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sexualidade e as inquietações de nossos tempos. O vaivém entre vidas passadas e presentes nos lembra uma canção de Liniker:

Eu perdi o medo da chuva Prá poder reencontrar A metade dessa vida Que não me deixaram usar.

(CAMPOS, 2021)

O movimento de “reencontrar a metade dessa vida” se relaciona ao processo de subjetivação que o indivíduo vivencia em si mesmo a partir da sexualidade. Situado em um tempo e influenciado pelo meio social em que vive, às vezes, o indivíduo, como um espelho, reflete os traços presentes em seu entorno, no exterior, mas, em outros momentos, resiste e se reinventa.

A análise foi composta pelo encontro com as experiências relatadas pelos participantes, ideias que tiveram em seus períodos de estudo e daquilo que perceberam em suas relações familiares, além de suas avaliações acerca das concepções presentes na comunidade em que vivem e sobre a escola que frequentaram.

Dividimos esta seção em quatro subseções, abordando os temas que foram surgindo no decorrer da entrevista e que auxiliaram na busca de resposta ao objetivo da pesquisa. Na primeira, tratamos sobre a naturalização da sexualidade. Na segunda, trazemos um entrecruzamento da discussão a partir das questões relacionadas aos gêneros. Em seguida, versamos sobre a homossexualidade, assunto extremamente vivo, que apareceu em todas as entrevistas, sugerido pelos próprios participantes. Por fim, refletimos sobre a educação sexual ministrada pela escola em alguns períodos e sobre as dificuldades de diálogo acerca dessa temática na esfera familiar. Como potencial educativo, destacamos a relação que os entrevistados tiveram com seus irmãos, colegas de escola, amigos e amigas, especialmente sobre aspectos relacionados à sexualidade.

Novamente: o que é sexualidade? De fato, trata-se de um questionamento desafiador e que se torna uma incógnita diante dos vários caminhos que podem ser percorridos para encontrarmos, primeiramente, um sentido à questão e, enfim, arriscarmo-nos a respondê-la. O entrevistado dá pistas ao afirmar que a resposta depende do que se quer saber com a pergunta:

O que é sexualidade? Prá mim, é homem e mulher, sexo masculino e feminino. Agora, dependendo da forma que você me pergunta sobre “o que você acha da sexualidade entre as pessoas?” “Como as pessoas se relacionam?” “A sexualidade é sobre a relação do homem e mulher?”, tudo bem. Prá mim, sexualidade é a diferença entre homem e mulher. Mas, geralmente, na sociedade hoje, o termo sexualidade é muito ligado com a relação de mulher com mulher, homem com homem. Mas, prá mim, é algo normal (M.B., egresso 2001-2010).

O que é sexualidade? É a diferença? É a relação? É desejo? É identidade? É normal?

É natural? Conforme observamos, não somente neste excerto da entrevista de M.B., é comum entre os entrevistados a ideia de uma naturalização da sexualidade, como algo inerente ao ser humano, que o impulsiona, principalmente, ao encontro com seu parceiro ou sua parceira. Sempre movido por essa força desejante, que o direciona em determinadas escolhas e, de certa forma, define quem é esse sujeito de desejo:

homem, mulher, masculino, feminino, homossexual?

Analisar a naturalização da sexualidade nos remete às diferentes estratégias do biopoder, seus discursos, que, ao longo dos séculos XVIII e XIX, buscaram cristalizar uma noção essencialista e universal, constituindo os seres humanos como sujeitos biológicos, conforme apresentado em nosso referencial teórico, a partir das pesquisas de Foucault (1990, 2004, 2009, 2019a, 2019b). Weeks (2019) compreende que, ao longo da história, emergiram variadas significações abordando a discussão relacionada à sexualidade: “sexo biológico”, para distinção homem e mulher, ou “sexo”

como a relação entre os casais. Em entendimento posterior, conforme o autor, sexualidade surge como termo que engloba essas duas significações.

O que a naturalização da sexualidade pretendia nos discursos médicos e psiquiátricos do século XIX era marcar no ser humano seus aspectos mensuráveis, como exigiam os parâmetros científicos. Já que o sujeito, a partir disso, passaria a ser determinado por um aspecto biológico, seu corpo é conhecido, estudado, possui um “sexo”, que o define como homem ou mulher. Dessa forma, um biopoder se insere na gestão da vida: entendendo o ser humano como corpo-espécie, regula os corpos e busca

regulações da população. Criam-se discursos baseados em um saber que produz a

“verdade”, para determinar uma sexualidade “verdadeira”, estável.

Por outro lado, os discursos utilizados para a naturalização da sexualidade também abriram caminho para que os homossexuais reivindicassem a legitimidade da homossexualidade, já que o ser humano é naturalmente sexuado (FOUCAULT, 2019a). Ou seja, trata-se de um embasamento e uma apropriação do próprio argumento de “natureza”, de caráter biológico, para se compreender a homossexualidade não como contrária à natureza, mas, também, como seu ou sua participante.

Analisando outras entrevistas, tanto o discurso biológico ligado à ciência, à medicina, quanto o discurso religioso estão presentes na concepção apresentada pelos entrevistados, complementando-se e, de certa forma, sendo utilizados para justificar a existência da sexualidade:

Sexualidade... Por exemplo, eu penso igual entre marido e mulher, o rapaz e uma moça... Estão se conhecendo e acho que, dentro do conhecimento, principalmente, dentro da sexualidade, tem desejo e como veio lá antepassado, dentro da Bíblia. Se a gente olhar direitinho, dentro da Bíblia já teve sexo, isso tudo... Então, é uma coisa que é milenar, já veio desde lá de trás, né? Acho que sexualidade é uma coisa importante dentro do ser humano [...] (L.C., egresso 1980-1990).

É baseado em dosagens hormonais, estímulos, o próprio nascer masculino e feminino na ideia mesmo criacionista (M.L. 1980-1990).

Eu acho que é o que existe entre homem e mulher, né? Relação, respeito, tudo, né? (C.F., egressa 2001-2010).

Dos três discursos, os dois primeiros trazem a questão religiosa para expressar a própria criação do ser humano como sujeito de desejo, influenciado por estímulos que lhe seriam naturais. E, interessante notar que, no primeiro relato, a Bíblia é trazida como justificativa para a existência da sexualidade, principalmente para demonstrar o impulso que liga um casal. No segundo, a entrevistada utiliza “dosagens hormonais”, termos da medicina, para se referir à sexualidade, destacando que o ser humano nasce biologicamente “masculino ou feminino”, complementando sua ideia com base em sua fé religiosa criacionista, isto é, que o ser humano, com seus aspectos biológicos, é criado por um ser superior (Deus). Já no terceiro discurso é reafirmada a relação entre homem e mulher, complementando com outros elementos, como o respeito, que fariam parte dessa relação e devem, portanto, estar presenta na vida do

casal. Em todos os casos, porém, emerge uma forma de naturalização da sexualidade.

Convém destacar que os ensinamentos religiosos do cristianismo são predominantes entre os entrevistados, sendo que a catequese, as escolas sabáticas e dominicais de ensino doutrinário, são basicamente a primeira formação dessas pessoas. Essa formação religiosa ocorreu no âmbito de sua família e de suas comunidades, que são, em geral, católicas, luteranas e adventistas. Por isso, mesmo criando essa possibilidade do diálogo de forma abrangente da sexualidade, recordam-se do discurso religioso no que se refere ao criacionismo, à relação entre homem e mulher, aos costumes de cada religião.

No decorrer das entrevistas, os termos “tradicionais”, “mente mais fechada”, “rígidos”, aparecem com frequência para ilustrar a forma como os entrevistados percebem os ideais sobre sexualidade presentes no contexto rural. Trata-se de algo que não é facilmente mudado, mesmo com um grande esforço para que seja “aceito”. Porém, percebemos um deslocamento na compreensão sobre sexualidade na entrevista dos dois egressos do último período analisado (2011-2021), apresentados a seguir, possibilitando certo desprendimento em relação aos dois discursos predominantes: o religioso e biológico/científico.

Sexualidade é um tema relativo. Relativo porque não tem um conceito definido, não tem “é isso”, “é aquilo”. Sexualidade está como... É um tema relativo, não tem definição. É como... Vamos supor, como o corpo humano sente a sexualidade, como a mente sente a sexualidade. As duas coisas podem estar ligadas, as duas coisas não podem [talvez, querendo dizer

“podem não”] estar ligadas (H.T., egresso 2011-2021).

Eu acho que é a pessoa transparecer o que realmente é, como pessoa em si, sem se preocupar com a opinião dos outros. No meu pensar. Sem medo sem julgamento dos outros. Ser o que ela realmente é (L.M., egressa 2011- 2021).

Diferentemente dos entrevistados anteriores, esses dois participantes não supõem a sexualidade como algo biológico, naturalizada e comum a todo indivíduo. Pelo contrário, sugerem um sentido individual, relativo, que extrapola a tentativa de criar um conceito supostamente universal, que determinaria um sujeito único. Isso possibilita a aproximação com a noção de uma sexualidade construída socialmente, com rituais, linguagens e representações presentes em determinado contexto cultural, o qual tende a influenciar a formação dos sujeitos, mas não impede que eles atribuam

suas múltiplas interpretações, já que a sexualidade não é algo fixo, está em movimento, precisa ser significada e ressignificada (VEIGA-NETO, 1996). Conforme exemplifica L.M. (egressa 2011-2021), mesmo que, muitas vezes, venha a ser uma atitude julgada pelos outros, é sempre um movimento pessoal.

Aqui se encontra um dos pontos de divergência entre as concepções religiosa/biológica universalistas, o embasamento tradicional dos costumes do interior e as mudanças de entendimento da sexualidade que vão surgindo, conforme observamos nas entrevistas. Os entrevistados percebem o quanto a temática se torna complexa à medida que formas até recentemente pouco comuns de expressar a sexualidade, como a homossexualidade, são percebidas no seu meio social, contrapondo-se a certas verdades da fé ou mesmo da ciência. Por isso, retomam a questão pelo caminho da sexualidade “natural”, normalizada, em vez de abrir espaço para uma mudança de compreensão, para algo que, para eles, é novo.

A cultura fala muito mais alto. Desconstruir isso é muito difícil. É possível que se desconstrua essa ideia de sexo masculino e feminino. É possível. Mas desconstruir algo milenar é muito difícil (M.L., egressa 1980-1990).

A participante traz os elementos presentes na análise de Louro (2019), sobre o quanto o meio social constrói significações para determinar o masculino e feminino, as vivências da sexualidade, mas nos permite compreender que essas noções são construídas culturalmente, e, nessa perspectiva, por mais difícil que seja transformá- las, é possível, sim, desconstruí-las.

O pensamento cultural da sexualidade como algo “natural”, com identidades biologicamente criadas, influencia as relações que se estabelecem entre os indivíduos no contexto no qual a pesquisa foi desenvolvida. Os papéis sociais são tradicionalmente definidos e os sujeitos recebem papéis específicos nesse meio.