Os compromissos de cidadania e de necessidade comunicacional fazem
“fervilhar”, um pouco por toda a Europa, as publicações locais e regionais (Sousa, 2002). Todas as pequenas e médias cidades têm, pelo menos, um jornal local. Porém, a observação feita pelo autor há cerca de uma década poderá já estar desatualizada em relação a alguns países. Ainda assim, na ausência de dados mais recentes sobre este contexto, decidimos considerá-lo. Já se olharmos para o caso português, por exemplo, o panorama da imprensa local e regional supera, em termos quantitativos, as sete centenas de títulos (ERC, 2010). É, pois, um dos países europeus com mais publicações deste âmbito. Há inclusivamente municípios onde têm sede vários semanários e diários assumidamente regionais.
Porém, quantidade nem sempre é sinónimo de qualidade, isto é, não quer dizer que a existência de muitos títulos se traduza em elevados índices de leitura ou de cidadãos mais informados. Esse alerta é reforçado por Inga Wachsmann e Mattieu Calame (2010), numa proposta que fazem para a revitalização da Europa a partir dos média regionais. Os autores observam que apesar de existir uma quantidade considerável de jornalistas creditados em Bruxelas para efetuarem a cobertura noticiosa de questões relacionadas com a UE, a verdade é que isso está a ter poucos efeitos práticos. A reduzida participação dos cidadãos nas eleições europeias de 2009, sobretudo os mais jovens (29%, na faixa etária dos 18 a 24
anos), é disso exemplo. São os grandes meios, com mais recursos económicos e humanos, que têm a possibilidade de trabalhar os assuntos europeus, enquanto que os de menores dimensões, como os regionais, se veem afastados deles.
Porém, são precisamente os média regionais que estão mais próximos do dia a dia dos cidadãos e, por conseguinte, é neles que a UE deveria centrar a sua atenção (idem). Apesar de nos interessar de modo particular a imprensa regional no contexto português, não descuraremos o enquadramento europeu deste setor, a partir de alguns casos.
A Espanha – com cerca de 500 mil Km2 e 46 milhões de habitantes – é um dos países que apresenta diversas particularidades no âmbito dos média regionais.
Uma delas é a sua efetiva divisão em regiões ou, neste caso, comunidades autónomas. Catalunha, Galiza e País Basco, com línguas e culturas próprias são, provavelmente as mais conhecidas das 17 que constituem o território espanhol.
Jorge P. Sousa (2002), num estudo comparativo entre os contextos português e galego, regista que a forte identidade que caracteriza aquelas regiões leva a que a imprensa regional esteja fortemente implantada. La Vanguardia (Catalunha), El Correo (País Basco) ou La Voz de Galicia (Galiza) são alguns exemplos de jornais regionais que fazem concorrência, nesse âmbito, a outros mais de âmbito nacional, como o El País, diário com grande circulação em Espanha e que publica conteúdos na língua daquelas comunidades autónomas (catalão, euskera e galego). Há ainda uma diferenciação entre imprensa regional e imprensa local, contrariamente ao que sucede em Portugal, por exemplo. Em Espanha, os jornais locais circulam unicamente ao nível dos municípios, fugindo assim a âmbitos mais alargados, como os regional (comunidades autónomas) ou nacional. O interesse e aposta nos média locais e regionais, bem como no jornalismo de proximidade, estendem-se à investigação e à formação académicas e que se traduzem na presença de dois observatórios de comunicação local (europeu e nacional)2 neste país. Outro indicador prende-se com o facto de praticamente todas as comunidades autónomas terem a sua própria associação de imprensa.
2) O Observatório Europeu de Comunicação Local integra o grupo de investigação Novos Medios da Universidade de Santiago de Compostela e o Observatório de Comunicação Local integra o Instituto de Comunicação da Universidade Autónoma de Barcelona.
França – com cerca de 543 mil Km2 e 65,4 milhões de habitantes – é o caso mais paradigmático no contexto mediático europeu. Dividido em 26 regiões, que se subdividem em departamentos, cantões e comunas (municípios), o país tem as imprensas regional e local como referência. A principal dessas publicações é o diário regional Ouest-France, que conta com 63 redações e apresenta uma tiragem média de 750 mil exemplares. Integra um grupo económico, com o mesmo nome, que controla 44 jornais locais (Ribeiro, 2010). A existência de grupos de comunicação é muito frequente, sobretudo ao nível da imprensa regional. Já quanto à nacional, é minoritária e está sobretudo circunscrita à capital, Paris. A circulação é sobretudo dominada por 65 diários regionais (70%) que circulam no país (Sousa, 2002).
Após a reunificação, a Alemanha – com cerca de 357 mil Km2 e 81,7 milhões de habitantes – passou a dividir-se em 16 unidades federais. À semelhança do que sucede em França, a imprensa alemã, tanto regional como local, tem uma forte implantação e são maioritariamente controlada por grupos de comunicação, que detêm vários títulos. Esta realidade leva a que muitos dos conteúdos sejam partilhados pelos jornais regionais e locais detidos pela mesma entidade proprietária. A circulação é igualmente dominada por estas publicações – cerca de 300 jornais regionais e locais generalistas, dos quais 135 diários – com 17,1 dos 31,1 milhões de cópias diárias (55%) que circulam no país (idem).
A Áustria – com cerca de 83,8 mil Km2 e 8,3 milhões de habitantes – é constituida por nove estados federais, onde circulam jornais regionais. À exceção de Viena, cada um desses territórios é monopolizado por uma publicação, enquanto que no âmbito mais local – equivalente a um município em Portugal – existem várias. Sousa (2002) refere ainda que à semelhança do que ocorria noutros países europeus, publicações nacionais, como o Neue Kronenzeitung, tentaram, sem sucesso, terminar com o monopólio dos regionais.
A Bélgica – com cerca de 30 mil Km2 e 10,4 milhões de habitantes –, embora tenha um território mais pequeno que o de Portugal, apresenta sensivelmente a mesma população. Poder-se-á dizer que a grande imprensa neste país do Benelux (Bélgica, Holanda e Luxemburgo) é precisamente a regional. Tal facto fica a dever-se a uma divisão em duas regiões, feita a partir das línguas que são fluentes em cada uma delas. A norte fica a Flandres, onde se fala holandês, e a
sul fica região francófona, onde se fala francês. Há ainda um pequeno território, a leste, onde se fala alemão. Bruxelas é simultaneamente a capital do país e da União Europeia (UE) e onde circula sobretudo aquela que se pode designar de imprensa nacional. O restante território belga é dominado pela imprensa regional e, pontualmente, por alguns títulos de âmbito local (idem).
Na Holanda – com cerca de 41 mil Km2 e 16,5 milhões de habitantes – o dinamismo e profissionalismo são os cartões de visita da imprensa regional.
Há cerca de uma década, Sousa (2002) registava 50 diários regionais, 12 dos quais com tiragens acima dos 100 mil exemplares. Num país em que se fala maioritariamente holandês, mas também o frísio, a imprensa nacional está em minoria, sendo representada por oito diários (idem).
Já o Luxemburgo – com cerca de 2,5 mil Km2 e 500 mil habitantes –, é o país mais pequeno da UE e tem três línguas oficiais: o luxemburguês (língua administrativa), o alemão (dos média) e o francês (usada no dia a dia). Há ainda pequenas comunidades de emigrantes, sobretudo de Portugal e Itália, que falam a sua língua vernácula. Em virtude destas características, o panorama da imprensa neste país traduz-se em cinco diários nacionais, outros tantos semanários e um
“largo número” de outras publicações afetas a cada uma das “comunidades e grupos de interesse” (idem: 40).
Também em Itália – com cerca de 301 mil Km2 e 60,3 milhões de habitantes – a divisão administrativa, em 20 regiões, é determinante para o panorama mediático de âmbito regional e local. Outro elemento preponderante é língua.
Embora o italiano seja a oficial, há ainda algumas minorias que falam francês, esloveno e alemão. Essas pequenas comunidades, que representam cerca de meio milhão de pessoas, contam com meios de comunicação próprios (televisão, rádio e jornais), o que leva a que o cenário da imprensa regional se fragmente. A quantidade de diários regionais (85) é, também neste país, claramente superior aos nacionais (n=9). À semelhança de outros países, a imprensa nacional não tem grande expressão para além da capital, Roma, ou de outras grandes cidades (Sousa, 2002).
A Grécia – com cerca de 131 mil Km2 e 11 milhões de habitantes – está dividida em 13 períferias (nove no continente e quatro grupos de ilhas), que se subdividem em 51 departamentos. A imprensa está sobretudo concentrada
na capital, Atenas, onde estão sedeados 16 diários nacionais. Relativamente à regional e local, em minoria, é “liderada pelos três diários de Salónica, a segunda cidade do país, que nessa região dominam o mercado” (idem: 38).
A Irlanda – com cerca de 70 mil Km2 e 4,5 milhões de habitantes – também apresenta uma configuração muito semelhante à Grécia, no que toca ao panorâma da imprensa regional. Num país em que se fala inglês e irlandês, registam-se três diários na capital Dublin e algumas dezenas de jornais regionais distribuídos por outras cidades (Ribeiro, 2010).
O Reino Unido – com cerca de 244 mil Km2 e 60,9 milhões de habitantes – tem a particularidade de ser constituido por quatro estados (Inglaterra, Escócia, País de Gales e Irlanda do Norte), pelo que cada um tem a sua imprensa regional.
Neste contexto existem semelhanças a Portugal, nomeadamente ao nível da quantidade de publicações: mais de 700. Apesar das específicidades geográficas, o Reino Unido conta ainda com a imprensa nacional, distribuída nos quatro estados.
No norte da Europa, onde os níveis de desenvolvimento são elevados, encontra-se a Escandinávia. A Dinamarca – com cerca de 43 mil Km2 e 5,4 milhões de habitantes – encontra-se atualmente dividida em cinco regiões. Também neste país a imprensa nacional é sobretudo publicada na capital, Copenhaga, onde circulam 10 diários. O restante panorama mediático é constituído por 29 diários regionais, aos quais juntam cerca de 150 publicações gratuitas, sobretudo semanários, publicados aos níveis local e regional (Sousa, 2002).
A Finlândia – com cerca de 330 mil Km2 e 5,3 milhões de habitantes – tem duas línguas oficiais, o finlandês e o sueco (falado por uma minoria), e divide-se em seis províncias. A imprensa regional e local é particularmente forte. Neste contexto surgem 56 jornais regionais, que são publicados diariamente ou até quatro vezes por semana, e 158 de âmbito local, com periodicidade trissemanal e semanal (idem).
O panorama mediático da Noruega – com cerca de 385 mil Km2 e 4,7 milhões de habitantes – é fortemente marcado pelos âmbitos local e regional, onde estão sedeadas cerca de 100 televisões, 400 rádios e 170 jornais. No caso da imprensa, a regional supera claramente a nacional. Das 10 publicações com mais circulação no país, sete são regionais. Existem duas línguas, o norueguês, falado pela
generalidade da população, e o “novo norueguês”, baseado em dialetos rurais da região oeste. Este facto, associado a um território gélido e montanhoso, leva a que existam pequenas comunidades, onde predominam pequenas publicações, num “sistema de jornal da terra” (idem: 42).
Na Suécia – com cerca de 449 mil Km2 e 9,4 milhões de habitantes – a imprensa regional e local é um caso sério. A diversidade de línguas – sueco é a língua oficial e depois há mais cinco dialetos próprios de determinadas regiões – e de religiões, a que se junta o desenvolvimento económico, são indicadores que podem ajudar a justificar a existência de milhares de publicações. Jorge P.
Sousa (2002: 42) aponta para cerca de “cem mil jornais e revistas”. Apesar de ser um valor que poderá não estar correto, a realidade é que o país apresenta um elevado índice de leitura diária (87%) destes jornais (Ribeiro, 2010). Outro fator que certamente influenciará a realidade sueca é a existência de incentivos estatais que permitem a manutenção e forte concorrência aos níveis regional e até local (Sousa, 2002).