A adoção da Internet por parte do jornalismo levou a diversas transformações nos média e na produção, o que motivou o aparecimento de diversos estudos nos últimos cerca de 20 anos. O produto (notícias), os meios e os produtores têm sido os principais objetos de estudo. As implicações mais significativas, sobretudo aquelas que se consolidam e que não são apenas fruto de um efeito imediato, só ao longo do tempo são possíveis de aferir. Simultaneamente, foram surgindo conceitos associados a este novo jornalismo, como jornalismo eletrónico, jornalismo em rede ou na rede, jornalismo multimédia, webjornalismo, jornalismo online, jornalismo digital, jornalismo hipermédia ou ciberjornalismo, como já vimos. Mais recentemente têm surgido outros, que embora se enquadrem nos estudos do ciberjornalismo, exploram outros territórios dentro dele. São os casos do jornalismo integrado (relacionado com o estudo da convergência nos média e nas redações), jornalismo de base de dados, jornalismo em dispositivos móveis ou jornalismo hiperlocal (que estuda a produção que é feita na proximidade, em territórios mais localizados, como o bairro ou a rua).
Implicações nas redações
Como uma das tecnologias com a mais rápida adoção de sempre, a Internet desempenha um importante papel no jornalismo. Mudanças ocorreram na década de 90 do século passado nas redações, tanto ao nível dos profissionais envolvidos como na própria cultura (Deuze, 2003). Houve, porém, quem começasse desde logo a fazer previsões sobre as alterações que essa adoção iria provocar, à semelhança do que postulava Nicholas Negroponte (1995), em relação a uma sociedade digital(izada). Foi o caso de Jonh Pavlik (1996: 201), que apontava para um futuro sem média noticiosos, pois esperava que surgisse um software capaz de elaborar artigos automaticamente, a partir de fontes distintas. Na sequência de uma tendência que se seguiu de adesão a esta linha de pensamento, Mark Deuze (1999: 385) veio questionar aquilo que lhe parecia ser um “consenso (in)consciente”. Mais tarde, Pavlik (2001) acabaria por assumir uma posição não determinista, ao defender que as transformações provocadas estariam relacionadas com múltiplos fatores.
“New media are transforming journalism in four ways. First, the nature of news content is inexorably changing as a result of emerging new media technology. Second, the way journalists do their work in being retooled in the digital age. Third, the structure of the newsroom and news industry is undergoing a fundamental transformation. And, fourth, new media are bringing about realignment of the relationships between and among news organizations, journalists, and their many publics, including audiences, sources, competitors, advertisers and governments” (idem: xiii).
A influência das tecnologias da informação na reestruturação da organização e rotinas jornalísticas é, aliás, reconhecida por vários autores (Kunczik, 2001;
Kovach e Rosentiel, 2004; Ramonet, 1999; Wolton, 1997). Também Janet Abbate defende que as inovações não surgem “do nada” ou de um ato isolado, mas a partir de um determinado contexto. “As all techonologies, the Internet is a social product of its social environment” (Abbate cit. Domingo, 2006: 46). No caso dos média, há que contar com múltiplos contextos, que vão do ambiente empresarial,
passando pela cultura da redação e dos jornalistas. Tendo como referencial teórico a abordagem construtivista ou a sociologia do newsmaking, entendemos que mesmo que as rotinas produtivas do jornalismo sejam isso mesmo, rotinas, técnicas apreendidas, as transformações provocadas pela adoção tecnológica não serão necessariamente iguais em todas as redações. As variações vão desde os contextos mais geral, de empresa para empresa, até ao mais particular, de jornalista para jornalista. É o que revela um estudo realizado em Inglaterra, entre 2002 e 2003, envolvendo jornalistas (n=20) da BBC, Sky News, The Guardian e Financial Times, que aponta para uma aparente contradição: enquanto que os conteúdos noticiosos dos cibermédia estavam já consolidados, o mesmo não se podia dizer dos ciberjornalistas, precisamente os responsáveis pela produção (Konstantinos e Dickinson, 2008). A pressão provocada pelas exigências do trabalho, como o tempo e o multitasking, e a qualidade do mesmo, são os principais motivos apresentados por eles. Um dos fatores poderá estar relacionado com a identidade profissional dos (ciber)jornalistas, ainda muito vincada nas práticas e rotinas produtivas de conteúdos noticiosos para o meio tradicional, como é o caso do papel, na imprensa (Sarrica et al., 2010: 420). Num estudo realizado no jornal argentino Clarín, Edgardo Pablo García (2008) observa que os jornalistas da redação tradicional exercem influência sobre os seus colegas da redação online, determinando assim as notícias que são publicadas. Apesar de os considerarem jornalistas, encaram as rotinas daqueles como uma “mimificação” das suas.
Há inclusivamente casos de redações em que jornalistas e ciberjornalistas se ignoram mutuamente (Domingo, 2008c). Nas redações de cinco média alemães, Thorsten Quandt (2008) observa que a produção é orientada para o meio tradicional e que o shovelware é encarado como a opção mais económica. A produção online é muito dependente das agências e os recursos envolvidos são essencialmente os processadores de texto. Para o autor, trata-se de jornalismo
“em segunda mão”. Outro indicador deixado por Sarrica et al. (2010), que quis estudar a integração da Internet nos 40 principais média de 11 países da União Europeia, está relacionado com a falta de comunicação interna, nomeadamente, o conhecimento de iniciativas editoriais, para os diferentes meios, por parte dos jornalistas (n=239). O mesmo regista ainda o alheamento deliberado por parte
dos jornalistas em relação às mudanças introduzidas pela Internet. Já quanto às suas práticas e rotinas, estas variam de país para país.
“There is a principal difference between journalists from Southern and Northern countries, where the latter are more keen to recognize the usefulness of the internet as a tool, both to access sources of information and to support investigative activity. The internet’s implementation has been more difficult for our Southern respondents: the Neo-Latin ones in particular tend to appreciate it less” (idem: 421).
Sobre o processo de implementação propriamente dito, que começou nas redações dos jornais, Mark Deuze (2003) divide-o em duas fases. A primeira refere-se à transição da comunicação unidirecional para a bidirecional, isto é, o reconhecimento e implementação de conteúdos gerados pelo utilizador (UGC), e a segunda que distingue as culturas jornalística tradicional daquela que reconhece os antigos leitores como produtores (prosumers). O autor alerta ainda que este processo, ou a adoção de novas estratégias, deve permitir à respetiva organização momentos de reflexão sobre as culturas existentes, nomeadamente a jornalística, tendo em vista a sua localização no espaço, entre conteúdo e conectividade.
Ainda que algumas reações tenham sido semelhantes de redação para redação, a adoção da Internet foi influenciada por diferentes contextos. De Espanha registamos as principais conclusões da tese de doutoramento de Pere Masip (2005), que aborda o processo de adoção tecnológica por parte dos média daquele país. Para o autor, as práticas jornalísticas têm sido desafiadas pela Internet e pelas suas transformações; a chegada do novo meio às redações foi essencialmente marcada por resistências (as empresas viam a Internet mais como uma forma de se promoverem, do que como um instrumento facilitador do trabalho dos jornalistas); as rotinas produtivas e a qualidade do jornalismo não foram melhoradas, na sequência de um uso tradicionalista (por exemplo a correspondência com leitores ou a consulta de outros cibermédia) e pouco inovador; existe um contraste entre os que defendem o desaparecimento do jornalista e a sua importância num período de superabundância informativa; há competição entre jornalistas, consequência da adoção tecnológica; os jornalistas
não passam da teoria à prática (reconhecem potencialidades, mas isso não é visível nas suas rotinas produtivas); surge o jornalismo de base de dados;
não há uma melhoria do jornalismo contextualizado, salvo raras exceções; a instantaneidade era potencialidade da Internet mais visível; e existe um modelo de produção antiquado nas empresas – proveniente da década de 60 do século XX – pelo que será necessária uma mudança de mentalidade.
Apesar dos diferentes contextos, há conclusões que são partilhadas em estudos realizados noutros países. É o caso da resistência que a Internet provocou nas redações e as melhorias que não trouxe, de uma forma geral, às rotinas produtivas e à qualidade do jornalismo (Fortunati et al., 2009; Bastos, Lima e Moutinho, 2012). Se, por um lado, a chegada do novo meio teve como consequências um maior e mais rápido acesso às fontes, por outro, regista-se a dificuldade em identificar a credibilidade dos conteúdos disponíveis. São algumas das conclusões do estudo The influence of the Internet on European Journalism (Fortunati et al., 2009), que inquiriu jornalistas (n=239) de 11 países, partilhadas em A influência da Internet na imprensa portuguesa (Bastos, et al., 2012), que contou com um grupo de jornalistas (n=40) dos quatro jornais mais lidos no país. Neste último, são ainda divididos em dois os níveis de influência.
O primeiro, relacionado com as rotinas de pesquisa noticiosa (newsgathering) ou de informação por parte dos jornalistas, bem como o contacto com as fontes;
o segundo, envolvendo apenas a produção noticiosa para os cibermédia, isto é, o aparecimento do ciberjornalismo.
Também Liesbeth Hermans, Maurice Vergeer e Leen D’Haenens (2009) defendem que a Internet não só altera as rotinas de produção dos jornalistas, como leva a uma redefinição destes enquanto profissionais. Num estudo que envolveu jornalistas (n=642) da Holanda, Flandres e Bélgica, os autores defendem que ainda faltam abordagens metodológicas que relacionem as variáveis de contexto (formação, condições de trabalho, estrutura da organização) e os diferentes usos da Internet. Isto porque, defendem, as principais questões já não se colocam ao nível de se os média vão ou não adotar a tecnologia, mas “quando?” e “como?”.
Uma tese que surge como resposta às abordagens deterministas dos primeiros estudos. Hermans et al. (2009) registam ainda que as opiniões e as práticas dos jornalistas em relação ao uso da Internet nem sempre são coincidentes. Uma
realidade que se ficará a dever ao processo de socialização a que são sujeitos nas redações. É precisamente nesse sentido que surge uma das conclusões do estudo:
os jornalistas com uma visão mais pessimista quanto ao impacto da Internet, em questões como a profundidade, o cuidado nas práticas (rotinas), os princípios e valores da profissão (ética e deontologia), não têm um uso da mesma, diferente daqueles que têm uma visão otimista.
O papel do jornalista tem vindo a sofrer alterações ao longo dos tempos, com novas rotinas de produção a serem adicionadas, enquanto que as antigas vão sendo alteradas ou eliminadas. A conclusão surge num estudo etnográfico feito por Steen Steensen (2009) na redação online de um jornal norueguês, no qual observa ainda que a especialização e a investigação, por exemplo, têm vindo a ser substituídas pela necessidade dos jornalistas efetuarem multitarefas (multiskiling e multitasking) e de publicarem rapidamente (breaking news).
Práticas como o copy/paste, em ciclos noticiosos de 24 horas por dia, sete dias por semana (24/7), são igualmente identificados como consequências da adoção da Internet. Num contexto em que predomina o imediatismo, o autor aponta ainda outras alterações, que acabam por ser uma consequência das anteriores:
mais atenção às audiências (acessos aos cibermédia) do que às fontes, num estilo mais provocativo e criador de empatia. Porém, nem sempre e interatividade é encarada como útil ou benéfica. É o que encontra David Domingo (2008c) na redação de quatro meios da Catalunha (Espanha). Apenas numa delas – a do único nativo digital do estudo – há vocação e disponibilidade dos ciberjornalistas para se relacionarem com os utilizadores. Nos restantes casos (jornal, televisão e rádio), o fator tempo é manifestado como determinante. A cultura do jornalismo tradicional prevalece e “molda” as rotinas de produção online.
Num contexto diferente, Maria Holoubowicz (2010) quis saber como é que implementação de novas ferramentas afetava as práticas e as perceções dos jornalistas. A autora reconhece que numa cultura de convergência os jornais regionais precisam de se reinventar, tendo presente que não existe um modelo de negócio de longo prazo. Esta última questão é, aliás, transversal a todos os média internacionais e não exclusiva dos regionais, sejam eles de França ou de qualquer outro país. À semelhança dos autores anteriores, também Holoubowicz sublinha a importância do contexto, pois defende que as rotinas das organizações
influenciam as dos jornalistas. É o que observa no seu estudo de caso, sobre a reinvenção do Le Dauphiné Libéré – tiragem de 250.00 exemplares, em circulação em nove “departamentos” (municípios) –, que passou por uma solução trimédia (GREnews): um semanário gratuito, um cibermeio e uma WebTV. Lançada em fevereiro de 2008, a iniciativa visou essencialmente um público mais jovem (18- 35 anos), que a autora identifica como pouco consumidor de diários regionais.
Embora reconheça que o uso da Internet exige mudanças comportamentais, ao nível das práticas, das mentalidades e do estabelecimento de novas relações sociais no local de trabalho, defende que estas talvez sejam menos dolorosas para os jornalistas dos jornais regionais do que para os dos nacionais.
Em Compressed dimensions in digital media occupations: Journalists in Transformation (Weiss e Joyce, 2009), as autoras procuram compreender as implicações da globalização, potenciadas pela Internet, nas rotinas dos jornalistas. Uma das descobertas prende-se com a perceção de uma compressão da distância social entre eles e as audiências, tal como períodos de tempo mais compactos, entre os ciclos noticiosos. Usando como metodologia um focus group online com ciberjornalistas de dez países, as autoras concluem ainda que o relacionamento com as audiências é encarado por eles como uma rotina necessária e diária. “Bring them real time information, enhanced with multimedia and converting our site into a town square, a place where the community talks to itself” (ciberjornalista mexicano cit. Weiss e Joyce, 2009: 594).
As previsões iniciais sobre o aparecimento de um software que incorporasse todo o trabalho do jornalista (Pavlik, 1996) são de alguma forma recuperadas por Pere Masip (2005). Um tema que se relaciona com o que os agregadores de notícias, como o Google News, têm feito nos últimos anos. Neste âmbito, Ramon Salaverría (2010) questiona mesmo se não estaremos a caminhar para a existência de ciberjornalismo sem jornalistas. Como resposta, apresenta algumas ideias que visam a melhoria da qualidade do ciberjornalismo: apostar na reportagem, pensada para a Internet; confirmar primeiro, publicar depois; complementar a informação de última hora com conteúdos mais analíticos (o que nos reporta à necessidade de memória nas redações); inovar em género e formatos (tentando evitar o percurso do passado, isto é, o shovelware); rever a “brecha geracional”
existente nas redações (maioritariamente jovens, povoadas de recém-licenciados,
com pouca experiência – são cada vez menos os jornalistas seniores, que pisaram a calçada, que andaram na rua…); planear bem o processo de convergência (no caso de integração de redações: tradicional + digital); encarar as contribuições dos utilizadores como complementares (“os meus leitores sabem mais do que eu”, cit. Gilmor, 2004); elaborar livros de estilos para os cibermédia; definir pautas deontológicas específicas para o ciberjornalismo (a criação do “defensor do cibernauta” é uma ideia, à semelhança do que já existe na imprensa, rádio e televisão – provedores do leitor, ouvinte ou telespetador); e renovar o currículo formativo, dos estudos de jornalismo, nas universidades. O que o autor apresenta é de alguma forma conhecido pelos ciberjornalistas, porém, nem sempre colocado em prática. A principal exceção está no processo de newsgathering, em que os jornalistas substituíram as ferramentas tradicionais de recolha de informação, pelas que estão disponíveis na Web (Hermans, Vergeer e Pleijter, 2009; Granado, 2008). Por outro lado, a transposição de conteúdos das páginas dos jornais para a tela de bits mantém-se. Com mais ou menos recursos, as redações começaram a viver um novo ciclo, muito marcado pelo imediatismo. Ora, isso tem levado a que por vezes ocorram atropelos éticos ou que a verificação da informação, momento determinante nas rotinas de produção, seja negligenciada. Isso leva a uma perda natural da qualidade no ciberjornalismo (Leite, 2012).
A caminho das duas décadas de Internet nas redações, a adaptação e a investigação dos cibermédia, do ciberjornalismo e dos ciberjornalistas continua em fase de construção. Um desafio para as empresas, que exploram modelos de negócio, para os ciberjornalistas, que estão a habituar-se às novas linguagens e rotinas de produção, e os investigadores, que procuram entender o fenómeno de diferentes perspetivas. A tipologia e o design dos cibermédia, os géneros do ciberjornalismo, a arquitetura noticiosa, a narrativa, o jornalismo participativo, as rotinas de produção, a convergência dos média e evolução do ensino do ciberjornalismo são algumas das abordagens efetuadas nos últimos anos (Palacios e Diáz Noci, 2009). Fenómenos que continuam a ocorrer e que importa compreender.
“As today the restructuring of traditional newsrooms into a multimedia environment is still taking place, possible consequences of this transformation may only become visible at a later stage. In the literature, authors indicate the question is no longer whether this transformation will take place, but rather how and at what speed” (Erdal cit. Hermans, Vergeer e d’Haenens, 2009).
É nesse âmbito que têm surgido, nos últimos anos, alguns estudos de cariz etnográfico, que têm procurado compreender as implicações da tecnologia nas redações. Com o seu desenvolvimento, por um lado, e a prevalência do imediatismo nas redações, por outro, nem sempre há tempo ou espaço para se refletir sobre o que se está a fazer e como. Para Helder Bastos, “a tecnologia tem andado mais depressa do que o jornalismo. O jornalismo tem, em geral, uma dificuldade grande em adaptar-se às novas coisas que vão surgindo. A Web 2.0 é um exemplo” (cit. Fernandes et al., 2009).
Uma revisão dos princípios do jornalismo
Em pleno advento de novas plataformas digitais, por um lado, e de crise económica, por outro, um grupo de investigadores português decide problematizar o jornalismo, entre diferentes atores. Inspirado pelo estudo desenvolvido nos EUA, nos anos noventa do século passado, pelo Committee of Concerned Journalists, uma organização na época administrada pelo Project For Excelence in Journalism, do Pew Research Center (Kovach e Rosenstiel, 2004), surge o Projeto Jornalismo e Sociedade (2012)7. “Com as devidas adaptações de lugar, de tempo e de cultura profissional, desafiámos a universidade, o campo jornalístico e os cidadãos em geral a refletirem sobre o que deve ser o jornalismo, o trabalho dos jornalistas, o papel e as expectativas dos cidadãos portugueses na idade da Internet”. Um dos motivos para a revisão, foi o reconhecimento, face às transformações entretanto ocorridas no campo mediático, do “cidadão
7) Disponível em http://futurojornalismo.org. Consultado a 1 de dezembro de 2012.
informado”. Já não apenas através do jornal, da rádio ou da televisão, mas também através das redes sociais online e dos dispositivos móveis. Da reflexão coletiva resultou uma “Carta de Princípios do Jornalismo na Era da Internet”8, com 11 pontos, dos quais saem reforçados os papéis dos cidadãos e das novas plataformas, na produção noticiosa.
1. A primeira obrigação do jornalismo é a busca da verdade e a sua publicitação.
O primeiro princípio, cuja essência não difere do original (Kovach e Rosenstiel, 2004: 10), refere-se à “verdade jornalística” e não à verdade em sentido absoluto ou filosófico. Na persecução pela mesma, são sobretudo dois os momentos que importa reter: a necessidade de atualidade, marcada pelo imediatismo e pela urgência, e a investigação, que pressupõe rotinas mais prolongadas no tempo.
Quanto ao processo de publicitação, deve manter-se fiel aos dados apurados, sem os deturpar ou comprometer. Neste âmbito, recuperando Rosental Calmon Alves,
“a publicação já não é mais o fim do processo jornalístico, mas o princípio”9, na medida em que a Internet trouxe a possibilidade da informação ser atualizada a qualquer momento.
2. O jornalismo deve manter-se leal aos cidadãos, estimulando o debate e a construção de opinião. Este princípio que baseia-se na defesa da cidadania, da liberdade e da democracia. Os jornalistas devem estar, por isso, comprometidos com os cidadãos, procurando resistir às pressões ou a favorecimentos que possam ocorrer nas empresas de média onde trabalham, pois elas têm que responder a vários interesses (acionistas, anunciantes, etc). A principal consequência desse compromisso é a credibilidade, precisamente uma das imagens de marca dos jornalistas e dos média.
3. A essência do jornalismo assenta na verificação da informação e no confronto de fontes e de versões. Este é mais um dos princípios que se mantém praticamente inalterado, reforçando-se apenas que a cada vez maior produção e proliferação de informação através da Internet (blogues e redes sociais, por
8) Disponível em http://estadodasnoticias.info/home/relatorios/principios-do-jornalismo/.
Consultado a 13 de janeiro de 2013.
9) No decorrer do seminário de Jornalismo Online do Summer Institute in Digital Media 2009 (UT Austin | Portugal, Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa, 25 a 29 de maio).
exemplo), exige uma redobrada mobilização por parte dos jornalistas para a certificação do que apuram, produzem e publicam. Tem sido precisamente nesta etapa das rotinas de produção que os jornalistas reconhecem que têm ocorrido mais problemas (OberCom, 2010b, 2012b), na medida em que o imediatismo, o dar primeiro, se tem sobreposto à certificação.
. O jornalismo deve escrutinar os diferentes poderes. Aqueles que o exercem devem ser independentes em relação às pessoas, organizações e acontecimentos que cobrem. Trata-se da revisão ou a explicitação de um princípio anterior, que se refere à necessidade de “controlo independente do poder existente” (Kovach e Rosenstiel, 2004: 10). O contexto económico, fragilizado, tem implicações nos campo dos média, traduzindo-se, concretamente, em pressões por parte dos acionistas e do mercado publicitário e que são reconhecidas pelos jornalistas (OberCom, 2010b, 2012b). Este princípio vem, assim, reforçar a importância do papel de watchdog por parte do jornalistas, nomeadamente, perante aquele que é frequente considerarem como o inimigo silencioso (poder económico).
5. O jornalismo deve tornar interessante o que é relevante e procurar no que é interessante ou mobiliza a atenção dos cidadãos o que é importante e significativo. Mais incisivo do que a proposta inicial, este princípio é reforçado pelo papel do cidadão, que estando cada vez mais informado, deve merecer a atenção permanente por parte dos jornalistas. Num contexto de abundância informativa, onde o infoentretenimento por vezes se sobrepõe a conteúdos noticiosos, as redações são desafiadas a combinar o interesse público e o interesse dos públicos. “Tal não deve fazer esquecer, contudo, que um jornalismo obcecado com trivialidades, em última instância, contribui para uma sociedade trivial”.
6. A produção jornalística deve seguir princípios de rigor, de isenção, de clareza, de abrangência e de proporcionalidade, e deve empenhar-se em dar voz e visibilidade a cidadãos, a grupos e a comunidades mais esquecidas. Na génese deste princípio está o jornalismo como fórum, que não exclui cidadãos, grupos ou comunidades, seja pela sua cultura, sexo, raça, nacionalidade, religião, instrução ou outras. Para tal, deve promover a contextualização, a interpretação, o debate, tendo por base o rigor e a procura pela verdade, já aqui referida.
7. Os jornalistas devem ser livres de seguir a sua consciência. A principal diferença que nos é trazida por este princípio é a substituição de “aqueles que a