é ensurdecedora: torna-nos inconscientes do fato de que permanece na história uma reinvindicação, um discurso que não ouvimos”.
Na narrativa vencedora, os processos violentos são subsumidos ao ponto de não conseguirmos enxergar vítimas, ao ponto de não conseguirmos ouvir suas vozes. A violência está presente no campo hermenêutico da negação da vítima como vítima. Como coloca Castor (2013, p.72): “O que aconteceu não é mero passado, ele está incorporado ao presente como parte constitutiva da condição de vítima”. Ao passar como custo necessário e acidental do progresso, ou do processo civilizatório, é retirado do acontecimento a responsabilidade sob as vítimas que causou.
É preciso considerar que negação da vítima é uma segunda violência. A primeira está associada ao momento da violação. A violência de negação da experiência da vítima, é negar o que com ela aconteceu. Quando assumimos a mirada da vítima, percebemos que muitos pontos da história são absolutamente questionáveis. Sem a memória das vítimas, temos uma narrativa mutilada.
O testemunho, portanto, não se refere apenas ao um “relato asséptico de fatos objetivos” (RUIZ, 2013, p.72), ele é a presentificação por excelência da injustiça que para vítima seguiu operando seus efeitos. Neste sentido “dar testemunho” para algumas vítimas se torna condição de sobrevivência, tão essencial como dormir ou se alimentar (SELLIGMAN, 2008, p. 65). Deixar rastro da violação que lhe atravessou, significa descortinar o absurdo da injustiça para o mundo.
Primo Levi, no prefácio de sua obra “É isto um homem?”, partilha esta necessidade da vítima de contar o que lhe acontece, afirmando que a necessidade de contar, tanto antes quanto após a libertação, passou a competir com outras necessidades elementares (1998, p. 7). Neste ponto Selligman (2008), chama nossa atenção para o fato de que esta fala de Levi imprime uma dialogicidade implícita; “o testemunho, como uma atividade elementar” (SELLIGMAN 2008, p.66), torna possível a “sobrevida daquele que retorna de uma situação radical de violência”.
Esta sobrevida depende do ato de narrar para existir.
Outro ponto que Sellignam reflete como integrante à necessidade de narrar, está na desagregação social do trauma, que descola a vítima da vivência com seus
“demais companheiros de humanidade” (p. 66). Como se houvesse uma barreira entre aquele que sobreviveu ao ato de violência extrema e o mundo ao seu redor.
Levi narra um sonho comum entre os prisioneiros do campo de concentração, que trazia um aspecto obsessivo no seu entorno.
No sonho, os sobreviventes do campo se viam livres e retornando aos seus lares, se viam contando o que aconteceu dentro do campo. No entanto, seus ouvintes ignoravam tudo o que lhes estava sendo contado. Na experiência de Levi com este sonho (pesadelo), as pessoas saiam do recinto. Ele ficava sozinho com aquelas palavras. Este sonho é revelador da sensação de solidão da experiência, denotando o sentimento de separação do sobrevivente dos outros.
A partir daí, Selligman (2008) nos faz compreender que a narrativa teria, portanto, “este desafio de estabelecer uma ponte com ‘os outros’, de conseguir resgatar o sobrevivente do sítio da outridade”. Feita a ponte, isto é, narrar sua experiência e tornar o ‘outro’ parte por meio da escuta, possibilitaria ao sobrevivente começar a se religar ao mundo, ou em outras palavras, renascer.
3 CONCEPÇÃO ANAMNÉTICA: UMA JUSTIÇA PARA AS VÍTIMAS.
A justiça da vítima não esgota, evidentemente, todas as possibilidades deste continente chamado justiça, porém, supõe-se um enfoque singular que deveria atingir o rumo de todo o conjunto do continente.
Reyes Mate
Nos capítulos anteriores, foram colocados o problema de uma teoria do direito que ignora o rosto do sujeito da injustiça e, o breve contexto que propiciou o estabelecimento de um conjunto de conceitos que colaboram com a legitimidade dos processos de esquecimento e impedem a efetividade da justiça às vítimas.
Neste capítulo, portanto, abordo um conceito de justiça que inclui o sujeito que sofre historicamente com a opressão, em todos os seus pontos. Trata-se de uma compreensão que propõe edificar o sentido do justo deslocando-o dos procedimentos — tradicionalmente, considerados o núcleo do justo — para alteridade ferida (em uma concepção ética, embasada na teoria de Levinas); um conceito que requer uma reflexão epistêmica sobre o próprio conceito de justiça.
Neste capítulo, falaremos da justiça das vítimas, por meio de um diálogo entre os textos de Reyes Mate, Castor Ruiz e Zamora.
Os três autores usam o vocábulo vítima, quando fazem referência a este sujeito que sofre com as violações de uma ordem injustiça por excelência. Por isso, neste capítulo manterei a terminologia usada por eles. Contudo, compreendo que o sujeito da injustiça social definido no capítulo anterior é a própria vítima, mencionada nos trabalhos dos autores que falo a seguir.
Assim sendo, não há prejuízo, em ora fazer referência ao sujeito da injustiça, ora a este sujeito como vítima. Embora a palavra vítima suscite em muitos contextos, equivocamente, aqui, o intuito será o de reforçar a violação intrinsecamente a ela relacionada. Ou seja: há vítima porque houve uma violação que submeteu o sujeito a esta condição. A designação vítima aqui não retira o caráter de luta, de agência, dos sujeitos violados. Não atribui condição de passividade. Insere a noção necessária de que este sujeito foi atravessado por um outro que o violou.
Vale colocar, também, que objetivo deste capítulo não é demonizar a concepção procedimental de justiça, mas inserir considerações sobre seu desgaste
e as implicações graves que a perspectiva epistêmica a ela associada, acaba por encerrar na prática do direito. Há consenso entre os autores, que a justiça procedimental e as vítimas não deveriam ser consideradas contraditórias. O problema ressaltado, contudo, está em como na prática, a justiça instrumentalizada em procedimentos formais oblitera seu destinatário, priorizando a lei como referência principal ao invés do sujeito que sofreu a injustiça. Esta inversão ocasiona um processo de invisibilidade daquele que carece de socorro, fazendo do direito uma ferramenta de reforço da violência à serviço da restauração da ordem jurídica violada.
Esta virada de sentido requer mudanças epistemológicas, assumindo as vítimas como sujeitos concretos, que não podem passar como invisíveis. Estes autores colocam que o núcleo do justo é atravessado por concepções abstratas de categorias conceituais como liberdade, igualdade, segurança, que limitam e conformam o tipo de bem a ser protegido e defendido. No caso da justiça procedimental, a própria ordem jurídica. Deste modo, pensar o conceito de justiça adequado à vítima implica o afastamento epistêmico da justiça procedimental.
Dar centralidade à vítima requer dar voz ao sofrimento por ela experimentado.
Assim, quem melhor do que o próprio sujeito violado para fazer falar seu sofrimento e torná-lo conhecido? Uma concepção anamnética de justiça em primeiro lugar, veremos, considera que a narrativa introduzida pelo sujeito violado se faz mediante o uso da memória, e questiona a noção de linearidade do tempo, uma vez que torna evidente que o passado das vítimas nunca passou, ele se estende pelo presente em reminiscências que impactam suas vidas.
O sujeito da injustiça possui uma visão do passado distinta das narrativas hegemônicas tecidas. Partir delas requer uma postura sempre questionadora a respeito do consenso estabelecido em torno de uma história oficial, fazendo com que enderecemos sempre a seguinte pergunta: como os vencidos desta disputa narrariam o mesmo acontecimento?
Tal pergunta nos orienta à uma posição crítica às verdades sedimentadas na lógica linear de que o presente é sempre melhor que o passado, de que o futuro implica em evolução; de que o progresso traz dias melhores e em nome dele, justifica-se a produção de vítimas. O passado das vítimas reverbera de maneira traumática.
Neste capítulo procuro mostrar como a concepção anamnética de justiça, que como Castor Ruiz coloca, “ainda está em construção”83, nos convida a um pensar novo sobre uma maneira de conferir ao sujeito violado o protagonismo na relação com a justiça como forma de restabelecer sua dignidade, a partir de respostas à alteridade ferida.