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Elementos que caracterizam poemas versificados

No documento universidade estadual do norte fluminense (páginas 62-66)

3.3 Diferenças entre poemas e textos com poeticidade

3.3.1 Elementos que caracterizam poemas versificados

Os poemas podem – ainda que em versos – ter diferentes características e serem escritos de várias formas. É possível escrever poemas rimados, ou não; com estrofação fixa ou sem estrofes; com números específicos de sílabas poéticas ou sem organização pré-definida.

Alguns poetas escrevem (ou escreveram) segundo suas gerações e escolas literárias. Foi assim, por exemplo, com o poema épico-narrativo (como Os lusíadas, de Camões) e com o poema barroco (como Ao dia do Juízo, de Gregório de Matos).

Com o modernismo, as formas fixas legitimadas pela tradição literária foram questionadas. A literatura brasileira, fortemente influenciada pela europeia, reivindicava a sua nacionalidade.

O movimento modernista brasileiro, com importante manifestação na Semana da Arte Moderna22, propôs uma arte mais brasileira. No campo literário, poetas como Mário de Andrade, Oswald de Andrade e Manuel Bandeira exaltaram o Brasil em seus versos soltos dos modelos tradicionais. Espínola (2012) explica que Mário de Andrade, sob o pseudônimo de Mário Sobral, foi pioneiro em usar as palavras de forma dissonante. “Um crítico, chamado Nuto Santana, no Correio Paulistano ficara irritadíssimo – quem nos conta é o próprio Mário – ‘porque eu rimava a palavra ‘voou’ com o verso ‘E o vento com o seu oou’.” (ESPÍNOLA, 2012, p. 62).

Além dos poemas em versos livres, os poetas da primeira fase do modernismo utilizaram jogos primitivistas e antropofágicos. Exemplo deste “brincar” com as palavras da língua do “Brasilês” cotidiano, é o poema publicado no livro Poesia Pau-Brasil, em 1925, por Oswald de Andrade (2003, p.89):

Para dizerem milho dizem mio Para melhor dizem mió Para pior pió

Para telha dizem teia Para telhado dizem teiado E vão fazendo telhados

Mais amadurecidos, alguns modernistas brasileiros, nas décadas de 1930 e 1940, voltaram a adotar, sempre que desejavam, formas fixas para a escrita de seus poemas sem que, por esta razão, fossem privados de gozar da liberdade de escrita. As formas fixas que antes eram entendidas como limitadoras, tornaram-se apenas mais uma opção para os poetas.

22 “São Paulo, 13, 15 e 17 de fevereiro de 1922” (ABEL, 1995, p.44).

3.3.1.1 A sonoridade do texto poético

Independentemente se escrevem versos em forma fixa ou livres, geralmente, poetas têm, como ressalta Antônio Cândido (1996, p. 24), preocupação com a sonoridade.

Todo poema é basicamente uma estrutura sonora. Antes de qualquer aspecto significativo mais profundo, tem esta realidade liminar, que é um dos níveis ou camadas da sua realidade total. A sonoridade do poema, ou seu "substrato fônico" como diz Roman Ingarden, pode ser altamente regular, muito perceptível, determinando uma melodia própria na ordenação dos sons, ou pode ser de tal maneira discreta que praticamente não se distingue da prosa.

O poeta modernista Manuel Bandeira, aproveitando-se de seu direito de escolha da melhor forma de escrever seus poemas, trabalhava com a sonoridade, em seus textos, segundo suas vontades e intenções artísticas. Na análise de três poemas de Bandeira – Gazal em louvor de Hafiz, Belo Belo e Poema tirado de uma notícia de jornal (Anexo 3) – Cândido (1996, pp.23-24) explica:

Vemos, analisando-os sob o aspecto meramente sonoro, que eles se ordenam numa ordem decrescente quanto à riqueza sonora. O primeiro é regularmente metrificado, há uma rima constante que traz sete vezes o mesmo som básico em catorze versos etc. O segundo tem uma espécie de estribilho com rima toante e uma espécie de quadra irregular com uma rima, entre as sequências maiores de versos livres, sem efeitos especiais de sonoridade. O último é em prosa, disposta por unidades rítmicas variáveis, com uma homofonia praticamente ocasional, que representa uma falsa rima. Mas nos três casos temos um sistema de sonoridades que importam decisivamente para a individualidade do poema.

Nota-se que, embora seja uma característica importante em poemas, a sonoridade não é mais, depois das contribuições modernistas, uma forma de engessamento do texto, mas uma estratégia para torná-lo mais poético e interessante. Ainda que regras de como escrever poemas tenham sido quebradas e que a liberdade seja importante para o fazer poético, não se pode deixar de ressaltar que o poema é resultante de um trabalho artístico e não um exemplo de texto que aspira atender a funcionalidades cotidianas.

3.3.1.2 Anáforas: ampliando semânticas, atribuindo sonoridade

Além da métrica, da rima e outros jogos sonoros, as figuras de linguagem são importantes estratégias de atribuição de sonoridade e beleza, além da ampliação da potencialidade semântica do poema.

Não haverá possibilidade, por não ser objetivo principal da pesquisa, de analisar todas as figuras. Entretanto, a anáfora e a metáfora serão aqui abordadas porque elas estão, como ressalta Alfredo Bosi (2015), entre as mais significativas e frequentes figuras de linguagens em textos poéticos.

A anáfora é a repetição de alguns termos para dar ênfase ao enunciado ou tornar a mensagem mais expressiva. Ao analisar o soneto camoniano LXXXI “Amor é um fogo que arde sem se ver”, Alfredo Bosi (2015, p.43) explica:

A repetição poética não pode fazer o milagre de me dar o todo, agora agora.

Ao contrário da visão fulmínea, ao contrário da posse, ela me dá o sentimento da expectativa. Linguagem, agonia. A repetição me preme a conhecer o signo que não volta: as diferenças, as partes móveis, a surpresa do discurso.

Em outro plano, a anáfora põe e repõe continuamente diante do nosso espírito a intencionalidade que anima todo o poema de Camões: o querer- dizer-o-que-é-Amor.”.

A anáfora pode fazer, no texto poético, o que os efeitos sonoros fazem no cinema:

criar expectativa no leitor, deixá-lo em estado de alerta. Na linguagem cotidiana, a anáfora pode significar um vício, um mau uso da língua ou uma estratégia para que o interlocutor não se esqueça da mensagem. Mas, no poema, a anáfora pode ser uma das estratégias necessárias para a produção de presença explicada por Gumbrecht (2010): “Típico na poesia, se você só decifra a semântica da poesia, você não faz justiça à poesia. A poesia tem uma coisa de som, uma coisa de ritmo, efeitos de presença que a gente tem que tomar conta”.

Assim, a figura de linguagem pode fazer com que o leitor, que normalmente está disposto a interpretar o texto, sinta-o. A produção de presença possível pelo uso correto de anáforas pode apelar para sensações físicas e a percepção do signo não como uma representação, mas como uma possibilidade de vivência.

3.3.1.3 Janelas metafóricas de leitura

A metáfora é entendida por críticos como Lyra (1992), Massaud Moisés (2000) e Alfredo Bosi (2015) como um dos principais elementos da literatura versificada. Afinal, a escrita muito prosaica, que não explora também a função poética da linguagem, não é característica de poemas, em que a escolha e a organização dos signos devem ser feitas com arte.

Para Massaud Moisés (2000, p. 37), “[...] a poesia é a expressão do ‘eu’ por meio de metáforas”. Este “eu”, destacado pelo autor, não é referente apenas a vivências pessoais, mas ao olhar autêntico do poeta sobre questões diversas, sobre o homem, sobre a vida.

É de forma metafórica que Manuel Bandeira (1917 apud ALMEIDA, 2008, p.219) fala da tristeza e da morte em Desencanto:

Eu faço versos como quem chora De desalento... de desencanto...

Fecha o meu livro, se por agora Não tens motivo nenhum de pranto.

Meu verso é sangue. Volúpia ardente...

Tristeza esparsa... remorso vão...

Dói-me nas veias. Amargo e quente, Cai, gota a gota, do coração.

E nestes versos de angústia rouca Assim dos lábios a vida corre, Deixando um acre sabor na boca.

— Eu faço versos como quem morre.

No metapoema, escrito em 1912 e publicado pela primeira vez em 1917, Manuel Bandeira aborda o fazer poético impulsionado pela tristeza visando a um desabafo e uma reflexão sobre a morte. Vale ressaltar que, no período da escrita do poema, Bandeira estava em Teresópolis, tratando-se de uma tuberculose. Se o autor relatasse suas angústias e sua dor de forma prosaica – salvo se a sua figura já tivesse notoriedade – seu texto não ganharia repercussão, pois lhe faltaria poeticidade, trabalho artístico com o verbo escrito.

Metáforas atribuem beleza ao texto, exigindo do leitor conhecimento do potencial conotativo das palavras. O trecho “Meu verso é sangue” não trata apenas de uma comparação entre o verso de bandeira e o sangue, pelo menos não em um sentido dicionarizado. É importante salientar que “[...] toda metáfora implica uma comparação, mas a recíproca não é verdadeira, pois nem toda comparação constitui metáfora” (MOISÉS, 2000, p.201). Enquanto,

em simples comparações, uma palavra não atribui um novo sentido a outra (como em, por exemplo, Ana é tão magra quanto Clara), nas comparações metafóricas há uma ampliação semântica das palavras.

A comparação pura e metafórica ainda se distinguem pela “máscara”,

“impostura”, “embuste”: enquanto a comparação manifesta um juízo nítido, direto e unívoco, a metáfora propõe um engano, uma vez que, obliterando o sentido que pretende revelar, dá margem a que se adie para sempre a definição esperada. Por meio da metáfora, o pensamento se outorga o direito à vaguidade. (MOISÉS, 2000, p. 203).

Ao apresentar seu livro Não está mais aqui quem falou, a escritora Noemi Jaffe explicou a Ruan Gabriel (2017) que seu texto é um tareco, uma mistura de treco com buraco porque “[...] parte de uma falta, de uma carência do autor. Desse ‘buraco’ surge a fala poética, que produz, no leitor, uma carência, outro ‘buraco’”. Ainda segundo a autora, textos literários não são para dar conforto a ninguém, mas para levar a questionamentos e reflexões: “A literatura precisa criar no leitor a sensação de que algo está fora do lugar – de que ele está fora do lugar.”.

Diferentemente do texto informativo, que deve primar pela objetividade, os poemas podem deixar lacunas, espaços para que o leitor entre segundo, inclusive, suas próprias hermenêuticas. Poema é obra artística, sua leitura não tem que ser cartesiana. O poeta está eternamente a garimpar sentidos, a lapidar palavras. Essa é uma boa justificativa para que ele utilize metáforas. Afinal, como explica Massaud Moisés (2000, p. 205): “[...] a metáfora desperta sempre que falta o termo adequado para designar um objeto”. É como se o poeta tivesse que transferir os sentidos de umas palavras para outras para expressar o que sente.

“Transferência, palavra que traduz literalmente o grego metáfora” (BOSI, 2015, p. 39).

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