• Nenhum resultado encontrado

Em qualquer processo de investigação científica a problematização é permanente.

Começando pelo objeto de estudo e passando pelas ferramentas a adotar, para

melhor o compreender. Foi precisamente o que fomos experimentando no desenvolvimento da presente tese, enquanto nos debruçávamos sobre um campo onde os estudos escasseiam. Por isso, entendemos que seriam necessários alguns indicadores de contexto, nomeadamente, quando é que teriam surgido os cibermeios da imprensa regional e que conteúdos aí estariam a ser publicados.

Algo que o estudo mais abrangente que se conhece não aborda, embora se refira à presença daqueles meios na Internet (ERC, 2010). Quanto ao ciberjornalismo desenvolvido, pouco se sabe. Para que o pudéssemos conhecer, precisávamos, antes de mais, de fazer um levantamento dos ciberjornais regionais existentes.

Só depois poderíamos conhecer que tipo de conteúdos eram publicados e inclusivamente procurar estudar a evolução dos mesmos ao longo dos anos.

Foi o que procurámos fazer, numa abordagem que pode ser dividida em dois momentos: 1) a construção de uma cronologia dos ciberjornais regionais portugueses; e 2) a avaliação do aproveitamento das principais potencialidades da Internet a partir da notícias publicadas (hipertexualidade, multimedialidade e interatividade).

Como o nosso objetivo não era fazer um levantamento exaustivo, limitámo- nos aos média regionais que se publicam com mais frequência no seu meio nativo, isto é, pelo menos uma vez por semana. Seguindo uma das conclusões do estudo da ERC (2010: 325), que refere que “quando mais espaçada é a periodicidade da publicação, menor a probabilidade de possuir página online”, decidimos considerar apenas aquelas que são diárias, trissemanais, bissemanais e semanais. Excluímos, assim, as quinzenais e mensais. Embora consideremos, pontualmente, televisões e nativos digitais, o nosso principal foco é a imprensa regional.

Foram identificadas 257 publicações (ERC, email, 19 de janeiro de 2012)1, entre as quais se contavam jornais, televisões e nativos digitais. Após uma análise às mesmas, encontrámos alguns problemas, nomeadamente relacionados com

1) Em 1995 – ano em que a Internet chegou às redações portuguesas – a ERC identifica 231 publicações regionais, com periodicidade de diária a semanária, das quais 63 já não se encontram em circulação. Entre elas encontravam-se algumas emblemáticas, como O Comécio do Porto (cancelamento a 27 de março de 2007), Diário de Beja (15 de janeiro de 2007) ou Diário do Centro (10 de outubro de 2008).

a classificação das publicações e a sua circulação2 atual. Assim, identificámos publicações regionais: que não constavam na base de dados enviada pela ERC; que se encontravam classificadas como nacionais e vice-versa; que aparentemente já não seriam publicadas. Com o objetivo de melhorar a fiabilidade da informação, procedemos a contactos adicionais com a ERC e com as publicações em causa.

Como meios alternativos, para os casos em que não era possível obter qualquer informação, ou complementar, recorremos ainda a recursos disponíveis online, nomeadamente o grupo Jornalistas no Facebook3. Foi ainda contactado o GMCS (email, 14 de dezembro de 2011), com o objetivo de conseguir a lista dos jornais regionais que tinham aderido ao Portal Imprensa Regional desde 2007 (ano de criação), tendo sido identificadas 44 publicações. Dessas, consideramos metade (22), excluindo as que tinham uma periodicidade diferente daquelas que consideramos no presente estudo (diária a semanária). De referir que à exceção de uma, que não constava da lista da ERC, as restantes eram nossas conhecidas.

Efetuado o cruzamento de dados enviados pela ERC e o GMCS, chegámos a um total de 271 publicações regionais. Destas, foram excluídas 36, por já não se encontrarem ativas. Assim, foram consideradas válidas 235 publicações: 199 jornais (84,7%), 28 nativos digitais (11,9%) e 8 TV’s na Web (3,4%). Como nos interessa particularmente a imprensa, procedemos a pesquisas e contactos adicionais – junto de jornalistas que trabalham em meios regionais – que nos levaram a identificar 175 domínios de ciberjornais regionais ativos, aqueles que considerámos numa análise comparativa e com a qual concluímos o estudo prévio.

2) Através dos contactos estabelecidos com a ERC, com vários media regionais e locais e de pesquisas próprias, recolhemos indicadores de que a base de dados daquela entidade não se encontraria atualizada. Houve inclusivamente o caso da responsável por uma publicação local, que referiu que num contacto estabelecido com a ERC, em 2011, lhe fora transmitido que a referida entidade ainda estaria a considerar publicações regionais “que já não existiam desde o 25 de Abril [de 1974]”. A dimensão deste tipo de publicações poderá justificar a dificuldade em manter-se atualizado o conhecimento sobre elas.

3) Espaço de acesso restrito/fechado, maioritariamente constituído por jornalistas e com 2822 membros (9 de abril de 2012). Através deste meio foi possível recolher informações sobre a existência ou atual circulação de mais de duas dezenas de jornais regionais. Compilação em http://

ciberotinas.wordpress.com/2012/03/26/imprensa-regional-em-portugal/. Consultado a 9 abril de 2012.

Levantamento cronológico

Quando é que os ciberjornais regionais portugueses foram criados? E quando é que começaram a disponibilizar conteúdos? Se já era conhecida uma cronologia do registo de domínios na Internet dos principais média portugueses (Granado, 2002; Bastos, 2010), que incluía ainda as datas em que os respetivos cibermeios tinham sido criados e começado a disponibilizar conteúdos, o mesmo não se podia dizer em relação aos média regionais – um trabalho iniciado por António Granado e atualizado por Helder Bastos. Embora os autores tivessem feito alguns apontamentos pontuais sobre os média regionais, a realidade é que sobre eles pairava o quase desconhecido. A quantidade de publicações, que ao longo dos anos andou sempre próxima de um milhar4, dificultava a tarefa.

Para procedermos ao levantamento cronológico apresentavam-se-nos duas opções: contactar todas publicações ou procurar uma forma que permitisse recolher as evidências pretendidas. Se, por um lado, a primeira se apresentava como morosa, por outro, não era esse o principal objetivo da tese. Igualmente pertinente era a experiência que já tínhamos de um estudo exploratório (Jerónimo, 2011e), no qual a quase maioria dos responsáveis pelas publicações contactadas revelava desconhecer as datas de criação de domínios e dos respetivos cibermeios.

Alguns, porém, lembravam-se do ano e outros até do mês, mas nada mais do que isso5. Decidimos, então, procurar alternativas. Elas surgem-nos através de dois serviços disponíveis online: Dominios.pt, para o registo de domínios, que permite identificar as respetivas datas de criação e expiração (Figura 12), e Archive.

org, considerado o arquivo da Internet, que permite acompanhar a evolução de determinado cibermeio, desde a sua criação ou desde 1996 (Figura 13). Estas etapas foram complementadas com pesquisas no motor de busca Google e no Facebook (grupo de Jornalistas).

4) No final de 2009 eram 728 o número de publicações registadas na ERC (2010). Três anos volvidos, isto é, no final de 2012, esse valor ascendeu às 1055 – 19 estavam como “provisórias”

(ERC, email, 2 de janeiro 2013).

5) No decorrer do desenvolvimento da tese apercebemo-nos, a partir de outros contactos entretanto estabelecidos, que a data de fundação das publicações é praticamente o único registo existente.

No caso da imprensa regional, por exemplo, o mais frequente é comemorar-se a fundação do meio (papel). Quanto aos respetivos cibermeios, não encontramos o mesmo procedimento.

Fonte: Captura em Dominios.pt

Há, porém, diferenças substanciais em relação à precisão de ambos. Se em Dominios.pt é possível ter a data exata de registo, já em Archive.org a primeira data disponível não significa necessariamente a da criação do cibermeio, mas a mais aproximada possível. Nestes casos, apenas é possível apurar, com rigor, o ano. Ainda assim, trata-se de um serviço extremamente útil para acompanhar o percurso dos cibermeios ao longo dos anos, independentemente de estarem atualmente ativos. Neste caso, partimos dos que estão.

Figura 13: Evidências da presença online de um cibermeio

Fonte: Captura em Archive.org

Importa sublinhar que se procuram evidências da criação de domínios e cibermeios, o que, em muitos casos, pode não significar que se chegue à data exata. É frequente, na imprensa regional, que a presença na Web seja feita ou tenha começado através de um blogue, ou seja, num serviço de alojamento externo (por exemplo Wordpress ou Blogger). O mesmo poderemos dizer em relação a outros serviços igualmente externos às entidades proprietárias dos jornais regionais (por exemplo GeoCites ou Wix) e que também permitem a criação e personalização de presenças na Web. Por conseguinte, admitimos que nos podem

escapar casos em que isso ocorra/tenha ocorrido. Se um cibermeio iniciou a sua transição para a Internet em NomeDoJornal.wordpress.com e atualmente se encontra em NomeDoJornal.pt, só recolhendo informações junto dos respetivos proprietários ou redações é que poderemos saber exatamente quando e onde é que essa transição foi iniciada. As opções que aqui adotamos permitem-nos, por isso, saber apenas com rigor a data de criação dos domínios próprios (dia/mês/

ano), enquanto que a dos cibermeios só em parte (ano).

Avaliação do aproveitamento das potencialidades da Internet

Os principais “sites noticiosos” portugueses aproveitam pouco as potencialidades da Internet. A conclusão é comum a vários estudos (Zamith, 2008, 2011; ObCiber, 2009, 20106), nos quais tem sido aplicada uma grelha de análise, inicialmente desenvolvida por Tanjev Schultz (1999), para estudar a interatividade. Entretanto, outros estudos foram seguindo a mesma abordagem, atualizando-a com a introdução de novas potencialidades. Fernando Zamith (2008: 44-57) compila-os e atualiza a referida grelha, que passa a considerar a instantaneidade, a hipertextualidade, a multimedialidade, a ubiquidade, a memória, a personalização e a criatividade – a explicitação mais detalhada sobre esta abordagem será feita mais adiante. Para além de permitir uma avaliação ao aproveitamento das potencialidades da Internet em qualquer cibermeio, a aplicação deste grelha permite efetuar estudos comparativos e/ou comparar o resultado de diferentes estudos. Interessava-nos fazê-lo aos de âmbito regional, algo que foi possível num estudo exploratório (Jerónimo, 2011c) – já conhecíamos um estudo de casos (Couto, 2010).

Efetuado o levantamento do universo de ciberjornais regionais, que no seu meio nativo se publicam pelo menos uma vez por semana, passou-se à avaliação do aproveitamento das principais potencialidades da Internet. Os indicadores que tínhamos apontavam para um número elevado (ERC, 2010), pelo que se nos apresentavam quatro dilemas: analisar ou não todos os ciberjornais regionais

6) Disponível em http://obciber.wordpress.com/estatisticas/. Consultado a 26 de maio de 2011.

apurados; aplicar ou não a grelha de análise; se sim, qual delas; e a que períodos.

Se, por um lado, tínhamos presente que o objetivo principal da presente tese era o estudo das rotinas de produção do ciberjornalismo de proximidade, por outro, reconhecíamos que dada a escassez de estudos neste campo, precisávamos de indicadores que nos ajudassem a começar a conhecê-lo, de modo a podermos enquadrar os casos estudados num contexto mais geral. Não se trata de fazer extrapolações, mas de começar a compreender qual é a cultura do ciberjornalismo de proximidade em Portugal, que por sua vez poderá ter implicações nas rotinas dos três casos particulares em estudo.

Tendo ainda presente o estudo sobre evolução do ciberjornalismo em Portugal (Bastos, 2010), optámos por considerar apenas os ciberjornais criados até ao ano 2000, isto é, coincidentes com o período de “expansão ou de boom

(idem: 39-45); aplicar a grelha de análise; definir uma que permitisse avaliar as principais potencialidades da Internet, sendo esta mais curta que as versões de Zamith (2008, 20097), porém, mais alargada que a de Schultz; e aplicar a grelha em dois períodos: origem e atualidade, isto é, versões originais (1995- 2000) e atuais.

Para a construção da grelha de análise, foram assim consideradas a interatividade, a hipertextualidade e a multimedialidade, a quem foram atribuídos pontos: máximo de 4, 1 e 5, respetivamente (Figura 14). Falamos daquelas que são reconhecidas como as principais potencialidades da Internet para o ciberjornalismo (Salaverría, 2005; Bastos, 2012) e cujo aproveitamento pretendíamos comparar, em períodos distintos.

7) Versão facultada pelo autor e que foi posteriormente apresentada num congresso em Espanha:

ZAMITH, F. (2010) Mudanças na adaptação dos media à Internet. In URETA, A.L. y AYERDI, K.M. (Eds.) Atas del II Congreso Internacional de Ciberperiodismo y web 2.0, Universidad del País Vasco.

Interatividade Pontos (possíveis: 4)

Email ou formulário de contacto genéricos 1

Email ou formulário de contacto de todos os jornalistas 2 Outra forma de contacto genérica (fórums, redes sociais) 1 Outra forma de contacto individual (editor, jornalista) 2

Hipertextualidade Pontos (possíveis: 1)

Presença de hipertexto 1

Multimedialidade Pontos (possíveis: 5)

Fotografias ou imagens 1

Galeria fotográfica 2

Infografia 1

Áudio 1

Vídeo 1

Fonte: Elaboração própria

Tivemos em consideração o facto das primeiras versões dos cibermeios serem significativamente diferentes das atuais, relativamente aos recursos disponíveis.

No caso da interatividade, por exemplo, na origem ainda não existiam redes sociais ou até espaços para comentários, porém, alguns cibermeios tinham fóruns. Embora estejamos a falar de espaços com potencialidades distintas, em comum tinham o facto de serem uma forma de contacto com os cibermeios – o Facebook, por exemplo, permite o contacto imediato (chat). Neste caso, interessava-nos explorar a potencialidade como meio de contacto entre os utilizadores e os cibermeios, isto é, a possibilidade de comunicação, mediada por plataformas digitais. A presença de emails ou formulários poderia estar junto às notícias publicadas ou em outro local visível. No caso da hipertextualidade, considerámos a presença simples de hipertexto nas notícias. Por fim, em relação

à multimedialidade, considerámos a presença de imagens estáticas ou dinâmicas (fotografias, vídeos ou infografias), áudio e vídeo.

Como referimos, não era nossa intenção efetuar uma análise de todas as potencialidades, em todos os ciberjornais e ao longo de todo o período (da origem à atualidade). Há autores que se têm debruçado sobre o assunto, inclusivamente com estudos em ciberjornais regionais portugueses (Couto, 2010; Jerónimo, 2011c; Posse, 2011). Antes, pretendíamos tentar identificar eventuais alterações decorridas entre dois extremos. Assim, sendo este um primeiro olhar sobre o passado e o presente dos ciberjornais regionais, escolhemos dois períodos (1995-2000 e 2012), com a grelha a ser aplicada a 13 de abril de 2012. A opção pelo primeiro intervalo prende-se ainda com o facto de já termos encontrado indicadores sobre a existência de ciberjornais regionais nessa época (Granado, 2002; Bastos, 2010; Jerónimo, 2010a). Alargar o intervalo inicial seria não só fugir do nosso objetivo principal, como também aumentar a probabilidade de desfasamento de resultados.