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A cultura ciberespacial

No documento universidade estadual do norte fluminense (páginas 52-55)

A cultura do espaço virtual, a sexta mencionada por Lúcia Santaella (2003b), é definida pela autora como a cultura do disponível, do acesso. A cibercultura se difere da cultura de massas principalmente no que diz respeito à produção de conteúdo. Enquanto nos meios massivos a informação, normalmente, parte de um emissor para uma massa de receptores, na cibercultura, não há uma fonte exclusiva responsável pela emissão de conteúdos. Além disso, os receptores podem não ocupar, necessariamente, posições estáticas.

Em redes sociais, por exemplo, leitores viram também emissores interagindo com os responsáveis pelas publicações.

A interatividade, para Lévy (2010), não é a marca principal da cibercultura. Para o autor, qualquer meio de comunicação pressupõe interatividade: “De fato, seria trivial mostrar que um receptor de informação, a menos que esteja morto, nunca é passivo.” (p.81). Lévy (2010) argumenta que, mesmo um receptor de mídia televisiva necessita, ao assistir a um programa, decodificar de alguma maneira a informação que recebe.

Na leitura de um livro, faz-se necessário o domínio da língua para o entendimento da mensagem. Além disso, a boa literatura não é fechada em si. Ela oferece lacunas para que o leitor penetre. “[...] cada leitor é um coautor. Porque cada um lê e relê com os olhos que tem.

Porque compreende e interpreta a partir do mundo que habita” (BOFF, 1997, p.10).

Nesta perspectiva, a interatividade não seria exclusividade do mundo informatizado, mas inerente à ação comunicacional. Entretanto, sem o auxílio de outros meios de comunicação social, um escritor, por exemplo, teria dificuldade para ter acesso às leituras e interpretações realizadas pelos leitores de sua obra. O livro, por esta razão, é um meio de

comunicação de um para vários. Em geral, um emissor (o escritor) para vários destinatários (os leitores).

Os aparelhos de telefonia permitem um diálogo mais efetivo. Mesmo estando territorialmente afastados, os interlocutores podem falar em tempo real. Para Lévy (2010), se a interatividade for compreendida como um canal que permite comunicação em dois sentidos, o modelo mais completo de mídia interativa será o telefone. Nesta linha de raciocínio, o ciberespaço não inaugura a interatividade, pois ela já existia – de diferentes formas – em outros meios de comunicação.

Castells (2003) afirma que da mesma forma que a imprensa criou o que McLuhan chamou de “Galáxia de Gutenberg”, as transformações promovidas pela internet estão a gerar uma nova galáxia. A máquina impressora inaugurou a possibilidade de comunicação de um (emissor) para muitos (receptores). “A internet é um meio de comunicação que permite, pela primeira vez, a comunicação de muitos com muitos, num momento escolhido, em escala global” (p.8).

Apesar da ampliação das possibilidades de comunicação presentes na “Galáxia da internet” (CASTELLS, 2003), Lévy (2010) ressalta que o ineditismo da cibercultura não está na potencialização da interatividade, mas em seu caráter universal não totalizante. Para o autor, as culturais orais eram locais, mas não totalizantes. Durante os diálogos, pontos de vista podiam ser cambiados, havia espaço para a dialética. Com a escrita, teria surgido o poder da comunicação universal. As mensagens escritas puderam transitar para fora de seus contextos de criação. Entretanto, “[...] o autor (típico das culturas escritas) é, originalmente, a fonte da autoridade” (LÉVY, 2010, p.117). Na escrita, para Lévy (2010), o universal (em relação ao alcance de receptores) é subordinado ao sentido (totalizante) imposto pelo autor.

Lévy (2010, p.122) defende que a cibercultura “[...] dá forma a um novo tipo de universal: o universal sem totalidade”. Ou seja, na cibercultura, há possibilidade de alcance universal das informações, porém, ao contrário da escrita e das mídias massivas, os sentidos destas mensagens são plurais. Há vários caminhos pelos quais os receptores podem navegar.

O hipertexto cibernético é repleto de links.

A cibercultura é a expressão da aspiração de construção de um laço social, que não seria fundado nem sobre links territoriais, nem sobre relações institucionais, nem sobre relações de poder, mas sobre a reunião em torno de centros de interesses comuns, sobre o jogo, sobre o compartilhamento do saber, sobre a aprendizagem cooperativa, sobre processos abertos de cooperação. (LÉVY, 2010, p. 132).

Ao abordar a questão da cibercultura, Santaella (2003a, p.103) ressalta o fato de a internet conectar uma diversidade de pessoas que, sem a rede digital, teriam poucas chances de se conhecerem, de trocarem informações. Essa é a razão, segundo a autora, para que a cibercultura seja essencialmente heterogênea.

Usuários acessam o sistema de todas as partes do mundo, e, dentro dos limites da compatibilidade linguística, interagem com pessoas de culturas sobre as quais, para muitos, não haverá provavelmente um outro meio direto de conhecimento. Por isso mesmo, é também uma cultura descentralizada, reticulada, baseada em módulos autônomos. (SANTAELLA, 2003a, pp. 103- 104).

A cibercultura é fruto do espaço virtual que – desencorado de tribos e, ao mesmo tempo, permeado por elas – representa a consagração do hibridismo. A cultura do espaço virtual é formada e transformada coletivamente pelos seus usuários, habitantes físicos de várias partes do planeta. Trata-se de uma cultura que, como as outras, é fruto da ação do homem, também por meio de tecnologias. A questão é que dispositivos informatizados conectados à internet potencializam capacidades de comunicação, influência e transformação humanas. Esta agilidade e este excesso de informações podem fazer do indivíduo mais apressado, desejoso de leituras rápidas que sejam condizentes a uma vida mais fluida (BAUMAN, 2001).

Umberto Eco (1979) criticou tanto os apocalípticos quanto os integrados em relação aos meios de comunicação de massa. Acredita-se que o posicionamento moderado é também o mais adequado em relação ao ciberespaço, que pode ser visto negativamente, gerando metrópoles conectadas à rede e desconectadas da vida cotidiana – como os habitantes do romance de William Gibson (1984 apud SANTAELLA, 2003a) – assim como um espaço de criação mais livre e democrático.

A cibercultura está em construção. Cabe ao homem escolher os contornos que esta cultura terá. Ela pode caminhar para a superficialidade ou pode se alimentar da inteligência coletiva e se tornar cada vez mais espessa, capaz de gerar mais e mais cultura.

3 ENTRE POEMA E POESIA

Definir conceitos não é uma tarefa fácil, pois o processo de conceituação pode culminar no engessamento de um significante a um significado específico. No texto poético, as ambiguidades, em alguns momentos, podem ser interessantes, pois fornecem lacunas para que o leitor entre. No trabalho acadêmico, entretanto, é importante que se tenha clareza dos conceitos adotados pelo pesquisador.

A arte poética no ciberespaço, mais especificamente no Facebook, é o corpus da presente pesquisa. Por esta razão, palavras como poema e poesia são recorrentes no texto.

Para que o trabalho seja adequadamente compreendido é importante discutir alguns dos possíveis significados dos termos. Almeja-se, neste capítulo, eleger as definições que melhor se adequem à pesquisa. Não se pretende esgotar as discussões sobre os conceitos de poema e de poesia, mas buscar meios que norteiem a pesquisa no Facebook.

O capítulo tem ainda como objetivos: apontar as principais características do texto poético e justificar a escolha da lógica semiótica peirciana como meio de análise qualitativa de poemas autopublicados na RSD. Acredita-se que é relevante que se destaquem elementos que caracterizam poemas para que se possa identificá-los em publicações na nuvem virtual viabilizada para informática e pela internet. Também é fundamental escolher um método de análise que contemple a diversidade sígnica do ciberespaço e considere o leitor no processo de desvelamento do texto artístico.

No documento universidade estadual do norte fluminense (páginas 52-55)