Parte III Metodologia de pesquisa
1.1. O local de trabalho
1.1.1. A instituição escolar
Nesta seção, temos o intuito de descrever brevemente a instituição em que esta pesquisa foi realizada, procurando salientar a questão da diminuição do número de alunos ao longo dos anos e sua relação com a filosofia da qualidade total.
Visamos, também, a apresentar a organização da escola, com uma estrutura centralizada, apesar de ter várias unidades na cidade de São Paulo, e os cursos nelas ministrados, para que o leitor possa melhor compreender o contexto da pesquisa.
O presente estudo foi desenvolvido em uma das unidades de uma escola de francês como língua estrangeira na cidade de São Paulo, que tem uma sede e 12 unidades espalhadas pelos diferentes bairros da cidade103. Trata-se, na verdade, de uma instituição sem fins lucrativos, que mantém ligações com o Ministério das Relações Exteriores da França, que indica alguns nomes para alguns cargos, e que existe há 120 anos no Brasil e há 70 anos em São Paulo. Enquanto representante da língua e cultura francesas no Brasil, essa instituição tem a missão de, não apenas ensinar a língua francesa, mas também a cultura francófona.
Durante esse período de instalação na cidade de São Paulo, a escola sofreu inúmeras mudanças, tanto no que diz respeito à política de cursos, quanto à administração, gestão financeira e flutuações do número de alunos, entre outras.
Sendo assim, pudemos observar algumas “crises”, seguidas de grandes mudanças que afetaram o trabalho do professor. Uma delas ocorreu devido a uma grande diminuição do número de alunos, ocorrida na metade da década de 80, logo após um grande pico de alunos em 1985104. Essa queda continuou e acentuou-se ao longo dos anos 90. No final dessa década, ela se agravou, já que o número de alunos era menos da metade do que nos anos 80. Isso representou uma grande
102 Trata-se de uma filial da escola. As filiais são chamadas de unidades.
103 Essa situação já mudou desde que começamos esta pesquisa e hoje há menos unidades.
104 Ver anexo 7 contendo a tabela do número de alunos a partir de 1980.
perda do número de horas de aulas disponíveis, e, conseqüentemente, uma quantidade menor de trabalho para o professor.
Para combater o problema, a partir dos anos 2000, a escola começou a adotar uma série de medidas visando ao aumento do número de alunos, indo desde medidas financeiras até pedagógicas, como por exemplo: demissão e substituição de empregados para reduzir a massa salarial, contenção de despesas administrativas, investimento em marketing e publicidade, aperfeiçoamento do sistema de vendas, realização de pesquisas junto aos alunos (presentes e mesmo desistentes), investimento em formação de professores novos e antigos, entre outras.
Essas medidas tinham o objetivo de transformar cada vez mais a escola em uma empresa, com objetivos e atitudes empresariais. Foi assim que, nos últimos anos, vimos a questão da qualidade entrar na escola, refletindo-se em inúmeros aspectos, desde a vida administrativa até a pedagógica. Em relação a esta última, os alunos passaram até mesmo a serem chamados de “clientes”105 com os direitos dos clientes em geral. Os professores descobriram, dessa forma, que podem ser objeto de reclamações e processos, caso não forneçam um “serviço” adequado no entender dos “clientes”: entramos, assim, cada vez mais, na filosofia empresarial que prega hoje a qualidade total dos serviços oferecidos.
É importante ressaltar, por outro lado, que a preocupação com o número de alunos é legítima e afeta, por sua vez, o próprio trabalho do professor. Se, por um lado, adotar a filosofia empresarial em uma escola de línguas pode parecer uma atitude arbitrária, por outro lado, a perda de alunos põe em risco o trabalho do professor, que se vê obrigado a diminuir seu número de horas e a buscar em outros locais a compensação financeira de que necessita.
De qualquer maneira, essa filosofia resultou, para o professor, em uma série de obrigações e estruturas de controle para verificar seu desempenho, tais como: - questionários distribuídos no final do semestre106 para que os alunos avaliem a escola, a administração e também o professor; - estatísticas realizadas mensalmente para verificar a porcentagem de alunos que o professor perde em um semestre; - porcentagem de alunos de um professor que se reinscrevem no semestre seguinte; -
105 Um exemplo disso foi o colóquio, que acontece todos os anos em fevereiro, e cujo nome em 2005 foi : Professeur/client : une nouvelle relation ?
106 Ver anexo 8 contendo o questionário.
ficha de preparação de aula obrigatória a ser mostrada para o diretor da unidade107; em 2005, elaboração das NFP (Notions fondamentales partagées ou à partager), que têm o objetivo de apresentar os conceitos-chave, “a filosofia”, adotada pela instituição escolar em termos de pedagogia108; - e diário eletrônico, que está sendo implantado a partir de 2006.
Embora alguns desses textos tenham sido produzidos após a coleta de dados, acreditamos que eles materializam, tornam oficial apenas, um agir linguageiro (usando o termo de Bronckart, 2004a :82), ou a rede de discursos (Daher, Rocha e Sant´Anna, 2002) que já circulava na escola. Como exemplo dessas maneiras de se verificar o desempenho do professor e estabelecer uma filosofia comum visando à “harmonização das práticas pedagógicas”, como é comumente chamado esse procedimento na escola, vejamos109 o questionário de satisfação entregue aos alunos ao fim de cada semestre, a ficha de preparação de aulas e as NFP.
O questionário entregue aos alunos ao final do semestre contém dois lados:
um deles, à esquerda, é destinado a melhor conhecer o aluno, contendo informações sobre seus motivos para estudar francês, a que nível pretende chegar e também uma auto-avaliação do aluno sobre seu desempenho, assiduidade etc. O outro lado, localizado à direita, contém três partes: uma avaliação do ensino e aprendizagem em sala de aula, que diz respeito ao professor; uma outra sobre a qualidade dos serviços, mais voltada para o atendimento na secretaria, na biblioteca, nas condições gerais e expectativas; uma terceira parte em que se verifica em que meios de comunicação se encontram publicidades da escola. Nas duas primeiras partes deste lado, o aluno terá que dar uma “nota”, que varia entre um (insatisfatório) e quatro (excelente).
Observamos que a primeira parte do lado direito do questionário, apresenta os seguintes temas abordados em suas perguntas: entrosamento do grupo; aulas
107 Ver anexo 10 contendo a ficha de preparação de aulas.
108 Ver anexo 9 contendo as NFP (noções fundamentais compartilhadas ou a compartilhar).
109 Descrevemos esses textos que circulam na escola para que o leitor possa melhor compreender o contexto em que a pesquisa foi realizada. Como veremos, são textos bastante interessantes e que também fazem parte dos textos em torno do trabalho do professor, mas pelas limitações impostas pela necessidade de delimitação de um objeto de pesquisa, propomo-nos apenas a relatar seu conteúdo, sem incluí-los na análise. Caracterizando a rede discursiva (Daher, Rocha e Sant´Anna, 2002), ou para adotar a terminologia proposta por Bronckart (2004a:82), o agir linguageiro que circula na escola, o estudo desses textos poderia, assim, ser reservado a futuras pesquisas já que fazem parte dos locais possíveis de emergência do agir do professor, como coloca Bronckart (2004a:117).
dinâmicas e interativas; contato com o professor; qualidade do material didático;
utilização do caderno de exercícios; utilidade das fotocópias entregues como atividades complementares; clareza das explicações; pontualidade do professor.
Dessas oito perguntas, duas dependem parcialmente do professor: a qualidade do material didático, já que ele é escolhido pela escola, e o entrosamento do grupo. Em todas as outras perguntas, quer apareça explicitamente nomeado ou não, trata-se, na verdade, de avaliações sobre o professor. Quanto à utilização do questionário na escola, o professor sabe, em geral, que essa avaliação será feita no final do semestre e como, muitas vezes, é o próprio professor que distribui e recolhe o questionário dos alunos, ele conhece o seu conteúdo. Podemos imaginar, assim, que esse questionário possa ter uma certa influência no agir dos professores da escola, até mesmo pela reação deles durante e após a entrega dos questionários110.
Em relação à ficha de preparação, podemos dizer que se trata de uma ficha elaborada há vários anos, cuja utilização obrigatória começou apenas em 2004, mas que já circulava na escola, tendo sido adotada por alguns professores antigos e por muitos dos professores novos, uma vez que ela é utilizada nos cursos de formação inicial. Essa ficha contém informações a serem preenchidas pelo próprio professor, em duas partes. Na parte de cima: nome, unidade em que ensina, nível do curso, objetivos do curso (comunicativos, lingüísticos e culturais). Na parte de baixo: um quadro contendo linhas e colunas, no qual o professor deverá descrever as atividades propostas em aula, explicitando, para cada atividade: seu objetivo, a instrução a ser dada aos alunos; o tipo de suporte utilizado (material didático, vídeo, áudio, xerox etc.); a(s) habilidade(s) enfocada(s), o tipo de interação (individual, pares, professor-aluno etc.), a quantidade de minutos prevista.
Atualmente, sugere-se que essa ficha seja preenchida a cada aula ou semanalmente, à mão, ou, preferencialmente, no computador, para tornar-se um referencial para semestres seguintes. Essa sugestão tem sido contestada, principalmente pelos professores mais antigos, que questionam a necessidade, a validade e a importância de ter que apresentar essas fichas após anos de experiência como professores111.
110 Trata-se de uma informação baseada na experiência e no pedido feito por alguns professores para rever alguns itens do questionário.
111 Trata-se de uma informação baseada na experiência e no pedido feito por alguns professores para não necessitarem preencher a ficha de preparação.
No que diz respeito às NFP (notions fondamentales partagées), como seu próprio nome indica, trata-se de um documento que visa a oficializar por escrito as noções fundamentais e básicas da didática do FLE, que são adotadas na instituição escolar e que devem ser compartilhadas por todos os professores. Embora elas tenham sido oficialmente escritas em 2005, as NFPs apresentam noções que já circulavam nos momentos de formação de professores da instituição escolar, já que elas trazem conceitos oriundos da didática do FLE e, por isso, muitas vezes, coincidentes com alguns aspectos que evocamos na Fundamentação Teórica. Elas contêm dados como a concepção de língua e de aprendizagem adotadas na escola, a prioridade a ser dada ao oral, os elementos que fazem parte de uma aula
“equilibrada”, a necessidade de variar os suportes, dentre os quais, as atividades de vídeo, a importância de desenvolver a autonomia dos alunos, como trabalhar a gramática, como criar um ambiente que favoreça a aprendizagem, como corrigir, entre outros112. As NFP contêm também uma bibliografia que apresenta livros escritos por autores da didática do FLE.
Outro fator que merece ser mencionado diz respeito à organização e ao funcionamento da escola, com uma sede e 12 unidades na cidade de São Paulo, cada uma dirigida por um diretor (podendo ele acumular mais de uma unidade sob sua responsabilidade), que preenche funções administrativas e algumas funções pedagógicas. Na verdade, a coordenação pedagógica da escola é centralizada na unidade sede e dela parte uma série de procedimentos pedagógicos, como programas de curso, orientações gerais sobre cursos, processos de formação contínua e inicial de professores, propostas de material didático, entre outros. Sendo assim, o diretor da escola tem apenas algumas funções pedagógicas, como realizar reuniões pedagógico-administrativas num total de quatro horas semestrais, distribuir o horário semestral dos professores, resolver problemas ligados a classes e alunos da(s) unidade(s) pelas quais é responsável, entre outras.
Cada unidade, porém, segue a estrutura geral da escola, em relação, praticamente, a todos os setores e à proposta adotada pela coordenação pedagógica em relação a cursos, à formação de professores, aos programas e ao
112 Ver anexo 9 com o texto completo das NFP.
material pedagógico113. Assim, os cursos, em todas as unidades, seguem a mesma estrutura de cursos regulares semestrais114.
Em relação ao número de alunos que freqüenta cada curso ou nível, pode-se entender a situação da escola como uma pirâmide, com a maior concentração de alunos em sua base, o curso básico. Assim, a grande maioria de alunos encontra-se nesses cursos, sendo que a quantidade de alunos vai diminuindo até chegar aos últimos níveis, como o curso avançado, ou, sobretudo, o curso de Nancy.
Uma vez descrito o contexto da instituição escolar como um todo, passamos, em seguida, para a descrição da unidade em que a pesquisa foi realizada.