• Nenhum resultado encontrado

Quando se fala de memória e vítima, outra questão comum que deve ser sempre esclarecida diz respeito a preocupação na instrumentalização da memória para o revanchismo. Isso ocorre porque a memória, tal qual outros atributos humanos, traz consigo paradoxos. É importante frisar que a memória carrega uma potência tão forte, que embora existam algumas dificuldades (como mostro adiante), estes paradoxos não inviabilizam seu uso como ferramenta para justiça a partir das vítimas.

É importante salientar que não são todas as memórias que portam a capacidade de fazer justiça. A memória possui a capacidade de estabelecer um sentido para os acontecimentos, pois possui um atributo hermenêutico.

Diante desta funcionalidade possível da memória, esta torna-se alvo de cobiça, pois aquele com poder de escolher qual memória se fixará no discurso, poderá exercer o controle de seu significado, podendo determinar, também o que será esquecido. É neste ponto que compreendemos as disputas em torno da memória e sua potência hermenêutica. Ao mesmo tempo, observa-se que ao estar

suscetível a usos diversos, a memória está em um campo de disputas permanentes.

Pode ser utilizada, por exemplo, para legitimar os vencedores, pois tanto estes como os vitimários constroem uma memória do passado.

Sabe-se que os discursos decorrentes da memória histórica são compostos por narrativas hegemônicas instituída pelos vencedores, que fazem uso da memória para estabelecerem uma legitimidade a respeito de suas ações. O processo de esquecimento deriva deste momento, pois é quando fica definido o que se deve esquecer. Nesta mesma linha de argumentação, Castor (RUIZ, 2012, p.68) afirma que “os fatos históricos aparecem como elementos brutos (para as vítimas como fatos brutais) a serem interpretados pela memória”

Não entra nos discursos os acontecimentos pelo qual alguns indivíduos tornaram-se vítima. Não é levada em consideração a violência a eles destinada.

Salva-se apenas a perspectiva que dá notoriedade a vitória, o feito que consagra o vencedor como tal. É neste sentido que se afirma que não todas as memórias que se orientam para realização da justiça às vítimas.

Em outras palavras “a mera invocação da memória não garante justiça porque nem toda memória é justa” (RUIZ, 2012, p.68). Em que pese a camada de complexidade que constitui a memória quanto a este aspecto de disputa, não podemos esquecer que sua potência hermenêutica é muito importante para as vítimas, tendo em vista sua capacidade de produzir uma fratura na superfície linear das narrativas postas tradicionalmente. A inserção das memórias das vítimas (ou seja, a versão fiel ao acontecimento vivenciado) é o método por meio do qual se torna possível pensar em uma justiça para os sujeitos da injustiça.

3.6.1 Funções da memória: lembrança e recordação

A memória apresenta funções, sendo a principal delas a lembrança, que significa resgatar para o presente aquilo que ocorreu. O transporte para o presente desta lembrança de um evento, é chamada mnmese. Trata-se da ativação da memória de modo espontâneo com o propósito de lembrar. É importante colocar que estas lembranças, isoladamente, não formam memórias, uma vez que carecem de um aspecto importante para a memória: a intenção de encontrar um sentido.

O que pertence ao domínio da memória são as recordações. Elas, sim, constituem memória no sentido que a partir delas, enxerga-se um aspecto

hermenêutico, necessário a memória. O deslocamento até o passado objetivo, ou seja, até o acontecimento concreto que se deu, transportando para o presente uma interpretação sobre este evento. Assim, as recordações se diferenciam das lembranças por sua capacidade de elaborar sentido a respeito dos fatos acessados do passado.

Castor (RUIZ, 2012, p. 68) ensina que “a memória que se volta sobre o passado de forma intencional para interrogá-lo é chamada pelos clássicos de memória anamnética”. Esta compreensão está presente desde Aristóteles na antiguidade. Por anamnese se compreende a capacidade do indivíduo de conferir um sentido ao acontecimento por meio da rememoração do feito. Para as vítimas é a partir desta potência que ela reconstitui os fatos e sua objetividade, mas em especial, recupera os sentidos a eles pertencentes.

3.6.2 Memória Mnemotécnica versus Memória Anamnética

Há um conflito importante que vale a pena ser mencionado. Está na diferença entre a memória mnemotécnica e da memória anamnética. A primeira é pertencente ao domínio positivista na medida em que acredita ser viável a memorização de fatos, isoladamente, da presença de intenção. Esta perspectiva toma por critério importante a objetividade dos fatos. A segunda pertence ao domínio hermenêutico, ou seja, do campo da elaboração de sentidos, da interpretação dos indivíduos sobre os acontecimentos passados. Para esta perspectiva a realidade existe a partir da linguagem, portanto, a memória não tem como ser estéril de sentido, como acredita- se em relação a mnemotécnica.

É muito importante enfatizar aqui que quando falamos de interpretação, não significa, em nenhuma hipótese, que “a memória deva deturpar a interpretação do acontecimento em favor de uma das partes (no caso as vítimas)”. Os sentidos dos acontecimentos para as vítimas possuem, sem dúvidas, um caráter diferente do sentido atribuído por quem praticou a violação ou por observadores imparciais.

Em virtude de haver uma abertura de sentidos sobre o acontecimento, a memória se faz importante pelo que há de escondido dentro dele, sendo sua primeira obrigação a de não permitir que haja negação do que se passou. Portanto a memória cumpre o papel de recuperar o acontecimento do esquecimento,

resgatando aquilo que realmente aconteceu. O compromisso da memória vincula-se a memória anamnética, ou seja, aquela onde o sentido é recuperado e interpretado.

É importante colocar que assim como a memória tem a potência de neutralizar a barbárie, dada sua componente hermenêutica, ela pode também pode

“desencadear barbáries e incentivar ressentimentos latentes no inconsciente individual ou coletivo”, pelo fato não ser neutra. Alguns exemplos mencionados por Castor Ruiz (2012, p. 70) faz referência a guerra do Balcãs, ocasião em “sérvios e islâmicos se enfrentaram num conflito violento, invocando a memória das barbáries ocorrida séculos antes88”. (RUIZ, 2012, p. 70). Todorov (2000) nos alerta sobre os abusos que podem decorrer da instrumentalização da memória.

Por este motivo alguns campos do conhecimento imputam certa desconfiança à memória, mas ao analisar objetivamente as circunstâncias em que a memória é mobilizada como ferramenta de violência, é possível perceber que estão sempre vinculadas à interesses de ordem econômica ou política com propósito de incitar a violência a partir da manipulação da memória como ressentimento.

Importante reforçar, que estes usos negativos da memória não invalidam sua importância para compor uma memória das vítimas. Pelo contrário, afirma mais uma vez nossa responsabilidade sobre uso da memória para realização de justiça às vítimas, considerando o seu sofrimento como a materialidade da violência que a marcou. No sentido de evidenciar este ponto, Castor afirma que o “sofrimento das vítimas faz da memória um critério ético. A justiça tem como objetivo primeiro reparar, no possível, o sofrimento da vítima. Sem essa pretensão a justiça servirá a outros objetivos, mas não será uma justiça para a vítima (RUIZ, 2012, p.71)

Falamos que a justiça a partir das vítimas depende da interpretação da memória, a partir da recordação, estando vinculada ao tipo memória anamnética.

Contudo, pela memória mnemotécnica é possível a comprovação dos fatos. É sempre importante lembrar que aquele que causou a violência, também, tem acesso a memória, mas em geral reconstitui os acontecimentos para que estes sirvam aos seus interesses. A memória que integra a visão das vítimas, portanto, é a componente de maior impacto da justiça anamnética. Seu propósito de reconstruir o sentido do acontecimento sempre leva em conta o sofrimento do sujeito da injustiça.

88 Castor (2012, p.70), cita também o conflito em Ruanda, quando os hutus instrumentalizaram a memória para incentivar a barbárie dos hutus contra tutsi.

3.6.3 Não é qualquer memória que faz justiça

... qual seja a memória histórica dos bandeirantes e da escravidão indígena, sabemos que a enaltecida foi a dos bandeirantes como heróis da pátria, desbravadores de novos caminhos, homens corajosos que adentram as selvagens matas.

Seus nomes estão na história oficial. Mas e os indígenas escravizados e mortos pelos bandeirantes?

Castor Ruiz

No texto em epígrafe, Castor Ruiz reflete sobre a memória hegemônica, construída pelos vencedores. Se por um lado estes possuem vantagens sobre o modo de contar a história, podemos dizer que de outro os oprimidos (como na linguagem benjaminiana) possuem uma interpretação privilegiada a respeito do acontecimento da injustiça. O dever da memória está em “escovar a história a contrapelo”, como já mencionado em outras partes da tese, de modo que a intepretação do acontecimento objetivo da violência, firma-se como principal dever da memória. É neste sentido que falamos que a interpretação do acontecido tem referência na posição histórica dos sujeitos. Os vencedores, quanto a narrativa hegemônica; os vencidos, com a memória da injustiça.

A justiça que se pretenda justa há de invocar a memória das injustiças imputadas às vítimas. A justiça que se pretenda justa invoca a responsabilidade histórica quanto à violência sofrida pela vítima. E por revelar o acontecimento da violação nos impele a tomar posição em favor de uma das partes. A memória da injustiça é avessa à neutralidade. Trata-se de uma justiça profundamente conectada com a restauração da alteridade ferida da vítima.

No entanto esta conexão não enseja nem ressentimento nem vingança.

Nenhum dos dois possui o condão de restaurar à vítima de seu sofrimento, embora, como Castor (2012, p.71) possam atender a subjetividades ressentidas, não são capazes de fazer justiça, pelo contrário, apenas reproduzem a violação (que mais se vincula às consequências de ser esquecido, de ser ignorado). A justiça anamética, arroga para si duas responsabilidades: a primeira é de impedir que a memória se desdobre em vingança e a segunda, guarda um compromisso profundo com retirar a vítima desta condição, restaurando sua alteridade violada.