• Nenhum resultado encontrado

Modelos de negócios e outros desafios atuais

exceção são alguns trabalhos realizados nos últimos anos, que se têm debruçado essencialmente sobre o aproveitamento das potencialidades da Internet por parte de algumas dezenas de ciberjornais (Costa, 2005; Vieira, 2009; Couto, 2010;

Jerónimo, 2011c; Posse, 2011), como veremos. Ainda assim, podemos adiantar que apresentam conclusões comuns a outros estudos desenvolvidos noutros territórios, como Brasil (webjornalismo regional) ou Espanha (ciberperiodismo en la/de proximidad): as características do ciberjornalismo são subaproveitadas e este está ainda em fase de evolução (Flor, 2005; Correia e Rocha, 2012; Pinto, 2005; López García, G., 2008a, 2008b, 2008c; Masip, 2008). À semelhança do que tem vindo a acontecer noutros estudos, importará entrar nessas redações, para que se conheçam contextos, produção, produtores e assim se procure compreender qual é o lugar do ciberjornalismo nos média de proximidade. No fundo, conhecer a cultura aí existente, que Pierre Bourdieu (apud Padilha, 2012:

34) entende como “a natureza aceita, habitual e repetitiva de uma cultura diária sobre a qual os indivíduos têm um domínio prático”.

noticiosa não é exceção. Uma profissão que sempre se pautou por parâmetros qualitativos, vive atualmente dos quantitativos (Gomes, 2012). Mais notícias levam a mais clics, que por sua vez fazem aumentar os acessos aos cibermeios e, consequentemente, podem resultar em receitas publicitárias. É o que esperam as empresas jornalísticas, que têm nos banners parte dessa estratégia. A perpetiva comercial, isto é, a procura por modelos de negócio que sustentem o ciberjornalismo, leva a que a própria construção noticiosa seja determinada por esse contexto. Os títulos das notícias começam a ser construídos numa perspetiva de eficácia em relação aos motores de busca. A agregação feita por empresas como a Google e a hierarquização que a mesma faz das notícias, começa a ser igualmente determinante para o processo de construção. “Online news stories are typically not written for concentrated reading and the readers can easily chance between different online news websites. Search engine optimization affects headlines because journalists are trying to create best selling and most attractive headlines” (Uotila, 2011: 4). Termos como SEO (Search Engine Optimization) entram no léxico dos ciberjornalistas e dos editores. Uma das implicações é nos acessos aos cibermeios. É desse maior ou menor fluxo que dependem, para os responsáveis das empresas de média, as receitas publicitárias. Porém, há quem considere “pirataria” esse processo de indexação noticiosa (Lopes, 2013). A discussão é recente, tendo inclusivamente chegado a Portugal. De um lado, estão os empresários dos grupos de média, do outro, os motores de busca, com o Google a ser o principal visado. Os primeiros, defendem que devem receber uma percentagem das receitas dos segundos, já estes, defendem que são importantes vias de acesso aos cibermédia. Na conferência “Motores de Busca – O Seu a Seu Dono”, a Confederação Portuguesa de Meios de Comunicação Social (CPMCS) juntou-se às vozes daqueles que defendem que os motores de busca devem pagar a uma entidade gestora de direitos de autor, uma percentagem da publicidade que geram. Do lado da Google – o motor de busca mais utilizado mundialmente –, o principal argumento é que grande parte do tráfego dos cibermédia tem como origem as pesquisas feitas nele. Trata-se de uma discussão que ainda decorre e que envolve sobretudo a imprensa e os governos de países como a Alemanha, a França ou a Itália, que defendem uma “taxa Google” ou, numa posição mais

extrema, o abandono do Google News, tal como fizeram os ciberjornais do Brasil, ainda que com repercussões mínimas (O Globo, 2012).

“In the move to online news production, newspaper companies have struggled to find successful models for survival and growth despite a series of experiments with different approaches to online technology” (Greer e Mensing, 2006). A procura por um modelo de negócio standard tem sido precisamente uma das grandes questões em torno do ciberjornalismo, um pouco por todo o mundo. Embora não seja nossa intenção abordar exaustivamente os percursos e debates em torno desta questão24, não podemos deixar de partilhar algumas das principais ideias geradas. A realidade é que as empresas jornalísticas ainda não encontraram um modelo que seja viável e sustentado, sendo que as paywalls têm sido um dos mais controversos. Se o principal argumento do “sim” é que todo o trabalho de produção noticiosa tem custos e o utilizador deve assumir parte deles, o do “não” é que todos os utilizadores sempre se habituaram a ter conteúdos gratuitos na Internet e que, portanto, cobrar por eles não faz sentido.

Um dos argumentos intermédios é o que se refere à qualidade dos conteúdos.

Solicitar previamente ao utilizador que pague para lhes poder aceder, poderá criar nele a expectativa de exclusividade. É o que defende Philip Meyer (2009), que aponta a um modelo que traduza que a influência social de uma publicação resulta da confiança adquirida pelo público, por força da fidedignidade dos conteúdos e da qualidade das notícias difundidas. Há ainda quem sugira o modelo freemium, isto é, o acesso livre a alguns conteúdos e condicionado a outros.

Se, por um lado, não faz sentido cobrar por conteúdos que estão disponíveis livremente noutro lugar, por outro, optar pelo regime de conteúdos exclusivos, implicará um investimento em recursos, como ciberjornalistas, capazes de aproveitar ao máximo as potencialidades da Internet na sua produção noticiosa.

Trata-se de uma realidade pouco frequente em Portugal, defende Helder Bastos (2011). A ausência prolongada de modelos rentáveis de negócio, o investimento reduzido na constituição de equipas online e no desenvolvimento de sites e o conservadorismo das empresas, mas também dos jornalistas, têm sido, na

24) No decurso do acompanhamento que fez aos ciberjornalismo em Portugal, Helder Bastos (2011, 2010) também foi registando as experiências que se iam fazendo noutros contextos, como EUA, Inglaterra ou Espanha.

opinião do autor, determinantes para que os resultados do ciberjornalismo não sejam animadores.

O tema continua e continuará em discussão, como sucedeu no II Congresso Internacional de Ciberjornalismo25. Curiosa e paradoxalmente, apenas seis das 32 comunicações apresentadas se debruçaram sobre o assunto. Uma delas (Saad Corrêa e Lima, 2010) resume em dois pontos as decisões empresariais tomadas ao longo dos primeiros 15 anos de ciberjornalismo: a equiparação da lucratividade do negócio online como desempenho dos média tradicionais e a transposição para o online de práticas offline de obtenção de lucro (publicidade e assinaturas). Para além dos modelos já aqui mencionados, os autores recuperam ainda outras propostas, como a publicidade em múltiplo formato, o patrocínio26, o financiamento ou mecenato, o angel capital, os fundos de investimento ou a cooperativa de jornalistas27. Já no estudo “Chasing sustainability on the net: International reserach on 69 journalistic pure players and theis business models” (Sirkkunen e Cook, 2012), desenvolvido na Europa, Japão e EUA, são identificados a publicidade, a venda de conteúdo, o marketing afiliado, as doações, a venda de dados ou serviços, a organização de eventos ou o trabalho freelancer. Porém, para os autores, os mesmos não oferecem grandes garantias.

“Para quem acompanha esse processo ao longo do tempo foi possível constatar uma dinâmica circular por parte das empresas informativas: experimentação de muitas propostas e não definição por qualquer uma delas, retomada de proposta é experimentada, e assim por diante” (Corrêa e Lima, 2010: 2). Todas têm procurado retorno do que produzem para os cibermeios, de forma a justificarem a sua existência, porém, como defendem os autores, ninguém assume que essa atividade deveria ser autossustentável. Embora se reconheça maturidade à

25) II Congresso Internacional de Ciberjornalismo – Modelos de Negócio e Rede Sociais, 9 e 10 de dezembro de 2010, Universidade do Porto (Portugal). Disponível em http://cobciber2.

wordpress.com/.

26) Podemos incluir aqui o já mencionado crowdfunding, que é uma modalidade de patrocínio por mais do que uma pessoa. Parece-nos, no entanto, que a proposta dos autores é mais vasta.

27) Esta tem sido uma realidade emergente em Portugal. Em 2011, a redação do jornal regional Barlavento (Algarve) demitia-se e meses depois fundava um projeto exlusivamente online SulInformacao.pt; em 2012, um outro grupo de jornalistas desempregados fundava o semanário local A Manhã (Gondomar, distritro do Porto).

indústria jornalística, para Elisabeth Saad Corrêa e Marcelo Coutinho Lima a sua reação à inovação e à adoção de modelos de negócio menos rígidos e mais flexíveis tem sido lenta e cautelosa. O estudo Survival is Success: Journalistic Online Start-Ups in Western Europe (Bruno e Nielsen, 2012) acaba por tocar precisamente nesse ponto. Num contexto dominado por múltiplas experiências, os investigadores do Reuters Institute of the Study of Journalism sublinham que o simples facto dos projetos sobreviverem já é, só por si, um êxito.

Em entrevista à revista The Economist (apud Ingram, 2013), Alan Rusbrindger, editor do The Guardian, é um dos que recusam a cobrança por conteúdos, argumentando que a solução não passa por um modelo de negócio único. “Newspapers have always used a blend of different funding mechanisms to extract revenues for their ‘product’. That’s why I am unconvinced by those who say that the only model that works is to build paywalls. This is not an area where one size fits all” (idem). Isso sucede sobretudo num período em que há novos players a atuar em cadeia (Sims, 2009). Exemplo disso é caso dos agregadores de conteúdos informativos (Google ou The Huffington Post), as micro-plataformas que os publicam (Blogger, Facebook ou YouTube) e as plataformas móveis (smartphones e tablets), onde são distribuídos, mas também produzidos.

No artigo “Seven publishing trends that will define 2013”, o jornalista Hamish McKenzie (2013), especialista em média, política e startups internacionais, identifica alguns desafios que se apresentam à indústria. Um deles é o aparecimento do “micropublishing” (ou self-publishing), que consiste em pequenas publicações, em textos leves, muitas vezes sem imagens, que não exigem grande memória dos computadores ou tempo de download e que podem ser distribuídos via Web ou apps. Outro é a “subscriptionization”, que consiste nas tradicionais assinaturas, mas a um preço reduzido. Trata-se de uma possível resposta a um fenómeno que está a ocorrer nos EUA: os jornais que estão a cortar na impressão em papel para reduzir custos e a investir nos seus cibermeios, debatem-se com um período de estagnação da publicidade online (Reuters, 2012). Com os conteúdos a serem cada vez mais redistribuídos, sobretudo através das redes sociais online, para McKenzie faz sentido que os utilizadores tenham a sua subscrição ou assinatura ao meio de origem. “Thanks to the rise of

mobile devices as reading devices, you can expect more publishers to integrate a subscription element into their offerings (…) Thanks to smartphones and tablets, it’s also easier to start, stop, and pay for a subscription than ever before”

(McKenzie, 2013). A “serialization” é outro desafio e consiste em recuperar uma antiga forma de publicação em série. Exemplo disso é a reportagem multimédia

“Snow Fall – The Avalanche at Tunnel Creek”28, publicada pelo The New York Times, em seis partes, no final de 2012. Este caso leva-nos precisamente aos conteúdos multimédia, possíveis com financiamento ou grandes redações. Com mais de 3,5 milhões de visualizações (Romanescko, 2012) no curto espaço de uma semana, a reportagem do The New York Times é um exemplo recente do que pode ser conseguido. “What it really showed was not so much ‘the future of journalism’ but what premium digital publishing can look like when given the right resources” (McKenzie, 2013). Trata-se de um exemplo que se popularizou, mas que ainda assim não é propriamente uma novidade. A esse propósito, McKenzie recupera o caso da Ativist, uma plataforma digital que já permitia construir estórias e publicá-las (“A single click lets you publish your work to iPad, iPhone, and Web browsers”) ou vendê-las, de forma simples e rápida (o The Wall Street Journal usa-a). O autor aponta ainda a outra tendência emergente, relacionada com o consumo informativo e que designa de 5) “longform”. Para tal, recupera alguns dos indicadores do estudo The State of the News Media 2012, que regista um crescimento do acesso digital através de multiplataformas (laptops, smartphones, tablets ou os três em simultâneo); o acesso direto ao fornecedor original das notícias (via apps); e que o acesso a elas é mais frequente e prolongado por parte dos utilizadores que o fazem a partir de dispositivos móveis do que de computadores. Se a estes indicadores associarmos o já referido sobre o caso “Snow Falls”, apercebemo-nos de que poderá haver recetividade por parte dos utilizadores para estórias longas. Contudo, um estudo publicado na Columbia Journalism Review (Starkman, 2013) parece apresentar indicadores contrários. De uma análise de conteúdo feita a quatro jornais norte-americanos (The New York Times, The Wall Street Journal, The Washington Post e The Los

28) Disponível em www.nytimes.com/projects/2012/snow-fall/#/?part=tunnel-creek. Consultado a 1 de janeiro de 2013.

Angeles Times), entre 2003 e 2012, regista-se uma quebra acentuada (86%) de publicação de artigos com mais de 2 mil palavras. A justificação apresentada é a que este fenómeno se ficará a dever ao declínio generalizado na indústria (idem).

Para ajudar a interpretar estes dados, parece-nos pertinente recuperar o estudo de João Canavilhas (2007), no qual regista uma maior recetividade dos utilizadores para lerem notícias com elementos multimédia, do que apenas com texto. Assim, parece-nos que a recetividade para conteúdos noticiosos longos, será tanto maior quanto mais elementos multimédia envolver, quanto mais sentidos estimular ao utilizador e melhor for a narrativa. Embora não seja propriamente nova, a

“curation” surge sobretudo com as redes sociais. Para McKenzie, é preciso ajudar os utilizadores a dar sentido à quantidade de conteúdos (notícias e reportagens) presentes na Web. Por fim, os “micropayments” podem ser entendidos como pequenas doações. Um exemplo disso é o Tip Jar, desenvolvido pelo Vimeo, que permite aos utilizadores manifestarem o seu agrado por determinado vídeo e procederem a pequenos donativos ao respetivo autor. O objetivo é reconhecer e premiar os conteúdos audiovisuais, promovendo a criação de mais. Um processo que é facilitado em pleno advento dos dispositivos móveis. “Now that we’re getting used to buying things with our mobile wallets, it’ll be only a small step to start tipping for digital content we truly appreciate” (McKenzie, 2013).

A indefinição em torno dos modelos de negócio, que domina grande parte da discussão em torno dos média, resulta em implicações no próprio produto do ciberjornalismo. Com quebras nas receitas publicitárias e na circulação, no caso da imprensa, um dos caminhos seguidos tem sido o da dispensa de jornalistas.

A começar por aqueles que trabalham nas redações online, onde se adensa a precarização (Domingo, 2006; Deuze, 2009; Bastos, 2011). Os que resistem têm que fazer o seu trabalho e o dos ex-colegas. É o newswork, de que falam Mark Deuze e Timothy Marjoribanks (2009). A existência de ciberjornalistas, isto é, profissionais a trabalhar em exclusivo para o online, começa a ser cada vez mais raro. Porém, o consumo de conteúdos através das plataformas digitais não tem abrandado, o que implica que as empresas jornalísticas continuem a trabalhar em várias frentes, mas agora com menos jornalistas. Daqui resulta um jornalismo feito cada vez mais à pressa, atropelando por vezes princípios basilares da profissão, como a credibilidade, resultante de uma disciplina de

verificação da informação. Casos como os que envolveram o diretor adjunto do semanário Expresso29, em Portugal, ou o diário El País30, em Espanha, são ilustrativos disso. Para Mark Deuze (2007), há um conjunto de valores e papéis que são partilhados pelos jornalistas. É aquilo a que chama de “ideologia do jornalismo”, que assenta em noções como serviço público (os jornalistas vigiam os poderes instituídos e por isso prestam um serviço público), a objetividade (são profissionais imparciais, portanto, são credíveis), a autonomia (trabalham de forma independente), a instantaneidade (têm um sentido de atualidade e rapidez de execução), e a ética (os jornalistas têm um sentido de ética, validação e legitimidade). No entanto, essa “ideologia” está a ser desafiada. Segundo Helder Bastos (2012), a noção de serviço público e do papel de watchdog, são dois exemplos de como o jornalismo se tem diluído no ciberjornalismo. Mas estes não são os únicos elementos clássicos da identidade dos jornalistas que estão em crise. A objetividade é outro exemplo. Para o autor, os motivos são vários:

“aumento da desprofissionalização e do amadorismo das práticas jornalísticas, ou para-jornalísticas; proliferação de novas fontes de informação duvidosas num ambiente de competição veloz na Web, também entre profissionais e amadores”

29) No programa televisivo “Expresso da Meia-Noite”, da SIC Notícias, edição de 15 de dezembro de 2012, o diretor adjunto do Expresso, Nicolau Santos, entrevistou Artur Batista, alegado coordenador de uma equipa da ONU, que teria por missão elaborar um relatório sobre a crise económica no sul da Europa. Declarações que foram amplamente citadas por outros media, nacionais e até mesmo internacionais. Poucos dias depois, descobriu-se que afinal o entrevistado não era quem se pensava ser, levando o diretor adjunto do Expresso a assumir publicamente a falta de verificação. “Tudo se resume a isto: cometemos um erro terrível, do qual me penitencio – não confirmámos se aquele senhor era quem dizia ser. Para além disto, qualquer conclusão é abusiva”, disse Nicolau Santos, em declarações ao Público (“‘Lamento muito mas fui mesmo embarretado, diz Nicolau Santos”, Publico.pt, 24 de dezembro de 2012).

30) Na edição de 24 de janeiro de 2013, o El País publicava em manchete: “El secreto de la enfermedad de Chávez”, acompanhada por uma alegada foto de Hugo Chávez, presidente da Venezuela, cedida pela agência noticiosa Gtres Online. Nela era possível ver o rosto de um homem a quem estavam a ser prestados cuidados médicos (intubação). De fato o governante estava internado com problemas de saúde, porém, aquela não era a imagem de Hugo Chávez, o que levou o diário espanhol não só a removê-la do seu cibermeio, como a recolher das bancas a edição em papel. “EL PAÍS pide disculpas a sus lectores por el perjuicio causado. El diario ha abierto una investigación para determinar las circunstancias de lo sucedido y los errores que se hayan podido cometer en la verificación de la fotografía. Gtres Onilne es una agencia gráfica con la que EL PAÍS trabaja desde hace varios años y que representa en España a otras agencias internacionales”, publicava no seu cibermeio (“EL PAÍS retira una falsa foto de Hugo Chávez”, ElPais.com, 24 de janeiro de 2013).

(idem: 291). Também o jornalista norte-americano Jeff Jarvis defende que a classe profissional precisa rever os seus papéis e rotinas de produção. “We’ve got to go out of this ideia that all we do is content in form of articles. We can do much more than that! We have to think journalism like an ecosystem. (…) Journalism is a service and what we journalists have to ask is how we can add value to that”31. O aparecimento de conceitos como prosumer (Jenkins, 2008) e produser (Bruns, 2008b) ilustram a fusão dos papéis de consumidor e produtor, que coabitam nesse “ecossistema”, que deixou de ser partilhado em exclusivo por ciberjornalistas ou jornalistas.

É precisamente na sequência do empowerment (Cardoso et al., 2009) do utilizador, que foram surgindo novos conceitos como “jornalismo do cidadão”

(Gillmor, 2004; Rosen, 2008), “jornalismo colaborativo” (Glaser, 2004),

“jornalismo 3.0” (Varela, 2005) ou “jornalismo participativo” (Bowman e Willis, 2003; Thurman e Hermida, 2010; Singer et al., 2011; García de Torres, 2012).

Transversal a todos eles está o reconhecimento de que os cidadãos estão cada vez mais capacitados para produzirem e partilharem conteúdos informativos, deixando assim para trás o papel de consumidores passivos. Para Jay Rosen (2008), “when the people formerly known as the audience employ the press tools they have in their possession to inform one another, that’s citizen journalism”.

Outros autores, nomeadamente os que defendem o jornalismo participativo (Singer el al., 2011; García de Torres, 2012), preferem sublinhar a possibilidade de colaboração e de ação coletiva, potenciada pelas plataformas digitais, dentro e fora da redação, para e com os outros. Por seu lado, Neil Thurman e Alfred Hermida (2010), ressalvam a necessidade de se distinguirem os projetos que são independentes, de “jornalismo de cidadão”, daqueles que são promovidos pelos próprios média e que procuram estimular a participação. É precisamente nesse âmbito, isto é, nas regras de participação, que David Domingo (2011) se debruça. O autor espanhol categoriza-a em jornalismo playground (espaços que estão numa secção específica, procurando assim proteger a marca do jornal e, por isso, têm um moderação comedida) ou como fonte. Ainda assim a participação

31) “Moving beyond the article”, Jeff Jarvis em “The Impact of Twitter on Journalism”, Off Book, PBS, 15 de novembro de 2012. Disponível em www.youtube.com/watch?v=Nl9xI-kAE8A.

Consultado a 1 de dezembro de 2012.

dos utilizadores na produção ciberjornalística ainda vai encontrando resistências dentro das redações (Hermida, 2011). Os jornalistas continuam a assumir para si o protagonismo da construção noticiosa (Heinonen, 2011) e “ainda existem muitos em negação” (Alves cit. Jerónimo, 2011a), relativamente às implicações da Internet e das novas plataformas nas suas rotinas de produção. É o que também defende Joshua Benton, diretor do Nieman Journalism Lab:

“Os jornalistas terão de perder a sua arrogância e agir com seres humanos. A transição vai ser muito difícil para a maioria. Ainda temos muito a escrever, principalmente para investigar casos de corrupção. A internet treinou as pessoas para que elas recebessem as informações de uma forma social.

Os repórteres têm de parar de encarar o seu público como um estorvo. Os jornalistas encaram os e-mails de um leitor como algo chato, principalmente quando endereçados ao editor. É hora de a voz institucional desaparecer. Os jornalistas online têm de encarar o leitor em primeira pessoa e dizer: ‘isto nós sabemos e isto nós não sabemos’” (Benton cit. MediaOn, 2009)32.

Numa abordagem inovadora, Zvi Reich (2008) compara a produção noticiosa desenvolvida por jornalistas profissionais e por cidadãos. O autor comprova a sua hipótese inicial, que considerava que os cidadãos partiam em desvantagem, pela dificuldade de acesso às fontes de informação e, por isso, havia pouco contraste entre elas. A falta de rotinas, um conhecimento jornalístico limitado, a dependência de outros cidadãos e não de fontes institucionais, a dificuldade em cultivar relações com fontes e o facto de terem outras atividades profissionais, são apresentadas como algumas das características que limitam a produção noticiosa feita por cidadãos (idem: 741-742).

É reconhecido que os cidadãos partilham, cada vez mais, conteúdos informativos. Também é verdade que os produzem, porém, não quer dizer que isso seja jornalismo. É o que defendem João Canavilhas e Catarina Rodrigues (2012), numa revisão aos diversos conceitos que consideram precisamente o papel dos

32) MediaOn (2009) “Jornalistas terão de perder arrogância”, diz Benton. Disponível em www.

mediaon.com.br/2009/2009/10/27/mediaon-jornalistas-terao-de-perder-arrogancia-diz-benton/.

Consultado a 1 de dezembro de 2012.