Mesmo com a edição de um diploma de natureza geral (lei n. 62/1935), aplicável a industriários e comerciários, foi a CLT que, de fato, sistematizou décadas de legislação esparsa. Amauri Mascaro escreve que os estudos enviados pelo Ministro Alexandre Marcondes Filho à Vargas foram resultado de quase um ano de estudos da comissão, contendo sugestões de juristas, magistrados, entidades públicas, etc. Cabe transcrever trecho do relatório da comissão colacionado pelo autor sobre a importância da CLT para a sociedade, na medida em que ressalta que:
A Consolidação representa, portanto, em sua substancia normativa e em seu título, neste ano de 1943, não um ponto de partida nem uma adesão recente a uma doutrina, mas a maturidade de uma ordem social há mais de decênio instituída, que já se consagrou pelos benefícios distribuídos, como também pelo julgamento da opinião pública consciente, e sob cujo espírito de equidade confraternizaram as classes na vida econômica, instaurando nesse ambiente, antes instável e incerto, os mesmos sentimentos de humanismo cristão que encheram de generosidade e de nobreza os anis da nossa vida pública e social‖.93
O trecho colacionado sugere ser a CLT resultado único da era Vargas, afirmação que induz a falsa ideia de que nada antes desse período ocorreu no que tange ao desenvolvimento de uma legislação laboral, situação que, conforme largamente exposto, de forma alguma corresponde à realidade.
Sem dúvida alguma, a CLT constitui um marco que reuniu em um diploma legal, mesmo que tardiamente, um conjunto significativo da legislação protetiva. Trata-se de uma norma alvo de frequentes ataques, sobretudo nas cada vez mais recorrentes crises do capitalismo, quando a primeira bandeira a ser levantada por setores comprometidos com os grandes grupos econômicos e com as elites reacionárias é a da ―derrubada dos privilégios da classe trabalhadora‖.
Quando se analisa as relações de trabalho no século XIX, chega-se a conclusão de que a plena liberdade conseguida pela burguesia no âmbito das relações contratuais foi extremamente nefasta para os trabalhadores. Sem um mínimo de regulação, os detentores do capital impuseram aos trabalhadores condições degradantes manifestadas das mais diversas formas, a ponto de se permitir que fosse cerceada a liberdade completa dos trabalhadores nas chamadas fábricas-prisões, num modelo intitulado por Foucault como ―Panopticon‖
industrial.
Naquele século, o ser humano trabalhador passou a ser tratado como uma mercadoria destinada a produzir bens. Crianças de menos de dez anos de idade eram submetidas a longas jornadas de trabalho, sofrendo sequelas no corpo e na alma que carregavam para o resto de uma vida comprometida pelo regime cruel de trabalho. Houve uma similaridade sob o ponto de vista geográfico nas situações de crueldade e violência a que foi submetida à classe trabalhadora, visto que estes fatos ocorriam na medida em que o processo de industrialização se implementava nos diversos países. Porém, é naquele cenário adverso o ambiente em que exsurge o Direito do Trabalho.
O primeiro posicionamento oficial da Igreja Católica sobre a situação da classe operária está na encíclica Rerum Novarum. Porém, este documento datado de 15 de maio de 1891, que aborda questões como a valorização dos salários, limitação do trabalho do menor e da mulher, enfim, trata de aspectos gerais inerentes à preservação da dignidade do trabalhador, foi publicado após quase um século de omissão da Igreja frente às terríveis condições dos trabalhadores. Posteriormente, foram elaboradas as encíclicas Quadragesimo Anno de 1931 e Divini Redemptoris de 1937, voltadas claramente para externar a preocupação da Igreja com o avanço do socialismo e do comunismo, sobretudo no leste europeu e parte da Ásia. O fato é que a Instituição perdeu o poder que detinha anteriormente nestes locais e receava continuar o perdendo, caso estas correntes políticas avançassem no mundo.
Joaquim Pimenta criticou de maneira bastante incisiva a postura da Igreja frente à questão social. Desse modo, apenas a necessidade de preservação e de adaptação a um novo modelo político e econômico, poderia justificar a súbita mudança da Igreja, que abandonava a postura agressiva de perseguições que a caracterizaram na Idade Média, para uma súbita adesão aos interesses da classe operária. O papel conciliador da Igreja, cuja característica principal era o de promover uma espécie de ―domesticação‖ do trabalhador, conformando-o com a sua condição, seria então uma estratégia para retomar um espaço de importância ocupado por ela no Estado, que havia sido perdido com liberalismo do século XIX.
A constituição da OIT após a Primeira Guerra Mundial como parte do Tratado de Versalhes teve importância estratégica, no sentido de criar um escudo legal capaz de minimizar os avanços dos reflexos da Revolução Russa de 1917. Em suma, foi uma maneira cooptada pelo capitalismo objetivando viabilizar sua própria preservação, uma vez que, ao conceder alguns direitos sociais, o sistema aumentava seu poder de adesão, enfraquecendo resistências e evitando as influências das temidas mudanças promovidas pelos recentes acontecimentos na Rússia.
A participação do Brasil na OIT impôs a necessidade de certa aceleração na edição de normas de natureza laboral, como forma de manter uma boa imagem perante a comunidade internacional.
Com o fim da mão de obra escrava, o Brasil tornou-se também cenário da exploração desarrazoada da classe trabalhadora. Nas duas primeiras décadas do século XX, portanto há pouco mais de um século, crianças eram exploradas e submetidas a punições físicas em fábricas nacionais. Desde a promulgação da Lei Áurea até o advento da CLT, houve um itinerário de mais de meio século de lutas, de greves, de mortes, de articulações políticas das mais diversas, visando minimizar os efeitos, por meio de uma legislação específica, desse cenário de exploração.
As participações das correntes socialistas e anarquistas foram de fundamental importância para a organização e mobilização dos trabalhadores, inclusive politicamente.
Ambas as correntes convergiam no sentido de fazer a sociedade enxergar a dignidade da classe trabalhadora, explorada por uma minoria de detentores do poder econômico, compondo o chamado sindicalismo revolucionário na Primeira República. Independente de divergências ideológicas, essa corrente sindical visava à realização de conquistas efetivas do operariado.
Por ser a Constituição a lei suprema de um país, constitui um marco histórico importante o ingresso das normas de natureza sociolaboral em seu conteúdo. A Constituição Mexicana de 1917 e a Constituição de Weimar de 1919 foram pioneiras na positivação dos direitos dos trabalhadores.
No Brasil as normas laborais apareceram pela primeira vez na Constituição de 1934.
As demais Constituições mantiveram em seu conteúdo estas normas, o que demonstra a importância da normatização do trabalho para o Estado. Ao longo do tempo, a normatização das normas laborais nos textos constitucionais foi responsável pela consagração e manutenção de um sólido patrimônio jurídico de natureza social, conforme se percebe nas normas albergadas na atual Constituição de 1988.
Com a adesão do Brasil a um modelo de Estado Social, colocou-se um fim na inércia legislativa no tocante a proteção das relações de trabalho. A revolução de 1930 impulsionou o crescimento da legislação social, não por benevolência exclusiva de Getúlio Vargas, mas como resultado de um extenso histórico protagonizadas pelo operariado na Primeira República, bem como pelos combates inglórios desenvolvidos no âmbito do parlamento por políticos defensores da questão social.
Nesse contexto, a CLT promulgada pelo Decreto-lei n. 5.452, de 1º de maio de 1943, traduz um resultado final das conquistas legais obtidas na Primeira República, somadas a outras que se consolidaram durante a era Vargas, materializando-se sob a forma de decretos- leis. A legislação trabalhista deixava de ser esparsa, atendendo por diversas vezes apenas categorias profissionais específicas, para obter uma sistematização, ampliando seu alcance legal. Mesmo que não tenha sido cumprida em sua plenitude pelas mais diversas razões, é inegável o papel da CLT como norma balizadora das relações de trabalho. A importância da CLT acabou por ser redescoberta no atual momento, visto que seu texto foi gravemente vilipendiado em face de uma reforma aprovada a toque de caixa por um Legislativo de representatividade bastante questionável.
Por fim, é de fundamental importância que este marco legal seja preservado em face dos ataques que vem sofrendo, sobretudo após o avanço endêmico do neoliberalismo por estas terras. As crises do capitalismo, cada vez mais constantes, fornecem o combustível para o ressurgimento dos argumentos notoriamente falaciosos voltados para a desconstrução da legislação social. É preciso que a legislação social cumpra ainda com mais firmeza seu itinerário constitucional, que consiste na preservação dos direitos sociais e na gradativa melhoria da condição social dos trabalhadores.
2 O MODELO PRINCIPIOLÓGICO DE PROTEÇÃO DAS RELAÇÕES DE TRABALHO
O objetivo deste capítulo é analisar como os princípios atuam na proteção das relações de trabalho, centrando o foco, sobretudo, na preservação da dignidade do trabalhador e no princípio da proteção. Verifica-se também a necessidade de que os direitos historicamente conquistados e efetivamente concretizados, sobretudo ao longo do itinerário constitucional brasileiro, sejam blindados contra ataques políticos de ocasião capazes de promover sua dilapidação, motivo pelo qual é de grande relevância entender o princípio da proibição de retrocesso social, assim como elevar os direitos sociolaborais ao patamar de cláusulas pétreas, como condições indispensáveis a consecução deste desiderato.