2.3 Narração
2.3.4 Elo entre história de sofrimento e história de salvação
[...] não depende simplesmente de se abandonar completamente a linguagem narrativa em favor de uma linguagem elitista, meramente argumentativa dos iluministas e daqueles que para tais se privilegiaram. O velho problema, que faz com não em último lugar, de um mal-entendido, por parte dos intelectuais, a respeito do caráter emancipatório da linguagem narrativa. Também os teólogos menosprezam
119
Contudo, apesar de muitas vezes o cristianismo desviar ou abandonar essa experiência narrativa, essa será sempre um meio que une a história da humanidade e de sofrimentos à história de Deus e da salvação, como será exposto a seguir.
transmite-se, em vista da história humana do sofrimento, em histórias perigoso- palavra.122
Sendo assim, como possibilitar que essa Memória narrativa una de forma verdadeira a história da salvação com a história do sofrimento? Como possibilitar aos cristãos o reencontro com a grandeza salvífica presente na Memória e na Narração, e ao mesmo tempo terem uma praxe que se assemelhe com a de Jesus Cristo? E, além disso, qual a forma eficaz que esses mesmos cristãos podem utilizar para anunciarem a tantos homens e mulheres sofridos e marcados pelo mal a universalidade libertadora advinda da morte e ressurreição de Jesus Cristo?
Primeiramente, não se pode perder de vista a definição da teologia aqui apresentada, compreendendo-a como uma teologia que possibilita a formação de uma consciência crítica diante do mundo atual; sendo uma Teologia Política do Sujeito, uma teologia fundamental prática portadora de uma mística que leva à adesão, ao seguimento e ao discipulado. Num segundo aspecto, a Teologia Política de Metz nos apresenta a Memória como primeira categoria para a vivência prática da fé, onde a Igreja como portadora da Memória do Cristo, apresenta essa como Memória Perigosa no presente que se abre ao futuro, devendo atualizá-la na Teologia Sacramental para que essa jamais se perca. Consequentemente, junto à Memória está a Narração. Essa possibilita compreender a identidade prático-narrativa do cristianismo, levando os cristãos à experiência do encontro, evitando que se caia no vazio da fé por conta da possível ausência da narrativa. Além de ser a Recordação/Narração, o elo entre a história de sofrimento e história de salvação.
Assim, Metz aponta que o caminho para essa Memória narrativa se completar de forma prática, fazendo-se Teologia Política, está na Compaixão ou Solidariedade. Uma Compaixão e uma Solidariedade para trás e para frente que nos possibilite uma coerente práxis da fé.
Porém, essa é a discussão que se realizará no capítulo seguinte.
122 Ibidem, p. 249.
3 COMPAIXÃO E URGÊNCIA DE UMA COERENTE PRÁXIS DA FÉ PARA OS DIAS ATUAIS
Após observar os desafios para uma prática da fé coerente na atualidade, tanto no campo sócio-político como religioso, tendo como inspiração e chaves de leitura a Teologia Política de Metz, bem como a compreensão das duas primeiras categorias dessa (Memória e Narração), a última parte desta dissertação apresenta a terceira categoria desta teologia, a Compaixão, perante a urgência da vivência coesa com aquilo que se professa como cristão no tempo presente.
Este capítulo possui como objetivo verificar os efeitos de uma vivência da Compaixão, em consonância com a Memória e a Narração, em vista de uma coerente práxis da fé nos dias atuais. Para tal, será discorrido sobre a Compaixão como inspiração e motivação para a política da paz abordando a importância de um enraizamento nessa experiência, num enfrentamento da violência que gera uma lógica de dominação e esquecimento e, em contrapartida, uma Compaixão que gera paz. Em seguida, aborda-se a Compaixão como nova política do reconhecido e igualdade de todos os seres humanos, na dimensão do reconhecimento do outro, de Deus que optou pelos insignificantes e a igualdade entre as pessoas. Por fim, apresenta-se a Compaixão contra a cegueira ao sofrimento, perpassando por uma Mística de olhos abertos, a dor e a espera, a alegria e a esperança.
O fazer teológico proposto por meio de uma memoria passionis tem a intenção de, e pelo Deus da mensagem
1 despertando, diante do sofrimento alheio, perguntas apaixonadas que possibilitem alcançar a mística de Jesus, que é a mística da Compaixão.2
Assim, como foi observado até o momento, a Memória, a Narração e a Solidariedade são as três categorias basilares de uma Teologia fundamental prática, que é a Teologia Política denominada por Metz. Categorias essas que fazem parte da essência, da identidade do cristianismo.3
No entanto, cabe ainda evidenciar as características ou a concretude desta terceira
categoria, S essa
que Metz passa a utilizar com o avanço da sua teologia, como em sua obra .
1 METZ, Johann Baptist. Memoria passionis: una evocación provocadora en una sociedad pluralista. Maliãno:
Sal Terrae, 2007. (Presencia Teológica, 154). p. 13.
2 Ibidem, p. 37;39.
3 COCCOLINI, Giacomo. Teólogos do Século XX: Johann Baptist Metz. São Paulo: Loyola, 2011. p. 97.
Contudo, ao longo deste capítulo, ambas as expressões poderão ser utilizadas em respeito aos diversos escritos de Metz e aos autores citados nesta pesquisa que refletiram sobre esta Teologia. Porém, é importante que se compreenda que elas se equivalem nesta dissertação.
Todavia, antes de avançar nesta última análise, faz-se necessário evidenciar mais uma
capítulo), para uma devida compreensão de sua Teologia e, consequentemente, dos elementos que a seguir serão abordados, nunca perdendo de vista sua dimensão prática.
Se a cristologia está sob o primado da práxis, ela é, principalmente uma cristologia radicalismo do seguimento contém uma dupla estrutura de atuação: uma mística e uma prático-
caracterizar o fato de que tal mística do seguimento é praticada sempre em situações bem precisas, em espaços e tempos bem determinados, em uma pertinência [...] que lhe é consubstancial. Para a cristologia política de Metz, não haveria nenhuma possibilidade de estar politicamente no tempo presente sem tal situacionalidade, sem essa pertinência ao presente.4
Assim, a Teologia Fundamental Prática ou a Teologia Política de Metz é, ao mesmo tempo, mística e política. Por não renunciar à redenção do inexpiado, do sofrimento passado, é mística. E é política pelo fato de que o interesse por uma justiça indivisa assume de maneira contínua uma justiça que deve ser afirmada entre nós, na atualidade.5
Em outras palavras, Deus e justiça não se separam. Por isso é mística e política.
[...] Por ser assim, o conhecimento da verdade, e também o falar de Deus, tem um fundamento prático. [...] A pergunta por Deus e pela justiça, o sim a Deus e à práxis da justiça já não são separáveis. A práxis do crente tem de possuir sempre um componente de interesse pela justiça indivisa. Neste sentido é mística e política. Daí o seguimento único e indiviso de Cristo em sua dupla realidade místico-política. A teologia cristã é, pois, política porque trata de manter viva a memória perigosa do Deus messiânico, a fé da ressurreição e do juízo. A política da teologia enraizada nesta memória não é pura retórica política. O falar cristão de Deus se encontra sobre As histórias do Êxodo, da esperança, do sofrimento, da rebelião e da aceitação pertencem ao centro da mesma compreensão cristã de Deus.6
4 COCCOLINI, 2011, p. 92
5 Ibidem, p. 92.
6 METZ, Johann Baptist. La pugna de la teología para la integración de la historia y de la sociedade. Selecciones de Teologia, Barcelona, v. 29, n. 116, p. 268-272, oct./dic. 1990. p. 269-270.
pregunta por Dios y por la justicia, el sí a Dios y la práxis de justicia ya no son separables. La praxis creyente há de tener siempre um componente de interés por la justicia indivisa. En este sentico, es a la vez mística y política.
De aquí el seguimiento único e indiviso de Cristo en su doble realidad místico-política. La teología cristiana es, pues, política porque trata de mantener viva la reminiscencia peligrosa del Dios mesiánico, el de la resurrección y del juicio. La política de la teología enraizada en esta reminiscencia no es pura retórica política. El hablar
A teologia aqui proposta deve ajudar aos crentes a um verdadeiro seguimento para que
Deus, no qual se 7
3.1 Compaixão inspiração e motivação para a política da paz