A Holanda planeja testar um programa similar em 2017. O apoio a programas de renda mínima cresce na Europa em decorrência do baixo crescimento econômico e ampliação da desigualdade, especialmente a partir da crise de 2008.232
Além de observar o fenômeno da melhor distribuição da riqueza, Rodrigo Fortunato Goulart observa que o salário mínimo tem a função de proteger trabalhadores que não são acolhidos pela via sindical. Diz o autor:
Um dos maiores méritos do salário mínimo, todavia, é a proteção dos setores profissionais que não têm melhores condições de sindicalização – e consequentemente reivindicação – como, por exemplo, os trabalhadores que atuam na área rural. Um outro efeito importante é proporcionar a circulação de riqueza nas cidades do interior do Brasil com pouca alternativa de renda.233
Amauri Mascaro Nascimento aponta a unificação do valor do salário mínimo como outro ponto a ser considerado, quando se trata de fixar os trabalhadores em seus locais de origem, evitando uma escalada migratória que nem sempre resulta em melhores condições de subsistência. Outra observação levantada pelo autor versa sobre o custo de vida nas regiões de economia menos desenvolvida, uma vez que afirma que ―há determinados produtos, principalmente aqueles escassos no local, com preços maiores nos Estados menos desenvolvidos‖.234
Conclui-se que permitir um salário inferior em locais com economia menos desenvolvida implica, na verdade, no aumento das desigualdades e degradação do poder de compra e da qualidade de vida.
Barroso. Dito isto, a análise aqui apresentada versa sobre alguns aspectos que podem eventualmente ser resgatados ao longo do texto, sobretudo quando for possível fazer uma correlação do que ocorre nas relações laborais e a composição minimalista do contexto de dignidade humana apresentado pelo autor.
Para Barroso, um princípio como a dignidade da pessoa humana apresenta dois papeis cuja análise será feita nos parágrafos que abaixo se seguem.
O primeiro papel deste princípio é o de ―funcionar como uma fonte de direitos – e, consequentemente, de deveres –, incluindo os direitos não expressamente enumerados, que são reconhecidos como parte das sociedades democráticas maduras.‖235 Para justificar esse papel, o autor recorre ao exemplo do direito à privacidade que não tem previsão na Constituição americana e, como segundo exemplo, refere-se ao direito geral contra a auto incriminação não explicitado no caso brasileiro. Há, portanto, uma extração destes direitos daquilo que chama significado essencial da dignidade.236
O segundo papel do princípio da dignidade da pessoa humana é interpretativo. Afirma Barroso que a dignidade humana integra o núcleo essencial dos direitos fundamentais da mesma maneira que a igualdade, a liberdade ou o direito ao voto, além de informar a interpretação de tais direitos constitucionais, auxiliando na melhor interpretação nos casos concretos. Acrescenta que além disso:
Nos casos envolvendo lacunas no ordenamento jurídico, ambiguidades no direito, colisões entre direitos fundamentais e tensões entre direitos e metas coletivas, a dignidade humana pode ser uma boa bússola na busca da melhor solução. Mais ainda, qualquer lei que viole a dignidade, seja em abstrato ou em concreto, será nula.237
Na perspectiva de Luís Roberto Barroso, há uma composição minimalista que se insere dentro do contexto da dignidade humana. Para o autor a dignidade humana identifica:
―1. O valor intrínseco de todos os seres humanos; assim como 2. A autonomia de cada
235 BARROSO, Luís Roberto. A dignidade da pessoa humana no direito constitucional contemporâneo: a construção de um conceito jurídico à luz da jurisprudência mundial. Trad: Humberto Laport de Mello. 3.
reeimpr. Belo Horizonte: Fórum, 2014, p. 66.
236 Ibidem, p. 66.
237 Ibidem, p. 66. Nesse momento Barroso esclarece em nota de rodapé que: ―Uma lei é inconstitucional em abstrato quando é contrária à Constituição em tese, isto é, em qualquer circunstância, e por isso é nula. Uma lei é inconstitucional em concreto quando em tese é compatível com a Constituição, mas produz uma consequência inaceitável em uma circunstância particular.
indivíduo; e 3. Limitada por algumas restrições impostas a ela em nome de valores ou interesses estatais (valor comunitário)‖.238
Iniciando a análise pelo valor intrínseco, o autor define esse conteúdo como sendo o elemento ontológico da dignidade da pessoa humana. Em seguida afirma que do valor intrínseco decorre um postulado antiutilitarista e outro autiautoritário.239 Nas palavras do autor:
O primeiro se manifesta no imperativo categórico Kantiano do homem como um fim em si mesmo, e não como um meio para a realização de metas coletivas ou de projetos pessoais de outros; o segundo, na ideia de que é o Estado que existe para o indivíduo e não o contrário‖.240
Barroso afirma que uma série de direitos fundamentais origina-se em face de valores intrínsecos ao ser humano, tais como: o direito a vida, a igualdade perante a lei e a integridade física e psíquica. Nesse último caso, cabe recorrer novamente às precisas palavras do autor, sobretudo porque o exercício deste direito encontra relação com a preservação de valores inerentes a uma relação de trabalho contida dentro de uma esfera de dignidade. Desse modo:
O direito à integridade física abrange a proibição de tortura, do trabalho escravo e das penas cruéis ou degradantes. É no âmbito desse direito que se desenvolvem discussões sobre a prisão perpétua, técnicas de interrogatório e condições das prisões. Por fim, o direito à integridade psíquica e mental, na Europa e em muitos países da tradição do civil law, compreende o direito à honra pessoal e à imagem, bem como à privacidade.241
Apenas tomando o valor intrínseco isoladamente como parte do conteúdo mínimo da ideia de dignidade, é possível fazer referência direta a aspectos que serão tratados na presente tese.
No âmbito da integridade física, não há nada mais agressivo e degradante do que submeter trabalhadores a escravidão ou submetê-los a condições análogas a de escravos. No âmbito da integridade psíquica e mental, diversas práticas acabam por submeter ao trabalhador um desgaste excessivo de suas faculdades mentais. Por isso, é fundamental tratar do assédio moral e suas consequências que se espraiam, não apenas prejudicando sua qualidade de vida dentro do trabalho, mas traz repercussões negativas na família e meio social
238 BARROSO, Luís Roberto. A dignidade da pessoa humana no direito constitucional contemporâneo: a construção de um conceito jurídico à luz da jurisprudência mundial. Trad: Humberto Laport de Mello. 3.
reeimpr. Belo Horizonte: Fórum, 2014, p. 72.
239Ibidem, p. 76-77.
240 Ibidem, p. 77.
241 Ibidem, p.78.
em que esse trabalhador interage. Tais temas, conforme exposto serão analisados em momento oportuno ainda neste trabalho.
Com relação a autonomia, Barroso a define como sendo ―o elemento ético da dignidade humana‖.242 Para que o indivíduo possa exercer adequadamente sua autonomia, as condições mínimas existenciais devem ser disponibilizadas. É claro que a autonomia vai ser violada caso o indivíduo tome suas decisões coagido por uma fortuita situação miserável de vida ou mesmo pela falta de opções de escolhas razoáveis. É neste contexto que se torna necessário que todos gozem uma vida suprida de bens materiais compatíveis com padrões mínimos de existência. Em síntese:
Para serem livres, iguais e capazes de exercer uma cidadania responsável, os indivíduos precisam estar além dos limites mínimos de bem-estar, sob pena de a autonomia se tornar uma mera ficção, e a verdadeira dignidade humana não existir. Isso exige o acesso a algumas prestações essenciais – como educação básica e serviços de saúde –, assim como a satisfação de algumas necessidades elementares, como alimentação, água, vestuário e abrigo.243
A autonomia é a condição que permite a cada indivíduo, por exemplo, escolher suas atividades profissionais, bem como a melhor forma de se qualificar para atingir seus objetivos. Outro aspecto relevante esta na possibilidade de participar ativamente da vida pública, votando e sendo votado.
Outro exemplo está na influência dos trabalhadores quando reconhecidos em seus direitos sociolaborais básicos. O reconhecimento desses direitos importa na preservação da autonomia dos trabalhadores enquanto pessoas, mesmo sendo os trabalhadores subordinados e hipossuficientes. Nessas condições, portanto, os trabalhadores podem interferir decisivamente, por meio de seus representantes ou diretamente por meio de associações e sindicatos, no sentido de resguardar seus interesses na esfera legislativa, evitando a ruína de direitos que devem ser progressivos, não manipulados por grupos de pressão a cada crise.
Esse dois primeiros conteúdos analisados compostos pelo valor intrínseco de cada ser humano e o respeito à autonomia individual, também foram alvos da análise de Ingo Sarlet em sua dimensão negativa, ou seja, quando se verifica a ausência ou a negação destes pressupostos mínimos, condição que inviabiliza qualquer perspectiva de dignidade da pessoa humana. Nesse sentido percebe o autor que:
242 BARROSO, Luís Roberto. A dignidade da pessoa humana no direito constitucional contemporâneo: a construção de um conceito jurídico à luz da jurisprudência mundial. Trad: Humberto Laport de Mello. 3.
reeimpr. Belo Horizonte: Fórum, 2014, p. 81.
243 Ibidem, p. 85
Onde não houver respeito pela vida e pela integridade física e moral do ser humano, onde as condições mínimas para uma existência digna não forem asseguradas, onde não houver limitação do poder, enfim, onde a liberdade e a autonomia, a igualdade (em direitos e dignidade) e os direitos fundamentais não forem reconhecidos e minimamente assegurados, não haverá espaço para a dignidade da pessoa humana, e esta (a pessoa), por sua vez, poderá não passar de mero objeto de arbítrio e injustiças.244
O terceiro elemento apontado por Barroso como parte do conteúdo mínimo da ideia de dignidade é o valor comunitário. O valor comunitário vai estabelecer limites para autonomia, ou seja, ninguém possui autonomia absoluta, uma vez que todos estamos inseridos numa sociedade normatizada e balizada por valores comuns. Barroso reconhece a ambiguidade dessa expressão, mas a utiliza para identificar ―duas forças exógenas que agem sobre o indivíduo: 1. Os compromissos valores e ‗crenças compartilhadas‘ de um grupo social, e 2.
As normas impostas pelo Estado‖.245
Ilustrando dentro do contexto juslaboral a segunda força, pode-se perceber que o empregador deve seguir pormenorizadamente todas as normas que regem as relações de trabalho. É muito comum ouvir discursos flexibilizadores, sobretudo em momentos de crise, como se a solução para manter os empregos fosse reduzir os gastos com os trabalhadores, situação que leva, invariavelmente, a precarização das condições de trabalho atacando frontalmente a dignidade do trabalhador.
A sociedade compartilha a ideia de que devem existir condições mínimas de dignidade que devem ser respeitadas. A violação das normas mínimas é injustificável qualquer que seja o motivo, caso isso ocorra, corre-se o risco de conduzir a classe que vive do trabalho a um patamar aquém do socialmente pactuado, impondo uma degradação aos trabalhadores incompatível com o Estado Democrático de Direito.
3.5 O trabalhador como pessoa humana reconhecida pelo respeito à sua dignidade