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3.3 Compaixão contra a cegueira ao sofrimento

3.3.2 A dor e a espera

vezes não se percebe qual a sede do outro.84 Com isso, cria-se uma frieza e um distanciamento, com um anúncio que não chega a nenhum coração e que tampouco transforma as vidas sofridas. Corre-se o risco de partir do vazio e no vazio permanecer.

É indispensável a recordação permanente do que nos disse Jesus, pois, alimentar a mensagem perigosa do Cristo é ter a coragem de nos aventurarmos neste seguimento, atentos à sua palavra, que provoca em nós uma ação e uma entrega. Uma entrega apaixonada a Deus que nos lança numa experiência de sermos afetados pelo sofrimento do outro, vivendo assim uma mística de olhos abertos.85

É sempre tempo de abrir olhos, de despertar, de velar para que a vida não passe despercebida e a fé não se torne algo externo ao ser humano. 90

o próprio Jesus, mantêm a sua visibilidade, estão sempre visíveis, e possuem uma disposição e sentido de obrigação maiores em relação à percepção. Não é a fé que nos deixa cegos, o que nos cega é o ódio, que não enxerga o outro e não permite que enxerguemos a nós mesmos. Portanto, o cristianismo não é um tipo especial de sonolência, como na metáfora do Novo Testamento sobre a s virgens imprudentes, nem um encantador cego de almas (cf. Mt 25,1-13).91

Além disso, o imediatismo do mundo contemporâneo, o excesso de imagens, a sociedade do consumo e a relatividade nas relações, com as trocas inconsequentes nos relacionamentos, impedem as pessoas de ver, de olhar. Porque este ato de enxergar, exige tempo e dedicação.92 E essa experiência de ver, permite, não simplesmente descobrir o outro, mas é uma vivência verdadeiramente mística porque possibilita simultaneamente descobrir Deus e o semelhante.

A luz, a visibilidade

aquelas pessoas que, no nosso dia a dia, gostam de se esquivar, e que por isso conhecimento que se origina desse olhar, e não existe sem ele, sem a tentativa de se encarar a face desafiadora da pobreza e o olhar sem sonhos e desejos dos infelizes.

O que chamamos de voz da nossa consciência é nossa resposta ao tormento que enxergamos na face estranha, sofredora.93

Ao pensar na missão pública de Jesus, recorda-se que essa missão não consistiu em chamar as pessoas para pertencerem a uma instituição, nem tampouco propôs dogmas, ritos e disciplinas. Sua proposta consistia em aceitar a vontade de Deus por meio de um encontro amoroso, aceitando gratuitamente o querer do Pai.94 E assim reelaborar e transformar a história de cada um.

Graças a essa experiência amorosa que Deus oferece gratuitamente, entende-se que a dor que nos acompanha é também sustentada pela espera. Se assim não fosse, a humanidade cairia no vazio. O encontro com o Cristo, nesta Compaixão, devolve o sentido, o significado

salvação universal, que ela testemunhou, e de ser mal entendida como uma ideologia religiosa da história [...].

Mas a Igreja precisa temer duas coisas. Uma [...] são os crescentes sintomas, dentro da Igreja, de uma insidiosa mentalidade de seita, uma tendência ao fundamentalismo, ao tradicionalismo dialético; a crescente incapacidade ou falta de interesse em aprender, em fazer novas experiências e inseri-las no autoconhecimento da Igreja, numa

cf. METZ, 2013, p. 228).

89 METZ, 2013, p. 22.

90 Ibidem, p. 58.

91 Ibidem, p. 59.

92 Ibidem, p. 59.

93 METZ, 2013, p. 60.

94 TRIGO, 2018, p. 61.

experiência pascal, passa-se por experiências de Sexta-feira Santa e de Sábado de Aleluia.

Esclarecendo melhor o que foi dito acima, significa compreender que aquele que segue o Cristo no espírito da Compaixão, estará sempre nos direcionando à experiência da experiências de Sexta- feira Santa. Momentos de sombras profundas, noites escuras que fazem ter a sensação da ausência, do abandono de Deus.95

Apesar desta sensação de solidão, o grito do abandonado é um grito que lhe dá condições de viver a sua dor, o seu sofrimento em Deus. Assim, esse clamor, quando chega aos ouvidos de Deus, é a certeza de que somos resgatados da nossa impotência, retirados dos espaços sombrios, dos nossos desesperos, dos abismos da morte.96

Se há uma experiência de Sexta-feira Santa, é também sabido que não se vive exclusivamente dessa ou simplesmente do Domingo da Páscoa. Também o fazer teológico deve apontar para a experiência do Sábado de Aleluia.97 Caminhar entre a escuridão do calvário e a luz do encontro com o Ressuscitado. Transitar na madrugada: não é noite e ainda não é dia. É a transição entre a dor da morte e alegria plena da ressurreição.

Nós também ainda vivemos em zonas de penumbras, em situações de eclipse parcial do sol, e nesse sentido, também somos seres humanos de Sábado de Aleluia, seres humanos que, num sentido totalmente temporal, ainda esperam por alguma coisa, não apenas por nós mesmos, mas também para os outros, para toda a humanidade.98

Por essa razão, na profundidade e na complexidade dessa mística, é evidente que quem ouve a mensagem do Ressuscitado, mas não escuta o grito do crucificado, está ouvindo-o de maneira equivocada. E, se ao escutar esta mensagem, não se alimenta nenhuma expectativa, uma busca, uma espera, acaba por ouvir o mito dos vencedores, ao invés do próprio evangelho, pois a palavra de Jesus já garante que felizes são os que sofrem, os pobres, aqueles que têm fome e sede de justiça.99 Por isso não é a dor pela dor. É a dor sustentada na espera.

[...] O horizonte mais imediato da ressurreição é, pois, a Sexta-feira Santa, como desembocadura da vida de Jesus, focalizada no Reino de Deus. [...] O horizonte da Sexta-feira Santa para Jesus era de morte, mas também, nela, o culminar de sua missão (cf. Lc, 13,32; Jo 19,30), portanto, de morrer como havia vivido: dando vida;

nesta partida, perdoando. No final, seu horizonte se reduz a um grito (cf. Mc 15,37) [...]. O horizonte da Sexta-feira é [...] o de todos que os que arriscam a vida lutando

95 METZ, 2013, p. 70.

96 Ibidem, p. 70.

97 Ibidem, p. 187.

98 METZ, 2013, p. 188.

99 ZAMORA, 2000, p. 64-65.

por um mundo onde habite a justiça, e [...] entregam toda sua vida para que haja mais vida, como expressão do mundo fraterno dos filhos de Deus.100

Assim, essa espera é sustentada pela esperança e a dor é transformada em consolo e alegria.

No documento A COERENTE PRÁXIS DA FÉ NO MUNDO ATUAL (páginas 97-100)