Parte II Pressupostos teóricos
2.1. O modelo global de análise de textos
Capítulo 2
A abordagem do ISD para a análise de textos
Este capítulo objetiva apresentar os pressupostos teóricos que embasam nossa análise de textos. Para tanto, apresentaremos, em primeiro lugar, o modelo de análise de Bronckart (1997) com os aportes apresentados em Bronckart (2004a). Em seguida, apontaremos a proposta de Bronckart & Machado (2005) e Bronckart & Machado (2004) para analisar textos que envolvem o trabalho do professor, além de outros procedimentos desenvolvidos por Bulea e Fristalon (2004) e Filliettaz (2004) para a análise de textos produzidos em situação de trabalho.
Finalmente, apontaremos alguns conceitos das teorias da enunciação francesas que também usamos para analisar nossos dados.
produzir um efeito de coerência sobre seu destinatário, podendo ainda ser chamado de unidade comunicativa de nível superior (Bronckart, 2004a:82)36.
Uma das contribuições de Bronckart (1997, 2004a) para a análise de textos, é o modelo de estudo das condições de funcionamento dos textos. Segundo o autor (2004a:82), os gêneros de textos elaborados pelas gerações anteriores pré-existem e fornecem um conjunto de modelos que é por ele qualificado de arquitexto de uma comunidade linguageira. Bronckart (2004a:83) define, em seguida, a situação de produção de textos, a partir de seus parâmetros físicos (emissor, receptor, espaço e tempo do ato de produção) e sociosubjetivos (tipo de interação social, objetivos possíveis, papéis atribuídos aos protagonistas da interação), incluindo também os conhecimentos temáticos que serão expressos nos textos. Assim, o actante vai, na situação de produção textual, mobilizar esses elementos e escolher um gênero textual que pareça se adaptar à situação, efetuando um compromisso entre suas propriedades genéricas e as propriedades individuais ou estilísticas que são adaptações do modelo de gênero, feitas pelo actante em função de sua situação particular.
Uma outra contribuição de Bronckart (1997, 2004a) para a análise de textos foi a elaboração de um modelo de análise segundo o qual os textos apresentam uma estrutura interna constituída de três camadas superpostas: a infra-estrutura geral do texto, os mecanismos de textualização e os mecanismos enunciativos. A primeira camada é constituída pelo plano geral do texto (organização do conjunto temático), pelos tipos de discurso presentes, pelas diferentes maneiras pelas quais eles são articulados e pelas seqüências que o compõem. A segunda camada diz respeito à maneira pela qual se dá a textualização do conteúdo temático e explicita as grandes articulações hierárquicas, lógicas ou temporais. Ela é constituída pelos mecanismos de conexão e coesão nominal e verbal. Quanto à última camada, ela mobiliza mecanismos que revelam as diferentes instâncias enunciativas responsáveis pelos enunciados do texto, abrangendo a questão das vozes, assim como as modalizações, ou seja, a atitude do enunciador (seus julgamentos, opiniões e sentimentos) em relação a certos aspectos do conteúdo temático do texto.
Assim, no primeiro nível de análise proposto por Bronckart (1997, 2004a), encontramos a planificação geral dos conteúdos temáticos abordados, sua
36 Já apresentamos uma definição mais completa de texto na primeira parte deste capítulo.
organização. Além disso, no primeiro nível, temos os tipos de discurso que mostram a criação de mundos discursivos e as seqüências, inspiradas em Adam e que para Bronckart (1997) são seis: narrativa, descritiva, argumentativa, descritiva de ações, explicativa e dialogal.
Ainda em relação a esse nível, vamos nos ater à explicação dos tipos de discurso37 que, segundo Bronckart (2004a:85), traduzem mundos discursivos que organizam as relações entre as coordenadas da situação de ação de um actante e as coordenadas dos mundos coletivamente constituídos na textualidade. A construção desses mundos baseia-se em duas operações psicolinguageiras que se distinguem entre dois eixos: o da conjunção/disjunção e o da implicação/autonomia, que funcionam como interfaces entre as representações coletivas e as representações individuais. Assim, em uma determinada situação de agir linguageiro, o actante poderá organizar as representações coletivas em representações individuais seguindo dois eixos: o da conjunção/disjunção, e o da implicação/autonomia. No eixo da conjunção/disjunção, temos a criação de mundos que podem ser conjuntos ao mundo da interação ou disjuntos, ou seja, pode ser construído um mundo discursivo em que haja concomitância temporal dos conteúdos com o mundo da interação em curso (mundo da ordem do EXPOR) ou um mundo em que essa concomitância não se faça presente (mundo da ordem do NARRAR).
Um exemplo clássico de gênero de texto em que se cria um mundo disjunto ao da interação em curso é o conto, já que não há concomitância temporal38.
Em relação ao segundo eixo, pode-se criar um mundo discursivo em que os parâmetros do contexto de produção estejam diretamente implicados ou um mundo em que esses parâmetros estão ausentes. Em outras palavras, no eixo da implicação/autonomia, o texto seria considerado como implicado quando contém marcas da situação de ação de linguagem, do contexto de produção, como por exemplo, a presença de dêiticos de pessoa (eu, você, nós, vocês etc.), dêiticos temporais (hoje, ontem, dentro de dois dias etc.) e dêiticos temporais (aqui, lá, perto
37 Para explicações sobre os outros aspectos desse nível, ver Bronckart, 1997.
38 Essa distinção tem sido apontada por outros autores como Weinrich – mundo narrado e mundo comentado e Benveniste – discurso e história, como aponta Bronckart (2004 a).
etc.). Quando o texto não contém essas marcas que remetem à situação de ação de linguagem, ao contexto de produção, ele é considerado autônomo39.
Na sua materialização textual, tem-se a criação de quatro mundos discursivos:
narrar implicado, narrar autônomo, expor implicado, expor autônomo, ou, respectivamente, os quatro tipos de discurso: relato interativo, narração, discurso interativo e relato interativo, que se caracterizam por apresentarem um conjunto de marcas diferenciadoras. Assim, o eixo da implicação é determinado pela presença de unidades dêiticas, que só podem ser compreendidas a partir da situação de produção textual, tais como: hoje, amanhã, ontem, na semana que vem etc. (dêiticos temporais); à direita, à esquerda, atrás, aqui etc. (dêiticos espaciais), e dêiticos de pessoa (eu, tu, você, nós, vós, vocês e os pronomes correspondentes), além daqueles que Bronckart (1997) qualifica de ostensivos: isso, esse etc, remetendo a objetos acessíveis aos interlocutores. Já o eixo da conjunção/disjunção é caracterizado pelo sistema de tempos verbais que cria um mundo disjunto, quando se conta algo, ou um mundo conjunto, quando os conteúdos abordados se referem à situação de produção textual.
Podemos considerar que o eixo da implicação/autonomia é equivalente ao que se chama na Análise de Discurso de linha francesa de plano embreado (implicado) ou não embreado (autonomia). Porém, Bronckart (1997:157) propõe um outro nível que é o da criação dos mundos disjunto ou conjunto, conforme já explicamos. Com essa diferenciação, Bronckart (1997:157) sugere o cruzamento dos dois eixos e a emergência dos quatros tipos de discurso que já mencionamos e que podemos visualizar no quadro abaixo:
Quadro 2: Tipos de discurso.
Conjunção Disjunção
Implicação Discurso40 interativo Relato interativo Autonomia Discurso teórico Narração
39 Essa distinção também já foi apontada por outros autores, dentre eles Maingueneau (2001) com a distinção entre plano embreado – implicado e não embreado – autônomo.
40 Lembramos aqui a diferença do termo discurso, que já mencionamos anteriormente, tal como proposta por Bronckart (1997, 2004a) e a tradicionalmente usada na análise dos discursos.
Para uma melhor compreensão dos tipos de discurso apresentados por Bronckart (1997), apresentaremos alguns exemplos ilustrativos tirados de nossos dados ou usados pelo próprio autor (no caso da narração, ausente de nossos dados) e explicaremos algumas das características desses tipos de discurso.
a) Discurso interativo
Sim por que aí o que aconteceu?
A sou eu que... tenho a impressão tem muitas coisas que escapam é muito importante o que a gente faz aqui por que era preciso quase ter uma pequena preparação para dar um curso de CA você vê?
(autoconfrontação 1, traduzida)
As características normalmente encontradas nesse tipo de discurso são a presença de formas verbais que implicam ao menos um dos participantes da interação, dêiticos temporais e espaciais (nesse caso aqui) e de tempos verbais (presente, futuro perifrástico, imperativo) que colocam as ações verbalizadas como concomitantes ao momento de produção.
b) Relato interativo
1P5 Qual era o seu objetivo?
1Pr6 Eu queria que eles reconstituíssem o percurso... eu pedi para eles para tentar imediatamente identificar o percurso profissional dele, onde ele foi
(autoconfrontação 1, traduzida)
Nesse caso, percebemos a presença de unidades lingüísticas que implicam os participantes da interação (desinência verbal, pronomes, etc.) e também tempos verbais que colocam os fatos narrados como distantes temporalmente do momento da produção (nesse caso, pretérito perfeito).
c) Discurso teórico
Les manuels retenus pour ces deux modules sont donc :
• La France aux Cent Visages :
- Pour le module France Contemporaine (Unité 1 : Que reste-t-il ? / Unité 2 : Images d’hier et d’aujourd’hui / Unité 4 : Les Régions).
- Pour le module Langue et Atelier d’écriture (Unité 3 : Société / Unité 5 : Humeurs et valeurs).
(Texto de apresentação do curso – original)
No exemplo acima, vemos que não há marcas que remetam aos participantes da interação e há presença de presente genérico e nominalizações. Além disso, os conteúdos expressos são colocados como conjuntos ao momento da produção.
d) Narração
Um dia, um mágico inventou uma máquina de fabricar cometas. Ela se parecia um pouquinho com a máquina de cortar caldo, mas ao mesmo tempo, era diferente e servia... [...]
(Bronckart, 1997:177)
No trecho acima, constatamos a ausência de unidades lingüísticas que remetam à situação de produção textual e, além disso, uma referência textual (um dia) remete para um tempo passado, disjunto do momento da interação.
Normalmente, os textos são constituídos pelos vários tipos de discurso.
Sendo assim, em muitos textos, bem como em nossos dados, é comum a existência de um tipo de discurso que predomina, com segmentos menores de outros tipos de discurso.
O segundo nível de análise, chamado de intermediário por Bronckart (2004 a:84), compreende os mecanismos de textualização que contribuem para dar ao texto sua coerência temática. Eles englobam os mecanismos de conexão, por meio de organizadores textuais, os mecanismos de coesão nominal, por meio de processos anafóricos e os mecanismos de coesão verbal, que organizam a temporalidade dos processos presentes no texto, por meio de terminações verbais, advérbios e grupos preposicionais (Bronckart, 2004a). Não apontaremos maiores detalhes sobre esse nível, pois não o utilizamos em nossa análise.
O terceiro nível de análise é, segundo Bronckart (2004a:84), o dos mecanismos de responsabilização enunciativa que contribuem para dar ao texto sua coerência pragmática ou interativa. Esses mecanismos baseiam-se na construção de uma instância geral de gestão do texto, chamada de textualizador por Bronckart (2004a:84), a quem o autor empírico do texto atribui a responsabilidade do que será enunciado. A partir dessa instância, efetuam-se dois processos: em primeiro lugar, o de distribuição de vozes e depois, o das avaliações de certos aspectos do conteúdo
temático a partir dessas vozes (Bronckart, 2004a:84). Temos, assim, os mecanismos de distribuição de vozes e os mecanismos de modalização (Bronckart, 1997:320).
Segundo Bronckart (1997:326), na análise dos textos, podemos distinguir quatro tipos de vozes: as do narrador ou expositor do texto, as de personagens, as de diferentes instâncias sociais e as do autor empírico do texto. Além disso, Bronckart (1997:329) postula a existência de duas formas de expressão das vozes: a das vozes diretas, presentes nos discursos interativos dialogados, explícitas e assumidas por seus autores; e a das vozes indiretas, presentes em qualquer tipo de discurso, e que demandam maior observação para que sejam identificadas, já que não são diretamente assumidas por seus autores. Bronckart (1997:329) menciona, ainda, a existência de uma polifonia (presença de várias vozes distintas em um texto) que pode ser explícita ou implícita.
Quanto às modalizações, Bronckart (1997:330) postula sua divisão em quatro categorias, inspiradas na teoria dos três mundos de Habermas. A primeira delas é a das modalizações lógicas (ou epistêmicas), que engloba tanto as modalizações epistêmicas quanto as aléticas de outros autores41. Nessa categoria, temos a avaliação do conteúdo temático do enunciado, do ponto de vista de suas condições de verdade, assinalando se o enunciador os considera como fatos certos, possíveis, prováveis, improváveis etc. A segunda categoria compreende as modalizações deônticas e diz respeito à avaliação do conteúdo temático do enunciado como sendo do domínio das permissões, obrigações, dos direitos, dos deveres etc. A terceira categoria, das modalizações apreciativas, envolve as apreciações subjetivas do enunciador, que avaliam o conteúdo temático do enunciado como sendo negativo, positivo etc. para o enunciador. Finalmente, a quarta, que envolve as modalizações pragmáticas, explicita interpretações sobre alguns dos elementos do agir de um determinado protagonista do enunciado (personagem, grupo, instituição etc.), atribuindo-lhe intenções, razões (causas, restrições etc.), ou ainda de suas capacidades de ação.
Temos, assim, a seguinte classificação das modalizações (Bronckart, 1997):
41 Desde Aristóteles, vários autores têm se interessado pela questão das modalizações, dentre os quais, mais recentemente, Maingueneau (1991), Charaudeau (1992), entre outros.
a) Modalizações lógicas: através das quais o enunciador exprime o grau de certeza sobre o conteúdo proposicional. Elas podem ser realizadas através de marcadores lexicais, morfológicos (modos verbais; por exemplo: futuro do pretérito) e mesmo gestuais ou intonativos. Exemplos: é possível que chova à tarde; ele virá provavelmente amanhã; ele deve estar em casa; o diretor viria amanhã.
b) Modalizações deônticas: por meio das quais o enunciador coloca o conteúdo proposicional como pertencente ao campo da ordem, do conselho, das sugestões, da permissão, da obrigação, entre outros. Exemplos: é preciso que você venha; eu exijo que você venha; você deveria vir.
c) Modalizações apreciativas: é através delas que o enunciador exprime sua apreciação (aprovação, indignação, entre outras) sobre o conteúdo proposicional.
Elas exprimem um julgamento de valor subjetivo sobre esse conteúdo. Exemplos:
estou contente que você ganhe; felizmente você ganhará; é inacreditável que ele tenha ganho; é essencial que ele ganhe.
d) Modalizações pragmáticas que explicitam as intenções do agente em relação ao conteúdo proposicional. Exemplo: Ele tentou fazer o exercício. Ele quis fazer o exercício.
Uma vez descrito o modelo de análise textual proposto por Bronckart (1997, 2004 a), apresentaremos, a seguir, algumas pistas para a análise de textos sobre o