Como vem sendo apontado ao longo deste trabalho, o tema da dificuldade da permanência das mulheres na capoeira apareceu uma vez mais nos dados de formação e reconhecimento de lideranças do Grupo Nzinga. As interlocutoras desta pesquisa, Elma e Cristina, apresentaram a dimensão complexa dos processos de aceitação de cada uma, trazendo a importância da dimensão identitária nesse reconhecimento de si como liderança.
A aceitação e o entendimento sobre a ocupação de determinados espaços são desafios para as mulheres que encabeçam a Capoeira Angola. Esse foi um tema que apareceu bastante nas entrevistas de campo sobre a trajetória das interlocutoras. Mestra Janja, por exemplo, quando escolheu a Capoeira Angola (ARAÚJO, 2012), identificou rapidamente – ainda no GCAP, antes de fundar o Nzinga – que a capoeira foi e continua sendo o lugar onde teve a maior formação intelectual e humana de sua vida. No trecho abaixo, ela relembra o seu encontro
com a Capoeira Angola e fala sobre a aceitação e o entendimento acerca da ocupação de determinados espaços:
Na capoeira eu não precisei abrir mão de nada, ao contrário, eu fui chamada a acentuar tudo o que eu era e acentuar minha negritude. Por isto que quando eu falo da minha época de Educação Física135, eu digo que não gosto muito de falar dessa época porque é a época do meu passado pardo. É exatamente isto, você abrir mão do que você é para ser aceita. [...] é você reconhecer o lugar da aceitação do feminino declaradamente inferiorizado (JANJA apud NOGUEIRA, 2013, p.165).
No depoimento, Janja nega os valores associados à Educação Física, prática difundida pelos higienistas modernos como essencial à conservação da força e da saúde, associando ao seu passado “pardo”, referindo-se à nomenclatura utilizada na produção do branqueamento a partir da ideia da mestiçagem. Ou seja, ela diz que, ao encontrar a Capoeira Angola, ela se reencontra consigo e não precisa se submeter a um entendimento de prática corporal que se baseia, entre outros aspectos, na inferiorização da mulher.
A Capoeira Angola apresentou para Janja valores que iam completamente de encontro à lógica instituída no meio em que ela estava inserida. Aprender Capoeira Angola com Mestre Moraes, no Forte de Santo Antônio, nas imediações do Pelourinho, significava uma aproximação brutal de uma prática marginal e transgressora nos anos 80, principalmente para ela, mulher negra. Ali, Janja iniciou um processo que redirecionou suas escolhas de vida (ARAÚJO, 2012). O entendimento da Capoeira Angola como maior aliada na luta contra o racismo e o sexismo não livrou Janja de enfrentar inúmeros desafios na execução de seu projeto político de vida.
A reconstrução histórica do Chamada de Mulher, apontada no tópico anterior, exemplificou as tensões e as dificuldades encontradas pelo grupo fundado e coordenado por ela em concretizar a realização de um evento que simbolizava o projeto político do Grupo Nzinga.
Em várias situações, ao longo dos 10 anos de existência do evento, insurgiram-se resistências à condução das mulheres, sinalizando, muitas vezes, suas dificuldades em assumirem posições de liderança.
Eu lembro de um episódio no Chamada de Mulher III, em Salvador, no qual uma liderança masculina pediu para eu começar a roda tocando o gunga. Eu não esperava aquela missão. Eu nunca tinha começado uma roda. Eu não estava preparada para ocupar aquele lugar.
Ainda assim eu fui, nervosa, mas iniciei o ritual, cantei duas músicas e passei o berimbau. Eu tinha três anos de capoeira. Demorei muitos anos até pegar o gunga numa roda novamente, pelo menos mais uns três anos. Cheguei a dizer alguns “nãos” até entender que já era hora. Hoje,
135 Refere-se ao período da sua vida em que cursou Educação Física, no final da Ditadura Militar. Ela não concluiu o curso, demonstrando incômodo profundo com o perfil voltado para atletas e competitividade.
enxergo que aquela experiência prática ajudou a construir a minha autonomia. Ali, eu comecei a quebrar barreiras internas e a entender que ocupar aquele lugar, de fato, era um ato político.
Portanto, o desejo surgiria junto à consciência da necessidade.
Nas narrativas das Mestras em diálogo neste trabalho, há relatos de grandes dificuldades em relação à ocupação deste lugar de liderança na Capoeira Angola. Embora, em suas trajetórias elas tenham desempenhado este lugar em várias situações, o reconhecimento de Mestra não foi algo simples. É nítida a identificação das ações do sexismo na Capoeira Angola sobre as subjetividades das mulheres. É recorrente o discurso de desconforto e insegurança em relação às formas como são cobradas as responsabilidades das mulheres e aos títulos que recebem:
Eu nego muito convite. Eu sempre escrevo um texto, explico minhas limitações…
Alguns repondem que querem minha presença mesmo assim… Aí eu avalio. Tem momentos que eu estou mais forte, outros que eu já não estou me sentindo tão segura.
Então eu procuro respeitar isso em mim. Já aceitei convite porque eu me senti na obrigação de aceitar, não estava bem, fui e saí pior que entrei. É um aprendizado também se ouvir, ouvir o seu corpo. (Mestra Cristina)
Faz parte do processo de aceitação. Porque um dia você é uma coisa, no outro dia, a coisa se abre para outro caminho. [...] Veio um monte de coisas muito bacanas e veio um monte de coisa mais pesada, de cobrança. A capoeira é contradição o tempo inteiro. Teve gente dizendo: ‘Nossa, você é uma inspiração, aí você se empodera, vê sua caminhada… E outros dizendo assim: ‘Mas você não era contramestra? Não é muito nova para já ser Mestra?’. Isso é muito interessante porque você para e diz:
‘Pera aí! De que eu vou me alimentar? O que eu quero reforçar?’ E o que eu vou rejeitar, principalmente por perceber que é por inveja, machismo. (Mestra Elma)
Os relatos mostram os caminhos e as formas de enfrentamento de cada uma ao chamado da própria capoeira para assumir tais lugares, dentro de suas realidades. A reflexão sobre as escolhas e os sentidos do reconhecimento sobre a ocupação do lugar de liderança acontece de diversas formas em cada corpo.
Elma e Cristina demonstraram cautela sobre os lugares que passaram a circular após o reconhecimento público. A aceitação do reconhecimento se apresentou como uma dificuldade específica, nesse espaço de muitas contradições, como disse Elma. Além dos impedimentos práticos e objetivos do cotidiano, há os entraves psicossociais que passam pelas construções subjetivas de cada corpo, configurando um cenário pouco acolhedor a essas mudanças.
A capoeira se mostrou um espaço de transgressão necessário para Janja afirmar sua identidade de mulher angoleira negra. E foi a partir dessa perspectiva que ela conduziu a reconstrução da Capoeira Angola por onde passou: espaço antissexista e de afirmação identitária. A transgressão proposta por Janja se estrutura na permanência e na escolha de ser capoeirista feita por cada mulher. O processo que aconteceu desde cedo com Janja.
Elma e Cristina foram desafiadas pela própria capoeira a empreender deslocamentos, a sair do lugar fixo, rígido, em direção à construção de um novo paradigma para a mulher angoleira – negra e cabocla –, que passa pela aceitação dos lugares de visibilidade e pela ocupação dos espaços de poder. As rupturas não se consolidam sem dor no ambiente social ainda regido pelo patriarcado, tanto para homens como para mulheres. E para a compreensão desses deslocamentos, a reflexão, o debate acadêmico junto à prática contribuem para acelerar os processos de transformação. Janja tomou esta consciência muito cedo em sua trajetória e escolheu se dedicar a catalisar essas transformações nas mulheres angoleiras.
O envolvimento acadêmico de muitas(os) capoeiristas pesquisadoras(es) tem possibilitado uma reflexão crítica sobre as transformações recentes, principalmente aquelas que abarcaram a mundialização da prática com o olhar atento ao cruzamento entre gênero, raça, classe, sexualidade, geração e outros marcadores. Mestra Elma e Mestra Cristina, como lideranças, encontraram o debate político do feminismo na capoeira. Ambas atribuem a este encontro o fortalecimento delas perante o desafio da aceitação dos lugares de visibilidade e a permanência na capoeiragem. Situado no trânsito entre a articulação das mulheres mundo afora e a produção de conhecimento acadêmico, o conceito de feminismo angoleiro oferece um suporte de ação para a ginga feminista. Enquanto o balanço do corpo produz conhecimento, a Capoeira Angola assimila práticas de um ativismo feminista baseado nas ideias de comunidades de resistência, liberdade e permanência das mulheres.