brutalidades, exige juízos e novas inscrições, afirma negatividade”43. E, ao assim, fazê-lo, permite a solução com justiça. O espaço, que dá a dimensão de lugar, parte da identificação da relação entre passado e futuro, de relação entre sujeitos. A contribuição de Arendt nesse ponto é fundamental, à medida que a espacialidade é onde o sujeito vive em todas as dimensões, em sua condição humana.
injustiça”47. As pistas para as respostas podem se desenrolar, na epistemologia da injustiça, a partir do “empoderamento político dos sujeitos de injustiça social”48 em oposição a meros “diagnósticos biopolíticos das vítimas de eventos de massacres geopolíticos, de grave violações de direitos humanos de conjunturas governamentais ou sistemas econômicos49”. Se o diagnóstico é feito em terceira pessoa, ele não contém a própria reflexão do sujeito que é vítima.
A reflexão de Assy sobre a justiça, a injustiça e as formas de reparação é contundente quanto à necessidade de, sem renunciar ao direito, valorizar-se a sua permeabilidade teórico-praxiológica pelo outro e seu rosto-relato:
A narrativa mantém presente em ato um compromisso contínuo de possíveis novas expectativa de significação de passado e futuro, de história e prospectividade. Assim, pronunciar, dar testemunho, endossa uma espécie de dimensão auto constituinte de narrativa política de subjetivação50.
Ouvir, na reflexão do direito sobre si mesmo é, em cada respectivo nível de abstração, um exercício de não repetição da violência, de compromisso ético com o respeito ao estatuto humano do outro.
47 ASSY, Bethania (2016) Posição 4325 (Edição do Kindle).
48 Idem. Posição 4342 (Edição do Kindle).
49 Idem na posição 4343, da Edição do Kindle.
50 Idem na posição 4458, da Edição do Kindle.
2 TESTEMUNHO: QUANDO A MEMÓRIA DA INJUSTIÇA SE TORNA VISÍVEL
Neste capítulo, busca-se refletir a respeito da naturalidade com que se passou a enxergar as vítimas do progresso moderno como custo humano necessário, questão que faz parte de uma racionalidade forjada no decorrer de um longo processo histórico, cujos estados e sua força, têm se estabelecido sob o aniquilamento de diversos indivíduos51.
2.1 “Foi aqui!” — do processo de apagamento ao resgate da narrativa da violação
Ao adentrar o campo teórico do testemunho, o “foi aqui!” denunciativo da vítima por excelência, percebe-se necessário, antes, percorrer as condições que levaram ao seu embotamento.
A era catastrófica introduz a noção de perplexidade diante da barbárie e movimenta teorias que buscam explicar os componentes desses acontecimentos desastrosos. Como Eric Hobsbawm (1998, p. 265) descreve, o século XX aparece como o mais sanguinário da história. Jordi Maiso (2016, p. 51) acrescenta que foi um século marcado pela barbárie, que compreende desde o genocídio armênio ao massacre de Srebrenica e Ruanda, tendo como epicentro a quebra civilizatória de Auschwitz.
É possível observar que as incontáveis vítimas, atingidas pelos modernos processos massivos de violência, mudam conforme o tempo, o lugar e o período.
Porém, guardam a similaridade de estarem do lado de fora dos interesses dos estados, o que os tornam indesejáveis, descartáveis e invisíveis. Orbitam em uma zona de fragilidade de direitos, vulneráveis a um tratamento desrespeitoso, sem que haja, na maior parte das vezes, qualquer proteção, podendo, em situações extremas, ser alvos de tratamentos degradantes.
O fenômeno dos campos de concentração, próprios dessa dinâmica de invisibilidade, esquecimento e extermínio, a partir das denúncias daqueles que
“sobreviveram para contar” somada aos estudos de pensadores como Adorno, H.
51Nas palavras de Jordi Maiso (2016, p. 9): “milhões de seres humanos aniquilados e sacrificados, supostamente a serviço de objetivos políticos, defensivos ou humanitários, marcados pelos Estados que deveriam defendê-los”.
Arendt., Walter Benjamin etc., abriram brechas a uma percepção de que guardavam vínculos com os processos sociais, políticos e culturais que configuram as sociedades onde esses acontecimentos foram possíveis. Aqui, serão apresentados alguns dos esforços teóricos que buscaram os contornos de acontecimentos violentos plasmados na história.
O segundo ponto a ser articulado vincula-se ao espaço narrativo inaugurado pelos sobreviventes do holocausto, como paradigma para que vítimas de outras catástrofes sociais pudessem transportar seus testemunhos para a cena pública.
Diante dessa realidade, discute-se, nesta pesquisa, sobre a tendência à dessensibilização em relação ao sofrimento produzido às vítimas de catástrofes sociais e acerca da relevância política de uma narrativa que inclua as versões dos que foram atravessados pela violação de seus direitos (mesmo quando em uma zona de anomia, quando esses sujeitos parecem não ter direitos), por meio de seu testemunho. Será apresentado o panorama teórico que discute o testemunho como ferramenta de viabilizar o aparecimento das vítimas no espaço público.
Interessa, também, abordar, neste capítulo, que, após a superação de uma catástrofe, há um gesto de esquecimento das violações realizadas pelos governos.
Reflete-se como esse esquecimento é estratégico, uma vez que os relatos dos afetados pela violência do Estado, ao evidenciarem as injustiças sofridas, ensejariam a busca por justiça material, dentro de uma concepção de justiça que, como defende Reyes Mate e Castor Ruiz (2011), nasce de dentro das injustiças, uma justiça anamnética (conceito que abordo com mais atenção no capítulo seguinte).
Esse postulado de justiça se alicerça no conceito de alteridade, compreendida dentro dos estudos destes autores, e traria no seu interior a noção proveniente do campo da ética, de uma responsabilidade pelo ‘outro’ (das vítimas históricas inscritas no anverso da história), em consonância como o capítulo anterior.
Enquadra-se em um referencial teórico, que dialoga com o papel da memória em relação à justiça, e de uma história que inclua a versão daqueles que teriam suas vozes sufocadas, no processo de apagamento de suas versões.