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A intensidade do trabalho e seus reflexos na qualidade de vida das pessoas

Diante de um quadro de permanente vigilância, sobretudo nos dias atuais, onde câmeras monitoram ininterruptamente todas as atividades, onde todas as ações e todos os movimentos são gravados e estudados ao bel-prazer do empregador, resta então como talvez a única alternativa plausível, que os trabalhadores compensem este quadro de monitoramento full time e de extrema vigilância, por meio da reivindicação de uma retribuição salarial que seja capaz de compensar esta intensificação do trabalho, ainda que um eventual aumento de salario em nada interfira para que uma minimização dos evidentes efeitos provocados pela intensificação da depreciação laboral sejam sentidos pelo trabalhador. Assim descreveu Marx:

Pelo aumento da intensidade do trabalho, pode-se fazer um homem gastar em uma hora tanta força vital quanto antes gastaria em 2 horas. É o que tem acontecido nas indústrias submetidas às leis sobre as fábricas, que aceleram, até certo ponto, a velocidade das máquinas e aumentando o número de máquinas que um trabalhador deve operar. [...]

Ao compensar essa tendência do capital pela luta por aumento de salário, correspondente ao crescimento da intensidade do trabalho, o operário resiste à depreciação do seu trabalho e à degradação de sua classe.308

Na verdade, os principais sistemas de produção foram desenvolvidos com o único objetivo de produzir cada vez mais. No entanto, no taylorismo/fordismo não havia a preocupação central com relação à quantidade de trabalhadores dispostos no chão da fábrica.

O importante é que cada um tivesse o domínio preciso dos movimentos que deveria realizar para que o produto fosse fabricado de maneira constante.

Com o advento das técnicas de reestruturação produtiva, caso do toyotismo, a preocupação também passou a residir na quantidade de funcionários. A filosofia agora é outra, pois além de manter níveis elevados de produtividade, também passa a ser imprescindível para o capitalista que esta produção seja realizada por uma quantidade menor de pessoas. O trabalhador fordista que antes contribuía com a produção do produto apenas com uma participação especializada em alguma parte do processo, precisa ser versátil no sistema toyotista, no sentido de dominar satisfatoriamente diversas etapas do processo de produção.

De acordo com Ricardo Antunes:

Se no apogeu do taylorismo/fordismo a pujança de uma empresa mensurava- se pelo número de trabalhadores que nela exerciam sua atividade laborativa, na era da acumulação flexível e da "empresa enxuta e flexível", são merecedores de destaque as empresas que mantém menor contingente de

308 MARX, Karl. Trabalho assalariado e capital & salário, preço e lucro. 2.ed. São Paulo: Expressão popular, 2010, p. 131-132.

trabalhadores, mas sempre aumentando indelevelmente seus índices de produtividade.309

Geraldo Augusto Pinto também comparou os diferentes sistemas de produção, enfatizando a ideia central de que qualquer que seja o sistema, a busca pela máxima produtividade, ou seja, a intensificação do trabalho a níveis extremos é o objetivo a ser alcançado. O autor traça o seguinte paralelo acerca das contribuições de Taylor, Ford e Ohno na implementação dos sistemas de produção:

Se Taylor havia decomposto atividades complexas em operações simples rigorosamente impostas dentro dum roteiro único de execução (o‖the one best way‖), tendo Ford se empenhado no automatismo, ambos tiveram como objetivo atacar o saber dos trabalhadores mais qualificados e, assim, diminuir seus poderes sobre a produção, com aumento do controle gerencial da intensidade do trabalho, como um todo. Ohno perseguiu os mesmo objetivos, partindo, entretanto, no sentido inverso: procurou desenvolver a

―desespecialização‖ e, ao exigir de todos os trabalhadores a polivalência, desautorizou o poder de negociação detido pelos mais qualificados, obtendo por essa via o aumento do controle e a intensificação do trabalho.310

Não apenas o toyotismo, mas também as demais técnicas de reestruturação produtiva têm predominado dentro do universo do trabalho subordinado. São nesses ambientes que os estímulos à intensificação das atividades laborais ocorrem com bastante nitidez.

Conforme será visto no capítulo sobre a terceirização, o fenômeno das múltiplas subordinações é algo bastante evidente, não sendo incomum que o trabalhador terceirizado tenha de submeter a ordens do empregador direto, da empresa tomadora de serviços e às vezes até do cliente. Este trabalhador passa a executar múltiplas funções e diversas tarefas paralelas, tendo inclusive que gerenciar ordens e interesses conflitantes, como forma de manter o emprego.

Olhando sob a perspectiva toyotista, a presença de células, grupos de produção ou

―times‖, conforme se queira chamar, horizontaliza a responsabilidade de cada um. Portanto, o trabalho individual é determinante no sucesso de todos. O papel da chefia torna-se facilitado, uma vez que a ela é designada a avaliação da equipe, ficando a cargo do grupo pressionar o

309 ANTUNES, Ricardo. A sociedade da terceirização total. Revista da ABET, v. 14, n. 1, Janeiro a Junho de 2015. Disponível em: <file:///C:/Users/user/Downloads/25698-53491-1-SM%20(2).pdf>, p. 10.

310 AUGUSTO PINTO, Geraldo. A organização do trabalho no século XX: taylorismo, fordismo e toyotismo. 3.ed. São Paulo: Expressão popular, 2013 p. 64.

trabalhador que causa algum tipo de desequilíbrio no processo produtivo, qualquer que seja este mesmo motivo, até mesmo a própria fadiga.311

Interessante perceber que estes controles e percepções sobre a intensidade do trabalho de cada um, podem ser constatados em alguns casos utilizando-se softwares específicos, caso dos teleoperadores, configurando o panóptico digital, tema que será mais bem tratado no último tópico do presente capítulo.

O desemprego tratado anteriormente é um fator determinante para a intensificação do trabalho nos cenários de reestruturação produtiva. O problema decorre da própria filosofia de

‗enxugamento‖ empresarial, ou seja, é preciso que a produção mantenha seus níveis desejados com o mínimo de mão de obra disponível. Isso faz com que atividades secundárias, mas necessárias em qualquer ambiente laboral, passem a ser acumuladas por aqueles que estão disponíveis na empresa, não importa se dentro ou fora da jornada normal de trabalho. A regra é acumular ao máximo toda a gama de atividades possíveis, resultando numa rotina perversa, cientificamente planejada para a intensificação da jornada de trabalho.

Para Luci Praun esta exploração do tempo do trabalhador e o medo que resulta da possibilidade de desemprego, são fenômenos que abrem os caminhos do capital para a ampliação do seu domínio, fato que ocorre por meio de um duplo impulso: ―excluir progressivamente parcelas da classe trabalhadora do mercado de trabalho e intensificar o grau de exploração sobre aqueles que ali conseguem se manter.‖312

Ao tratar da influência das técnicas de reestruturação produtiva de origem japonesa, Geraldo Augusto Pinto discorre sobre a estratégia das empresas ocidentais na adequação destas filosofias, que passa por tentar incutir na cabeça dos trabalhadores um discurso de que o trabalhador deve ter iniciativa, versatilidade no trato com a equipe, responsabilidade com as metas empresariais, dentre outras ―virtudes‖. Como consequência, o trabalhador acaba tendo que aceitar:

Muitas vezes grande intensificação do volume de trabalho e do ritmo de trabalho, com elevação do número de horas trabalhadas, pois o fechamento de postos de trabalho em atividades como manutenção, supervisão, controle de qualidade, limpeza, entre outras, implica na sua transferência aos trabalhadores que ―ficam‖, nem sempre com aumento compatível nos seus salários.313

311 AUGUSTO PINTO, Geraldo. A organização do trabalho no século XX: taylorismo, fordismo e toyotismo. 3.ed. São Paulo: Expressão popular, 2013 p. 77

312 PRAUN, Luci. Reestruturação produtiva, saúde e degradação do trabalho. Campinas: Papel social, 2016, p. 141.

313 AUGUSTO PINTO, Geraldo. A organização do trabalho no século XX: taylorismo, fordismo e toyotismo. 3.ed. São Paulo: Expressão popular, 2013, p. 80.

Pelo que foi exposto até o momento no presente tópico, não há como deixar de concluir que a busca por técnicas voltadas para extrair mais trabalho do obreiro é um dos objetivos principais daqueles que detêm o capital. É óbvio que aumentar artificialmente o ritmo da atividade laboral trará fatalmente como consequência problemas na saúde dos trabalhadores.

Sadi Dal Rosso exemplifica que o problema da intensificação do trabalho pode ser verificado em qualquer atividade, desde que se mantenham constantes as condições técnicas e externas, o número de trabalhadores e suas qualificações técnico/profissionais. Mantidas tais condições, a variável decisiva nessa equação será exclusivamente o desempenho dos próprios trabalhadores, que precisam ser gerenciados para que aumentem seus esforços na realização de suas atividades. Para o autor, ―resultarão desse envolvimento superior do grupo com o trabalho um desgaste também maior, uma fadiga mais acentuada e correspondentes efeitos nos campos fisiológico, mental, emocional e relacional.‖314 Praticamente todas as atividades que sobrevivem do trabalho subordinado e que se utilizam de grandes volumes de capital podem se utilizar da intensificação do trabalho. Destarte:

É erro grosseiro supor que intensificação ocorre apenas em atividades industriais. Muito ao contrário. Em todas as atividades que concentram grandes volumes de capital e que desenvolvem uma competição sem limites e fronteiras, tais como nas atividades financeiras e bancárias, telecomunicações, grandes cadeias de abastecimento urbano, nos sistemas de transporte, nos ramos de saúde, educação, cultura, esporte e lazer e em outros serviços imateriais, o trabalhador é cada vez mais cobrado por resultados e por maior envolvimento do trabalhador. Tais atividades não- materiais estão em estado avançadíssimo de reestruturação econômica e nelas o emprego de trabalho intensificado é prática corriqueira.315

A intensidade do trabalho em várias destas profissões citadas é percebida não apenas pelos trabalhadores, que sentem o reflexo direto destas medidas, mas por qualquer pessoa que tenha um olhar mais atento.

Tomando como exemplo o sistema de transportes, não é preciso muito esforço empírico para perceber que os motoristas dos ônibus urbanos tiveram sua quantidade de trabalho intensificada, em face da acumulação de sua atividade principal de condutor do veículo com a de cobrador. É cediço que é uma enorme responsabilidade conduzir um ônibus, muitas vezes lotado de passageiros, condição que exige a máxima atenção do condutor.

314 DAL ROSSO, Sadi. Mais trabalho: a intensificação do labor na sociedade contemporânea. São Paulo:

Boitempo, 2008, p. 22-23.

315 Ibidem, p. 31.

Porém, gradativamente os cobradores estão desaparecendo e essa função esta sendo acumulada pelo motorista, que passa a dividir sua atenção no trânsito com o stress de receber dinheiro e passar troco.

Mesmo que o motorista mais prudente execute suas funções acumuladas de cobrador com o veículo parado, outros fatores acabam repercutindo de forma a perturbar a sua atenção.

É muito comum os passageiros pressionarem pela celeridade deste trabalho de cobrança e, mesmo que isso não aconteça, as viagens passam a ter um atraso adicional que se reflete não apenas num serviço de pior qualidade para o passageiro, mas também no trânsito que se torna mais lento e caótico.

Tudo isto acontece com a conivência do Estado, que com essa permissividade contribui para o desemprego, para o caos no trânsito e, pior, coloca em risco as vidas das pessoas que precisam se utilizar destes serviços e a vida do próprio motorista. É preciso lembrar que o condutor particular tem uma série de restrições albergadas no CTB cuja desobediência resulta em pesadas multas, caso venha, por exemplo, a utilizar o celular no trânsito ou seja flagrado dirigindo com apenas uma das mãos.

Essa tendência de acumulação é algo que vem sendo percebido de maneira generalizada no mercado de trabalho, guardando óbvia relação com a necessidade de

―enxugamento‖ das empresas, exigindo dos trabalhadores polivalência e versatilidade. Sadi Dal Rosso assim escreve:

O processo interno de redistribuição de tarefas e cargas de trabalho realizados anteriormente por mais pessoas recaindo sobre os ombros de uma mesma pessoa é um indicador inequívoco de intensificação das condições de serviço, por requerer que o trabalhador desempenhe mais tarefas nos mesmos horários de trabalho. Tal mecanismo pode ser implementado em diversas circunstâncias, seja quando o montante global das tarefas aumenta sem o aumento do número de empregados, seja quando o número de empregados foi reduzido por políticas de contenção de gastos, o que aconteceu no ramo bancário e financeiro e no da telefonia e comunicação, seja ainda quando ocorre a saída de pessoal ou por morte ou por aposentadoria e não ocorre sua reposição, como acontece freqüentemente no setor público.316

O fenômeno da intensificação também pode ocorrer quando um trabalhador passa a executar as funções de outro que entra de férias. Nesse caso, a resposta satisfatória desse trabalhador que teve sua carga de trabalho intensificada, pode ser determinante inclusive para

316 DAL ROSSO, Sadi. Mais trabalho: a intensificação do labor na sociedade contemporânea. São Paulo:

Boitempo, 2008, p. 118-119.

a demissão daquele que está de férias, quando do seu retorno. Esta é mais uma evidência da ligação intrínseca entre desemprego e intensificação do trabalho.

Sem querer adentrar profundamente nos impactos à saúde decorrentes da intensificação do trabalho, é cabível como forma de encerrar este tópico, até como forma de ilustrar o problema, relatar algumas situações capazes de gerar estes impactos, que atingem a pessoa do trabalhador e, consequentemente, o meio social que o cerca.

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