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A Organização Internacional do Trabalho (OIT) e o compromisso

diante de seus contratos não seria simples produto da relação contratual mercantil de compra e venda da força de trabalho, mas resultado da vontade divina.30

Feitas estas considerações sobre o papel da social da Igreja, sobretudo no que tange aos aspectos relacionados às relações de trabalho, passa-se então a tratar da criação da OIT, organismo que diante das tensões sociais inerentes ao período posterior a Primeira Guerra Mundial, encarregou-se de sistematizar uma normatização internacional das relações de trabalho.

1.3 A organização internacional do trabalho (OIT) e o compromisso supranacional com

saúde e progressão social dos cidadãos trabalhadores. Este estudo também revelou, ―o que é perceptível em análise mais conscienciosa, a efetiva motivação política, porque o descontentamento causado pela injustiça dessa situação ameaça o equilíbrio social. Por fim, revela a preocupação econômica, porque os países deveriam adotar reformas sociais permanentes‖.31

No preâmbulo da constituição da OIT, posicionado na parte XIII do Tratado de Versalhes, verifica-se que existe a plena consciência das partes envolvidas de que inúmeras pessoas estavam imersas em situações de injustiça, de miséria e de privações. Desse modo, de acordo com o disposto no preâmbulo, tais situações de descontentamento ameaçam a paz universal. Era preciso, portanto, regulamentar determinados aspectos inerentes às relações de trabalho, caso dos salários, das horas de trabalho, o problema do desemprego, a proteção dos trabalhadores contra os danos a saúde decorrentes das atividades laborais, dentre outras. Na parte final, o texto do preâmbulo alerta para a necessidade do compromisso de todas as nações com as ações propostas pela OIT, uma vez que a não adoção por alguma nação de regimes de trabalho humanitários, implicaria em um obstáculo aos esforços dos países que desejam a melhoria nas condições laborais de seus próprios trabalhadores.32

Em outras palavras, a OIT tentava por meio de um pacto entre Estados-membros, impor um significado no mundo do trabalho que se atrelasse a um conceito efetivo de dignidade, minimizando os efeitos que a expansão socialista poderia causar nas pessoas, uma vez que:

O conceito de dignidade humana, que colocava o homem como protagonista da história, se desvirtuou diante dos fatos que a realidade impôs: uma aglomeração de pessoas que só tinha o trabalho como possibilidade de vida.

A estas pessoas era vedado o caminho ao ensino promotor do desenvolvimento humano; além disso, elas pouco ou nada intervinham nas decisões e nos centros do poder, no que se referia tanto à empresa e à profissão quanto à comunidade. Aliás, esta situação caracterizava sua dependência e a oposição que existia entre o proletariado e os dirigentes que monopolizavam os poderes político, econômico e financeiro dos países.33

31 HUSEK, Carlos Roberto. Curso básico de direito internacional público e privado do trabalho. São Paulo:

LTr, 2009, p. 86.

32 Disponível em: <http://fama2.us.es/fde/ocr/2006/tratadoDeVersalles.pdf> p. 427-428. Acesso em: 11 de fevereiro de 2015.

33 CAVALCANTI, Lygia Maria de Godoy Batista. A dignidade da pessoa humana como norma principiológica de aplicação no direito do trabalho. In: SILVA, Alessandro et al (coord,). Direitos Humanos:

essência do direito do trabalho. São Paulo: LTr, 2007, p. 144.

O art. 427 do Tratado de Versalhes que, de acordo com Arnaldo Süssekind, tornou-se famoso por ter relacionado os princípios fundamentais do Direito do Trabalho,34 reconhece que o trabalho não pode ser tratado como artigo de comércio, além de outros princípios, tais como: o direito de associação; o pagamento de justa e adequada remuneração, jornada de oito horas; descanso semanal de 24 horas, dentre outros.

Cabe registrar que na Primeira Reunião da OIT realizada em Washington em 1919, foram aprovadas as primeiras Convenções que ―são tratados-leis firmados entre Estados- Membros no intuito de regular relações sociais laborais‖.35 Luiz Eduardo Gunther resume o conteúdo legal destas normas da seguinte maneira:

a) Convenção n. 1, pela qual se limitam as horas de trabalho nas empresas industriais a oito horas diárias e quarenta e oito horas semanais;

b) Convenção n. 2, relativa ao desemprego;

c) convenção n. 3, sobre proteção à maternidade, relativa ao emprego das mulheres antes e depois do parto;

d) Convenção n. 4 relativa ao trabalho noturno das mulheres;

e) Convenção n. 5, pela qual se fixa a idade mínima de admissão das crianças aos trabalhos industriais;

f) Convenção n. 6, relativa ao trabalho noturno dos menores da indústria.36

É bastante claro, em linhas finais, que a OIT buscou logo em seu primeiro momento atacar questões que, uma vez deixadas a cargo unicamente para serem acordadas entre as partes, tornam-se instrumentos poderosos de dominação e de degradação humana. Estava consagrada a certeza de que apenas com um regramento capaz de resgatar a dignidade do proletariado seria possível manter minimamente a paz no lado capitalista do mundo, minimizando a revolta de décadas de exploração desarrazoada dos trabalhadores.

O Brasil aderiu ao Tratado de Versalhes, o que impôs a necessidade do cumprimento de algumas convenções da OIT. Durante o governo de Artur Bernardes algumas normas inspiradas nas normas da OIT foram editadas, caso da lei Eloy Chaves, destinada a criação das caixas de aposentadorias e pensões dos ferroviários, bem como a sanção da lei de férias destinada aos trabalhadores da indústria e do comércio. Como ocorre com a criação de quase todos os direitos sociolaborais duramente conquistados, estes também tiveram inspiração não na boa vontade do então presidente, mas na necessidade de se criar uma imagem positiva do

34 SÜSSEKIND, Arnaldo. Direito internacional do trabalho. 3. Ed. atual. São Paulo: LTr, 2000, p. 103-104.

35 PEREIRA, Cícero Rufino. Efetividade dos direitos humanos trabalhistas: o Ministério Público do Trabalho e o tráfico de pessoas: o Protocolo de Palermo, a Convenção n. 169 da OIT, o trabalho escravo, a jornada exaustiva. São Paulo: LTr, 2007, p. 35.

36 GUNTHER, Luiz Eduardo. A OIT e o direito do trabalho no Brasil. 1a. reimp. Curitiba: Juruá, 2011. p. 35- 36.

Brasil no exterior. Essa é a posição de Claudio Batalha, quando escreve que a adesão do Brasil ao Tratado de Versalhes e a sua consequente participação nas Conferencias Internacionais do Trabalho, organizadas pelo Birô Internacional do Trabalho:

Supunham a aplicação das medidas referentes aos direitos trabalhistas propostas nessas reuniões internacionais. Além disso, em 1925 o Brasil aspirava a ocupar uma cadeira permanente no conselho de administração da Sociedade das Nações, o que dependia da boa imagem do país.37

Pode-se considerar, portanto, que a participação do Brasil na OIT foi mais um fator decisivo para acelerar a criação de um modelo legal capaz de nortear as relações de trabalho, passando-se das supostas boas intenções provenientes de projetos muitas vezes engavetados, para uma efetiva necessidade de se fazer as leis, correndo o risco, em sentido contrário, de perda do prestígio internacional conseguido após a Primeira Guerra.

1.4 A luta dos trabalhadores por condições dignas de trabalho nos primeiros anos do

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