Parte II Pressupostos teóricos
1.4. O agir e a linguagem
Apontaremos, a seguir, a questão da linguagem dentro do quadro teórico do ISD e ressaltaremos sua importância dentro dessa perspectiva.
No quadro do ISD, a visão da linguagem enquanto agir ainda é enriquecida com alguns outros princípios formulados por Voloshinov e Saussure (Bronckart, 2004a:71). Nesse texto, Bronckart descreve os fundamentos metodológicos da análise do discurso e suas ligações com o ISD, procurando esclarecer a visão da linguagem estabelecida por Voloshinov e Bakhtin, colocados por Bronckart como os autores fundadores dessa abordagem. Assim, segundo Bronckart (2004a), Voloshinov ressaltou o caráter dialógico da linguagem, apontando que todas as palavras procedem de alguém e são dirigidas a alguém, sendo um produto da interação entre o locutor e o destinatário (Voloshinov, 1977, apud Bronckart, 2004a).
Ainda segundo Bronckart (2004a), dentro dessa mesma linha que valoriza a interação social como local de produção do discurso, o ISD adota três temas da obra de Bakhtin (Bronckart, 2004a:73), que são os seguintes:
a diversidade das interações sociais e a diversidade correlativa das produções linguageiras que nelas se manifestam;
o caráter dialógico da linguagem, sempre dirigida a um outro, pois, ao mesmo tempo em que antecipa as reações do outro, remete ao que já foi dito, inserindo- se em uma intertextualidade global (Bronckart, 2004a:74);
a questão dos gêneros do discurso que se constituem como interfaces entre as interações sociais e as produções linguageiras.
Sendo assim, o ISD apóia-se na teoria desenvolvida por Bakhtin, que vê a linguagem como dialogicamente constituída, constantemente permeada pela presença do “outro”, logo, também construída socialmente. Nessa perspectiva, os discursos dos outros vão se tornando nosso discurso, num processo sucessivo de esquecimento de seus autores. Na verdade, apenas repetimos o que já foi dito, num processo inevitável de apropriação dos discursos alheios.
O outro conceito que Bronckart (1997, 2004a) retoma de Bakhtin (1997) é o de gênero do discurso, rebatizado por ele de gênero de texto. Para Bakhtin (1997), os gêneros podem ser definidos como sendo formas estáveis de enunciados presentes nas diferentes situações de uso da língua e que são social e historicamente estabelecidos. Cada gênero tem características temáticas, composicionais e estilísticas próprias e o seu maior ou menor domínio, pelos locutores da língua, determina que a comunicação seja bem sucedida ou não. Os gêneros estão, para
Bakhtin (1997), em constante evolução, variando de acordo com as transformações da sociedade e dos diferentes contextos em que são utilizados e, por isso, são suscetíveis de adaptações a cada nova situação.
Bronckart (1997, 2004a) compartilha essa noção de gênero, porém efetuando uma modificação de terminologia. Para ele, o agir linguageiro, que designa a realidade linguageira constituída de práticas de linguagem situadas, realiza-se por meio de textos. O texto corresponderia a uma unidade comunicativa de nível superior, correspondendo a uma unidade de agir linguageiro que veicula uma mensagem organizada e que tende a produzir um efeito de coerência sobre o destinatário (Bronckart, 2004a :82). Dessa forma, como existem diferentes formas de agir linguageiro, ou de textos, o autor propõe o uso de “gêneros de textos” e não de gêneros do discurso30, considerando que as expressões são equivalentes.
Sendo assim, para o autor, todo texto apresenta propriedades genéricas, resultantes da escolha do gênero textual que parece se adaptar à situação e também propriedades individuais, resultantes dos componentes ligados ao estilo, o que também o aproxima de Bakhtin. Nessa perspectiva, o conceito de texto pode ser entendido como uma unidade comunicativa ou interativa global, de nível superior, podendo ser oral ou escrito, e desenvolvendo-se em um determinado espaço e num determinado tempo. Por isso, os textos apresentam especificidades que dependem das características da situação de interação que se desenvolve, das características da atividade que está sendo comentada e das condições sócio-históricas de sua produção. Todo texto pertence sempre a um gênero, mas tem especificidades sempre únicas, que derivam das escolhas do produtor em função de sua situação de produção particular.
A noção de gênero de texto tem sido amplamente adotada no campo da didática das línguas e, muitos desses estudos se baseiam nos trabalhos desenvolvidos pelo grupo de Genebra, coordenados por Bronckart (1997). Destacamos, nesse sentido, os trabalhos desenvolvidos por Dolz & Pasquier (1993), Pasquier & Dolz (1996), Dolz & Schneuwly (1996, 1998), que vêem o gênero como um instrumento no processo de aprendizagem. Para desenvolver essa idéia, Schneuwly & Dolz (2004)
30 O termo discurso está reservado, para Bronckart (1997), a uma outra categoria de análise, a dos tipos de discurso, como veremos nas próximas seções.
apóiam-se na noção de ferramenta ou instrumento31, desenvolvida por Vygotsky e em primeira instância marxista, segundo a qual o homem, no processo de trabalho, opera, com o uso dos meios de trabalho (ferramentas), uma modificação desejada no objeto. Essas ferramentas estariam, dessa maneira, entre o homem e a situação na qual age, guiando seu comportamento nessa situação, mediando a relação entre o homem e o objeto, mas também entre o homem e os outros. Ainda, baseando-se em Vygostky, Schneuwly & Dolz (2004) apontam que podemos considerar as ferramentas, também, como instrumentos psicológicos, de natureza social, que visam à transformação do próprio comportamento do actante e/ou dos outros com os quais interage. Nesse processo, não apenas a natureza é transformada, mas também a própria ferramenta e, em última instância, o próprio comportamento humano. A ferramenta mediaria e materializaria, assim, a atividade, podendo ser considerada como um local privilegiado da transformação de comportamentos.
Do que acabamos de apresentar, interessa-nos salientar a idéia da ferramenta apontada por Schneuwly enquanto um instrumento mediador e transformador do meio e do próprio sujeito, que recuperaremos posteriormente, no capítulo sobre a análise das situações de trabalho. Interessa-nos, ainda, ressaltar nosso interesse pela linguagem enquanto forma de agir que é materializada nos textos, já que nos propomos a analisar uma situação de trabalho educacional por meio de textos, como veremos posteriormente.
Uma vez esboçadas as noções que envolvem a questão da linguagem e dos gêneros de texto para o ISD, discutiremos, na próxima seção, as razões que nos levam a investigar o trabalho educacional.