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Angoleiras pelo mundo afora

No documento Universidade do Estado do Rio de Janeiro (páginas 141-146)

Como vimos no capítulo anterior, a “segunda geração” do feminismo no Brasil fortaleceu a luta pelos direitos das mulheres representantes de diversos setores da sociedade e eclodiu num momento político de muitas transformações, de abertura política, com o fim da ditadura militar. As projeções dos movimentos sociais e do movimento negro, especificamente, questionaram veementemente o viés racista do modelo de nação e identidade nacional que foi perpetuado ao longo do século XX no país. O feminismo que ascendeu neste período

reivindicava o direito sobre o próprio corpo, a sexualidade, maior reconhecimento profissional, políticas públicas que garantissem a liberdade das mulheres, principalmente de baixa renda, com a criação de creches e restaurantes comunitários. Havia um forte apelo sobre a inserção das mulheres na arena pública e política nacional, como foi visto com a fundação de alguns jornais feministas na época77 e candidaturas políticas, como o caso de Lélia Gonzalez, que chegou a ocupar cargos como o de deputada federal, pelo PT, e estadual, pelo PDT. Tudo isso aconteceu na transição dos anos 70 para os anos 80, momento da reestruturação da Capoeira Angola no Brasil.

A partir da morte de Mestre Pastinha, em 1981, a Capoeira Angola se reorganizou e viveu um processo de retomada. O Forte de Santo Antônio além do Carmo, em Salvador, abrigou a escola de Pastinha, o Centro Esportivo de Capoeira Angola (CECA), coordenado por Mestre João Pequeno; e a escola de Mestre Moraes, Grupo de Capoeira Angola Pelourinho (GCAP). No processo de revalorização da cultura negra, a efervescência da abertura política e a crescente inserção das mulheres na arena pública, algumas começaram a procurar a prática.

Porém, ela em nada se parecia ainda com a cena atual. Nos anos 80, a Capoeira Angola ainda configurava um espaço extremamente marginalizado e masculino. Prova disso foi o descaso público com o espaço do Forte de Santo Antônio78 no final dos anos 80.

Mestra Janja recorda as dificuldades que enfrentou quando escolheu praticar a Capoeira Angola, no início dos anos 80, como uma possibilidade de um novo marco existencial em sua vida (ARAÚJO, 2012). Ela lembra não apenas aquelas dificuldades vividas no interior do próprio grupo, coordenado por um Mestre extremamente disciplinador, mas o acesso ao espaço marginalizado e hostil que girava em torno dos angoleiros da época (ARAÚJO, 2015).

Muitas vezes tínhamos que atravessar lugares que, à época, eram bastante estigmatizados como sendo controlados pela violência do tráfico de drogas e prostituição. Isto nos exigia algumas estratégias de travessia, que iam desde a

“autorização” de passar fornecida por alguns sujeitos que controlavam determinadas áreas, até a de produzir algumas “alternativas” para pegar e pagar mais transporte coletivo, algo que pesava muito na realidade financeira de estudantes universitárias morando em cidades distintas e longe do apoio de familiares. Hoje é até bacana poder imaginar alguns dos “efeitos” (para aquela comunidade) destas nossas passagens por

77 A pesquisa de Viviane Freitas (2017) mapeou alguns jornais feministas fundados por mulheres que representaram bem a agenda do movimento feminista de cada época: Brasil Mulher (1975-1980); Nós Mulheres (1976-1978), Mulherio (1981-1988), Nzinga Informativo (1985-1989) e Fêmea (1992-2014).

78 “Monumento do século XVII, localizado no Centro Histórico de Salvador. Após ter abrigado a Casa de Detenção durante a década de 60-70, foi posteriormente transformado no Centro de Cultura Popular [...]

Ganhou fama através dos ensaios semanais do bloco Afro Ilê Ayiê, como pela presença dos angoleiros, estabelecendo contatos com visitantes capoeiristas de diversas partes do mundo [...] Tal situação, entretanto, viria a desaparecer antes do final dos anos 80, e o forte tornou-se um velho monumento semi destruído, também servindo de abrigo a pessoas em situação de rua, ou mesmo até usuários de drogas” (ARAÚJO, 2015, p. 61). Somente no final dos anos 90, o Forte foi contemplado pelo poder público para recuperaçãoo e restauração, depois de muita luta dos angoleiros que lá ocupavam o espaço.

aqueles locais em direção ao Forte, sobretudo porque quando eventualmente alguém tentava nos importunar ouviam-se de dentro de alguns dos casarões coisas do tipo:

deixa passar, são as meninas da capoeira! (ARAÚJO, 2012, p. 6).

Com os fluxos de informações globais e as novas compreensões da história a partir do diálogo transnacional do movimento negro e do movimento feminista79, as mulheres praticantes de Capoeira Angola também começaram a se organizar internamente e entre grupos, a fim de discutir discriminações, racismo e sexismo.

Essa articulação tem início no começo dos anos 90, em diferentes partes do mundo. Na Alemanha, em Colônia, surgem as primeiras experiências de coletivos de mulheres angoleiras.

Katarina Doring foi uma das principais articuladoras, ao lado de Yvone, Anja, Trude e Cris Kerz. Suzy e Andrea Angolina também já se destacavam no cenário angoleiro Alemão. Foram elas as primeiras articuladoras dos encontros de mulheres naquele país (BRITO, 2015). Nos EUA, Anne Pollack e Mestra Suelly também faziam suas trajetórias (BARBOSA, 2005). No Brasil, Janja e Paulinha, na época alunas do Mestre Moraes, do GCAP80, em Salvador-BA, já organizavam grupos de estudos para debater o tema, trazendo enfrentamentos para o grupo e para o mundo da capoeira.

Se tomamos a trajetória das interlocutoras desta pesquisa, em Porto Alegre - RS, Elma, recém-chegada do Maranhão, atraía as primeiras mulheres na capital sulista para treinar e se fortalecer na capoeira em meados da década de 90. Mulheres que se organizavam politicamente em torno dos direitos das mulheres buscaram Elma para ensinar capoeira, associando o feminismo e a prática da capoeira.

No documentário "Capoeira em Cena" (1982), filmado pelo centro de TV-IRDEB Bahia (Instituto de Radiodifusão Educativa da Bahia), encontram-se depoimentos de várias mulheres sobre sua inserção na capoeira, no início dos anos 80. Mestra Janja – na época, aluna – já se posicionava sobre os ideais que viriam alicerçar as bases e a missão do grupo feminista que fundou anos depois, em 1994, ao lado de Paulinha e Poloca: Grupo Nzinga de Capoeira Angola.

Para nós, especificamente do Grupo de Capoeira Angola Pelourinho, o papel da mulher hoje representado dentro da capoeira é dado de forma revolucionária [...] A gente observa que a falta de uma massa muscular rigorosa não é pré-requisito necessário à prática da capoeira. Daí a Capoeira Angola ter, para nós mulheres, um sentido extremamente renovador, no sentido de transformar-nos em pessoas aptas,

79 O movimento negro e o movimento feminista no Brasil se fortalecem no contexto internacional a partir do diálogo com outras regiões, como EUA, Caribe, África, Europa, acentuando uma rede de comunicação global em torno de temas e interesses semelhantes no final do século XX. Embora a aproximação com a cultura africana aconteça, esse fortalecimento se dá de maneira bastante ocidentalizada, pauta que permeia os debates contemporâneos. Nesse sentido, a discussão sobre o feminismo interseccional, já pontuado anteriormente, contribui para o desmonte do pensamento universalista presente no feminismo ocidental.

80 O GCAP possuía Grupo de Estudos, Comissões de Trabalhos, Estatuto, Regimento Interno desde 1984 (ARAÚJO, 2015, p. 62).

capazes de estar presentes no mundo sem precisar, para isso, a adoção de uma filosofia de competição [...] (Janja em Capoeira em Cena,1'57" 1982).81

O amálgama que ligaria o feminismo e a Capoeira Angola se constituía ali, nas práticas de alunas do GCAP e na ousadia de algumas brasileiras, estrangeiras nos EUA e na Europa. O discurso de Mestra Janja, em 1982, já demarcava a luta que encabeçou sua militância e sua escolha de vida até os dias de hoje, na academia e na capoeira. A pesquisadora Francineide Marques Santos, também aluna do GCAP entre 1987 e 1992, já denominava de feminismo angoleiro o movimento que surgiu a partir da organização das mulheres nos anos 80. Ela afirmou que

[...] experiência do feminismo angoleiro passou a marcar, já na década de 80, a possibilidade de outras formas de relações sociais: mulheres negras escolhiam a liberdade com o domínio da sua corporeidade e se assenhoravam dos seus movimentos corporais, dos seus discursos e da sua sexualidade passando a transitar em espaços masculinos fortalecendo-se em suas identidades ajudando a construir e expandir as discussões e os debates sobre novas possibilidades de enfrentamento ao machismo e ao racismo (SANTOS, 2015, p. 3).

As experiências descritas por Francineide Santos da relação das angoleiras negras com a Capoeira Angola apontam para uma politização crescente da prática em direção à construção de novos paradigmas da identidade angoleira. Na década de 90, outras capoeiristas aparecem no cenário com suas trajetórias autônomas de resistência e aderem ao movimento descentralizado: debatem, repensam valores atribuídos à prática angoleira e enfrentam as tensões postas nas relações de gênero dentro de seus grupos. A autora fala de uma postura vanguardista das angoleiras desse período no que diz respeito à

[...] demarcação [das mulheres] de um espaço dominado pelo masculino revela consciência de gênero em uma postura política de visibilização de mulheres na capoeira angola fazendo surgir uma resignificação da prática da capoeira em Salvador e daí decorrendo essa nova identidade angoleira (SANTOS, 2015, p. 4).

No Rio de Janeiro-RJ, Cristina Nascimento já enfrentava diversas tensões na capoeira e começava a se articular com outras mulheres para promover o encontro “Angoleiras do Rio”, no final dos anos 90. Gegê, aluna da Fundação Internacional de Capoeira Angola - FICA, começava a capoeira em Washington-EUA com Mestre Cobra Mansa82. Ela se destacou e contribuiu para a gestação e organização da série de conferências sobre a mulher na capoeira que o seu grupo organizou. A primeira aconteceu em 1997, marcando um grande encontro

81 Capoeira em Cena, publicado em 25 jan. 2012. Mestra Janja em 35’15’’. Disponível em:

<https://www.youtube.com/watch?v=YyMqW7x31e4>. Acesso em: 21 jan. 2020.

82 Cinézio Feliciano Peçanha, conhecido também como Cobrinha, é fluminense, de Duque de Caxias. Conheceu Mestre Moraes no Rio de Janeiro e se mudou para Salvador em 1981, contribuindo para a fundação do GCAP no Forte de Santo Antônio. Depois de divergências com Moraes, funda a FICA ao lado de outros dissidentes do GCAP.

internacional de mulheres capoeiristas, que contou com a presença de Mestras Janja e Paulinha como referências no assunto83. Inúmeros outros eventos de capoeira, cujo tema era a presença da mulher, surgem pelo mundo.

Maria José Somerlate Barbosa chamou a atenção para a importância da ascensão do feminismo na vida cotidiana das capoeiristas, embora ele não tenha sido diretamente responsável pela presença delas na capoeira. Ela afirma que ele “legitimou a reivindicação de igualdade entre os sexos, deu impulso a vários debates sobre a paridade de gêneros e garantiu novas propostas de vida para as mulheres” (BARBOSA, 2005, p.14). Assim, o grande número de mulheres que participava ativamente de esportes e lutava pelos direitos das mulheres teve papel decisivo na infiltração na capoeira, “pois os homens capoeiristas já não podiam facilmente segregar e discriminar a ala feminina” (BARBOSA, 2005, p.14).

Vale ressaltar que esse processo que toma corpo nos anos 90 foi lento, heterogêneo e nada uniforme. Apesar do visível e crescente debate sobre o tema que se identificou ao longo dos anos, o ranço do patriarcado permaneceu e permanece forte em nossa sociedade e, em especial, na capoeira. Cidinha da Silva observa que

[...] em diversas conversas mantidas com capoeiristas homens ao longo dos últimos anos que a politização da presença das mulheres, algo muito forte a partir do final da década de 1990 e protagonizado pelas praticantes residentes na Europa, é ignorada ou intencionalmente abafada por eles. O assunto não é tema corrente, não aparece de maneira espontânea como resposta esperável e previsível ao questionamento sobre as transformações mais importantes da Capoeira Angola nos últimos anos (SILVA, 2016, p. 103).

A diversidade de nacionalidades, raças e gêneros dos capoeiristas traz constantemente novas tensões para o universo da capoeira. A percepção sobre o sexismo se desdobra em visões bem distintas entre os membros, principalmente entre os homens. Embora muitos já reconheçam e assumam a existência do privilégio masculino na capoeira, há uma enorme dificuldade de transformar esta dita “conscientização” em ações práticas. Muitos seguem reproduzindo violências e práticas sexistas.

Mesmo se caracterizando como uma prática afro-diaspórica, cultura negra historicamente marginalizada, a Capoeira Angola adentra o século XXI em ascensão, com grande adesão de brancos e da classe média, interessados em aprender o legado deixado pelos negros que foram escravizados.

Apesar do legado ancestral, que se estrutura em uma cosmogonia afrocentrada, a capoeira atravessou o século XX inserida na lógica colonial moderna, reproduzindo ora as

83 FICA International Women's Conference. Tema: Women´s in Movement (BRITO, 2015).

lógicas opressoras, de dominação sobre os mais vulneráveis, ora o caminho da resistência e de luta por libertação. A mudança no perfil – social, racial e de gênero – dos capoeiristas na virada do século, identificado e mapeado pelo historiador Antônio Liberac Cardoso Simões Pires (2010), insere a prática na teia complexa das relações de poder.

Majoritariamente masculina, a capoeira se apresenta como uma prática dominada por homens, responsáveis por preservar e perpetuar a dita “tradição”. Se, nas últimas décadas, ela foi ocupada também por brancos, raça estruturalmente dominante, produtora de opressões, como livrar-se da reprodução da misoginia do patriarcado e do racismo colonial moderno? As relações de poder no interior da capoeira também reproduzem práticas racistas, sexistas e opressoras. Como a capoeira perpetua o legado de resistência e libertação inserida nesta complexa malha das relações de poder?

Por isso, contar brevemente a história do movimento de mulheres angoleiras mundo afora e contextualizá-lo com as transformações políticas e culturais da época, no plano nacional e internacional, alicerçam a construção do cenário que propiciou o surgimento do feminismo angoleiro, a partir da ginga feminista.

No documento Universidade do Estado do Rio de Janeiro (páginas 141-146)