Na centralidade das vítimas se inspira um novo conceito de justiça que se interpela pelos direitos negados no passado, pela vigência do dano que elas sofreram, pelos vínculos entra a injustiça presente e passada. Fazer justiça não consiste apenas em castigar o culpado, mas também em adotar a perspectiva das vítimas.
Zamora
Em vista da reflexão a respeito do sujeito da injustiça e sua vivência concreta com a experiência da violação, o que fazemos? Assumir a centralidade das vítimas, requer não aceitar processos invisibilizantes, isso conduz a uma alteração epistemológica importante de destacar.
Em vista do desconforto trazido pelo rosto do sujeito da injustiça social, a obliteração do sujeito tem sido uma das práticas políticas utilizadas pelo procedimentalismo para superar este incômodo. As formas de invisibilidade das vítimas se alteram de tempos em tempos. Mesmo que com novas roupagens, se reproduzem no tempo a partir de dispositivos de burocráticos de poder, de procedimentos da justiça formal, da administração política. São diversas as maneiras.
A produção de vítimas tem sido naturalizada e colocada sob uma ótica sacrificialista.84 (MATE, 2011, p.11) Como em Hegel, por exemplo, cuja célebre expressão nos orienta a compreensão de que “as vítimas são como florzinhas que necessariamente são pisoteadas pelo avanço inexorável da história” (MATE, 2011, p.11). Esta é uma frase legitimadora do custo humano em prol do progresso, tornando evidente que o bem a ser protegido não tem a ver com vidas, mas aquilo que está associado ao progresso, ao desenvolvimento. O perigo das lógicas instrumentais modernas e seus critérios controversos, são até hoje considerados adequados em muitos campos de estudo.
A pergunta que precisa ganhar espaço nas discussões sobre justiça, é de “até quando justificativas sacrificialistas continuarão prevalecendo, quando encaramos o absurdo da produção de vítimas como custo necessário?”. Trata-se de uma estrutura que dificulta perguntas, pois se colocamos a voz da vítima como maneira de denunciar o absurdo, a racionalidade moderna trata de desqualificar esta voz, imputando a ela o rótulo da subjetividade, da abstração, e dos sentimentos como fatores que viciariam a objetividade, em que pese a barbárie produzida embasada neste valor. Castor (RUIZ, 2012, p.62) afirma que “categorias modernas como
84 Reyes Mate (2011, p. 11), coloca: “(…) ahí está el gran Hegel de la Filosofia de la Historia, preguntándose porqué el ser humano tiene que construir la historia conviertiéndola em um matadero.
La respuesta que da es el mejor ejemplo de la invisibilización hermenêutica. Dice, em efecto, que la humanidade para avanzar tiene que pisotear algunas florecillas al borde del caminho. Al hacer de las victimas el inevitable precio del progresso, el filosofo perpetra el crimen hermenêutico gracias al cual exculpa a la historia y garantiza la continuidade de esa perversa logica histórica”
progresso, evolução, avanço, crescimento, são símbolos (mitos) que escondem sob uma pele de sucesso a perversidade do sofrimento das vítimas que o possibilitam”.
(...) desde a origem dos estados modernos criaram-se justificativas sobre a inevitabilidade da vítima. O genocídio da conquista, os séculos de escravidão negra, a lógica colonial, a racionalidade do mercado, a ideologia da segurança nacional, a bomba atômica de Hiroshima, todas essas se fundamentaram como estratégias necessárias ao progresso das nações ou preservação dos valores da ordem.” (RUIZ, 2012, p. 63)
O problema não tem a ver com a objetividade em si, pois o sofrimento e alteridade da vítima são bem concretos comparadas a certas categorias modernas, e sim, a tentativa a todo tempo de hierarquizar a experiência da vítima como conteúdo de menor valor, ou então, ignorar o sofrimento proveniente da experiência de violação, por meio de explicações de caráter generalizante e abstrato: afinal quando se fala em progresso, em desenvolvimento como alvos a serem alcançados, como isso se justifica no concreto da vida?
O deslocamento epistêmico, portanto, quando pensamos o sujeito da injustiça social, tem a ver com enfrentar as categorias modernas, precipitando suas contradições, e refletir em que medida deve se dar sua aplicabilidade, em campos como o direito por exemplo. Significa, também, pensar o que tem sido feito e como tem sido feito.
Afirmar que a justiça procedimental moderna contribui e se compromete com a legitimação desta tendência hegemônica de invisibilidade, visa retirar a vítima do local que a ela tem sido historicamente atribuído, isto é, de efeito colateral inevitável e necessário, passando a ocupar um espaço de referência para a justiça, onde os procedimentos possam servir a este novo referencial.
Dar centralidade ao sujeito da injustiça social, requer uma alteração de uma perspectiva hermenêutica, pois a vítima costuma ocupar um lugar epistemológico periférico. A dimensão do conhecimento que por ela poderia ser introduzido nas narrativas oficiais, em geral, são bem secundários (quando não ocupam lugar algum, já que em alguns casos há completa invisibilidade de sua versão).
A história observada desde a perspectiva das vítimas, nos confronta com a conclusão imediata de que nossa hermenêutica é composta pela história dos vencedores. É aqui que, alegoricamente, o anjo da história de Walter Benjamin se faz tão atual: seu rosto, que se volta para passado e ele enxerga a catástrofe do sofrimento de milhões de vítimas, enquanto vemos uma simples cadeia de
acontecimentos naturais do progresso, o anjo da história se escandaliza por ter o conhecimento do que ficou para trás amontoado em ruínas.
O tipo de racionalidade em que estamos imersos nos possibilita avançar sem culpa sobre o que ficou no passado, pois a crença é de que o futuro (inserido na ideia de progresso) será sempre melhor. A lógica dos vencedores, vale dizer, é a lógica presente na ideia de progresso. A partir dela as vítimas são “degraus necessários para evolução social da história”, como aponta Castor.
Walter Benjamin alertou para a realidade de que “não há um documento de cultura que não seja de barbárie”. O que ele quis dizer com isso se traduz nas versões hegemônicas, construída a partir da perspectiva dos vencedores e, assim, legitimadas. Em razão de a versão dos vencedores ensejar um caráter violento, quando observamos criticamente as representações culturais dessa narrativa triunfante, constatamos que ao mesmo tempo elas mantém vestígios dos escombros, das perdas, das mortes, em cima dos quais foram construídas.
O deslocamento epistemológico comentado acima recupera o significado da vítima, que deixa de ser considerada como resto de uma estratégia vitoriosa.
Recupera-se, também, o “ponto crítico da justiça que coloca em crise a ação política” (RUIZ, 2012, p.63) A violência naturalizada passa por um processo de questionamento a partir da revelação do rosto do sujeito da injustiça social.
Diante deste sujeito concreto torna-se insustentável qualquer justificação sobre a violência a ele perpetrada, pois como afirma Castor Ruiz (RUIZ, 2012, p.63):
“A alteridade ferida da vítima, como critério julgador da justiça, impede justificar qualquer tipo de naturalização da violência. A visibilidade da vítima destrói qualquer tentativa de naturalização.”