber uma liderança em mim. E como eu já tinha uma história de vida que eu já estava à frente, então eu não tive muita dificuldade de chegar ali e me comprometer com o grupo, com a escola. Fui logo fazendo amizade com os mais antigos. Era só eu de mulher e aquele monte de homem... Aos poucos eu fui tomando esse espaço. Mas aos poucos mesmo, porque o Mestre não me dava. Não era fácil pra ele. E era interessante porque nas rodas a minha presença gerava uma curiosidade de outras mulheres, um interesse. Então, eu fui chamando mulheres para o grupo.

O Mestre dividia o trabalho dele em turmas: os iniciantes, aqueles que já tinham um tempo e aqueles que já tinham nível de formação, professor, contramestre... E ele foi fechando turmas só de mulheres. Ele, sabiamente, me incluía ali. Mas ao mesmo tempo eu não sentia que ele acreditava em mim como um potencial de chegar a ser uma Mestra ou uma contramestra. Nunca percebi isso nele. Mas eu também não tinha isso como uma questão, porque eu queria era aprender aquela arte, eu me identificava, me fortalecia, eu não pensava em ser professora, Mestra nem nada.

Paralelamente, eu fazia teatro, eu me envolvia com as atividades e, de certa forma, eu acabava incomodando ele, porque o teatro tinha aquela coisa de liberação do corpo, de você se posicionar, um trabalho também meio terapêutico. Então, eu às vezes questionava ele, e ele não recebia bem esse questionamento... Ele não me dava muito feedback, se eu tava me desenvolvendo... Isso era uma coisa que me deixava muito mal, e isso era um dispositivo que fazia eu não conseguir me projetar como uma Mestra algum dia, uma professora, uma liderança... Eu não me via assim. Me doía muito aquilo.

Aí ele [o Mestre] foi percebendo que eu me desenvolvia, que eu treinava com meus amigos, que eu treinava bastante, mas ele sempre dava essa freada. Aí ele me incluiu na turma de avançado, até que um dia eu chamei ele e disse: ‘Você não me dá retorno, você não me fala o que eu estou precisando desenvolver...’. Porque ele também, ao mesmo tempo que ele freava, ele era muito aberto, ele brincava, era divertido, era muito próximo. Tinha uma relação horizontal. Aí eu falei pra ele que eu sentia muita falta disso... e ele: ‘Não, que é isso, você está na turma dos melhores, do avançado. Eu tô te reconhecendo, você está crescendo muito’. Mas não me passava berimbau, só me botava no atabaque... Ele não me passava berimbau. Não me

ensinava a envergar21. Só que eu, de fora, ia pra casa dos meus amigos e aprendia! Tirava arame do pneu22… Mas ele não me ensinou nada, né? Já queria pronto.

Quando ele começou a perceber que tinha muitas mulheres, ele começou a me chamar mais pra perto. Ele me botava do lado do banco dele e dizia assim: ‘Senta aqui, pra você aprender a dar aula’. E aí eu ficava do lado dele, ele dando aula. Então ele começou a ir me orientando. Ele me levava para ir junto dar aula com ele nos projetos para as crianças.

Além da capoeira, Elma se encontrou nas manifestações culturais maranhenses. Sua sociabilidade passou a transitar pelo teatro, tambor de crioula, cacuriá, dança do caroço, samba de roda. A cultura popular inseriu Elma no circuito das artes.

Nesse tempo, a Daraína23, de São Paulo, estava no Maranhão estudando danças populares. Aí ela veio com a proposta da gente abrir um espaço no centro histórico de São Luís. Ela disse: ‘Você não quer entrar dando aula de capoeira?’. Só que eu não dava aula de capoeira, eu dava aula ao lado do Mestre, né? Eu não era professora. Minha experiência era dando aula com ele, quando ele me levava fora da escola [Laborarte]. Dentro da escola, eu não dava, tinha outros alunos dele que davam, eu não.

Eu falei: ‘Eu tenho que conversar com o Mestre’. E ela ‘Não, que é isso! É só pra mulher…’. E veio com discussão: ‘Todas as mulheres aqui em São Luís querem treinar com você’. E eu disse: ‘Não, eu tenho que falar com o Mestre’. Isso era 1990, 91. Nós montamos um grupo de artes. Chamamos de Tal do Espaço. Um casarão que a gente ocupou. E tinha aula de capoeira, de dança, tambor de crioula com os Mestres tradicionais, oficina de percussão, teatro… Aí eu fui lá nele [no Mestre] e ele disse: ‘Você pode dar, é liberdade sua. Você pode dar aula, uma oficina, claro!’. Eu fui e coloquei a oficina de ‘Capoeira Angola só para mulheres’, no comecinho da década de 90. E o desenho eram duas mulheres fazendo movimento. E aí, amiga… Ele pegou esse cartaz na rua, levou para a escola, eu cheguei pra treinar e ele disse: ‘Vem cá’, desde quando eu dou aula só pra mulheres? Por que capoeira só para mulheres? Você acha que não tem condições de ensinar a homens?’. Aí eu falei: ‘Porque tem muitas mulheres querendo treinar comigo... Argumentei, né? ‘Acho que a capoeira mudou minha vida e que todas as mulheres precisam passar por essa vivência. Tem muita violência aqui.’ E ele disse: ‘Abra sua oficina para homens e mulheres. Ou então feche’. Aí eu: ‘Tá’.

21 Envergar significa montar o berimbau, armá-lo para tocar.

22 Dentro dos pneus de automóveis existe um arame que, quando removido, se torna matéria prima para a construção do berimbau. Após lixado, o arame está pronto a confecção do instrumento.

23 Atualmente, Daraína reside em Pirinópolis-GO, onde fundou, em 2001, o Guaimbê Espaço e Movimento, atuando em diversas áreas culturais como dança, dança educativa, culturas populares, teatro etc.

Eu abri para homens, mas engraçado que eram gays e mulheres. Não apareciam muitos… Mas tava aberto! Mas os meus amigos da capoeira iam lá, visitar. Aí, em 1993, ele foi fazer um evento de formação, pra formar os alunos, aí foi quando ele, curiosamente, foi lá e disse: ‘Vou formar a primeira mulher professora’. Aí me formou. Ele chamou vários Mestres da capoeira, Mestre Euzamor jogou comigo, todo um ritual. Aí ele chegou e disse: ‘Agora você pode dar aula aqui na escola’.

Entre os episódios mais marcantes da construção de sua autonomia, Elma lembrou do dia em que, na escola Laborarte, abriu a roda pela primeira vez. Ela conduziu o início do ritual semanal tocando o gunga, na ausência do Mestre Pato.

Eu mesmo formada professora, eu ainda não pegava [tocava o instrumento na roda]

no berimbau. Aí teve um dia que eu cheguei pra roda e não chegava os antigos, os mais velhos.

Então eu fui e abri a roda. Eu estava no meio da ladainha aí ele chega, com os mais velhos

‘tudim’. Daí você pensa que eu queria sumir… (risos). É osso essa situação! Queria que o chão se abrisse e eu sumisse dali! E eu continuei levando a ladainha, levei, olhei pra ele... Aí ele virou e falou assim: ‘Olha, agora já era’. Terminei a ladainha, cantei e tal e ele chegou pra mim e disse: ‘Pronto, agora você tá liberada pra alçar os voos’. Mas não foi dado por ele, você tá entendendo? Foi sempre assim, ocupado. Quando ele me formou, que ele me deu aquele certificado24 de professora, eu olhei para aquele certificado e disse: ‘Agora ninguém me segura.

Eu vou embora daqui, não vou ficar aqui’. Eu tinha uma certeza de que eu ia embora dali e que meu passaporte era a capoeira. Era ela que ia me levar.

No documento Universidade do Estado do Rio de Janeiro (páginas 60-63)